Outra História: e se... vol.2
12 Reviravoltas reviravoltantes
Notas iniciais
Ele estava sentado no telhado de sua casa admirando as estrelas. Queria ver de novo aquele raio dourado, se fosse possível. Nada. Nenhum risco no céu. Nada, nem mesmo a lua mostrava-se para ele naquela noite. Acreditava que aquele raio poderia ser o sinal de seu dobe, poderia ser a chance de tê-lo novamente em seus braços, de pelo menos vê-lo. O vento assobio baixo, sussurrante, quieto e frio em seus espessos cabelos negros.
–Diga-me, Uchiha, o que daria para ter seu desejo realizado? – uma voz grave lhe soou.
Sasuke ergueu-se e viu o corpo animalesco de uma velha conhecida na linha do telhado.
–Pensei que você também não existisse mais.
–Por quê? – a criatura apertou lentamente o olhar, enquanto abria um longo sorriso abaixo do desenho dos bigodes – Ah... Então você também se lembra...
–Como eu, justo eu, poderia esquecê-lo? – Sasuke ajeitou sua postura e sorriu matreiramente – Eu pensei que nada mais nesse mundo de merda tinha a ver com o Naruto.
–Você se engana, Uchiha Sasuke. – as longas caudas estenderam-se pelo telhado, afagando cada ponto frio daquele lugar – Naruto ainda está aqui, sim, ele está.
–Como assim?
–Ainda não percebeu, koso, que tudo isso – seu nariz fez uma arco no ar e voltou a mirar Sasuke – Não passa de uma ilusão criada por sua maldita mente?
–O quê?! Isso é impossível! Não... Não...
–Será que não percebeu que esse mundo tem exatamente tudo o que você sempre quis? – Sasuke quis falar, mas os olhos profundos da Kyuubi não lhe permitiam emitir nenhuma palavra – Você nunca desejou Naruto realmente. Você queria reconstruir seu clã a partir de um sangue mais poderoso que o seu, porém, Naruto era um homem e a gravidez era impossível! E pior... De todos os seres que já andaram por essa terra amaldiçoada, você era o que mais desejava a destruição de Naruto!
–Isso nunca! – Sasuke sentiu pontadas agudas em sua nuca.
–Como não, Uchiha?! Naruto era o único com poderes para lhe varrer da face da Terra! O único que você nunca superou! A sua meta jamais alcançada! Não ouse negar, Uchiha, que seu corpo aspirava pelo sabor amargo do sangue de Naruto! Sempre que transavam, você o fazia sofrer, era violento e selvagem! Quando lutavam, sua sede de vencer e esmagar o Uzumaki eram tão intensas que você perdia completamente o senso e partia para a briga como um demônio. Eu sempre via tudo de dentro de Naruto... Você sempre quis arrancar fora o coração dele, esmagá-lo com seus próprios dedos, ser aquele que seria o detentor do título de “Assassino da Besta de Nove Caudas”! Sim, Sasuke, um mundo sem Naruto era o seu sonho de perfeição!
–Não, não é... – o ar faltava no peito do Uchiha.
–Ora, a quem você quer enganar? – a kyuubi exibiu seu tom debochado – Seus pais assassinaram os pais deles, então era seu dever matar o filho! O filho Uchiha seria o assassino do filho Uzumaki! Você conseguiu! Naruto não existe mais, o clã Uzumaki desapareceu para sempre dos anais da história e tudo graças a você, Uchiha Sasuke!
–Não, não, não, não!!! – Sasuke começou a se debater no telhado, sua vista escurecera e ele sentira cair num abismo profundo.
o/ o/ o/ o/ o/
–Quer dizer que é verdade... – ele falava, mergulhado nas trevas – Tudo o que eu sempre quis foi a morte do dobe...? Mas eu pensei que o amava... Ou seria ódio? O ódio também é uma estranha forma de amar... Então eu nunca o amei, eu passei todos esses anos me enganando, pensando de uma forma e agindo de outra. Sou um maldito condenado mesmo. Eu achei... Não importa o que eu achei... Nunca mais eu o terei porque eu o matei, sou o pior de todos os assassinos porque matei o meu amor...
–Sasuke... – uma voz chamava-lhe ao longe.
Olhou para a escuridão. Não via nada. Mas ouvira bem alguém lhe chamar.
–Sasuke... – novamente aquela voz. Era Kurama.
–Kurama? – respondeu o moreno.
–Confio a você aquilo que mais prezo em vida. – ele nada entendia – Se eu não manipulasse a sua mente, jamais você retornaria de seu próprio pesadelo. Retorne e cuide do meu bem mais precioso. Proteja e ame-o como sempre o fez.
–De quem fala?
–De quem mais poderia ser? – uma risada grave fez um intenso facho de luz encadear os olhos negros de Sasuke – Já o esqueceu, koso?
