Outra História: e se... vol.2
8 Preparo para a vida, preparo para a morte
Notas iniciais
–Esse tipo de coisa não existe! – refutou Itachi – Não tem como existir! É impossível voltar ao passado! Impossível!
Naruto negou, sorrindo.
–Todos esses anos em que vocês se esqueceram de mim e desprezaram Sasuke – ele se abaixou lentamente, fitando sua filha enquanto afagava os cabelos dela lentamente. Sentia o arrependimento lhe sufocar a garganta – Acumulei energia, confinei meus poderes, cacei e selei sete bijuus em meu corpo, encontrei os pergaminhos perdidos do meu clã para usar esse jutsu contra Konoha e destruí-la.
Sasuke o fitou. Era esse mesmo o grande plano que os dois esconderam por mais de vinte anos. Impedir que Konoha fosse criada matando o Deus Shinobi Hashirama. Olhou em volta. As pessoas começavam a se aglomerar perto dali, ouvindo incrédulas as revelações do dobe. Itachi franziu as sobrancelhas, ainda sem acreditar. Algo daquele tipo não seria possível, e se fosse, como ele pretendia salvar a vila inteira? A técnica teria essa abrangência absurda?
–Mamãe precisa trabalhar agora... – ele sussurrou para a menina, se afastando lentamente. A pequena Keiko sorriu e acenou para Naruto enquanto corria para a companhia de Hinata – Eu sinto muito não poder ficar para o seu aniversário...
Naruto respirou fundo, inflando bem os pulmões, e ao soltar o ar esmurrou o chão, fazendo as nove caudas da kyuubi surgiram em forma de manto e se alongaram por uma determinada extensão, afundando as pontas em pontos fixos, criando, assim, um círculo que tinha como centro Naruto. Sasuke esperou o próximo ato do loiro.
–Eu passei a minha vida inteira me preparando para destruir essa vila, mas... Quem diria que eu iria usar tudo isso para salvar o lugar que mais odeio. – Naruto mordeu os dedos e fez um espiral com seu sangue no chão. Fechou a mão em palma e empurrou com força o desenho na terra – Senpou! Elevação do Selo de Deus, dobra um! – gritou.
No ato, uma mistura dos olhos de Senjutsu com os olhos da Kyuubi se apossaram dos azuis de sua vista, assombrando os mais próximos.
A primeira parte, pensou Sasuke.
Todos fitaram o chão ao mesmo tempo. Uma larga linha densa de chakra surgiu abaixo dos pés de muitos dos moradores e dos shinobis. Se Konoha pudesse ser vista do alto por todos, eles veriam uma gigantesca espiral se formar até os limites da vila, quando uma linda lótus abria-se no centro e estendia suas pétalas sobre o lugar, indicando seus pontos que convergiam pura energia para o meio. Fitaram o loiro colocar-se de pé.
O gigante símbolo desprendeu-se do chão e subiu lentamente metros e metros acima das torres mais altas de Konoha. Eles encaravam o céu, encantados e assombrados com a magnitude e a beleza da técnica.
–Não foi à toa que os Uzumakis foram exterminados... – sussurrou Itachi – Olha para isso. Eu não consigo acreditar que um clã pudesse fazer isso... Sasuke, você...
–Por isso que eu nunca enfureci Naruto ao ponto de ficarmos intrigados. – comentou fitando longamente o selo instalar-se acima dos tetos de Konoha. Sasuke suspirou e fechou os olhos.
O Uchiha libertou seu Susano’o, causando suspiros admirados da população. Parecia a mistura de um monge com um samurai que possuía longas asas. O gigante desembainhou uma katana e atravessou o ponto de conexão de todas as pétalas da lótus, que era o exato ponto onde a espiral começava. Sasuke fitou Naruto. Este juntou as mãos em sinal de prece e começou a gritar alto expelindo uma quantidade absurda de chakra.
Os selos, em pontos diferentes da tez exposta, começaram a rodar e desaparecer introspectivamente.
Uma a uma, as bijuus seladas no corpo do loiro receberam a liberdade e surgiram nos locais onde as pétalas apontavam, que eram onde estavam as caudas de manto da kyuubi. Duas caudas, três caudas, quatro caudas, cinco caudas, seis caudas, sete caudas e por fim oito caudas. Sobre o corpo de Naruto, Kurama, imponente e soberano, ergueu-se e rugiu alto, fazendo as construções balançarem e as pessoas se desesperar.
