Outra maneira?
1 Claire de Lune
Notas iniciais
eu AMO sergio e raquel, bababa, essas coisas.
essa é a continuação a partir do fim do roubo, depois das 128 hrs lá
beijao
Sergio estava fodido.
Mesmo que tenha executado seu plano da melhor forma possível e que tenha escapado sem nenhum arranhão, ele estava fodido.
Mesmo que tenha chegado a Palawan e sua casa pé-na-areia estivesse esperando com um frescor paradisíaco e um bocado de cortinas brancas a trambolizar pelas horas, ele estava fodido.
Entrou e largou as bolsas e a mochila. Sentou à mesa da cozinha. Tirou os óculos e respirou fundo, sua vista tão embaçada quanto sua mente. Tudo se misturava dentro da sua cabeça, desde os berros de Andrés aos gemidos de Raquel. Do caixão de Agustín ao carro arrebentado de Ángel. Era impossível que aquilo que tinha acontecido não mexesse com seu íntimo. E agora? — o que era pra fazer?
Essa era a parte não planejada, aquilo para o qual não havia se preparado todos esses 20 anos porque, por mais que tenha pensado em tudo, não conseguia mais visualizar o que seria acordar e não estar cercado de gente que o conhecia. Estava sozinho, ainda que fosse, para sempre considerado, um gênio. O intelectual mais incrível do mundo do crime, que planejou o assalto mais grandioso da história, estava agora sozinho em sua casa deslumbrante, enquanto seu coração estava despedaçado.
Deixara Raquel e deixara Andrés, um à própria sorte, outro à polícia, sem poder sequer enterrá-lo.
Pensava, como Professor, que teria sido impossível resgatar Berlim, com tantos policiais por perto. Mas como Sergio, pensava a todo momento nas inúmeras possibilidades de tirá-lo de lá com vida, para que aproveitassem juntos os seus últimos momentos com todo o luxo do mundo. E nada vinha. Porque já tinha falhado nesses últimos detalhes. E Andrés estava morto.
"Raquel deve ter sido pega, será que me entregou?"
"Quem falou: Raquel ou Ángel?"
"Raquel, como será que está?"
"Raquel"
Respirava fundo e tentava encontrar um sentido na dor que o apunhalava no peito. Sentia que poderia deitar e se encolher até sumir, tamanha era a angústia em seu corpo. Andrés morreu sem saber que ele tinha se apaixonado: ninguém do grupo jamais soube do envolvimento com a inspetora. Da mesma forma, Raquel nunca soube que Andrés era seu irmão. Assim, ele separou sua vida e suas relações, dividindo-se em Professor, Sergio e Salva, tentando contornar todas as situações e perdas e dores. O revés disso tudo era que se tratava apenas de um único homem: o coração não separava os eventos como o cérebro fazia, e agora esse mesmo homem chorava, lembrando da sensação que era ouvir a voz do irmão, ou a voz de Raquel.
"Raquel"
A única vítima real do plano. A única que soube da tríade Professor-Sergio-Salva e que ainda assim o amou e aceitou e, até onde ele sabia, o ajudou. Aquela que provavelmente estaria despedaçada ainda mais e sem culpa de absolutamente nada, além de, é claro, conquistar por inteiro o homem que acabou com sua vida e sua sanidade.
Sergio estava fodido.
…
A primeira semana foi um misto de euforia e angústia.
Celebrava o plano vitorioso e ansiava pelas notícias de seus ex-companheiros mas, como imaginava, a polícia de todo o mundo estava em alerta para pegá-los, então mantinha certa esperança quanto à discrição. No entanto, sentia-se como um claustrofóbico ao pensar em Raquel, e na forma como seus olhos a revelavam frágil e no jeito como sua boca se abria para beijá-lo, e em todos os detalhes que já não veria nunca mais e se forçava a lembrá-los para que não ficassem embaçados em sua mente e ele esquecesse.
"Preferia morrer a esquecê-la."
Fechava os olhos e visualizava tudo o que era ela e que seria para sempre da mesma forma. Em sua mente, ela seria um curta-metragem que repetiria sem parar, com as cenas que ele adoraria reter para sempre. Raquel era o retrato que não envelheceria, vestida com um terno ou com uma saia de couro, seus cabelos meio claros sempre volumosos.
Para sempre.
Já que Sergio não a veria mais.
Levantou-se, amarrou o roupão e foi para a varanda. Eram 6 horas da manhã. O Sol iluminava pouco o cenário, mas Sergio sentiu-se abraçado pelo universo, buscando naquele calor a cura para suas feridas. Do mar à sua frente ao vento que balançava seus cabelos, Sergio pensava apenas no quanto teve sorte e no quanto seu pai ficaria orgulhoso. Sentou-se no degrau da varanda, pôs seus pés na areia e imaginou o que seria, de fato, um plano perfeito.
Raquel e Paula estariam ao mar, enquanto Andrés lhe ofereceria um vinho bom que seu pai teria escolhido, bem na hora que a mãe de Raquel terminaria o almoço.
Essa era a utopia em que reconciliava seus papéis de Professor, Sergio e Salva.
Morreria sem ver nenhuma dessas pessoas. Morreria sozinho. Angustiado por saber que seu plano perfeito foi, na verdade, um desastre pessoal, Sergio caminhou até a beira d'água e, entre os tons de azul que existiam nessa manhã, tirou o roupão e entrou no mar, mergulhando e prendendo a respiração o quanto pôde, na esperança de que, ao subir para a superfície novamente, encher os pulmões de ar fosse preencher o vazio que sentia nesse momento.
Sergio continuou repleto apenas de tristeza.
Fale com o autor