Outono Enfumaçado
5 Cap 2 - Jantar, parte 1
Notas iniciais
Ao abrir os olhos, Aki percebeu que estava deitado de costas em uma cama dura. Olhou em volta, era um quarto para duas pessoas. Sua cabeça doía um pouco, o que dificultou ficar em pé.
— Bom dia, companheiro. — A voz grossa vinha de um menino pequeno e loiro que estava parado na porta — você apagou, hem. — Ele o observava rindo — eu sou seu colega de quarto, o Grande Thor. — Fazia poses exibindo músculos que mal existiam.
— Aki. — Fez de tudo para segurar o riso.
— Japonês? — Ele falou animado.
— É... — Não era normal saberem de onde era seu nome, por isso ficou surpreso com o comentário.
— Acabaram de anunciar que o jantar será as 19 horas, e que devemos ir de uniforme e limpos... — Thor passou por Aki e pegou duas toalhas, jogou uma em seu colega de quarto — Piores que minha mãe.
Aki pegou a toalha rindo baixinho. “Será interessante viver com esse cara”. Seguiu Thor pelo corredor, já que não conhecia o caminho, resolveu o usar como guia.
— Eu perdi mais alguma coisa? — Tinham que desviar de vários outros adolescentes no corredor, que estavam mais animados do que crianças em uma loja de doces.
— Todos os participantes já têm seus quartos definidos, e, graças a Deus — levantou os braços agradecendo — o dormitório é misto!
A cada passo que davam, parecia que surgia mais um garoto na porta dos quartos. Um dos amigos de Thor o agarrou, dando uma chave de braço. Aki achou hilário e injusto um garoto alto como aquele fazer isso em alguém tão pequeno e frágil.
— Thorzinho! Nem acredito que estamos no mesmo dormitório. — Thor tentava se soltar dos braços de seu amigo enquanto ria.
— Cai fora, Bratz!
Ele soltou Thor e o empurrou para o lado. Bratz não tinha o corpo forte como Aki, era magro como um palito, com os cabelos ruivos e encaracolados. Ele se aproximou de Aki e começou o analisar.
— Aki, certo? — Ele sabia que estava certo, e não deixou Aki o responder — Eu gravei o nome de todos do nosso dormitório...
— E meninas, quem são? — Os olhos de Thor brilhavam de curiosidade.
— Assim você parece um virgem desesperado. — Eles começaram a brigar de brincadeira. Observou que seguravam toalhas — Vão tomar banho? Vocês já sabem da maldição do banheiro? — Falou desviando dos socos maldados de Thor, capitando totalmente a atenção, não apenas deles, mas do corredor inteiro. Percebeu que era o centro dos olhares, limpou a garganta e continuou — Há dez anos, quando a primeira menina que foi aceita na Força ia tomar seu banho noturno, um grupo de rapazes resolveu pregar uma peça na inocente moça. Derramaram um balde cheio de banha de porco assim que ela terminou o banho... — Aki ouvia muitas histórias de terror na fazenda, mas eram todas inventadas pelo seu tio — ela entrou em desespero, quando tentou fugir, escorregou na banha de porco e caiu. Bateu de cabeça no grande espelho do banheiro, morreu na hora. — Ele deu uma pausa dramática — dizem que ela ainda anda pelo banheiro, vestindo apenas uma toalha, mas você só pode ver seu reflexo no enorme espelho... — ele elevou a voz — Todos aqueles que viram seu reflexo morreram afogados em banha no dia seguinte.
Todos estavam quietos, trocando olhares.
— Essa é.... — Thor estava pálido — A pior história de terror que já ouvi. — O corredor se estourou em risos — Você inventou isso agora, certo?
— Tinham que ver a cara de vocês! — Ele era o que mais ria — Eu demorei um tempo para pensar nisso, não a menospreze.
Aki e Thor continuaram andando para o banheiro, discutindo sobre a história anterior. Não havia porta que separasse o corredor do banheiro. Ao entrarem no chão azulejado, o cheiro forte de rosas misturado com vapor era forte. Perceberam que já haviam pessoas tomando banho nos dois primeiros boxes.
O banheiro era grande, e como na história de Bratz, um espelho enorme se estendia pela parede do banheiro.
— Sabia que se você colocar seu dedo no espelho e sua unha encostar na unha do reflexo, o espelho é falso — eles se aproximaram do espelho e apoiaram o dedo, a distância entre uma unha e o reflexo era pequena, mas existia — pelo menos sabemos que não estamos sendo observados.
Aki riu baixinho junto a Thor. Ambos perceberam uma movimentação no reflexo do espelho. Uma menina parada na porta do segundo box, vestindo apenas uma toalha vermelha, ela os observava, com olhos penetrantes. Cabelos compridos e brancos seguiam as curvas do rosto. Ela deu um sorriso torto, o que fez um frio subir a espinha dos dois meninos. Sabiam que a história de Bratz era invenção, mas aquilo era muita coincidência. Estavam com medo. Torcendo que ela fosse embora.