–Naruto... – sussurrou sorrindo e deixando-se embalar pela luz agradável – Mas eu o matei, eu o assassinei, eu o fiz desaparecer da... – Sasuke arregalou os olhos – Um pesadelo? Criei um pesadelo no instante em que Naruto terminou o jutsu, por que deixei meus medos se apossarem de mim? Eu mesmo me sentenciei a isso?! – suspirou longamente – Naruto...
o/ o/ o/ o/
Sasuke abriu lentamente os olhos. Estava deitado em seu quarto e janelas deixavam uma brisa fria entrar. Levantou-se cuidadosamente e olhou em volta. Tudo parecia ser o mesmo. Fitou um espelho a sua frente. Estava com 18 anos, se sua memória não lhe falhara. Observou suas roupas cuidadosamente dobradas sobre uma cadeira e as vestiu, deixando ali o pijama que usava. Observou o mundo a fora: parecia que chovera recentemente.
Saiu do quarto lentamente e caminhou com cuidado pela casa.
Temia de ainda estar preso em sua mente por causa do desespero que a perda de Naruto lhe causara. Naquele abismo de seu subconsciente Sasuke entendera tudo: sua mente surtara e ele fora aprisionado no próprio genjutsu que criara, porém, com alguma sorte, Kurama lhe ajudara a escapar. Mas como isso era possível?
Sua casa estava vazia.
Caminhou lentamente para fora de casa e viu aquela mesma quantidade absurda de Uchihas indo e vindo pelo complexo. Uma sombra tapou o sol e projetou-se diante de Sasuke. Ele olhou para o alto. Kurama estava ali em seu telhado, não gigante como era dentro do corpo de Naruto, mas era poderia lhe dar dois metros de altura sem problemas. Ela fitava o horizonte, movendo lentamente suas nove caudas.
–Mas o que... – Sasuke iria falar algo, mas fora interrompido por um forte bater de asas. Olhou para outro ponto no céu. Um besouro gigante com seis asas e um longo ferrão que parecia ter sua couraça feita de uma estranha armadura sobrevoava o Complexo e pousou sobre outro ponto do telhado – Um besouro?
Os Uchihas pararam de caminhar e reverenciaram os dois seres que estavam em seu telhado, para só então voltarem aos seus caminhos. Sasuke coçou os cabelos. O que estava acontecendo? Olhou para o alto, para o monte Hokage. O rosto de seu irmão estava esculpido ali. Itachi era Hokage? De novo? Mas o que está acontecendo? Será que ele voltara no tempo? Mas a bijuus não poderiam estar livres, poderiam?
Sasuke ouviu o barulho alto de cascos esmagando o chão. Fitou o fim da rua. Um cavalo com a cara parecida com a de golfinho se aproximava as pressas e montado nele um gorila vermelho apontava para sua casa. O jovem caminhou para o outro lado da rua e fitou sua casa. As bijuus estavam se reunindo ali, pelo o que parecia.
Algumas bolhas estouraram diante de seus olhos.
Sasuke fitou o muro atrás de si e viu um corpo pegajoso escorregar por ali. Afastou-se rapidamente antes que a gosma do verme tocasse em si, Sasuke exibia uma cômica face de nojo disfarçado. Daria dois metros de altura para aquele ser que cuspia bolhas para todos os lados e se arrastava devagar. O macaco montado no estranho cavalo chegou e os dois pareciam felizes por verem Kurama, o verme e o besouro de seis asas.
Sasuke ouviu um longo miado perto de si. Olhou para o muro mais uma vez. Um gato de duas caudas feito de chamas azuis estava sentado e observava a reunião, e ao sinal do macaco, ele saltou sobre o Uchiha e foi para eles. De dentro de sua casa saiu um enorme crustáceo de um olho só e ele parecia sorrir ao ver todos os seis na entrada de sua casa.
–Uma reunião de Bijuus? – por fim sussurrou vendo os Uchihas reverenciarem mais uma vez os sete reunidos ali – Acho que... Matatabi, o Nibi... – o gato lhe olhou com curiosidade – Isobu, o Sanbi... – o crustáceo acenou para ele – Son Goku, o Yonbi... – o macaco nada fez a não ser lhe voltar o olhar – Kokuou, o Gobi... – o cavalo sorriu balançando suavemente suas caudas – Saiken, o Rokubi... – o verme soltou mais bolhas que o normal, que foram levadas pelo vento – Choumei, o Nanabi... – o besouro riu mudando-se de lugar – e Kurama, o Kyuubi... – a raposa lhe fez uma breve saudação silenciosa – Sete bijuus...
–Oito. – uma voz lhe falou. Sasuke fitou o outro lado da rua. Gaara se aproximava em companhia de seu irmão mais velho Kankurou – Shukaku, o Ichibi está aqui também, dentro de mim... – os dois se cumprimentaram com um estranho aperto de mão – Faz tempo de que não o vejo, Sasuke, o que andou fazendo?
–Resolvendo... Alguns problemas. – então tudo se passara realmente em sua mente. Sasuke fitou a raposa no alto de sua casa. Um olhar sereno parecia lhe confirmar suas suspeitas: finalmente acordara do terrível pesadelo o qual se submetera – Então são oito.