Sasuke fitou o dobe. Ele ofegava e cuspia sangue, sem ter onde se apoiar.
–Pare Naruto! – gritou – Vai se matar desse jeito!
–Não posso! – rebateu tossindo sangue – Se eu parar essas pessoas vão morrer por causa da explosão dos nossos chakras, Sasuke! Temos que continuar’ttebayo!!!
–Elas não confiam em você, dobe!!! O que te faz pensar que elas farão o que você mandar?! – ventos poderosos revoltavam todo o lugar, criando densas nuvens de poeira.
–É você que dará a ordem, não eu! Sempre foi assim, teme: – Naruto sorriu – Eu faço o trabalho sujo e você recebe as glórias, esqueceu’ttebayo?! – ele abaixou-se bruscamente, batendo novamente sua palma no chão – Senpou! Espelho do Selo de Deus, dobra dois!!! – uma réplica idêntica alongou-se novamente no solo. As pontas das lótus se tocaram e encerraram completamente a vila dentro de um gigante processo de selamento.
Naruto vomitou mais sangue, cambaleando, quase caindo, mas conseguiu ficar de pé com dificuldade. Sasuke fechou com forças os olhos, não querendo ver o sofrimento do amante. Sentiu algo pulsar repentinamente em seu peito. Ouviu um estalo metálico, como algo se partindo e depois a dor aguda. Eram as chaves se rompendo. Naruto estava fazendo aquilo, era chegada a hora. Sasuke gritou alto, apertando os punhos, fazendo uma onda enorme de chakra preencher quase todo o espaço entre os dois selos.
Itachi, Hinata e as três crianças se afastaram do Uchiha ao verem a quantidade anormal de energia se expandir de seu corpo, que incinerou suas vestes, deixando-o apenas de calça.
Hinata abraçou os filhos e esperou o impacto do poder de seu marido, mas este não veio: ela abriu os olhos e notou que a névoa de chakra estagnara no ar, enquanto Sasuke ofegava, de braços abertos e dedos estendidos, e fitava intensamente Naruto abaixado em sua frente. Aquele era o verdadeiro poder de seu marido? Olhou seu próprio corpo.
O chakra de Sasuke estava moldando-se aos corpos das pessoas, semelhante ao manto da kyuubi de Naruto. O gigante monge samurai abriu lentamente sua mão desocupada e linhas azuis de energia interligaram todos os moradores com ele, dando a impressão de uma enorme teia. Sasuke sentiu algo estranho se aproximar do seu campo de proteção. Fitou o alto. Não conseguia ver por causa da escuridão.
E nem podia usar sua técnica de percepção de chakra porque havia um mar de energia flutuando diante de seus olhos.
–Hinata! – gritou – Use seu Byakugan naquela direção – apontou – e me diga o que vê!
–Certo, Sasuke-kun! Byakugan! – Hinata, prodigiosa Hyuuga que era, podia enxergar até 10 quilômetros em torno de si, mesmo no escuro – Tem duas pessoas se aproximando, Sasuke-kun! Uma é o homem mascarado e outro eu não sei quem é!
–Tsc. Merda... – ele fitou Naruto – Chegaram antes que pudéssemos terminar!
–Tudo bem! – gritou o loiro – Eu aguento! Ataque-os enquanto termino! Não podemos os deixar atravessar o selo, ou irão conosco! – Sasuke assentiu, unindo as mãos em pose de prece, e Naruto fitou a raposa acima de si – Kura-sama! Agora, Kura-sama!
A raposa assentiu e alongou suas caudas até cada um dos bijuus.
–É agora! Matatabi! Isobu! Son Goku! Kokuou! Saiken! Choumei! Gyuuki– os bijuus tocaram as caudas com suas mãos e esticaram suas caudas para os lados, interligando-se. Kurama rugiu. A teia estava pronta e bem entrelaçada. Uma cauda de Kurama se conectou com o Susano’o de Sasuke e depois tocou as costas de Naruto com as duas mãos.
Dane-se, pensou o Uchiha mordendo o lábio inferior exibindo seu poderoso Eternal Mangekyou Sharingan. Fitou o alto.
