Outono
2 William
Notas iniciais
Há cinco anos...
Minhas férias de verão não estavam muito longe quando tudo aconteceu, só mais dois meses e eu estaria livre dessa escola por três meses inteiros. A única coisa boa em tudo isso era Luan, meu melhor amigo e por quem eu estava perdidamente apaixonado. Luan estava de nove a cada dez pensamentos que eu tinha por dia. Ele era o tipo de garoto que todos querem ter por perto, é esportista, tem talento para as artes, um ótimo aluno e um ótimo amigo, sempre presente nos melhores e piores momentos da sua vida, sempre com um sorriso no rosto, até mesmo quando ele estava triste. Nós nos conhecemos no jardim de infância e depois disso nada conseguiu nos separar.
Naqueles últimos meses, eu e Luan estávamos mais próximos, passávamos todos os dias juntos, na escola e em casa, alternando um dia na minha casa e o outro na casa dele. Nossos pais se tornaram grandes amigos graças a nossa amizade, e isso facilitou muito a nossa vida. O mês de outubro foi um mês quente até mesmo para a primavera, nós íamos com frequência no clube de natação e eu lutava contra os meus hormônios de pular e beijar seu corpo malhado. e a cada dia isso foi piorando. O que tornava Luan único era que eu o conhecia completamente, eu sabia de suas fraquezas, seu lado sombrio e de seus medos. Nas noites que antecederam o que eu chamo de ocorrido, nós assistimos a filmes, e ele fazia questão de me fazer cafuné e carícias similares. Eu tinha 14 anos quando lhe contei que era gay, ele me aceitou da forma que eu era, e posso dizer que ele se tornou muito mais simpatizante das causas LGBT+ por conta deste fato. Acontece que ele era hétero, e eu sabia que o amor que eu sentia nunca seria correspondido, mas mesmo assim eu o amava, nem mesmo um clone exato dele, que pudesse retribuir esse sentimento, poderia fazer meu amor por ele diminuir.
Ele faria uma viagem com seus pais nas primeiras semanas de dezembro, para o interior de São Paulo, onde ele tinha parentes por parte de mãe. Ele passou o dia anterior junto comigo, nós passeamos pela cidade, tomamos sorvete e fomos até um parque passar o dia, acontece que nós não conversamos, ele não disse uma palavra o dia inteiro, a não ser um sorriso constrangido quando eu não parava de tagarelar ou perguntar sobre o que ele tinha. A noite foi uma surpresa, nós ficamos por horas nos encarando, e eu não aguentei mais e explodi, ele apenas gargalhou e depois ficou sério.
— Preciso que você feche os olhos e fiquei parado. — Eu olhei para ele com a testa franzida e com uma sobrancelha levantada. — É sério, e também tem que estender sua mão assim. — Ele fez uma concha com as mãos.
— Você tá muito estranho hoje, só faço se você me disser o que tem de errado com você.
— Tudo bem, faz o que eu falei você vai saber.
Eu fiz o que ele me pediu, fechei os olhos e mantive as mãos estendidas em forma de concha. O que ele estava pensando?
Senti algo gelado e com correntes pousar na minha mão, era um colar e isso eu não precisei de esforço nenhum para adivinhar. O que veio em seguida foi mais apavorante e assustador. Seus lábios tocaram os meus e eu me joguei para trás com o susto.
— O que merda foi isso? — Eu perguntei tampando a boca.
— Desculpa, pensei que assim seria mais fácil. — Ele olhou para os lados e não manteve os olhos fixos em mim. Ele estava com vergonha. — Eu fiquei curioso, só isso. Hã, olha o que eu te dei.
Ele desviou o assunto com maestria. Era um colar na minha mão, com a máscara de um personagem de jogo que ambos jogávamos. A máscara era branca em forma de ovelha com um símbolo roxo circular.
— Faz par com o meu. — Luan puxou o colar de dentro da camisa, o seu era em forma de lobo com o símbolo circular branco ao contrário do meu, de forma que eles se encaixavam. Eu coloquei o colar.
— É lindo, obrigado, Lu. — Eu agradeci e ele chegou mais perto. Eu ergui uma sobrancelha.
— Eu quero um abraço, pode ser? Te dei um presente, acho que eu mereço.
Não tinha como resistir ao pedido dele, ainda mais com aquela cara de manha que ele fazia, seus olhos caídos e com bico.