— Smoke, você pode pegar meu uniforme no quarto, por favor? — Uma voz suave veio do primeiro box, uma voz que Aki conhecia.
— Claro.
Smoke saiu do banheiro com a mão na cintura, ignorando os dois paralisados em frente ao espelho.
— Ela é real?
Thor falava com Aki, mas ele já havia andado até o box ocupado.
— Lótus? — Ele falou com a esperança de ela estar ali.
— Aki? — Ela relaxou ao ouvir sua voz — Estamos no mesmo dormitório! — Lótus pulava de alegria no chuveiro.
— Ah, sim.... Quem era aquela menina? — Mudou rapidamente de assunto, completamente interessado por Smoke.
— Quem? — Lótus sabia de quem ele falava, mas adorava se fingir de boba para ele.
— A de cabelos brancos. — Ele não entendeu que ela estava brincando.
— Minha amiga.
Aki começou a perder a paciência, queria fazer mais perguntas, mas ouviu passos vindo do corredor. Era Smoke já vestindo o uniforme marrom e amarelo, que ficava perfeito nela, e com uma sacola em mão. Aki saiu da frente e a deixou entregá-la a Lótus. Ela se apoiou na parede perto do box, esperando Lótus.
Os três trocaram olhares por alguns segundos em silencio.
— Então... — Thor tentava puxar conversa e quebrar o gelo — seu nome é Smoke, certo?
— É.
Thor esperava que ela perguntasse qual era seu nome em troca, mas continuou em silencio o encarando com os olhos esfumaçados.
— Eu sou Thor, e ele é Aki. Nós estamos no quarto D, e vocês? Estão dividindo um quarto também?
Smoke respirou fundo, como se tivesse desistido de evitar conversar. Thor e Aki sentiram uma pontada de vitória, mas não durou por muito tempo.
— Vocês não vão tomar banho? — Eles ficaram surpresos com a pergunta — tem outros quinze boxes livres.... Ou vocês querem usar esse em particular?
Lótus saiu do box vestida e com a toalha enrolada na cabeça. Smoke olhou em seu relógio. Já era quase 18 horas.
— Vamos?
— Sim. — Antes de sair do banheiro, Lótus aumentou a voz — Aki, nos encontramos no jantar!
— O.K. — a voz abafada dele vinha do fundo do banheiro.
As duas entraram no corredor. Vários meninos passavam por elas em direção ao banheiro, todos as analisavam, de cima a baixo, alguns tentaram puxar assunto, mas Smoke continuou a andar, ignorando todos. A única coisa que Lótus podia fazer era pedir desculpa e alegar que estavam com pressa.
Chegaram no quarto rapidamente. Lótus já estava cansada e queria dormir, mas se obrigou a ficar de olhos abertos. Lembrou da conversa dos dois meninos com Smoke.
— Você não acha que foi um pouco cruel o modo como você tratou os dois? — Ela não falou nada na hora por estar com vergonha, mas agora que estavam sozinhas, sentia que podiam conversar sobre tudo, mesmo se conhecendo a menos de um dia.
— O mundo é cruel. — Lótus não pareceu entender o que ela quis dizer com isso — Você conhece eles?
— Só um, o que tem cabelo curto e é bem alto. Ele é meu primo. — Lótus estava preocupada com que Smoke e Aki não se dessem bem, ela queria ficar perto dos dois — ele é bem legal, divertido, amigável... — Smoke não se importava nem demonstrava reação com os comentários — e solteiro.
— Eu não gosto de ter muitos amigos... — a voz dela era triste — quanto mais amigos, mais chance de lhe traírem. — Lótus a olhava, e de uma certa maneira, entendia o que ela sentia — mas, por ser seu primo, eu posso tentar. — Lótus sorriu de orelha a orelha, fazê-la feliz fazia Smoke se sentir bem.
— Então por que aceitou ser minha amiga? – Lótus não entendia porque Smoke foi legal com ela, mas não com os meninos.
— Hum.... Você é diferente. – Não foi uma explicação boa o suficiente para Lótus entender, continuou encarando Smoke, esperando mais – Assim... – Smoke olhou para Lótus – você é uma boa pessoa, e dá para ver isso nos seus olhos. – Ela sorria um pouco sem graça. O que deixou Lótus um tanto envergonhada e feliz.
— Olhos podem mesclar muita coisa, se você tentar olhar mais fundo, pode acabar se surpreendendo... — Lótus arrumava o cabelo — e, se caso alguém lhe trair, eu estarei lá para ajudar você.
— Obrigada. — Ela falou baixinho, mas Lótus ouviu e sorriu.
Smoke ficou envergonhada com o assunto, era nova com o lance de amizade. Em pouco tempo estavam prontas, então saíram do quarto conversando sobre comidas preferidas, e todos os pratos que Smoke falava, Lótus nem sequer havia ouvido falar.
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