Há 5 anos...

Quando encontrei aquele garoto lutando contra a correnteza do rio, não pensei duas vezes antes de salvá-lo, aquela correnteza não seria nada para mim. Ele lutou fortemente contra e consegui chegar nele a tempo, o tirei da água, mas não me parecia que ele iria aguentar muito, assim que o deixei na margem do rio, vi que em suas roupas encharcadas e a areia começavam a ganhar uma cor rubra. Um corte. Era profundo e estava no braço, por muito pouco não acertou a artéria do coração. Ele sussurrava alguma coisa, mas mesmo para os meus ouvidos não havia significado, não eram palavras. Se ele não fosse morrer por causa do corte, provavelmente iria morrer de hipotermia. Para sorte ou azar dele eu estava ali e não permitiria que isso acontecesse. Eu o mordi e deixei que meu veneno se espalhasse pelo corpo, O gosto do sangue era bom, mas eu era velho demais para sucumbir ao extinto. Passei minha língua pelo corte com a intenção de fechá-lo e funcionou. O peguei nos braços e levei-o comigo.

Há 4 anos...

— Como ele está? — Eu perguntei.

— Ainda não aceitou muito bem, e está se negando a se alimentar. — Rodrigo disse para mim.

— Ele vai ter de superar isso.

— Deve haver outra maneira. Se ele não quer se alimentar de sangue humano, talvez tenha outro jeito para saciar a fome. — Rodrigo era esperto, e tinha sim, não tinha muito tempo desde que Zena e Zafrina voltaram do norte contando sobre o que viram da família de seu amigo estadunidense.

— Você lembra do conflito que Zena e Zafrina participaram no norte? Aqueles tal de Cullen, eles não se alimentavam de pessoas. Zena me disse isso, eles se alimentavam de animais, tente isso e veja o que consegue fazer.

— Sim senhor. — Ele disse obediente e saiu do meu escritório.

Já se passara um ano que eu salvei o garoto de morrer afogado, ele ficou assustado, com medo, como todos fazem no início. Depois veio o ódio e a repugnância de saber no que se tornou, sem ao menos ter escolhido isso para o resto de sua vida. Haviam casos exclusivos, mas eram poucos.

A porta do escritório abriu novamente e me despertou dos meus pensamentos.

— Você deseja algo, Vinícius?

— Eu quero saber se tem problemas de eu ir dar uma volta na Paulista...

— Isso está fora de cogitação. As pessoas ainda não se esqueceram do que aconteceu, e quero evitar que qualquer tipo de testemunha reconheça você, com certeza houve alguma.

— Mas... você só pode tá de brincadeira. Ninguém me viu. — Ele me olhou com incredulidade. — Encontraram o corpo, e daí? — Vinícius protestou. — Todo mundo faz isso, Nicole, Agatha, Rodrigo... até mesmo você.

— Existem formas de esconder o que aconteceu. Você tem sorte de ter-me aqui para ocultar as provas. Se o concelho descobrir que os vampiros voltaram e criaram residência aqui, todos nós teríamos que nos mudar. Ou pior.

— Pior? Nada pode nos matar.

Claramente ele ainda não sabia da existência dos Volturi, Pensei que ele já tivesse descoberto.

— Não, eu tenho algo melhor para você. — Ele cruzou os braços e criou uma expressão de deboche. — Você acompanhará Rodrigo e o recém criado até o Pantanal e a Amazônia.

— Vou virar babá do esquisitinho, é?

— Ele irá aprender a caçar. Alimentar-se de animais pode aliviar o fardo de ele ter que se alimentar de sangue para sobreviver. — Vinícius rolou os olhos e entortou os lábios. Ele como humano não chamava a atenção, mas depois que se tornou vampiro todas suas características mudaram drasticamente. Sua pele tornou-se café com leite, seus olhos e sobrancelha ficaram mais retos, assim como seu rosto quadrado. Ele não tinha muita massa muscular e de longe era o mais forte de nós, mas entretanto tentar agarrá-lo ou alcançá-lo em uma corrida era impossível, além de ter despertado o dom de telecinese, poderoso o suficiente para controlar uma força de aproximadamente 500kg.