A espada transformou-se em um enorme lançador de flechas, uma besta, e uma flecha de fogo negro surgiu. Ele atirou no mascarado, depois outra no homem que estava ao seu lado, eles se afastaram caindo fora dos limites de Konoha. Sasuke estava cansado de toda aquela escuridão que lhe impedia de enxergar corretamente. Inspirou tanto ar que seus pulmões pareciam que iriam estourar e em seguida escancarou a boca. Um dragão gigante de fogo ganhou os céus, serpenteando por seu Susano’o e iluminando todo o lugar.
–Katon! Gouryuuka no jutsu! – o dragão ainda saía de sua boca e rastejava pelas teias de chakra criadas pelos selos de Naruto. Sasuke arregalou seu olho esquerdo e mirou na boca do dragão – Amaterasu! – os dentes do dragão, bem como seu interior, ficaram negros por causa das chamas. Sasuke fitou os homens, o mascarado e Pain, o dragão de fogo correu para lá rapidamente, impedindo-os de se aproximar mais.

Sasuke fitou Naruto.
Toda a pele do loiro expelia chakra azul por todos os poros. Era belo, se não fosse extremamente perigoso e mortal. Os ventos de chakra se moviam sem direção certa, chocando-se uns com os outros, provocando estouros concentrados. Era evidente a preocupação de manter aqueles ventos perto do corpo, pois se eles entrassem em contato com outro que não fosse o de Naruto, poderiam destroçar o desavisado.
A face de dor e de determinação que Naruto sustentava era angustiante aos olhos do Uchiha.
Ele não queria que aquele dia chegasse, nunca, pois os dois constataram depois que não poderiam controlar todo o poder selado: se os 10% livres crescessem em 100%, os 90% presos desenvolveriam exponencialmente em 900%. Era poder demais e como compartilhavam do mesmo selo, um dos dois teria que se sacrificar para que o outro não morresse.
Um era a tranca do outro.
Sasuke entendia agora e tentava reprimir seu rosto de desespero com um sorriso de compreensão: Naruto se sacrificaria por ele. Ele era pai de três crianças, tinha uma esposa adorável, era o herói de uma vila importante, tinha uma vida em parte honrada, muito a perder pelas contas de Naruto, que nada tinha além de ódio e poder.
–Tem certeza? – murmurou. O loiro, lendo os lábios do moreno, sorriu assentindo. Sasuke respirou fundo, contendo o aperto em seu peito e juntou as mãos em sinal de prece, transformando novamente seus olhos: o Rinnegan – Basho Tein’in! – todas as pessoas dentro do selo gigante foram atraídas para dentro do Susano’o gigante, puxadas pelos fios de chakra que os conectava.
Depois de todas capturadas, o gigante se abaixou completamente, imitando a pose de Naruto em forma de besta. As enormes asas fizeram uma proteção extra sobre os habitantes adormecidos. Sasuke estendeu sua mão para Hinata, a última a ser puxada pelo jutsu, que ficara acordada dentro do Susano’o.
O Uchiha tossiu sangue, seu corpo estava começando a perecer. Naruto ficou de pé, com as pernas trêmulas, corrigindo a postura e levantou o olhar.
–Selo Mestre, liberar! – os olhos de Sasuke arderam e ele gritou de dor. O selo estava se quebrando e com ele parte de sua mente. Recordou-se do que Naruto lhe dissera uma vez. “Se isso voltar a acontecer, olhe sempre para mim que eu vou fazer a dor passar”. Fitou o loiro e nele encontrou um suave sorriso, apesar do sangue que escorria pelos cantos da boca.
Sasuke chorava sangue apoiando-se na espada. Naruto agonizava sem poder tocar na pele ardente do seu próprio peito, expelindo sangue pela boca, quase tendo um ataque de convulsão. Os dois estavam, pouco a pouco, se destruindo por dentro.
Kurama fitou os dois e pousou seu olhar de angústia sobre Naruto. Ele havia desfeito todos os selos de seu corpo, libertando as sete bijuus ao mesmo tempo, além de usar Senjutsu para manter os dois selos gigantes conectados, controlar seu próprio chakra para ficar vivo e ainda estava moldando o chakra da kyuubi para dar seguimento a técnica. Se fosse outra pessoa, teria morrido com a primeira extração. Mas era Naruto, o seu Naruto, o seu filho adotivo.
