Outra maneira?

12 Not That Simple


Notas iniciais
é isso aí

O Sol entrava pela janela do quarto, iluminando os dois corpos agora nus. Raquel mantinha os dedos no cabelo dele. Chegara ali sabendo que iria embora. Tinha uma filha pequena, uma mãe adoentada e um ex-marido preso. Mas ainda assim se pegava pensando nas possibilidades de um universo em que conseguiria ter tudo por mais que uns minutos. Seus olhos se encheram de lágrimas enquanto encarava o homem abraçado ao seu ventre, sem saber o que poderia fazer para dizer tudo aquilo que sentia sem assustá-lo. Sentiu-se triste por saber que não ficaria ali para sempre: não queria abandonar aquilo que a fazia sentir-se viva. Mas tinha sua filha e a amava muito mais. Quem sabe quando ela fosse mais velha e Raquel o procurasse novamente. Será que ainda sentiria isso depois de anos?

— Vou embora em cinco dias — disse, simplesmente.

Sergio a olhou e a viu chorar silenciosamente. Levantou o tronco. Pôs-se a falar, meio engasgado:

— Só tivemos cinco dias da primeira vez, e aconteceu o que aconteceu. Se só pudermos ter cinco dias por ano, não me importo.

"Viverei o suficiente para aguentar até esses dias chegarem."

— Não está preocupado, então? — ela perguntou, agora mais séria.

— Estou preocupado só de você não querer vir mais.

— Eu quero.

— Pois então não me preocupo.

Eles se encararam. Sergio podia muito bem usufruir de seu dinheiro e de seu tempo para aprender tudo o que tinha vontade, de visitar todos os lugares que quisesse e, ainda assim, ter como meta os poucos dias que a veria. De resto, ficaria feliz em transitar pelas casas de seus pupilos. E ficaria feliz em esperá-la.

Ela se levantou.

— Vou buscar minhas coisas no hotel, ok? Já volto…- disse, procurando suas roupas pelo chão.

Sergio pegou seus óculos jogados ao pé da cama e observou cada passo de Raquel.

— Claro. É bom saber que dessa vez você vai ficar pra dormir…

Quando voltou, carregando só uma mala na mão, Raquel bateu na porta.

— Aberta! — Sergio gritou lá de dentro.

Ela entrou e ele estava agachado no chão da cozinha, de shorts e camiseta, mexendo no armário. Raquel levou a mala até o quarto e depois voltou para a cozinha.

— Estou procurando comida, e percebi que tenho que fazer compras… — riu, esticando o braço para alcançar algo

— Bom — ela sorriu, encostando-se na bancada ao lado dele — Achei que sairíamos pra comer…

— É uma ideia — ele olhou para cima para encará-la e arrumou os óculos — Mas ainda vou ter que fazer compras.

Raquel se abaixou ao lado dele, o vestido branco balançando levemente. Cruzou as pernas e o encarou, os brincos grandes a se movimentar.

— Sergio — ela o chamou e ele a olhou, com um pacote de macarrão na mão — Podemos conversar?

O Professor engoliu a própria saliva, arrumou os óculos e deixou o pacote no chão.

— Claro, eu só… — gaguejou — Eu só não sei por onde começar…

A mulher pensou nos caminhos que poderiam ser percorridos, visto que havia tanto para ser dito e contado. Eles se gostavam muito, mas a verdade era que não tiveram tempo para construírem um canal de diálogo que não fosse problemático. Ali, sentados de pernas cruzadas no chão frio de uma cozinha em Palawan, Raquel e Sergio perceberam que estavam a modelar uma relação íntima que exigia novas linguagens, novos sinais para que se entendessem. E, é claro, palavras que expressassem as novas coisas que aprenderiam um sobre o outro.

— Que tal… — ela levantou as sobrancelhas — Se começar me falando de você? Porque você sabe muitas coisas sobre mim e eu não sei, não te conheço tanto…

— Eu discordo. — ele sorriu — Eu acho que você me conhece um pouco, sim. Se não, não teria viajado até aqui…

Rindo, a mulher relaxou um pouco do que parecia ser a tensão da conversa "séria" que teriam que estar tendo.

