Páginas Esquecidas
19 Sob Os Céus de Celestia – Parte II – Luz Solar
Notas iniciais
Um mar de tiros fulminou-se em minha direção. Os fogos ardiam nos canos de saídas das naves e dos tanques da Corporação Celestia, que refletiam no céu espelhado da ilha. Esta por sua vez era agora uma grande gaiola circular sobre o oceano. O campo de força que criei em minha volta logo sucumbiria às rajadas e os próprios veículos avançavam contra o campo, na intenção de se chocarem contra mim. Se isso acontecesse, indubitavelmente eu encontraria o meu fim. Mesmo que eu me tornasse incorpórea, a corrente elétrica ainda me atingiria. Caso tal choque viesse a ocorrer, a água causada pela simulação de chuva da grande cúpula aumentaria exponencialmente o eletrocutamento e eu me tornaria pó antes de sentir a dor.
Uma das naves se aproximou perigosamente, sem parar por nenhum instante de atirar. Posicionei-me de modo que apenas uma de minhas mãos segurasse a barreira invisível que me protegia dos tiros e com a outra controlei a nave mais próxima para que se virasse contra as outras e entrasse na frente das rajadas. Antes que um segundo se passasse, ela já tinha se explodido no ar devido ao tanto de dano que recebera. Controlei o tanque que estava próximo e o usei de escudo como havia feito antes. Algumas naves já tinha sobrevoado para minhas costas e agora eu era um alvo de ataques de todos os lados. Apenas o tanque como escudo não seria suficiente e minha barreira estava prestes a sucumbir. Tornei-me intangível e deixei que meu corpo fosse puxado pela gravidade. Atravessei o chão sobre meus pés e me concentrei para permanecer naquele modo. O local subterrâneo aonde eu estava não era um vão – não havia espaço para que meu corpo ocupasse. Se eu perdesse a concentração agora e meu corpo voltasse ao normal, eu morreria esmagada. Porém, eu estava protegida dos veículos e tiros ali.
“Você não pode se esconder para sempre.”
A voz de Ramona Celestia ressoou na minha cabeça. Obviamente ela queria me irritar com aquilo, seu tom amargo esculpido em cada palavra. Mas ela não estava mentindo. Os veículos golpeavam o chão acima e era possível ouvir explosões. Flutuei dentre as rochas em direção ao subterrâneo do palácio, quando uma explosão aconteceu. O local aonde eu estava entrou em colapso e agora eu me encontrava de volta superfície, numa cratera que acabara de ser formada e aumentava aos poucos, enquanto o mar abaixo engolia o que antes era uma parte da ilha: O chão estava repleto de minas explosivas. Ramona havia cuidado disso também. As aeronaves já sobrevoavam sobre mim e os tanques se locomoviam para a minha localidade. Logo havia uma linha negra sobre minha cabeça. Como um espetáculo circense, as naves se locomoveram juntamente exatos noventa graus e então apontaram seus canhões para dentro da cratera. E novamente sincronizadas, atiraram com tudo. Com as mãos para o ar e flutuando para não cair na água, segurei os tiros através da força psíquica. Mesmo com a barreira, eu estava sendo empurrada aos poucos para a água e se eu meramente tocasse nela, seria o fim.
“Ah, será que é assim que vai acabar?”
– Saia da minha cabeça, maldita! – Eu gritei enfurecida e então, criei uma bolha protetora ao meu redor e me desconcentrei das balas que choviam sobre mim. Controlei a água abaixo para que subisse como um vulcão, o mais rápido e o mais forte possível. Um pilar aquático emergiu, do mar até o topo do céu espelhado. A água acertou minha bolha protetora, empurrando-a para cima e então, escapuli-me pelas beiradas. O que meu próprio campo de força não destruiu durante a passagem, o pilar se encarregou de destroçar. Quando a água atingiu o céu da cúpula, o pilar o perfurou, atravessando-o violentamente. Lentamente, o mar voltou ao seu estado natural, numa queda majestosa. E então, um feixe real de sol adentrou pelo buraco formado no céu da cúpula. A chuva parou.