— Você parece uma criança louca por chocolate quando faz essa cara. — Seu bico se desfez em um sorriso largo.
— Obrigado. — Eu disse abraçando-o. Meu coração estava muito acelerado, e imaginei se aquele beijo pudesse acontecer de novo.
— Desculpa se eu te assustei, eu só queria saber como é beijar um cara, e bem, você é gay e meu melhor amigo, não pensei que pudesse ter algum tipo de problema. Confio em você o suficiente para ter feito aquilo.
Aquela noite foi a mais especial de que já tive com Luan, mas foi a última que tive com ele.
No dia seguinte ele partiu cedo da minha casa de volta para a dele, de lá ele saiu com os pais para a viagem que iriam fazer. Nós apenas conversamos por mensagem. O caminho para lá seria longo, e como eu e ele não tínhamos nada para fazer durante o dia, ficamos conversando.
Como Luan era meu único amigo, eu passava a maior parte do início das minhas férias jogando no computador, lendo livros ou até mesmo desenhando. Eu não ficava enchendo-o de mensagens pois ele tinha prioridades, como dar atenção para as pessoas que ele estava visitando. Eu tentava não me importar, mas os segundos longe dele pareciam horas. A primeira semana passou se arrastando, meus pais não tinham planos para as minhas férias, eles trabalhavam muito. Naquela semana eles deixaram algum dinheiro para que eu saísse no final de semana. Acho que eles nunca perceberam que eu tinha apenas o Luan para sair, e ele não estava ali. Não quis preocupá-los e saí para ver um filme e passar o dia fora.
O passeio foi uma grande chatice, aonde quer que eu fosse haviam casais se abraçando e beijando, trocando carícias e palavras de amor. Aquilo me deixou para baixo pois era tudo o que eu mais queria com Luan, dizer coisas fofas para ele, de verdade, não mascaradas de brincadeira como eu sempre fazia. Queria dizer que o amava, que levantava da cama todos os dias apenas para vê-lo sorrir, de como era lindo quando ele gargalhava e cobria a barriga com os braços se curvando de tanto divertimento que ele sentia. Voltei para casa frustrado e com a lembrança do toque dos lábios dele nos meus, e com o desejo de mais.
A noite tive um sonho intenso com ele, os desejos que eu sentia estavam cada vez mais difíceis de controlar.
Eu precisava contar a verdade.
Não importava se ele nunca mais fosse falar comigo, se eu fosse rejeitado — o que era certeza — ou que isso fosse levar a nossa amizade gradativamente a ruína. Enquanto eu não conseguia falar com ele, ou melhor, enquanto eu não podia, resolvi colocar tudo isso no papel, como uma forma de desabafo e aliviar um pouco toda aquela pressão que eu sentia.
Luan, já tem muito tempo que eu queria dizer isso para você, não sei se você vai entender, ou o que irá fazer depois disso, mas a verdade é... eu... eu te amo. Não foi algo à primeira vista, acho que isso aconteceu pelos momentos que passamos juntos, pelo sorriso que você me dava para me ver feliz, por você sempre estar ao meu lado e por me proteger quando eu não conseguia. Você tem a capacidade de ver o melhor em cada pessoa, e foi por isso que eu me apaixonei por você. não espero que você retribua, mas preciso que saiba disso, esconder isso de você não seria justo enquanto você é completamente aberto para mim.
Dois dias se passaram depois que escrevi aquela carta, e não só aquela, mas algumas outras, ele me ligou naquela manhã para avisar que já estava voltando e que chegaria a noite. Nós conversamos sobre muita coisa, ele principalmente, contando tudo o que fez na casa dos seus parentes, das festas que participou, brincadeiras e tudo mais. Eu estava ansioso pela volta de Luan, mas também estava muito assustado, em poucas horas eu contaria toda a verdade para ele.
A noite chegou e ele não tinha me ligado ou mandado mensagem, pelo que ele havia me dito eles já deveriam ter chegado, pensei que algo pudesse ter atrasado eles, meus pais estavam na sala e fui para lá, os créditos do filme que eles terminaram de ver subia pela tela preta da tv. E eles estavam se beijando.
— Eca. — Eu disse. — Pais não se beijam, vocês sabiam disso? — Eu ri.
— Querido você está ai a quanto tempo? — Minha mãe disse um pouco assustada.
— Acabei de descer, o Luan ainda não me ligou e já era para ele ter chegado.