Rodrigo e Vinícius levariam o recém criado para as florestas, Nicole, Agatha e Bruna ainda não haviam voltado do Rio, apesar de não podermos andar no sol sem que os humanos percebessem, elas gostavam muito das noites cariocas, mas pedi para que elas voltassem aquela noite, com três membros fora, eu não podia acabar sendo surpreendido pelo clã rival.

Há 3 anos...

Eles voltaram da amazônia com a missão cumprida. O sangue animal sustentava o recém criado e parecia ser melhor do que matar pessoas, Rodrigo também experimentou a prática e decidiu optar por ela em apoio ao recém criado, já Vinícius não se viu saciado com essa dieta, segundo ele o sangue animal não matava a sua sede, fazia ela diminuir, mas era como se faltasse alguma coisa para ele. Assim que voltou a primeira coisa que fez foi caçar alguns humanos.

Todos estavam reunidos naquela noite, Vinícius, Rodrigo, Bruna, Agatha e Nicole. Era o dia de nomearmos o recém criado. Ainda humano ele perdeu as memórias e depois que virou vampiro ele não lembrava de nada, até mesmo as minhas lembranças humanas quase não existiam.

— Você não consegue se lembrar mesmo de nada? — Agatha perguntou com sua voz aveludada.

O recém criado negou.

— Talvez devêssemos chamá-lo de Gbabe Akangatu. — Vinícius sugeriu, todos olharam torto para ele.

— De onde diabos você tirou esse nome, garoto? — Nicole perguntou.

— Ah, é um feitiço de um livro que li. Lá esse apaga a memória das pessoas.

— Você tem problemas. — Nicole retrucou e Vinícius entortou os lábios para ela.

— Eu não me lembro de muita coisa.

— Talvez isso ajude. — Eu disse saindo da sala rapidamente para o meu escritório e voltando com algo nas mãos e estendendo para que ele pegasse.

— O que é isso? — recém criado perguntou.

— Estava na sua mão quando te salvei a dois anos.

O recém-criado analisou as pulseiras na sua mão, era em couro marrom. Haviam duas iniciais nela, W e L com um laço de infinito circulando-as. Ele estendeu e alisou cada uma delas, tentando ver se alguma lembrança surgia na sua mente. Vinícius se aproximou e olhou por cima dos ombros.

— Uma dessas letras deve ser o início do seu nome. A outra deve ser da sua namorada, ou irmão, irmã, parente.

— Sim. — Disse Bruna. — Nós podemos falar alguns nomes e você vai tentando lembrar. Que iniciais são?

— W e L. — O recém criado respondeu.

— Walt Disney e Loreal Paris. — Vinícius pronunciou, mas ninguém deu atenção.

— Talvez um deles seja William, você disse esse nome enquanto se transformava. — Eu confirmei para ele.

— Você acha que esse pode ser a outra pessoa? — O recém-criado indagou.

— Por que outra pessoa e não você mesmo? — Vinícius perguntou.

— É óbvio. — Rodrigo respondeu. — Por que ele ficaria repetindo o nome dele várias e várias vezes? É claro que é outra pessoa.

— Então o L é o seu nome. — Agatha disse. — Talvez Lucas, Luciano, Leonardo, Lorenzo. — Ela disparou.

Nenhum pareceu familiar para ele.

— Esse que você disse. Lucas. Gostei desse, eu acho.

— Então era esse o seu nome? — Nicole perguntou.

— Não sei, mas esse não me é estranho.

— Então se você gostou deste, que seja Lucas.

O recém-criado abriu um meio sorriso, fitando as pulseiras. Todos pareceram ficar muito felizes, até mesmo Vinícius ameaçou a sorrir, as meninas ficaram em volta dele e Rodrigo também se aproximou. Vinícius fitou aquela cena e o pequeno riso morreu, dando lugar para lábios tortos de raiva e olhos de ódio. Ele saiu da sala e apenas o segui.

Notas finais
Espero que estejam gostando, comentem o que vocês acham. Agora os mistérios começarão.