Outra maneira?
11 Hallelujah Junction - 1st moviment
Notas iniciais
— Vou ter que mostrar uma arma pra você me levar até onde mora?
…
Sergio a levou até a casa onde morava. Foi um caminho silencioso, muito embora os dois estivessem atordoados com sentimentos confusos em suas mentes, onde fazia barulho. Ambos, que haviam tentado sufocar a existência de um sentimento por julgarem que jamais se veriam de novo, agora mantinham-se quietos porque não sabiam o que dizer.
"Isso significa um começo?"
"Onde é que eu vim parar?"
"Meu Deus, mas que boca!"
— Sergio… — ela começou, enquanto desciam a rua — Você sabia que eu vinha. Só sabia, mesmo me conhecendo por tão pouco tempo. E eu sinto que eu… — engoliu um seco, quando ele parou na frente dela.
— Raquel, eu confiei na minha sorte. Você podia ter me entregado à polícia. — ele arrumou os óculos, se aproximando — Mas eu levei em conta que talvez você tivesse se apaixonado por mim, como eu me apaixonei por você. — ela sorriu, quase chorando — E eu realmente cheguei a achar que você não viria, o que não seria, de fato, um plano perfeito.
A rua estava vazia. Tudo era muito claro, o Sol iluminando até as gotículas de água sobre as folhas verdes.
Ela continuou andando e ele a acompanhou.
— Isso ainda parece um sonho — ela disse, pegando a mão dele e sorrindo, envergonhada.
Ele riu e assim foram, de mãos dadas, até a casa.
Havia um jardim na entrada da casa, pequenas florzinhas vermelhas saltavam do verde. Ele abriu a porta e a convidou a entrar.
Raquel fez tudo muito devagar, desde o depositar a mochila no balcão da cozinha ao analisar a casa: limpíssima e bem organizada, tão a cara dele. Talvez o conhecesse um pouco, afinal.
Ele deixou o chapéu ao lado da mochila dela.
— O que achou? — ele indagou, curioso.
— Achei que combina com você — Raquel sorriu, levantando as sobrancelhas e caminhou na direção dele. Depositou um beijo suave em sua boca.
Segundos depois, Sergio foi tomado pela fúria de tê-la tão próximo, os poetas românticos aplaudindo de seus túmulos o transbordar do sentimento que agora o Professor sentia. Beijou-a como se fosse a última vez que o faria. Como se fosse sumir depois que aquilo acabasse.
Como se toda a sua existência dependesse excluisivamente do prazer que aquela boca dela lhe proporcionava.
Ela arrancou seu paletó. E não tardou para que ele estivesse provando nela todos os gostos, tocando todas as curvas e sentindo nela todos os cheiros. Raquel, enfim, sentia prazer. Seu ventre se inflamava e seu rosto corava, e sabia que só ele faria isso por ela agora. Não conseguia pensar em promessas ou futuro: tudo o que ela queria estava ali. Sergio amou-a com saudade e desespero, como se fosse a própria personificação de suas cartas.
"Quero te devorar a boca, num beijo quase sanguinário. E sentir todos os gostos que seu corpo pode oferecer. Raquel, como eu sinto falta do seu corpo e como eu tento fingir que não sinto nada."
Ela suspirava e beijava Sergio, querendo que ele sentisse também tudo aquilo que ela sentia. Queria que ele entendesse que isso que sentia nem tinha nome, e vinha não sei de onde. Raquel ardia, com seu rosto e colo vermelhos como se estivesse numa febre incurável, cujo único calmante era o toque de Sergio.
"Saio nas ruas como se estivesse morto, um fantasma pairando na praia à espera do seu toque para me acordar dessa cova de desprazer e tédio, em que só sei pensar em como você não está."
Raquel se descontrolava em cima dele e só tinha olhos para os olhos que a observavam. Era no sexo que Sergio encontrava a verdadeira essência de Raquel, os dedos dela apertando suas costas e seu rosto avermelhado e coberto de prazer. Logo ela, tão dura, tão presa em si mesma.
Mas era verdade que o próprio Professor se libertava das amarras da insegurança e do pudor, amando aquela mulher mais para lhe proporcionar prazer do que para se satisfazer. Olhar o descontrole dela já era prazeroso o suficiente, e ele adorava cada segundo.
"Minha única literatura é composta de você, minha imaginação é repetitiva porque só mostra você e só fala do quanto você está ausente para sempre e para sempre presente em outra realidade em que não vivo. Somos separados, vivendo em realidades distintas que um dia se cruzaram e resolveram se amarrar, talvez porque eu tivesse necessidade, talvez porque você não me deixou em paz e simplesmente achou que me entregar seu corpo não me afetaria em nada."
Nua e satisfeita, Raquel olhou para ele, que respirava rapidamente, cansado. Não sentia nenhum resquício de arrependimento, e sua satisfação era completa, tanto física quanto mental. Sentia a realidade. E tudo parecia completo.
"Você se descontrolou em cima de mim e me fez louco. Louco porque era eu e era você, juntos, liberando essa loucura e essa ânsia que vinha de dentro. E quando você não vem, como agora, eu fico com essa coisa só para mim e transbordo com esta tinta."
Sergio olhou para ela e se encantou novamente. Beijou-a. E foi beijando seu rosto, seu pescoço, seu colo, sua barriga e ali ficou, abraçado ao ventre da mulher que agora relaxava, descansando a cabeça.
Ela sorriu e passou os dedos pelo cabelo dele, olhando para o infinito existente no teto branco e agradecendo ao universo por estar ali.
"Anseio que me visite nos meus sonhos,
Sergio"
A verdade de agora era que tudo estava em chamas. Mas só algumas viraram cinzas.
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