Outra História: e se... vol.2
9 Depois da tormenta, vem à calmaria
Notas iniciais
Ele parou a marcha. Os três se encararam, isto é, dois olhavam para um que sorria e tinha um olho observando os homens e outro fitando o céu.
–Que... Uchiha... É... Você? – o sorriso parecia tatuado na cara dele.
O outro engoliu em seco. Aquela cara era mais atormentadora que já vira.
–Obito. Uchiha Obito.
O olho voltou a fitar o alto. O homem apertou o olhar e diminuiu o sorriso.
–Entendo... Agora posso terminar... – o corpo moveu-se de forma desordenada, correndo velozmente até o Uchiha, saltando sobre ele e derrubando-o longe de Pain, que mal pudera acompanhar o movimento. Abaixado como uma gárgula, os dois olhos se voltaram para baixo, encarando fixamente o moreno que tremia abaixo de si. Seu sharingan percebia uma intensa áurea negra em volta daquele corpo esquelético.
Uma áurea pesada, ferida, carregada de gritos dolorosos, olhos vingativos e sangue fétido. Que tipo de energia era aquela? Como um ser daquele podia existir?
–Você também consegue ver? – o sorriso voltara a se alargar e os olhos quase se fechavam – Existem por sua causa... São as energias malignas de todas as pessoas que matei para te encontrar! – as mãos de dedos longos e secos seguraram a cabeça de Obito – Uchiha Obito... Chegou a hora de consertar o passado. – num movimento rápido, ele lançou o corpo de Obito contra o de Pain.
O Uchiha se observou ao se recuperar do intenso impacto. Como ele poderia ainda ter forças depois de todo o chakra gasto? Olhou em volta. Clones de aquele ser brotavam da terra como mortos que levantam das covas. Fitou Pain. Por alguma razão que não entendia, aquele homem de cabelos laranja estava morto.
–O que você fez? – indagou, trêmulo.
–Não vê? – os olhos vermelhos lhe encaravam no pouco espaço que as pálpebras permitiam – Eu transformei esse lugar num deserto... Toda coisa viva morreu, exceto eu e você... Não demoraria muito para que o chakra dentro dele acabasse...
Os seis clones desenharam, cada um em seu ponto, um kanji e deixaram suas mãos postas em sinal de prece. O ser pousou em frente à Obito e fez uma longa, porém rápida, sequencia de selos de mãos. No último selo, seu rosto serenou, perdendo o aspecto assustador.
–Senpou. Mudança Temporal da União do Selo de Deus. – os clones voltaram às palmas de suas mãos para os dois no centro do círculo e o mundo brilhou incandecentemente.
o/ o/ o/ o/
Obito olhou para os lados. Estava num espaço vazio, flutuando na imensidão branca, com o ser diante de si fitando-o tranquilamente.

–Q-Quem é você? O que você fez com a realidade? Onde estamos?
Ele parecia desesperado. Não era para tanto. Nada mais do que ele conhecia existia.
–Eu sou Uzumaki Naruto, lembra? – apontou para a bochecha. Os “bigodes” fizeram as memórias de Obito surgirem na vastidão, feito fotografias presas em varais. Lembrou-se da fatídica noite em que controlara um menino de seis anos de idade, traindo a confiança do melhor amigo desse menino, para matar um clã inteiro – Não existe mais a realidade, ela se desintegrou como consequência do meu jutsu. O que nos resta é apenas aqui, o espaço-tempo infinito. O lugar onde tudo se interliga.
Ele respirou fundo e voltou a fitar Naruto, sua aparência frágil e debilitada não parecia permitir que Obito acreditasse que ele fora capaz de tudo isso. Ele notou que se os dois moviam, como se a correnteza do fluxo-tempo lhe levasse.
–Para onde estamos indo?
–Agora sim você fez a pergunta certa... – Naruto piscou um olho – Voltando.
–Para onde?! – ele estava ainda mais desesperado.
Naruto riu quase sem poder.
–Esse é o espaço-tempo, seu idiota, se ficarmos parados aqui, estaríamos no suposto presente, vendo as coisas caminharem em câmera lenta para trás... Se formos para frente – ele apontou para sua frente, que eram as costas de Obito – A incerteza do futuro nos espera, então, se eu disse que estamos voltando, nós estamos...?