— Bom, sim. Mas…

— Sim — ele interrompeu — Eu entendo. Bom, posso começar pelo que já sabe. Meu pai era assaltante. E minha mãe morreu quando eu nasci, então só tenho o sobrenome dele. Minha mãe… — Sergio encostou os dedos na pulseira de couro de Raquel, brincando com os pingentes enquanto falava para se distrair das palavras, ou para se distrair dos olhos da moça que o olhavam com atenção e ele, definitivamente, não se sentia muito à vontade sendo o centro das atenções — Minha mãe teve um outro filho antes de mim.

— Qual era o nome dela? — Raquel perguntou quando viu que o homem à sua frente tinha algo entalado na garganta

— Silvia… Silvia De Fonollosa.

Raquel franziu as sobrancelhas. Sergio finalmente olhou para ela e as lágrimas já embaçavam sua vista.

— Andrés… — ela sussurrou — Andrés era seu irmão…?!

O Professor piscou várias vezes e encarou os próprios pés descalços cruzados no chão frio.

— Meu irmão mais velho, sim — ele sorriu triste — E, como pode ver, não consegui superar o fato de que ele morreu…

As lágrimas desceram rápidas pelo rosto dele e Raquel se arrastou para o seu lado para abraçá-lo. Mas o que a ex-inspetora não conseguia entender era como o homem que gostava tanto havia partilhado do mesmo útero com um psicopata lunático. O breve encontro com Berlim havia deixado uma má, na verdade, péssima, impressão para a mulher. Tinha se aborrecido quando ele disse na TV que a polícia o havia difamado. Se irritado com aquele jeito presunçoso e narcisista dele, sempre com um comentário machista a fazer, sempre com uma piada de mal gosto na manga. Como aquele ser humano absolutamente desprezível podia compartilhar do mesmo sangue que Sergio, que desmaiaria se visse uma gota de sangue? E o pior: por quê se doía tanto ao ver Sergio chorar por ele?

O Professor saiu do abraço de Raquel e se encararam de frente novamente.

— Ele era a única pessoa próxima a mim, mas eu sempre soube viver sozinho. Quando ele foi preso, eu soube me virar. E assim foi.

— Quando você começou a planejar o assalto? — ela perguntou, rápida.

Sergio respirou fundo e passou a mexer nos pingentes da pulseira dela de novo. Ajeitou os óculos.

— Eu tinha 19 anos. Meu pai já tinha morrido e eu decidi que teria que honrá-lo. Andrés veio me ver e achou que eu tinha ficado louco… — riu, as lágrimas já tinham parado de cair — Mas aí eu fui estudando, um ano depois do outro. E Andrés nunca acreditou que seria possível até que eu já tinham se passado mais de cinco anos e o plano começou a tomar forma. E aí ele foi preso depois de um tempo, mas eu nunca desisti. Tive que aprender muitas coisas, conhecer muita gente e depois estudar as pessoas que eu ia pôr lá dentro, e isso só viria bem depois. Tive que começar pela fuga, o túnel debaixo do cofre. E depois fui localizando as pessoas e estudando as outras com quem teria que lidar… — ele levantou os olhos para ela — Suárez, Prieto, Ángel…

Raquel suspirou.

— Você me estudou?

— Sim.

A mulher encarou firmemente o Professor.

— Por quanto tempo?

— Uns seis meses antes de entrarmos — ele já tinha parado de mexer na pulseira dela e respirava fundo, nervoso.

— Bom, era de se esperar… — ela concluiu, séria. — Então… Me seguiu até o café?

— Na verdade, não — ele tirou os óculos — Aquilo foi meio que de surpresa.

— Mas tirou vantagem daquilo...

— Claro, era uma oportunidade, você sabe…

— E entrou na tenda…

— Sim, mas…

— E eu te contei sobre Alberto…

— Raquel…

— Quando foi que eu deixei de ser só uma oportunidade? — ela indagou, levantando as sobrancelhas — Ou eu fui a presa fácil por mais tempo do que acho?