Os tanques me encontraram e miraram seus canhões contra mim, descarregando o que ainda tinham de munição, juntamente às naves restantes. Meu campo me protegia de seus ataques, enquanto eu me concentrava sobre cada respingo d’água sobre mim e sobre os veículos, evaporando-os através da força solar que eu pude controlar e focalizar. Com a máxima velocidade possível, tornei-me intangível e entrei na nave que estava a minha frente. Tomei um leve choque, mas nada insuportável e criei dentro dela um campo de força, fazendo-a implodir. Repeti o processo e em menos de um minuto eu já tinha derrubado uma centena de naves e meu corpo inteiro estava coberto do meu próprio sangue, devido as descargas elétricas que recebi, perdendo momentaneamente minha intangibilidade e eventualmente sofrendo danos físicos. Mas agora, não havia mais naves à vista. Faltavam apenas os tanques.
Aproveitei-me da vantagem de poder me manter no ar e, usando os próprios tanques para atacá-los contra si mesmos, manti-me intacta enquanto todos os veículos eram destroçados lá embaixo.
E, finalmente, o exército de Ramona estava abatido.
Flutuei até o chão e me dissipei das forças psíquicas, sentei-me então, buscando fôlego e energia. O cenário era de pura destruição. Havia ruínas de maquinaria encobrindo toda a ilha. O fogo dos destroços e a fumaça formada por eles faziam-se uma cortina vasta para o Palácio Celestia. E andando sobre tais destroços, um garoto de aparentes dez anos se locomovia até mim. Seus longos cabelos negros dançavam ao vento enquanto ele pulava de metal em metal até chegar até mim.
– Parabéns, você foi ótima! – O Príncipe Maguine disse. – Muito boa, mesmo.
Sua voz mantinha um tom gutural e não cabível a sua aparência.
– Ramona, – Eu comecei, colocando para fora minha perplexidade com aquela situação. – Como ousa usar seu filho dessa maneira?
– Eu sei que você não mataria uma criança inocente. – Ela disse através do filho, cujos olhos brilhavam rubros – E eu precisava conversar com você pessoalmente.
Controlei a gola da roupa de Maguine para que se encolhesse em seu pescoço. O garoto levou as mãos à gola, tentando se desenforcar.
– Não posso negar um refém, – Eu disse, sentindo minha ira aos poucos me tomar completamente. – quando me é dado com tanto prazer.
– Não aceitarei nenhuma barganha. Se quiser matá-lo, mate-o. – Ele disse, sua voz saindo maneira normal, embora estivesse sendo enforcado lentamente.
Por um instante, eu desejei ver a cabeça do garoto fora de seu pescoço.
Ayede, não!
E então o soltei, assustada com meu pensamento e com a ação que eu quase tomara.
– Eu sabia. – Ele disse, risonho. – Eu vim aqui para te mostrar uma coisa.
O garoto alcançou um dispositivo no bolso, que continha um botão e o pressionou. Nada acontecera.
– O que é isso? – Perguntei, esperando o pior.
– Você se lembra de alguns grandes tubos metálicos, com dois cês azuis desenhados, que deixamos há algum tempo em diversas áreas da Ilha de Zedd?
Não o respondi. Mas eu sabia do que se tratava.
– Pois bem, vou te dizer o que realmente são. São chamados por nós, cientistas, de “caixas de estabilidade”. Elas permitem que a bomba nuclear dentro de cada uma delas não… Você sabe, exploda.
Eu balancei a cabeça em descrença.
– Ramona, você merece a pior das mortes. – Falei, minha voz saindo afiada dentre meus dentes cerrados.
– E no momento em que a pequena mão de Maguine soltar esse botão, adivinhe só: tudo vai para os ares! – O garoto riu tenebrosamente. – E o melhor: não há nada que você possa fazer! Não é divertido?! O que não pertence a mim neste mundo não existirá mais.
A agonia me tomou conta.
– São pessoas inocentes! – Eu disse, zangada. – Deixe-os em paz!
