Outono Enfumaçado
6 Jantar, parte 2
Notas iniciais
O salão de jantar era enorme, mas não estava nem perto de estar lotado. Aqueles ali presentes eram apenas os novos recrutas e alguns poucos oficiais selecionados para deixarem tudo em ordem. Lótus ficava na ponta dos pés procurando onde Aki poderia estar, mas, mesmo com tanto esforço, não o via em lugar algum. As mesas eram compridas, com bancos que a acompanhavam.
— O seu primo está sentado na segunda mesa, — Smoke olhou para Lótus com um sorriso forçado — se você quiser sentar lá, eu posso sentar em outra mesa...
— Vamos sentar juntas!
Segurou na mão de Smoke sem pensar duas vezes e a puxou em direção a mesa lotada de meninos. Smoke sorriu por dentro. “Ela é realmente única”.
Todas as mesas estavam equipadas com pratinhos, talheres e bandejas cheias de comidas. Os meninos à mesa conversavam quase gritando, falando de seus feitos em sua terra natal, enquanto comiam frango sem nenhum escrúpulo. Thor imitava algo parecido com um urso, enquanto Bratz interpretava algum cavaleiro segurando uma colher de escudo. Continuaram a rir sem perceber a presença das duas meninas no final da mesa.
— Hum... — Lótus chamou a atenção de todos, o silencio predominou e os olhares voavam de Lótus a Smoke continuamente — podemos sentar com vocês?
Eles continuaram em silencio, trocando olhares, esperando que algum deles falasse alguma coisa, qualquer coisa. Aki percebeu que a situação não iria adiante se não fizesse nada.
— Abram espaço para que elas possam sentar. — Em alguns instantes, os meninos que estavam do lado direito da mesa permitiram que elas sentassem no grande banco — Hey, — ele chamou atenção dos outros — essa é minha prima, Lótus. – Lótus sorriu e acenou para todos — E essa é.... — Todos ali provavelmente já sabiam quem ela era, tanto por chamar bastante atenção, quanto por ouvirem falar dela do Thor pelo incidente no banheiro — Smoke.
O silencio se pregou, e por segundos, podia se ouvir a conversa da mesa do outro lado do grande salão. Smoke não olhava para ninguém, mantinha a cabeça abaixada, podia sentir o peso dos olhos de todos em cima dela.
— Então... — Bratz foi o único que quebrou o silencio constrangedor — Vocês estão namorando? — Smoke levantou o olhar sem entender exatamente a pergunta, olhou para Lótus, que estava prestes a rir. Todos os outros garotos olhavam para Bratz, com vergonha de ele ter perguntado isso tão diretamente — Não! — Percebeu que sua pergunta estava diferente do que queria dizer — Quero dizer... “alguém”. — Ele ficou vermelho — outra pessoa.... Um cara, talvez... vocês podem se namorar também, eu não me importo...
— Bratz! — Thor o interrompeu — acho que elas entenderam. – Bratz então se calou e escondeu o rosto com a mão, tentando tampar o vermelho de suas bochechas.
— Não estou namorando ninguém — Lótus sorria encantadamente, deixando todos aflitos e aliviados ao mesmo tempo. Olharam então para Smoke, esperando uma resposta, esperançosos.
— Eu tenho um noivo. — Ela não sorriu, estava séria e olhando diretamente para Bratz.
Aki engasgou, Thor ficou boquiaberto e Bratz estava chocado. Lótus quase pulou do banco, surpresa, querendo fazer mais perguntas.
— Brincadeirinha. — Smoke sorriu, e todo o ar assustador que ela tinha, havia desaparecido, era, pela primeira vez, uma menina normal para os olhos dos outros — desculpa, só queria ver a reação de vocês. – Aos poucos começaram a rir, foi um susto e tanto
Então a conversa fluiu, sem mais constrangimentos e embaraços. Garotos tentavam conversar com as duas, mas Thor sempre atrapalhava para contar suas histórias.
Aki observava Smoke pelo canto do olho, quanto mais a olhava, mais percebia que seu coração batia mais forte. Alguma coisa nela o atraia, queria passar a mão em seus cabelos, queria tocar sua pele.... Aki não estava suportando ficar ali parado, apenas olhando. Por sua sorte, seus pensamentos foram atrapalhados quando o General chamou atenção de todos subindo em um palanque no meio do salão.