— Você está com saudade dele? Vocês são muito próximos, quase não dá para separá-los. — disse o meu pai.
— Ele é meu melhor amigo, pai.
— Nós percebemos. — Eles riram. — Amor, já que você está de pé, pegue algo para que nós possamos beber. — Minha mãe disse entonando uma voz teatral.
Eu revirei os olhos e fui até a cozinha procurar algo para nós bebermos. Ainda tinha suco do almoço na geladeira, servi em três copos e fui até a sala, eu estava olhando para não derrubar os copos ou o suco dentro deles, enchi muito um deles e estava quase transbordando, uma tremida e cairia do copo. Os copos caíram mesmo assim, os três e se espatifaram no chão, virando cacos em meio ao suco. O choque veio da televisão, enquanto eu ia na cozinha, meus pais colocaram nos canais abertos em um telejornal da noite, a manchete junto com a foto de Luan e de seus pais me fizeram gritar.
Família sofre acidente em ponte na volta das férias.
Meu corpo estacou e começou a tremer, meus olhos estavam ardendo e minha garganta totalmente entupida. Em um momento que eu não me lembro meu pai estava ao meu lado e minha mãe estava ao telefone. Meu pai me levou até o sofá e me sentou, e eu comecei a ouvir a reportagem.
Robert Morais 45, e Susana Oliveira de Morais 40, voltavam de férias com seu filho Luan Oliveira de Morais 17, após passarem algumas semanas em casas de parente no interior de São Paulo. Segundo testemunhas o caminhão que está tombado aqui no meio da ponte tentou fazer uma ultrapassagem na contramão, Robert que estava no volante tentou desviar e acabou atravessando a mureta do viaduto Dr. Cardoso Sales. Os bombeiros foram rapidamente acionados por outros motoristas que passavam. Eles encontraram os corpos de Robert e Susana, o corpo do rapaz de 17 anos ainda continua desaparecido.
O corpo do rapaz.
O corpo de Luan.
O corpo...
Minhas pernas começaram a fraquejar e caí de joelhos no chão, senti um frio profundo me invadir, como se estivesse nu em uma noite de inverno. Meu corpo não parava de tremer. Alguém estava do meu lado me segurando mas eu não sabia se era minha mãe ou meu pai. Não conseguia enxergar nada, ouvir nada. O toque de quem começou a me carregar também estava desaparecendo, qualquer sentido que eu tinha estava me deixando.
Eu lembro de estar em movimento, algo se movia rápido como se eu estivesse flutuando, uma forma embaçada olhava para frente e para mim, enquanto outra parecia focada em algum objetivo. O movimento parou e então notei que estava dentro de um carro o som do freio inundou os meus ouvidos com um forte som agudo. As portas se abriram e um braço forte me carregou apressadamente.
A imagem da notícia me invadiu a cabeça novamente e eu lutava contra todas as forças para que aquilo não fosse real, eu tentava gritar, mas parecia que nenhum som saia da minha boca. Eu também tentei correr, mas alguma coisa estava me prendendo com a força de mil homens. Então veio aquela picada e eu fui tomado por uma escuridão que pensei ser a morte. E naquele momento eu pensei que encontraria o Luan.
Fiquei em observação por quarenta e oito horas. Minha pressão havia baixado e eu entrei em choque, logo em seguida eu tive um ataque de pânico enquanto os médicos me levavam até a sala de triagem. Agora não havia nada, literalmente nada. Mesmo depois de dois dias naquele hospital, meu pai me informou que os bombeiros ainda não tinham encontrado o corpo de Luan. Seus pais não haviam mesmo sobrevivido. Os familiares deles estavam ali para enterrar os dois juntos, e quando encontrassem Luan, ele seria enterrado ao lado deles. A cada pensamento que eu tinha de que nunca mais veria ele, que não tocaria mais o seu corpo, eu entrava em uma crise de choro, aquilo não podia ser real. Assim que eu fui liberado eles me levaram para casa, o velório e o enterro dos pais de Luan seriam no dia seguinte. Tudo estava estranhamente silencioso, e aquele silêncio era ensurdecedor.
No dia seguinte meus pais me me acordaram, eu não tinha vontade alguma de sair e fazer qualquer coisa, mas dali algumas horas seria o enterro dos pais do meu melhor amigo, aquele que era o meu amor secreto e que eu nunca poderia confessar o que sentia.
