Outra História: e se...

19 Encontro – parte final


Naruto apertou os olhos, de braços cruzados, ainda de pé.

Odiava quando as pessoas tomavam decisões sobre sua vida sem lhe consultar. Passara a vida inteira com regras ditadas pelas outras pessoas, não aguentava viver mais assim. Se Uchiha Sasuke estava achando que iria ficar com ele, fácil assim, sem mais nem menos, sem ao menos saber se ele, Uzumaki Naruto, queria, estava quadradamente enganado. Não ficaria com o moreno porque seu sentimento possessivo queria que acontecesse. Ao inferno o suposto amor que o Uchiha sustentava, pois o ódio de Naruto inflava em igual proporção.

Nem sabia o que sentia e ele já estava tomando conclusões precipitadas.

Se isso continuasse não lhe restaria muitas escolhas: ou desapareceria de vez ou mataria o moreno. Respirou fundo, tentando desfazer o nó em sua garganta. Pensar em matar a única pessoa que não merecia a morte era sufocante, ainda mais quando essa pessoa lhe é cara.

Abriu lentamente o olhar e sentou-se ao lado de Mikoto, rebatendo com igual força o olhar recriminatório que Sasuke lhe mostrava.

–Seu filho é um babaca e você tem que enxergar isso urgentemente. – iniciou Naruto, com certa naturalidade – Aliás, a babaquice dele desaparece quando se analisa outros aspectos.

–Que aspectos? – a mulher parecia temer o que viria a seguir.

–Sasuke é um herói, sabia? Um herói conhecido e valorizado. – o moreno piscou com firmeza, igual com sua mãe. Nenhum dos dois sabia dessa informação – Talvez vocês, elite da elite – Naruto mostrava seu lado zombeteiro – Não queiram ver isso, mas o bonitão aí é o herói da vila, por ter parado a horrível Raposa Demônio de Nove Caudas antes que a destruição da vila começasse e inúmeras baixas acontecessem.

–Não – Mikoto sorriu – Quem fez isso foi o Itachi! – falou inocente.

Naruto se levantou, rindo como louco.

–Só pode está brincando comigo! Eu sou a kyuubi e estou dizendo que quem me parou foi um Uchiha e que esse Uchiha, especificamente, foi Sasuke! – quase soletrava cada letra – Entende? Seu desprezado filho mais novo foi o grande herói e todo o planeta sabe disso, quer você acredite quer não.

Ela estagnou. No fundo sabia que era a verdade, só não queria enxergar.

–Segundo: ele é mais foda que o irmão’ttebayo! – Naruto falou como estivesse dando uma aula – Tipo, eu já lutei contra Itachi e posso afirmar com segurança que esse teme aí – ele apontou para Sasuke e depois colocou as mãos atrás da nuca – É bem mais gênio que o Itachi. Por exemplo, ele já tem o Mangekyou Sharingan sem ter matado ninguém antes! Assim... Matado alguém segundo a “fórmula secreta” do dojutsu.

–E como isso é possível? – indagou Mikoto.

Sasuke pigarreou. Todos se voltaram para ele.

–Eu... Eu descobri nos antigos pergaminhos do clã do Naruto que... Da mesma forma que ódio desperta o sharingan – suas bochechas coraram de leve – O amor também pode fazer isso. Quero dizer, é mais difícil despertar o sharingan quando se ama, porque tem que ser o tipo de amor que, como eles dizem, “prende sua alma a essa existência com um fio tão delicado e contraditoriamente forte que nem mesmo as mais poderosas torrentes da vida poderão cortá-lo”. O poder obtido através desse caminho, se eu posso chamar assim, é exponencialmente maior, por não causar tanto danos ao usuário.

–Está me dizendo que seus poderes vêm do amor que sente...

–...Pelo Naruto. – completou rispidamente.

O loiro suspirou.

–É por isso que estamos conectados. – Naruto esfregou levemente seu cabelo. Não gostava muito de recordar certas coisas, mas ali era o “Poço da Verdade” – Quando eu tinha cinco anos, eu estava passeando perto do rio, quando um javali enviado pelo Satan, só podia ser, surgiu do nada e me atacou. Tentei escapar, mas eu era débil demais em minhas habilidades e quase morri se não fosse pelo teme.

Naruto colocou-se de costas e ouviu um risinho fraco de Kushina.

–Sasuke salvou... o grande Uzumaki Naruto, que sempre consegue fazer tudo só? – ela arqueou uma sobrancelha – Isso é inédito. – o rapaz corou.