— Bem-vindos, recrutas. Novamente, sou o General Hendrick. Como já devem saber, aqui vocês vão estudar e treinar para se tornarem oficias da Força. E após se formarem, serão designados para outros campos pela Chapada. — Todos estavam em silencio, observando o General — As regras são simples: Todos têm deveres a serem compridos, em cada dormitório, há uma lista que separa as tarefas em dias e em duplas. O toque de recolher é as 21 horas durante a semana e 23 horas nas sextas e sábados. Durante esses quatro anos, vocês só poderão sair do campus nas férias ou caso ocorra algum desastre familiar. Essas são as principais regras, em cada quarto há um manual com as demais instruções. Podem continuar a jantar, vocês possuem uma hora para chegarem em seus dormitórios. — Hendrick começou a descer do pequeno palanque, então voltou exigindo silencio novamente — Mais uma coisa, lembrem-se o porquê de vocês estarem aqui. Vocês serão os novos heróis da história, então não traiam sua família, seus amigos e principalmente, seu país. Aqui dentro vocês podem errar, mas fora da Chapada não. Siga seu objetivo, a liberdade! — Ele se empolgava cada vez mais — Vamos extinguir os monstros para podermos viver fora desse “banco de pedra”! — Ele levantou a voz com determinação.
Todos ali presentes começaram a bater palmas, salvando os ideais do general. Ele então desceu do patamar e saiu da sala, levando consigo alguns outros oficias.
Aki o admirava, queria ser como ele um dia. Olhou a sua volta, todos estavam animados e determinados a lutar. Buscou os olhos de Smoke sem perceber, mas ela estava sentada, e ao contrário do resto, não se importava com o que o general falara, olhava para baixo, com uma feição triste. Ela então o olhou, se prenderam um ao outro por um momento, mas Smoke logo desviou o olhar para pegar uma maçã e sair da mesa.
Sem pensar duas vezes, Aki a seguiu, mantendo uma distância. Quando Smoke olhou para atrás, Aki subitamente se escondeu atrás de umas caixas grandes.
— Acho que ela não me viu... — parou para pensar um pouco — Por que eu estou me escondendo?
Ele levantou-se e procurou por Smoke, mas ela já havia desaparecido. Continuou a andar em frente, voltando ao dormitório, não valia a pena voltar para o jantar, estava cansado e queria dormir.
Ao chegar na porta do dormitório, percebeu que logo na entrada havia um quadro de avisos com uma enorme folha; os deveres de cada um. Procurou seu nome, para surpresa e felicidade, seu parceiro do mês era Smoke. Comemorou internamente, mas foi surpreendido com alguém falando com ele de dentro do corredor.
— Oi. — A voz doce fez com que se arrepiasse. Olhou diretamente para Smoke, que estava com o cabelo preso em um coque, as lamparinas fracas faziam seus olhos se destacarem mais que o normal, seu coração acelerou novamente — estamos juntos nos deveres esse mês, — ela olhou o quadro de avisos — parece que amanhã temos que arrumar o arsenal.
— É... — Sua voz saiu um pouco tremida, não sabia o que falar, mas queria conversar com ela, mais e mais.
— Aki... — ela estava um pouco envergonhada — sinto muito ter tratado você e seu amigo daquela maneira antes, espero que possamos ser amigos. — Ela esticou a mão sorrindo.
— Claro! — Segurou a mão de Smoke, sua pele era fria e macia. A segurou por muito mais tempo que o normal.
— Eu vou ir dormir... — eles se soltaram, um pouco constrangidos — boa noite.
— Boa noite. — Ela virou de costas e quase desapareceu no escuro — Smoke! — Ela olhou por cima do ombro — qual é o seu quarto?
— É o J. — ainda sorria.
— J. — falou para si baixinho — Até amanhã.
Ela apenas acenou sem nem mesmo olhar. Aki ficou feliz, queria pular de felicidade. Algo lhe dizia que ela era quem ele queria, quem ele precisava. Antes que pudesse perceber, estava no quarto, torcendo para que o dia seguinte chegasse o mais rápido possível.
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