– Agora é tarde. Maguine não pode segurar esse botão para sempre.
Eu estava perplexa.
– Por que isso?
O garoto sorriu.
– Logo você saberá!
E então, o garoto levantou o polegar, soltando o botão do dispositivo.
Concentrei-me o máximo que pude naquele instante. Pude sentir meus olhos lacrimejarem de tanto esforço e minhas feridas fechadas se reabrirem. Os tubos metálicos se irrompiam naquele segundo em diversos pontos do continente ocidental. Eu tinha uma visão plena e panorâmica de todos eles. Como eu era capaz de fazer aquilo, eu própria não entendia, mas sabia que estava custando minha vida. Um campo protetor havia sido criado ao redor de cada tubo metálico no continente. A explosão em todos foi extremamente intensa e os campos se expandiram, tentando impedir que a radiação se alastrasse. Alguns campos acabaram destruindo algumas casas próximas devido à expansão causada. Mas no fim, as bombas foram controladas. Todas as vilas na Ilha de Zedd estavam salvas. Eu caí sobre meus joelhos no chão. Não conseguia sentir meu corpo. Uma poça de sangue já havia se formado sob mim. Minhas energias estavam completamente esgotadas.
– Ah, que droga. Acordando ao computador, – Maguine voltou a falar. Eu escutava sua voz mais longe do que realmente estava e a visão que eu tinha agora estava embaçada e confusa. – Você teve sucesso em proteger a ilha. É, realmente, você não é de se jogar fora!
Maguine se aproximou de mim e me deu um soco no abdome, fazendo-me pender para frente. E então me deu outro no rostou. Eu caí no chão indefesa. Jazi sobre o chão da ilha sem conseguir me levantar, com meus olhos querendo se fechar.
– É uma pena que eu não deixe Maguine andar com armas, pois caso contrário eu terminaria com você agora mesmo. Aproveite seu último minuto de vida. – E então o garoto fez uma reverência, curvando-se para frente. – Foi um prazer!
O Príncipe se locomoveu pelas ruínas e adentrou num compartimento subterrâneo escondido entre elas. Alguns segundos depois, pude ouvir um barulho alto de maquinaria tomando conta do local. Não consegui levantar meu pescoço para olhar para o céu, mas eu tinha uma visão parcial dele pela postura que me encontrava caída ao chão. E embora minha visão estava longe de ser nítida, o que surgiu no céu não me deixou dúvidas de que era a morte vindo em minha direção.
Uma segunda nuvem negra – mais centenas de naves vinham lentamente em minha direção, pintando o ar dentro da cúpula de preto. Elas se aprontaram para atirar e eu…
E eu aceitei meu fim.
Eu falhei.
Teoremo, eu falhei. Perdão.
Reeve, eu falhei. Por favor, perdoe-me.
Fergo, você confiou em mim. Eu falhei com você também.
Regina… Marxis… Jess… será que vocês estão me esperando?
Helena, o que você teria feito no meu lugar?
Alex, eu estou indo. Eu estou voltando para casa. Era isso que você queria, não era? Era por isso que perturbava minhas noites. Você está cansado de ficar sozinho. Você não estará mais.
“A Ayede que eu conheci nunca aceitou a derrota. A Niele que conheci jamais aceitou a morte! JAMAIS!”
Uma voz familiar ressoou em minha cabeça.
“Não vai ser agora que eu vou deixar você fazer isso.”
Eu podia ver os tiros voando lentamente em minha direção. Tudo como um filme em câmera lenta. Vindo dos céus, um garoto de vestes negras se posicionou em minha frente, flexionando seus joelhos e me segurando em seus braços, estes marcados por cicatrizes, levantando-me do solo. As rajadas quase acertaram-no pelas costas, mas o campo de força que ele criou o protegera. Logo o céu da cúpula começou a ficar mais próximo. O buraco que o pilar de água havia feito apareceu diante de mim. A luz solar me cegou. E eu senti minha vida me deixar.
Fale com o autor