–Indo para o passado! – completou.
–Bingo! – brincou Naruto.
–Por que... – Obito respirou – Por que eu estou vivo? Por que não me matou também?
–Você é a última peça para o quebra-cabeça que estou montando. Se eu te matasse, então Konoha e todo o resto estariam perdidos para sempre... – Naruto obrigou seus pulmões a respirarem – Você está no lugar da pessoa que conecta tudo.
–O quê?
Naruto sorriu com franqueza e cansaço.
–Os olhos Uchihas são os únicos que tem o Sharingan e o Sharingan é o único jutsu que arquiva todas as informações necessárias para a reconstrução da realidade... O homem que deveria estar em seu lugar tinha exatamente o que eu precisaria para reescrever a história do mundo, mas quem não tem cão, caça com gato, não é?
–Um homem? Um outro Uchiha? Quem?
O loiro negou.
–Não importa mais... Mais uma vez você interferiu na minha vida... Usarei o seu olho para conectar as minhas informações com o infinito e assim... – suspirou – Cumprir meu objetivo.
Ali era tranquilo, mal se percebia o movimento dos dois. Naruto continuava sorrindo, sentindo as forças lhe escaparem. Por sorte tivera chakra suficiente para completar o mais complexo jutsu que encontrara nos velhos pergaminhos sagrados de seu clã. Era um Uzumaki no fim das contas: tinha uma grande fonte de energia e uma longevidade invejável. Depois de tudo, ainda estava vivo, que nem uma persistente barata.
Imaginava que iria para aquele lugar com um Uchiha, mas não com Obito. Tudo bem, pensou, pelo menos eu dei vida em abundância para os ingratos de Konoha. Agora Sasuke será feliz, com seus filhos e terá um pouco de mim em Keiko, para não sofrer tanto assim, terá Hinata para superar a dor e muitos bons amigos. Eu não farei falta, depois de tudo. Eles nem se lembrarão de mim ou da existência do clã Uzumaki.
Tudo se encerrou em mim. Suspirou, sentindo-se em paz.
Acho que vou sentir falta do teme. O inferno deve ser isso: sentir a falta de quem você mais ama. Pensar em existir uma eternidade inteira sem ele fez seu peito doer e o sangue correr timidamente pelo canto da boca. No fim das contas, amou e foi amado. Não poderia querer mais nada na vida.
Fitou Obito. Aquele homem lhe parecia tão assustado que não podia acreditar que fora ele que lhe controlara. Mas Naruto estava, finalmente, em paz. Não lhe importava quem fora o mentor do crime ou quem o provocava. Naquele lugar, em algum ponto, deveriam estar às portas do paraíso e isso justificaria, se fosse verdade, a alegria que Naruto sentia.
Tenho mais uma coisa a fazer antes de ir para o inferno, pensou sorrindo minimamente.
Naruto lhe mostrou o punho fechado. O outro achou que iria receber um soco, mas nada aconteceu. O loiro riu. Mesmo fraco e quase morrendo, as pessoas têm medo de mim.
–Você tem duas opções, Obito – iniciou, com a voz cansada – Um – levantou um dedo – Mude seu destino aqui e agora, desistindo dessa ideia de reunir as bijuus para se tornar o jinchuriiki do Juubi e colocar o planeta em sono eterno. Volte a ser um Uchiha e vá viver uma boa vida com o resto do seu clã. – Como ele sabia disso? Dane-se, agora não é hora, pensou o homem – Dois – levantou outro dedo — eu matarei você no dia em que entregou seu sharingan esquerdo para o Kakashi. E o “você” de agora desaparece e as consequências no futuro serão, no mínimo, controversas.
Colocou-se pensativo. Era preciso ponderar corretamente.
–Controversas?
–Sim...
–Quer dizer que...
–Meus pais estarão vivos. Uchiha Itachi não precisará trair o seu clã porque Uchiha Shisui conseguirá cumprir o plano de impedir o golpe dos Uchihas. Danzou estará morto, se ainda me restar chakra. Ninguém mais vai morrer por sua causa ou por causa de outra pessoa...
–Outra pessoa... Eu deixarei de existir?! Como assim? O que...
