Outra maneira?

6 Polonaise Op. 53 No. 6 Heroic


Notas iniciais
hello ♥ mais unzinho, espero q gostem ♥

201 dias desde o assalto.

Raquel conseguira a guarda permanente de Paula, ainda que numa situação péssima.

Naquela manhã, a mulher tinha acordado cedo, mas era sábado e, por isso, sua filha e mãe dormiam. Raquel não saiu da cama, só encarava o teto e deixava sua mente vagar pelo nada. Parecia que pressentia algo, mas não era como se pudesse adivinhar o que estaria por vir. Só se sentia desconfortável em sua posição. Levantou-se, olhou a filha dormindo no quarto, olhou a mãe dormindo na sala, entrou no banheiro e ligou a ducha.

A água escorria por seu corpo, resfriando. Bom seria se resfriasse o coração que, naquele dia, vivia uma angústia sem tamanho e Raquel só conseguia pensar em Alberto, porque sempre que a coisa era ruim, a culpa era dele.

Mas, nos primeiros dias depois do assalto, Raquel pensou quase que exclusivamente em Sergio. Tentando compreender todas suas motivações e todos, TODOS, os joguinhos psicológicos do Professor.

"O que está vestindo?"

"Lembra da primeira vez que fez amor?"

"Já fingiu um orgasmo?"

Ficou pensando no quanto contara de sua vida a um assaltante em plena discussão sobre a vida de reféns, no quanto todos os diálogos com ele pareciam longos flertes, e no quanto Sergio soube de cada vão seu num período de cinco dias. Aquilo era absolutamente desconfortável, embora Raquel tenha percebido, com o tempo, que, sem aquelas informações adiantadas, Sergio-Salva jamais teria se aproximado dela com intenções já bem definidas.

"Você é do tipo que transa e vai embora no meio da noite, sem saber o nome do cara?"

Raquel havia concluído que teria sido melhor se Salva tivesse sido o cara que ela abandonaria no meio da noite.

Ah, mas como era desconfortável agora pensar que dissera tudo a ele no meio de uma operação policial, com pelo menos 20 pessoas escutando. Mas o que, nessa manhã, 201 dias depois do assalto, era tão desconfortável, exatamente? Tudo o que a incomodou era em relação ao assalto mas agora ela estava ali, tomando banho e sentindo-se angustiada sem motivação aparente.

Raquel saiu do banho, pingando, e olhou-se no espelho. Tinha 40 anos, mas desde que largara a polícia parecia ter rejuvenescido: mais horas de sono e menos estresse, com certeza. Encantava os homens, era claro. Mas não conseguia visualizar um cenário em que saia para jantar com uma pessoa.

"É uma pena" pensou ela "É uma pena que Sergio não esteja aqui para olhar o quão bonita eu fiquei. Não para que me deseje, apenas, mas para que veja o quanto isso me fez bem, isso que foi ele e o assalto e tudo o que se passou entre nós. Se ele visse o quanto meus olhos brilham mais e o quanto minha vida se coloriu depois dele..."

Se ele visse, o quê? O que ela faria?

Raquel fantasiara, mais de uma vez, como seria se estivesse andando no meio da rua cheia de gente e, do nada, olhasse a multidão e o visse, ao longe, olhando para ela. O que faria? Correria para abraçá-lo… E aí? Fariam amor… E aí? Era bastante óbvio que Sergio sabia mais dela do que ela sabia dele. Teriam uma vida juntos?

"Não sei por que me ponho a pensar nisso. Ele mesmo me disse: ele nunca mais vai voltar a me ver."

Ainda se encarando no espelho, ouviu alguém bater na porta, como numa situação de urgência.

— RAQUEL — gritava a voz — É o Ángel. Abra, por favor.

Raquel se enrolou na toalha e saiu correndo, ainda pingando, pela casa.

Ao abrir a porta, Ángel ficou mais desconsertado do que ficava sempre, mas tinha algo a falar. Entrou e mirou nos olhos dela, para não ter que ver as gotas d'água escorrendo do colo para o meio dos seios.

— Raquel, Alberto foi preso.

Ela arregalou os olhos, não acreditando no que ouvia.

— O quê? — perguntou, confusa — Como?

— Sua irmã apareceu ontem à noite na delegacia, cheia de hematomas. Ela ficou lá, com medo de voltar para casa, e o prenderam nessa madrugada.

Raquel passou a mão pelo rosto, nervosa e pensativa.

— Como ela está? E onde? Alberto vai ficar lá por muito tempo? Ou vai pagar uma fiança e sair?

— Com o testemunho dela e a sua ordem de restrição, acredito que ele fique um bom tempo sem te incomodar. E sua irmã, bem, ela ainda está na delegacia.

Raquel saltou nos braços de Ángel, abraçando-o fortemente.

— Isso é… Maravilhoso. — disse, já chorando.

Ángel respirou fundo para sentir o cheiro dela e, por um momento, quis chorar também.

Raquel continuava a ser inalcançável, embora estivesse tão perto. O inspetor já sabia que não a teria, mas a estava protegendo. Não contara sobre o hangar nem sobre o fato de Raquel saber sobre ele. Porque a amava. Porque não conseguia visualizar uma vida em que ela não existisse, mesmo que distante. Lembrava de quando ainda estava deitado na cama do hospital e ela foi derrubada no chão pelos policiais que, há poucos tempo, comandava. Policiais que ela ajudou a formar. Ele ficou estático e, naquele momento, resolveu ajudá-la. Mas jamais conseguiria entender como que ela, tão linda e tão certa de tudo, em tudo, teria se apaixonado por um criminoso que a tinha feito sofrer. Ela perdeu tudo, mas pelo menos ela amava alguém que a amava de volta.

A Ángel só restou sentir o cheiro dela e guardar a dor para chorar dentro do banheiro da sua casa.