Outra maneira?
4 6 Cello Suites, BWV 1007
Notas iniciais
110 dias desde o assalto.
Rio e Tokyo desembarcaram em Palawan. O Professor os recebeu, os abraçou com força e, pela primeira vez em tempos, sorriu feliz. Tokyo sempre fora próxima e, desta vez, adiava suas ideias e planos de viagens para estar ali com ele, para ajudá-lo. Entraram na casa e Tokyo jogou-se no sofá escuro, rindo-se contente, enquanto Rio deixava as mochilas na poltrona igualmente escura.
Beberam, conversaram e, logo na primeira garrafa da noite, Rio estava dormindo no tapete da sala, perto do piano. O Professor e Tokyo permaneceram sentados no chão, sobre o tapete, bebendo de suas taças. O vento que vinha da praia musicava os vãos das portas e fazia frio. Tokyo usava sua jaqueta, num visual não muito praiano, e Professor continuava com seu habitual terno. A aparência tão quadrada do Professor fazia Tokyo achar graça e sentir por ele um afeto muito grande, porque sabia que ele, mesmo sendo um gênio do crime, era um completo estranho para as outras situações da vida.
— E então, Professor? Conseguiu ter alguma relação esporádica aqui com as mulheres de Palawan? — perguntou, sarcástica.
Fez-se silêncio, ouvia-se apenas a respiração lenta de Rio, e o vento passando e o coração de Sergio disparando.
— Tokyo, eu... — respirou, ajeitando os óculos em seu tique nervoso — Eu preciso te contar algo que se passou comigo. Algo importante que eu nunca contei pra ninguém, nem para a pessoa mais próxima que eu tinha, que era meu irmão…
— Você tem um irmão? — ela perguntou, olhando fixamente em seus olhos.
— Na verdade…Berlim, Andrés de Fonollosa Gonçalves era meu irmão. E eu nunca contei a ele isso que vou contar a você agora...
Tokyo se ajeitou, cruzando as pernas e pousando a taça de vinho vazia no chão. Estava em choque, mas sabia que ele estava nervoso, e demonstrar espanto pelo que ele lhe contava não o ajudaria a contar, nem a superar o que quer que fosse o problema.
— Eu sei que minha maior regra nesse roubo foi a de não permitir relações pessoais. E eu estava muito certo disso. Mas eu acabei escapando da minha própria regra… — Sergio ajeitou os óculos e encarou sua taça de vinho, na esperança de que não tivesse vontade de chorar. — Eu… Me envolvi, quase que acidentalmente, com a inspetora responsável pelo caso… — tomou fôlego e engoliu a própria saliva, nervoso por não conseguir pensar nisso sem lhe vir uma vontade incontrolável de chorar e deitar e manter-se ali para sempre.
— Raquel Murillo — Tokyo sussurrou, enquanto observava os olhos molhados de seu anjo da guarda, que guardava a todos mas também guardava em si uma dor que ninguém sabia, não podendo dizer nada por todo esse tempo.
— Raquel foi a única fissura, o único rasgo no meu plano, a única… — parou de falar para tentar controlar a voz, já embargada.
— Ela sabia quem era? — perguntou Tokyo, doce.
— Soube depois — Sergio levantou as sobrancelhas — Mas o que me faz pensar é apenas o fato de saber que eu não a verei mais. Isso não estava planejado, e eu vi o que estava me passando e o que estava passando com ela também e eu simplesmente...
— Deixou acontecer — ela concluiu, olhando para Rio, adormecido.
Sergio acompanhou o olhar e, sofrido, respondeu:
— Sim.
Naquela noite, Tokyo ouviu o Professor dizer de cada dilema interno em que batalhou por culpa de seu envolvimento com Raquel. Desde a necessidade de matar Maribi, a mãe de Raquel, a entregar à mulher por quem se apaixonara a sua localização.
Tokyo estava em choque, pensando na mulher e em como o Professor, tão enrustido de tudo, conseguira abrir a boca para conquistá-la. Quando pensava em Raquel, só lembrava a pessoa forte e decidida que era. Lembrava o cabelo preso, os olhos penetrantes…
"E a bunda grande" Tokyo riu, olhando novamente para o seu anjo da guarda, não acreditando na sorte dele.
— Você é, realmente, um cara de sorte.
Ele riu.
— Ah, sim.
— Não consigo te imaginar flertando com ela, e ainda sendo… ELA.
Sergio encarou a taça novamente, levantando as sobrancelhas, e ajeitou os óculos.
— A verdade é que ela deu a maioria dos passos. E eu só… — sorriu, ao lembrar do jantar que quase deu errado — Por um momento, eu só quis estar ao lado dela. — queria descrever para Tokyo o que havia sentido nas vezes em que olhava Raquel e sentia o coração disparar, e o pior é que não lembrava ao certo quando foi a primeira vez que tinha pensado nela não como a inspetora do caso, mas sim como Raquel, apenas, uma mulher que estava a flertar com ele. — Tinha momentos que eu queria contar tudo a ela… Tudo, tudo…
Sergio sussurrou olhando para o infinito. Tokyo se arrastou para o lado dele, deitando a cabeça em seu ombro.
— E o que te faz pensar que ela não vem?
"Ela devia ter aparecido. Feito alguma coisa que me dissesse que ela ainda tinha vontade de vir. Ido à cafeteria. Ligado no telefone. Qualquer coisa."
— Eu acho que ela tem coisas mais importantes para pensar. E está tudo bem assim. Eu entendo.
— Ela tem coisas mais importantes pra pensar do que no maior assaltante de toda a Espanha? — ela riu, e riram juntos até que Sergio se mexesse e encarasse Tokyo de frente.
— Sabe que eu, em alguns momentos, quis ligar pra ela? Porque, assim como fiz com vocês, eu mantenho um contato próximo a ela, pra saber o que se passa em Madri e a ela, obviamente. E eu quis tanto, só pra ouvir a voz dela. — Tokyo o olhou triste. O Professor deixava algumas lágrimas caírem — Eu nem diria nada, só queria ouvir ela dizer algo, qualquer coisa.
Ela o abraçou, quase chorando também.
— Professor, o amor é um dos motivos que faz algo muito certo dar errado. — ela segurou o rosto dele em frente ao seu, olhando-o firme — O plano todo deu certo, conseguimos sair vivos. Eu não entendo o que sente agora, mas sei que não acharia que deu certo se Rio não estivesse comigo. Então, estou aqui se precisar chorar de novo. E se precisar de uma guarda-costas para voltar à Espanha para ver a inspetora, vou também.
Ele riu e a abraçou, sabendo, melancólico, que queria mesmo era voltar atrás e decidir não oferecer o telefone à inspetora naquela manhã fria de Madri.
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