–Madara nunca conseguirá cumprir o plano dele... Aliás... Madara será apenas uma lembrança de uma época de guerras e caos. – Obito fez menção de falar, mas Naruto fez sinal para ficar calado – Eu li suas memórias. Sei tudo o que planejou e com quem planejou. Você é a peça chave para o plano de Madara e sem você, o desejo do velho não se cumprirá, porque ninguém mais se encaixa perfeitamente na trama da história.
–Mas ele continuará vivo!
Naruto negou.
–Eu o matarei. Eu acabarei com a vida dele e com todas as influências que ele tiver sobre este mundo, nada restará além da história.
Assentiu, entendo pouco o que o loiro dissera.
–E se... Eu escolher desistir?
Naruto sorriu serenamente.
–Voltarei no tempo para lhe salvar, lhe permitir viver ao lado do Kakashi, matarei o velho Madara e darei os olhos dele para que você implante em alguém, por mim, no futuro... – Naruto tossiu e inspirou o ar, obrigando os pulmões a trabalharem – Basicamente nada mudará, exceto a quantidade de Uchihas no mundo... Você retornará num tempo bem a frente do que lhe pertence e entenderá tudo com o mais novo dos Uchihas.
Os minutos de silêncio andaram sem pressa.
–Isso é algum tipo de redenção?
O Uzumaki se espantou com a pergunta, mas logo sorriu com cansaço, como um pai que acolhe um filho. Ele assentiu. Era a redenção de todos. Imaginara que para isso teria que destruir Konoha, mas fora justamente o contrário: preservara-a, protegera-a.
Num lapso de memória, Obito recordou-se de algo.
–O que houve com a vila? Quero dizer, você mesmo disse que não havia nada vivo em um raio de 50 km de onde estávamos... Você destruiu Konoha?
Negou lentamente.
–Eu a selei no espaço-tempo, da mesma forma que estamos agora. Todas as pessoas foram, digamos, poupadas graças ao incrível poder de proteção dos olhos de Sasuke. O Susano’o dele conseguiu comportar a população inteira tal como estavam, sem tirar nem por... Meus selos estão fazendo toda a vila viajar no tempo nesse exato momento em que conversamos. – esfregou os cabelos.
Obito assentiu.
–Eu... decido... Viver! – falou com convicção – Eu desisto de tudo, Naruto, de tudo! Droga, que merda eu fui fazer! – seus olhos lacrimejaram – Eu estava magoado, preenchido pelo ódio, eu estava...
Naruto o abraçou, surpreendendo o Uchiha.
–Não precisa me explicar nada, seu idiota. – ele sorria – Eu li suas memória, esqueceu? Eu sei de tudo que há em sua mente e entendo tudo o que está em seu coração... Fique tranquilo e durma – os dois se fitaram. Obito tinha a sensação de estar caindo lentamente – Quando acordar desse pesadelo, verá que a vida é mais cheia de luz do que imaginava!
–E você Naruto? O que vai acontecer com você?
–Desaparecerei. – Obito arregalou os olhos – O mundo que virá, a partir de sua boa decisão, será puro demais para mim, o Odiado, aquele que carrega o ódio da Terra nas costas... Não terei forças para voltar, Obito, então cuide de Sasuke por mim... Ele é uma boa pessoa e merece todo o amor do mundo.
–Desaparecerá?! Não pode salvar a si mesmo?! Você renascerá, não é?! Minato ficará com Kushina e terá você! Vai existir sim!
Ele negou outra vez.
–Aquele que deverá ser eu não vingará... Morrerei antes que a luz me seja concedida... Então nascerá outro e meus pais terão um filho, o qual não serei eu. – suspirou outra vez – Só me arrependo de nunca ter dito adeus ao Sasuke... Aquele teme... O meu teme...
Afundava cada vez nas profundezas das palavras de Naruto, até sentir que fora aparado por duas mãos macias que lhe deitaram sobre o nada e ele dormiu. Dormiu profundamente, como jamais dormira. Sonhou. Viu Naruto, quase morto e em pele e osso, sorrindo tranquilamente e movimentando as mãos. Ouviu um sussurro.
–Senpou... – era longe, mas ainda conseguia entender – Fechamento Eterno... do Selo de Deus... – uma luz forte quase o cegou, mas era boa, quente, suave, como um abraço de mãe.
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