Outra maneira?
13 Violin Concerto in G Minor "L'estate"
Notas iniciais
Ele continuou de pernas cruzadas.
— Raquel…
— Sergio, eu sei que gosta de mim. A verdade é que tivemos muito pouco tempo pra tudo, pra dizermos as coisas, pra nos conhecermos e no final parecia que eu nunca mais te veria. E isso foi horrível — ela falava usando as mãos, como sempre fazia quando estava nervosa — E eu achei que tinha que seguir com a minha vida e não me sinto culpada de nada, mas preciso falar disso…
Raquel olhou para ele.
— Eu transei com o Ángel e imagino que você tenha ficado com outras mulheres, afinal, nós nunca mais nos veríamos e fazia tanto tempo… E não me culpo, como não te culpo, mas e o que faremos quando estivermos longe? Porque ficaremos um bom tempo afastados e eu não acredito que só…
— Raquel, a gente pode pensar nisso depois? A ver, eu… — ele gaguejou — Eu gosto de você e… E não me importa o que você faça nos outros 360 dias se, quando você vier, os nossos cinco dias sejam só nossos.
— Tem certeza de que não te incomoda em nada o que eu falei?
— Bom — ele respirou fundo e se encostou no armário também, olhando para ela — Me deixa um pouco nervoso, mas não posso controlar tudo a minha volta pra não sentir isso.
Mas ele bem que queria. Só de pensar nas mãos de Ángel correndo pelas curvas de Raquel sentia raiva e dor, mas sabia que ela estava certa. Não podia controlar tudo e eles acharam que nunca mais se veriam. A vida continuava e ele soube disso, soube tanto que queimou as cartas e se permitiu, às vezes, olhar o corpo de uma mulher que passava ou encarar uma outra que encostasse no bar. Nunca chegara a dizer nem fazer nada, mas sabia que só de pensar em ficar com outra pessoa já era a prova de que Raquel era passado.
Só que ela não era mais passado, ela era o seu presente e nesse mesmo presente ele visualizava ela nua com outro homem e aquilo o deixava furioso, porque não controlava o que sentia e por saber que ciúme era algo que ela não poderia aguentar. Nada de doentio poderia sair da boca de Sergio, não mais do que já tinha saído. Ele tentava ficar calmo, para acalmá-la também.
— E se ficarmos com outras pessoas e, não sei, de repente nos apaixonarmos por elas? É uma possibilidade e estamos falando de muito tempo… — ela corou e parecia mais nervosa do que ele.
— Bom, é um risco que corremos… — ele aproximou o rosto do dela — E se nós só continuarmos levando isso até onde for possível?
Era o mais fácil a se fazer, na realidade. Provavelmente acabaria com sua vida, ele pensou, mas não havia problema desde que ela estivesse ali agora.
Raquel o olhou e passou a mão pelo rosto dele, deslizando os dedos pela barba.
— Certo. — ela riu, nervosa.
— Esta é a relação mais complicada que eu já vivi, de verdade…
Os dois riram e Sergio tirou os óculos.
— Mas, mesmo assim, você gosta… — ela comentou, levantando as sobrancelhas.
— Sim — Olhos. Boca. Olhos. Boca. Sergio continuava encarando. — Gosto muito.
Ela o beijou no chão da cozinha. E derrubou o pacote do macarrão. E souberam que ali tinham acabado de se tornar um casal.
…
Raquel pensou que, talvez, nem todas as coisas precisassem ser ditas para que eles estivessem bem. Era só olhar para ele e ter a certeza de que aquilo era real e que era melhor aproveitar, porque cinco dias passariam voando. E ela não queria perder nenhum detalhe, não queria deixar passar nada porque precisaria dessas lembranças e desses detalhes para sobreviver o outro ano sem vê-lo.
Ah, e ela se sentia como uma menina! Uns pensamentos e uns sentimentos tão clichês, tão fáceis de se observar. E ela estava adorando aquela intimidade. Moraria com ele pelos próximos dias e queria conhecê-lo por inteiro, embora soubesse que não era possível.