–Seu grande idiota, yoo! Não se esqueça de me contar, falou?! – uma gota escorreu pela testa de Sasuke e de Gaara. Killer Bee chegara à companhia de seu irmão o Raikage. – Agora ficou legal! Essa reunião é muito especial! Com todos os nove aqui, eu posso mandar ver no rap!!! Vamos ver o aleijadinho, porque ele precisa de carinho!
–Bee!!! – o Raikage acertou um poderoso soco na cabeça do irmão – Respeito, seu idiota!
–Foi mal! Eu acho que me passei geral!
Sasuke teve que rir e riu muito do homem que falava rimando. Gaara apenas sorriu enquanto meneava a cabeça negativamente. Todos, exceto o próprio Uchiha, se direcionaram para dentro da casa, conversando sobre todo tipo de coisa. Sasuke deixou-se estar observando aquilo tudo, se perguntando sobre o motivo das nove bijuus estarem reunidas. E ainda mais em sua casa. Repentinamente seu irmão surgiu ao seu lado e lhe cumprimentou por baixo do chapéu de Hokage.
–Como está hoje, otouto? – perguntou exibindo um suave sorriso.
–Bem... eu acho. O que está acontecendo? – perguntou apontando para a última bijuu que ia para os fundos de sua casa, Kurama.
–Não sabe? – Itachi sorriu e tomou o irmão pela mão, guiando para dentro – Estão aqui a pedido de Naruto.
–Naruto? – Sasuke parou a marcha no corredor que dava acesso ao quintal – Naruto está aqui?
–Por que não estaria? Naruto mora aqui por causa da sua insistência em tê-lo conosco, esqueceu-se? Se não fosse por seus constantes pedidos, Naruto ainda estaria morando sozinho e não teríamos sete bijuus vagando pacificamente por toda a Konoha.
Uma enxurrada repentina de memórias invadiu a mente de Sasuke de tal maneira que ele achou que seu cérebro explodiria. Ele riu, riu folgadamente, riu como a tanto não o fazia. As memórias de Naruto em sua vida retornaram, daquele novo tempo em que eles estavam: as memórias não lhe eram tão diferentes do que já conhecia. Tudo o que outrora se passara, antes, durante e depois do grande selamento que Naruto submetera a vila, fora tratado como uma questão confidencial, a guerra se passara sem o conhecimento da população.
Ele respirou fundo e ativou seu sharingan. Mesmo que pouca, mas a energia de Naruto, a verdadeira essência dele, fluía por todos os cantos da casa. Sasuke disparou na frente de Itachi e logo chegou aos fundos da casa, onde havia um lindo quintal cheio de árvores e sombras agradáveis. Embaixo de uma delas estavam todos aqueles que ele vira antes.
–Naruto? – ele chamou sorrindo.
–Estou aqui. – aquela voz lhe causou um alívio inexplicável. Caminhou para debaixo de uma frondosa árvore, onde todos estavam reunidos e lhe davam passagem, e lá o encontrou. Seu sorriso se dissipou de seu rosto – O que foi, Sasuke?
–Naruto... Você... Não pode...

Naruto olhou-se. Sorriu serenamente e deu de ombros. Seu estado era consequência de seu enorme desejo de existir. Segundo seus planos desapareceria quando o jutsu se encerrasse, mas simplesmente não aceitou tal fato. Vivera muito para simples sumir. Usou de todos os meios que conhecia para continuar vivo, continuar existindo e conseguiu, porém não poderia esperar que saísse ileso de seus próprios pecados.
–Tudo bem, eu já me acostumei... Aliás, nós já nos acostumamos com isso. – Naruto piscou um olho para Sasuke, relembrando-o que somente eles recordavam da verdade – Não foi por isso que praticamente me obrigou a morar com você?
O moreno esfregou lentamente os cabelos e assentiu.
–É verdade.
Itachi chegou e viu Sasuke colocar-se sentado sobre os calcanhares e conversar com Naruto, que estava sentado em uma cadeira de rodas. Algumas palavras depois, os dois trocaram um carinhoso beijo de amantes que há anos não se veem. Sorriam e se beijavam como dois adolescentes na primavera. Quem diria que o assassino mais notório de todos os tempos daria a própria vida para salvar a cidade que jurara destruir? Mas isso não lhe impressionara para tanto: ver seu irmão lutar veementemente para mantê-lo vivo, para salvar a vida sombria do suposto herói de Konoha fora o que lhe admirara.
Não conseguira acreditar nos primeiros dias que Naruto e Sasuke eram um casal, um estranho casal de assassinos e amantes. Itachi constatou que a vida que levavam as escondidas do mundo era a real vida que eles dois tinham e que aquilo que a população via era uma farsa. O mundo não podia saber e nem julgar aquela relação, então aceitou o cargo de sexto Hokage para proteger o relacionamento do irmão.
Faria qualquer coisa para ver o irmão feliz. Qualquer coisa. O Sasuke que conhecia, que conhecera a vida inteira, não era nem 10% do verdadeiro Sasuke, aquele que só Naruto realmente conhecia. Sorriu ao os dois rirem juntos.
O mundo parecia mais certo assim.
Fale com o autor