–Sasuke-kun! – Hinata gritou e apontou na direção do dragão de fogo, que sumia – O que ele vai fazer?! – Sasuke volteou seu olhar para Pain. Ele subia no ar, com os braços abertos e os olhos intensos do Rinnegan fitando a cidade.
Sasuke reconheceu o que ele faria.
–Naruto!!! – gritou. O outro abriu lentamente os olhos – Ele vai usar o Shinra Tensei!!! Rápido Naruto!!! – aquela ordem apunhalou o coração quase ao ponto de lhe fazer vomitar a própria bílis. Hinata deixou lágrimas escaparem – Ele vai nos desintegrar!!!
O loiro assentiu. Ergueu as mãos, em cada palma havia cópias grafadas dos selos que estavam no alto e no solo. Suspirou e mais uma vez seu chakra reacendeu, inflou, expandiu e explodiu cobrindo completamente o corpo de Sasuke e do Susano’o. O moreno não suportou mais ver aqui e correu na direção de Naruto, agarrando o corpo do menor.
–Naruto... – sussurrou em seu ouvido. – Eu... Eu...
–Tudo bem. – a voz calma queria confortar – Tudo bem. Sabíamos que isso terminaria assim. Eu não nasci para viver, você sabe disso...
–Mas... – Sasuke afundou seu rosto na curva do pescoço de Naruto e respirou fundo – Droga, usuratonkashi! Eu não queria que as coisas acabassem assim! Era para nós dois vivermos!
Os dois se fitaram com intimidade. Naruto sorriu e ofereceu seus lábios para um último beijo entre os eternos amantes. Sasuke os aceitou com avidez e desejo. Mesmo que voltassem no tempo, aquilo ainda sim soava como o fim para o Uchiha: seu dobe deixaria de existir quando o selo se completasse, pois não haveria chakra para mantê-lo até depois do processo. Era o adeus, no fim das contas. Separaram-se com dificuldade.
–Eu te amo, Sasuke. – Naruto falou serenamente.
–Eu também! – gritou Sasuke – Eu sempre te amei e vou sempre te amar!
Naruto riu cuspindo um pouco de sangue.
–Não mais que eu... Seu tolo... Não poderá me amar para sempre... Eu sequer terei existido... – Sasuke apertou o abraço em volta do peito de Naruto – Estou dando a minha vida para que você possa viver! No fim... Eu consegui cumprir minha promessa...
Sasuke assentiu e se afastou com pesar.
–Senpou. – sua voz borbulhava de determinação. Era preciso continuar, Naruto não podia parar agora ou todos morreriam – União do Selo de Deus! Última dobra! – uniu as mãos e entrelaçou os dedos. – A Vontade do Portador!!!
Antes que Pain pudesse dizer a primeira letra do primeiro nome do jutsu, viu os dois selos gigantes se encontrarem velozmente e provocarem uma explosão atômica. Todo o ambiente, num raio de 50 km, foi completamente devastado, sobrando apenas o solo e a densa nuvem de poeira. Na explosão, absurdamente a noite se adiantara e o sol escaldante despontou no céu. Somente quando os raios intensos do sol queimaram a terra, os dois homens puderam ver que no lugar de Konoha e todas as florestas, rios, montanhas e toda a ambientação, havia uma pessoa sentada de costas para eles.
Aproximaram-se devagar, cautelosos.
Era esquelético, apenas vestindo uma calça negra, descalço, com o corpo cheio de cicatrizes e marcas de queimaduras. O homem se levantou com dificuldade e se virou para eles. Sorria doentiamente, os olhos sem brilho mirando algum ponto no alto e as mãos desprovidas de pele. Ele começou a caminhar lentamente, como se suas pernas tivessem vontade própria.
–O que é... Ele? – sussurrou Pain.
–Eu não sei... – retrucou o outro, retirando a máscara. O rosto de um Uchiha com metade da cara desfigurada apareceu – Eu não sei se isso é humano...
Um olho fitou os dois homens. A pupila se dilatou, como se tentasse enxergar melhor. O sorriso se alargou ainda mais.
–Então... Todo esse tempo... Era você... – a voz saiu como se viesse da mente de ambos.
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