Agora tomava banho e sabia que ele ia querer mostrar tudo da ilha. Mas ela só estava preocupada com o que faria quando se despedissem. E se preocupava com aquele sentimento que a corroía o ventre. Estava apaixonada e sentia que era recíproco, mas será que ele entendia a intensidade daquilo?
"Que se foda, eu estou aqui agora!" ela saiu do banheiro enrolada na toalha e não o viu no quarto. Pôs um biquíni, um vestido por cima e andou pela casa, a procurá-lo.
— Sergio? — chamou, mas não obteve resposta. Voltou ao quarto e ele estava abrindo a porta que dava para a varanda. Raquel nunca o tinha visto tão despojado. Da camisa ao shorts, a mulher só pensava que o visual mais praiano dele não parecia encaixar-se muito bem, mas a encantava. Ele nem levava chinelos nos pés.
— Vem, quero te mostrar o que há por aqui.
Raquel o seguiu. Viu a mesa branca pequena, com uma só cadeira. A rede azul que balançava com o vento. A enorme praia que se estendia diante dela e o Sol que a abraçava. Ela apertou os olhos, tamanha era a luz.
— Esse lugar é lindo! — Raquel desceu os degraus e, quando seus pés tocaram a areia fina, sentiu-se realizada.
Os dois andaram pela beira d'água, Sergio levando as mãos nos bolsos. Raquel ia só com o vestido sobre o biquíni, sem pulseiras ou brincos. Ia sem nada, mas de alguma maneira completa.
A mulher deu o braço a ele enquanto andavam, e assim permaneceram. No silêncio preenchido apenas pelas ondas do mar, naquele ambiente tão amarelo e tão azul, ela pensava em tantas coisas para dizer a ele e nada parecia suficientemente certo para ser verbalizado.
Sergio pensava em dezenas de coisas, mas o silêncio lhe parecia confortável: depois de tantas vezes desesperado e inquieto, o silêncio que ele agora realizava era calmo e tranquilo, já que ela estava ali.
Ele tinha tudo. Dinheiro. Respeito. Uma mensagem passada. Seus amigos felizes. Um irmão com uma morte honrada. Ela.
"Raquel"
Ela estava ali e nunca era demais pensar no nome dela, no quanto cada sílaba valia uma vida e o enchia de uma alegria incrível.
— Eu contei pra minha irmã sobre você — ela soltou.
Sergio já estava se acostumando com as frases dela soltas no silêncio, e era verdade que aquela sinceridade súbita o agradava.
— Eu contei pra Tokyo sobre você… — ele respondeu, enquanto olhava para os pés molhados.
Raquel se surpreendeu.
— E ela? Como está?
— Ela e Río estão juntos, como pode imaginar. Vieram me visitar faz um tempo. Estavam muito bem.
— E os outros? — ele a encarou — Não me precisa dizer onde estão, só o básico, se estão bem ou…
— Bom, Denver e Mónica estão juntos e agora têm um filho.
— A refém se apaixona pelo sequestrador e a policial se apaixona pelo chefe do grupo… — ela riu
— Bem, sim — ele riu com ela — Agora, Nairóbi, não sei se chegou a conhecê-la, está bem. E Helsinki também. Esses foram o que entraram.
— E a garota que estava em Madri? E depois no aeroporto?
— Ah, ela. Ela é sérvia, como os que estavam no hangar quando você apareceu…
— Sei… — pensar nisso agora era tão bizarro. Raquel não podia acreditar que tinha passado por tudo aquilo e estava ali, molhando os pés no mar de Palawan.
— Ela está bem, também. Vou falar com ela sobre a minha mudança daqui. Talvez vocês se conheçam em circunstâncias…hm, melhores?
Ela sorriu.
— Talvez. Mas, me fala, o que Tokyo achou quando contou sobre… Nós?
— Bom — ele arrumou os óculos, que escorregavam mais por causa do suor — Ela disse que eu era um homem de sorte, mas disso eu já sabia.
…
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