Eu tomei o meu banho e sai para vestir uma roupa social totalmente preta, com um blazer. Eu tinha olheiras fundas, não tinha dormido direito. Assim que me arrumei desci para encontrar com os meus pais.
— Filho, não terminou de se arrumar ainda? — Minha mãe perguntou.
— Como assim? — Eu perguntei de volta, surpreso por conseguir dizer alguma coisa.
Ela subiu as escadas enquanto eu fiquei esperando, e voltou com um pente e um pote de creme para o cabelo, ela arrumou meu cabelo de forma que ela o penteou para trás, deu um jeito no nó da minha gravata. ajeitou minhas mangas e limpou uma lágrima que escorria pelo meu rosto. ela me abraçou forte.
— Você terá que ser forte hoje. A perda que tivemos foi grande, mas temos que permanecer firmes em honra a eles, está bem?
Com esforço eu consegui olhar nos olhos dela e confirmar com um movimento de cabeça.
O local do velório estava cheio, familiares, amigos, colegas de trabalho, todos compartilhando da mesma dor. Nós cumprimentamos cada um deles, principalmente os familiares que nós conhecemos no verão passado num churrasco que o pai de Luan havia realizado. Eu me aproximei dos caixões assim que consegui, senti um enjoo terrível, vê-los daquela maneira, sem vida era aterrorizante para mim. queria que eles levantassem, e dissessem que aquilo não passava de uma horrível brincadeira. Depois que prestei minhas honras eu me sentei em um lugar qualquer, não lembrei de quem estava em volta. Havia um grupo de pessoas em pé na minha frente, eles conversavam, falando do acidente.
— Terrível o que aconteceu com eles.
— Realmente uma tragédia. Uma família tão bonita.
— Soube que o motorista que causou o acidente está vivo, teve apenas alguns arranhões.
— Um assassino desses deveria estar morto. Devia estar bêbado quando jogou o carro deles para fora da ponte.
— Vocês viram sobre o filho deles?
— Ainda não encontraram o corpo. Parece que a correnteza do rio o levou, e como é muito fundo os bombeiros não encontraram. Agora esperam encontrar ele as margens.
Meus olhos poderiam inundar quando ouvi sobre Luan, procurei chorar o máximo em silêncio que pude. Alguém veio me confortar, e eu não consegui ver quem era, tão pouco me importei, o amor da minha vida... aquilo era demais para mim.
Minha mãe trouxe algo para eu comer.
A tarde nós enterramos os pais de Luan. Houve discursos e palavras dos seus amigos mais próximos, eu não consegui chorar, já estava totalmente seco.
Dois dias se passaram desde que enterramos os pais de Luan, e os bombeiros ainda não tinham nenhuma pista de onde o seu pequeno e gelado corpo estava. Os parentes dele vieram todos os dias para dar notícias, principalmente para mim. E então no quarto dia decidiram dá-lo com morto, mesmo não havendo corpo. Alguns idiotas diziam que o corpo dele foi devorado por peixes ou algo assim, mas que imbecil acha que há peixes em um rio tão sujo? Eu estava na minha cama sentado apenas olhando o vazio, que era a única coisa que eu conseguia ver. Minha mãe passou pela porta e sentou ao meu lado.
— Os tios de Luan vieram aqui hoje mais cedo. Eles vão fazer uma cerimônia onde vão enterrar um caixão ao lado dos pais dele. Como uma representação de que agora ele está com eles. — Sua voz falhava. — Pediram para você dizer algumas palavras. Vocês eram muito próximos.
— Eu? — mantive minha expressão vazia. — Eu não sei se eu consigo, eu...
— Filho. — Ele disse pegando minha mão. — O Luan é o seu melhor amigo, e ele ainda está aqui. — Ela tocou o meu peito. — Ele está junto de você, todas as lembranças que vocês tiveram juntos, você vai carregar para sempre, mas você precisa se despedir dele. — Ele parou para limpar algumas lágrimas que agora escorriam pelo seu rosto. — Ele precisa que você siga em frente. Ele não iria querer você triste assim.
— Eu o amava, mãe. — Eu disse sem pensar. — Ele era muito mais do que um amigo para mim. E eu não consegui dizer isso pra ele.
Ela me fitou com mais tristeza nos olhos.
— Então diga para ele amanhã. Diga tudo o que você precisa dizer para que ele saiba, e assim vocês vão encontrar a paz juntos.
Eu concordei.