Sergio não sabia como responder aquilo. Porque nem ele mesmo sabia quando começou a gostar dela e passou a olhá-la como uma mulher incrível, forte e bonita.

"Tão bonita"

— Raquel — ele sussurrou — Eu não sei exatamente quando foi. Não sei se quando me chamou pra jantar ou quando me ligou uns minutos antes ou se foi quando me beijou. Mas aconteceu…

— Aconteceu, mas faz diferença pra mim se a primeira vez foi verdadeira ou não…

— Foi de verdade e você sabe disso…

Ela baixou os olhos e olhou a pulseira de couro cheia de pingentes.

— Certo, então… — ela respirou fundo — E as ligações? O que eram aqueles joguinhos que você fazia?

— Raquel, já sabes disso. Era só uma maneira de te abalar, te confundir, pra ganhar tempo.

— Pra me constrager, também, e pra conseguir umas informações pessoais, né? Como "você vai embora depois de transar com alguém?"…

— Ah, isso — ele riu, ainda que ela estivesse séria. Ele tentava aparentar não estar nervoso, mas o tique dos óculos repetia-se tanto que ela até entendeu seu riso fora de hora — A verdade é que não conseguiria saber daquilo por outra pessoa ou outro meio que não aquele.

— Suponho que não — ela riu também.

Rindo, os dois se encararam e se viram ali, sentados de pernas cruzadas no chão frio de uma cozinha. Raquel olhou para a boca dele, depois para a camisa e retornou o olhar para os olhos dele.

— Alberto foi preso depois que espancou minha irmã — ela disse sem mais nem menos.

O Professor desviou os olhos dos dela. Mas ela entendeu.

— Mas isso você já sabia… — ela ficou pensativa, balançando a cabeça negativamente — Do quanto você sabe, Sergio?

— Bom — ele arrumou os óculos e gaguejou — Eu sei que ele foi preso. E que sua mãe está numa clínica e que sua irmã está na sua casa. — ela abriu a boca mas não conseguiu dizer nada — Da mesma forma que sabia que você iria ao coreto hoje.

— Aquela menina me vigiava? — ela indagou e agora lhe parecia muito óbvia toda aquela situação.

— Não só você — Sergio encostou os dedos no rosto dela — Precisava saber da polícia, de Prieto, Ángel… E, bem, de você também. Mas eu soube de todas essas coisas há poucos dias, porque tinha parado de ligar para pedir notícias.

— Por que parou de ligar? — ela sussurrou

— Bom, eu pensei que você não viria, que tinha jogado os postais fora e eu nunca mais te veria e me parecia uma espécie de tortura ouvir sobre sua vida e não poder falar com você…

Raquel sorriu, meio envergonhada.

— Desculpe ter demorado tanto…

— Sem problemas, sei que tinha muita coisa pra se preocupar.

Ela suspirou.

— Sim, tenho muita coisa. Por isso tenho que voltar.

— Eu sei — ele encostou no rosto dela de novo — E eu vou ter que me mudar, ainda tenho que escolher meu próximo… Destino — ele sorriu para ela, mas a mulher ficou confusa

— Por quê? Achei que estava seguro aqui.

— E estou. Por agora. Mas você veio até aqui. Não posso esperar que a polícia seja burra e não perceba o que veio fazer aqui. Quando você se for, bem, eu me vou também.

— E vai me deixar mais postais pra eu te achar de novo no ano que vem? — ela riu

— Melhor — ele encostou a cabeça na porta do armário — Vou te dar um telefone, e conseguiremos conversar. Não posso… — de repente, Sergio parou.

— O que foi?

— Você não contou ao Ángel que vinha aqui, certo? Porque, se contou, temos que ir agora…

— Sergio — ela pôs a mão em seu rosto, percebendo que ele estava nervoso — Não contei a ele. Não nos falamos muito desde…

O Professor inclinou um pouco a cabeça, confuso.

— Desde…?

— Essa era outra coisa que eu queria conversar — ela suspirou e se virou para deixar as costas contra o armário, de lado para Sergio.

Notas finais
é isso ai2