Outra maneira?
5 Liebestrume (S.541R.211)
Notas iniciais
165 dias desde o assalto.
Rio e Tokyo haviam partido, deixando o Professor novamente sozinho. Lyudmilla voltara a Madri e acompanhava a rotina monótona de Raquel, que consistia em reuniões com assistentes sociais e advogados, além do cuidado com a criança. Sergio decidiu não ligar para a garota em um bom tempo: saber que a vida de Raquel seguia normalmente o deixava tenso, inquieto.
"Foram só alguns dias" ele pensava forte.
Em uns 5 dias, Sergio, que estava absolutamente determinado, apaixonou-se e quase pôs tudo a perder por ela, que também desgraçou a própria vida depois desse caso, curto, que envolvia o maior assalto da história. E o maior assaltante. E a única inspetora à altura dele. Infeliz, ou felizmente — Sergio não sabia como descrever isso — eles se envolveram e isso quase custou todo o plano, 20 anos de trabalho árduo e cálculos com todas as variáveis humanas possíveis. Custou a ela também anos de trabalho na polícia, anos de trabalho incessante e uma força de vontade arrancada não sei de onde — isso que só as mulheres que trabalham em ambientes masculinos têm. Ela abriu mão de anos de luta e sangue e suor por ele?
"Todo mundo pagou algum preço"
O assalto que mais custou a todos. Todos tiveram algo seu arrancado. Andrés havia pagado seu próprio preço, com sua vida.
"Raquel"
Raquel foi o preço de Sergio, ir embora e a deixando destroçada com toda aquela situação. A crise dos reféns e as investidas da polícia foram muito mais fáceis de se lidar do que com Raquel magoada por saber da verdade.
"Oh bella, ciao"
Para concluir seu plano, para ser a Resistência, teve que abandonar sua mulher.
"Bella, ciao, ciao, ciao."
Por quanto tempo achava que poderia sofrer dessa paixão? Sergio nunca tinha experimentado um sentimento que durasse tanto. Suas paixões anteriores haviam se esfriado com o tempo, e racionalizar a paixão fazia parte de seu ritual para esquecer qualquer mulher. Mas com Raquel isso não acontecia. Porque, por mais que tenham sido apenas cinco dias, a paixão o tomou pelos outros 165, se recusando a ir embora? E, como jamais se esqueceria do assalto, jamais se esqueceria dela.
"O que está vestindo, agora?"
…
166 dias desde o assalto.
Sergio passou a escrever. Precisava externalizar seu sentimento e precisava dizer isso a ela. Falar com Tokyo o havia ajudado muito, mas necessitava algo que fosse direto a ela. Cartas, obviamente, que não seriam nunca enviadas. Tal fato o deixava absolutamente mais livre e menos nervoso quanto às palavras que escolheria e, por isso, escrevia rapidamente três páginas de onde se escorria um sentimento confuso e sincero, sem floreios ou necessidade de uma aceitação social. Sergio escrevia como quem não se importava com os apetrechos da decência. Escrevia coisas que jamais se atreveria a pensar em dizer a alguém. Sentia-se quase que como um poeta, despido da necessidade de parecer agradável ou, simplesmente, doce.
180 dias desde o assalto.
Passou a ler mais, também. Desistia de ler coisas mais sólidas, os livros duros sobre história ou política, que tanto amava, e seguia pelo caminho dos poemas, dos poetas sujos românticos que se matavam para provar seu amor. Lia sobre a loucura, sobre a sujeira que era estar amando e não poder amar, nem dizer a ninguém. Lia e chorava, os poetas tão perto dele agora.
"Raquel"
Era sua musa e sua perdição, com quem sonhava todas as noites. E por quem sentia desejo. E por quem sentia vontade de morrer. Ia Neruda, así te amo porque no sé amar de otra manera, ou ia Benedetti, es una lástima que no estés conmigo cuando miro el reloj y son las cuatro.
Ia Goethe, ia Dumas, ia até Camões e Rilke.
Encontrara um poema que levava o nome de Raquel, e, singelo, fazia com que ele compreendesse.
"Para tão longo amor, tão curta a vida."
Ele serviria, a quem quer que fosse, nem que fosse ao próprio Tempo, para que a tivesse novamente. Sabendo, doído e racional, que não havia poema ou texto que a trouxesse de volta, deitou na cama e sussurrou:
"Raquel".
Querendo ou não, transformara a inspetora em uma ideia a ser alcançada e, sentindo-se péssimo por isso, pôs-se a escrever e lhe pedir desculpas por isso. Assinou, dobrou, meteu numa caixa debaixo do criado-mudo. A caixa de cartas que não seriam nunca enviadas e jamais relidas novamente.
…
200 dias desde o assalto.
O Professor tinha tudo planejado.
Sua rotina de escrever, passear na praia e aguentar a ansiedade que era não ligar para Lyudmilla e dizer "Leve o celular até ela." o deixava meio zonzo.
Sergio usava um terno azul claro, e deslocava-se pelas ruas da ilha só para ter algo a observar. Se voltasse à casa, certamente escreveria mais. Ou faria vários origamis e os colocaria sobre a mesa, para depois escolher qual jogaria fora primeiro. Ou tocaria o teclado e sempre erraria uma nota ou outra, já que não praticava havia tanto tempo, e reclamaria que já não sabia tocar tão bem quanto antes. Tocaria Debussy, ou Chopin, românticos no pior sentido da palavra, todos os clichês de perda e dor e sofrimento. Ou leria e pensaria nela. Mas, hoje, tinha decidido que tentaria um novo tipo de estratégia para viver. Acostumou-se novamente ao silêncio da casa e de si, e resolveu só caminhar pela ilha. Observava cada pessoa, pensando que cada um tinha sua própria tragédia pessoal. Pensou que, talvez, sua tragédia pessoal tenha sido viver exclusivamente para uma ideia e, agora, não ser suficientemente inteligente e hábil para viver no depois.
O assalto tinha mudado a organização da vida de todos. Mas rasgou a alma de Sergio em diversos fiapos, tão finos que se perderam pelo ar enquanto ele avançava pelas ruas.
O vento levou pedaços de sua alma e ele nem percebeu.
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