Durante o resto da tarde e da noite eu passei escrevendo o discurso fúnebre de Luan. Peguei o meu celular e abri o chat de nossas conversas, coloquei o ultimo audio que ele me mandou, três dias depois que eu tive notícia do acidente. Aquilo pareceu uma eternidade e mesmo assim tive dificuldade em escrever as últimas palavras e torci para conseguir dizê-las na manhã seguinte.
O dia amanheceu nublado, até mesmo ele estava triste com o que estava para acontecer naquela manhã. Não havia motivação nenhuma para levantar ou até mesmo dizer adeus para ele. Mas eu tinha que fazer. Eu tinha que encará-lo e dizer aquelas palavras. Minhas roupas já estavam prontas, mas decidi fazer diferente, peguei umas peças na minha gaveta, uma roupa que nós fizemos uma brincadeira, onde eu comprava as roupas para ele vestir e ele comprava as minhas. Vesti uma camisa de um uniforme de um filme que ele gostava muito, junto com uma bermuda branca.
Minha mãe não gostou, mas ela entendeu quando eu expliquei o motivo. E então fomos para o mesmo local onde nós enterramos os seus pais.
As pessoas me olhavam torto, provavelmente pelas cores da minha roupa, mas eu continuei ali, o padre que celebrava a cerimônia disse suas palavras e então deu as palavras para mim. Pude sentir todos os olhos me acompanhando enquanto em caminha até ficar de frente para o caixão e para todos eles. Eu podia ouvir alguns deles cochichando.
E então comecei.
— Eu não sei se algum de vocês sabem, mas o Luan odiava preto. Então vim com essa roupa que ele comprou para mim, pois achava que meu armário estava muito desanimado e que minhas roupas não sorriam para as coisas felizes da vida. — Eu fiz uma pausa e continuei. — Luan era um amigo muito leal, Ele me ajudou nos momentos em que eu me via sem saída, sempre estava disponível fosse a hora que eu precisasse, ele era capaz de arrancar sorrisos de qualquer um com suas brincadeiras, e isso era o que fazia dele especial. Não me lembro de vê-lo triste, sempre estava animado com alguma coisa, fosse um show, um filme ou um livro novo que lançaria dali vários meses. A cada dia que passava eu aprendi a amá-lo, e esse amor só crescia dentro de mim, e foi algo que eu não consegui dizer antes dele ir para essa viagem e que talvez ele nunca saiba. O breve momento que ele conseguiu proporcionar para mim, para todos nós, ficará conosco para todo o sempre, ele vai estar marcado em nossos corações. E para finalizar, em um de seus livros favoritos, havia um sábio e poderoso mago que dizia: "É possível encontrar a felicidade mesmo nas horas sombrias, basta se lembrar de procurar pela luz".
Eu não tinha notado que em todo o discurso lágrimas escorriam pelo meu rosto, de alguma forma eu sentia meu peito mais leve, mas também mais frágil e vulnerável. Todos se levantaram para jogar rosas em cima do caixão enquanto ele descia para deixar o símbolo de morte, de que Luan havia nos deixado e que nunca mais iríamos vê-lo.
Em um sussurro eu disse adeus, e a imagem dele sorrindo como sempre fazia apareceu na minha frente, e então desapareceu.
Quando voltamos para casa eu tirei a roupa que ele havia me dado e tomei um banho. Fui até o meu armário de roupas e tirei várias coisas que ele e eu havíamos colecionado. Os colares e anéis de séries e livros que gostamos, muitos dos exemplares que conseguimos autografado dos autores, ingressos de cinemas e shows, uma caixa com uma lista de tarefas que faríamos ao longo de nossa vida.
Coloquei tudo numa caixa grande que eu encontrei no sótão da minha casa, peguei algumas tintas e pintei a caixa, eu tinha certeza que ele odiaria aquela cor parda horrível. Escrevi o nome dele e o meu. As aventuras inacabadas de William e Luan. Coloquei todos os itens dentro, e por último peguei meu celular e ouvi pela última vez aquele áudio que ele me enviou.
"Oi Lu, minha internet móvel ta um lixo então não sei quando essa mensagem vai chegar para você, e o celular tá quase descarregando. Eu já estou voltando e tenho uma mega surpresa para você. *RISOS* e também queria dizer que eu não aguentava mais aquele povo chato, e estou muito ansioso para ficar com você jogando e tudo, bom até daqui a pouco... PAUSA LONGA Te amo."
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