Outono Enfumaçado

3 Recrutamento, parte 3


Notas iniciais
Vou dividir essa parte em dois, pois estou tentando fazer cada um com +- 1000 palavras. Então já liberarei o próximo post. ^^

Lótus foi a primeira a chegar na cabana de número 13. Recebeu um uniforme e se trocou imediatamente, em apenas alguns minutos outra participante chegou. Uma onda de alívio passou por Lótus.

— Oi! — Lótus tinha essa maneira de falar que parecia que conhecia todas as pessoas do mundo — Eu pensei que eu ia ficar sozinha aqui. — Ela estendeu a mão para menina consideravelmente alta e morena — Lótus, prazer. – Se apresentou com um grande sorriso no rosto.

— Olá. — Ela tinha um sorriso perfeito e grandes olhos verdes— Fara, idem.

Elas conversaram por um tempo. Lótus pode se acalmar com as piadas e bom humor de Fara. Sem perceberem, a sala lotou de outras meninas. Uma oficial, com cabelos escuros presos em um coque, que fazia parecer mais velha do que realmente era, subiu em um palanque e começou a falar sobre uma corrida de resistência e como funcionava a separação dos dormitórios.

Lótus observava as outras participantes. Algumas eram altas, outras baixinhas, com cabelos tão compridos quanto os dela mesma. Tentava analisar uma de cada vez, em ordem, mas algo chamou sua atenção perto da porta. Uma menina alta e magra, mas o que a destacava eram seus cabelos completamente brancos. Lótus não conseguia desviar o olhar, a encarou por um tempo, e para sua surpresa, ela deve ter sentido que era encarada. Ela olhou diretamente para Lótus. Seus olhos eram tão cinzas quanto o céu nublado, hipnotizantes e assustadores.

Um frio subiu a espinha de Lótus, seus músculos ficaram rígidos, sua respiração acelerou assim como seu coração. Já ficara assim antes, uma vez que ficou cara a cara com uma pantera na floresta, medo.

— Está tudo bem Lótus? — Fara ficou preocupada, ela estava completamente pálida — parece que viu um fantasma.

— Não é nada...

Ela desviou o olhar da menina e tentou prestar atenção no que a oficial falava. Mesmo que não conseguisse, fingiu que estava. Olhou mais uma vez, apenas para conferir, ela ainda a olhava, sem sorrir, sem emoção. Lótus fez de tudo para evitar, chegou a se esconder discretamente atrás de Fara, esperando ser esquecida por aquela predadora.

— … E após suas notas forem dadas, vocês serão designadas aos seus dormitórios. — A oficial deu uma pausa e suspirou — não se assustem, os dormitórios são mistos. — Estourou um alvoroço entre as meninas, algumas eram contra e outras a favor, mas todas ficaram em silencio quando a oficial chamou a atenção — Aqui todos são tratados iguais. — Ela não estava mais calma, falava com um tom de superioridade — vocês estão aqui por que querem! — Ela desceu do palanque e foi em direção da porta — Bem-vindas ao inferno.

Todas as seguiram para fora da cabana, mas Lótus mantinha seus olhos na menina dos cabelos brancos. Percebeu que ninguém ficava perto dela, parecia que todas sentiram algo e a evitavam.

— Corram em linha reta até me encontrarem. — A oficial subiu em um cavalo marrom — começando agora.

A mulher andou a galope até ser perdida da vista. Assim como com os meninos, elas marcharam, mantendo um ritmo por um tempo. Meninas reclamavam do calor e de todos os outros fatores, mas não deixaram de correr.

Algumas horas se passaram, Lótus se concentrava em manter sua respiração sob controle. Na corrida, conseguiu passar quase todas as meninas, com exceção da menina de cabelos brancos. O espírito competitivo de Lótus falava mais alto que seu medo, ela queria ser a primeira. Esforçou-se ao máximo para passar, a outra não pareceu se importar, mas Lótus comemorava internamente.

Olhou por cima do ombro para certificar-se que tinha pego uma boa distância dela. Sem perceber por onde andava, acabou tropeçando em uma pequena pedra. Sentiu cair em câmera lenta. Seus joelhos bateram no chão, ouviu suas calças romperem e sentiu a areia quente rasgar sua pele.

Respirou fundo para se acalmar e segurar as lágrimas, olhou em volta procurando ajuda, mas a única pessoa ali era aquela menina. A encarando com um sorriso torto no rosto.

— Foi uma queda e tanto. — Lótus não sabia se ela estava debochando ou não — consegue se levantar? — A voz dela era doce e suave. Lótus tentou se apoiar, mas torceu seu calcanhar na queda.

— Não... — ela ficou um tanto decepcionada consigo mesma, sentia que iria soltar a lágrima que estava segurando.

A menina se abaixou e ajudou Lótus a levantar, e sem mesmo perceber, ela a tinha posto em suas costas.

— Não precisa, — apesar de que ser carregada não era tão ruim — eu posso esperar alguém...

— Eu ia me sentir o pior dos seres se apenas abandonasse alguém tão determinado.

— Ah... — Lótus nunca tinha ficado tão feliz de estar errada sobre uma pessoa — obrigada. Eu sou a Lótus.

— Smoke.

— Por causa dos seus olhos cinzas! — Smoke concordou rindo, e Lótus ficou realmente feliz em descobrir algo sobre a menina misteriosa, mesmo sendo tão obvio.

Smoke ria de uma forma fofa e inofensiva, Lótus não conseguia entender porque pensara tudo aquilo antes de conhece-la. Correram por poucos minutos, a barraquinha já podia ser vista no horizonte. Lótus chegou à conclusão que Smoke deve ter treinado sua vida toda para correr sem suar, ainda mais levando peso.

A oficial de cabelos escuros analisava, anotava e carimbava inúmeros papéis em uma prancheta de metal. Se aproximaram dela, pensando o que falariam quando visse as duas daquele jeito.

— Parabéns por chegarem ao final. — Ela nem sequer olhou para as duas, muito menos demonstrou felicidade em seu tom de voz — nome?

— Smoke Floyd.

— Lótus Riverstyle.

— Essa corrida foi apenas para descobrirmos seus potenciais. — Ela olhou para as duas, esperavam que ela falasse agora, mas continuou a não ter reações — Vocês duas foram bem, o dormitório é aquele. — Ela apontou, sem olhar, para uma construção ao longe — entreguem esse papel na porta.

Ela esticou a mão entregando o papel, mas Smoke não podia pegar por estar com as mãos ocupadas garantindo que Lótus não caísse, forçando Lótus a se inclinar para frente e pegar os papeis. Agradeceram à oficial e foram em direção ao dormitório. Smoke não reclamara de carregar Lótus nem um momento, e continuou assim até chegarem a porta da construção.