–Foi só uma vez’ttebayo! Só uma! – ressaltou, mas um flash de memória o fez se engasgar – Quero dizer... Algumas vezes... – abaixou o rosto, para levantá-lo exaltado – Me crucifiquem’ttebayo! Eu não sou perfeito, valeu? Tive que aprender tudo sozinho, caramba!

Sentou-se de uma vez, abraçando os joelhos, longe dos três. Kushina correu para abraçar o fofo filho que resmungava coisas inaudíveis. Mikoto fitou Sasuke.

–Sabia quem ele era, na época?

–Sim. – ríspido e monossilábico.

–E por que o fez, mesmo sabendo quem ele era? – Sasuke fitou a mãe, acreditando que havia indignação naquela fala, mas só encontrou um olhar curioso.

–Bom... – ele suspirou e se obrigou a olhar para a mãe – Eu já observava desde antes, quando uns meninos do clã bateram nele e eu não entendia o motivo. Até perguntei, mas só falaram que o odiavam, sem maiores razões. Passei a observá-lo, para saber o que ele fazia para ser odiado tanto assim pelas pessoas e descobri que não havia motivo aparente nenhum.

Mikoto franziu o cenho, sem entender a princípio. Refletiu um pouco e notou que uma palavra mudava tudo no discurso de seu filho: aparente. Só aqueles que sabiam que Naruto era kyuubi tinham motivos, visto que o menino nada fazia: era sempre quieto, pacífico e risonho, correspondendo a todos os insultos com um sorriso de criança. Realmente não havia motivos para nutrir tão nefasto sentimento pelo rapaz.

–E numa manhã eu o vi sendo perseguido por um javali assassino. Itachi já havia me ensinado alguns truques com as shurikens, e eu carregava algumas por precaução, então decidi ajudá-lo. – Sasuke esfregou os cabelos, meio envergonhado – Claro que não conseguimos abater o javali, mas conseguimos escapar quase ilesos.

–Que bom, eu acho...

–No ato de salvá-lo, vendo o rosto de medo que Naruto exibia por estar só, eu desejei que Deus me desse poderes para proteger um garoto que não tinha ninguém por si. – Sasuke suspirou e piscou lentamente, mostrando seu Sharingan de três tomoes – Eles só tinham uma quando cometi meu primeiro ato de “sincero amor”. – ele riu.

A mulher esticou lentamente os braços e Sasuke notou o movimento repentino, mas ficou paralisado, sem saber como reagir. Era a primeira vez, em tanto tempo, que tinha uma conversa amigável com a mãe. Ela o abraçou com amor e afagou suas costas.

–Me desculpe Sasuke-kun. – as lágrimas corriam dos olhos da Uchiha – Me desculpe por ser tão egoísta e não enxergar o quanto você cresceu. Você alcançou algo que todos nós queríamos, mas que temos medo, pois o amor nos assusta! – ela segurou os ombros do filho com carinho e o fitou, depositando um leve beijo em sua testa – Eu o amo por ser meu filho, sangue do meu sangue, e agora vejo o quanto tenho orgulho por ser o que é, por não ter seguido o caminho sombrio que todos nós do clã escolhemos!

Sasuke chorou abraçando com força a mãe.

De um canto, os Uzumakis sorriam com a reconciliação. Naruto fitou as próprias mãos. Talvez fosse hora de partir, de sair daquele poço agora que os corações de ambos estavam mais leves. Kushina segurou as mãos do filho e negou, como se adivinhasse os pensamentos dele.

–Naruto... Eu estou aqui unicamente para lhe dizer que dentro de você brilha uma luz tão forte que pode cegar! – ela afagou o rosto do rapaz – Eu sei que você viveu sozinho a vida inteira, mas entenda que não viveu! – ela apontou para o par de Uchihas que choravam e se abraçavam – Sasuke esteve a maior parte do tempo ao seu lado, não é? Eu vi o rosto de alívio que ele mostrou ao te abraçar... Vocês dois são tão bons amigos que se tornaram a família de um e do outro, não tem como negar isso.

Kushina segurou a mão do filho e o puxou para perto dos Uchihas. Entregou a mão de Naruto a Sasuke e abraçou uma última vez o tão amado filho.

–Eu sempre vou te amar, Naruto, ninguém nunca desejou tanto que você viesse ao mundo do que eu e seu pai! – os olhos do loiro marejaram – Nunca se esqueça disso!

O corpo dela se desfez em minúsculos pontos de luz juntamente com Mikoto que prometia continuar aquela conversa com Sasuke do lado de fora. Sasuke suspirou, satisfeito, e mirou a expressão vazia do dobe. Estalou os dedos diante dos olhos do outro.

–Naruto? – murmurou.

Um trovão estrondou a sala onde estavam.