Há 5 anos.

As semanas que se seguiram a morte de Luan foram as mais difíceis. Mesmo aceitando a morte dele, saber que eu não o veria no dia seguinte, e nem no próximo e nem no próximo, era insuportável. Todas as noites havia sonhos e pesadelos onde ele me visitava. Em alguns nós estávamos jogando videogame no quarto dele, em outros nós namorávamos e no pior de todos eu o via morrer no acidente ou a começar a sangrar na minha frente. Nesses eu acordava assustado e chorando, meus pais criaram a rotina de vir me acalmar e me fazer a voltar dormir.

A família de Luan e seus pais eram muito religiosa, sempre que tinha uma cerimônia eu comparecia, em respeito a lembrança de quem eles eram, eu dava apoio a família deles e recebia conforto, a nossas dores eram as mesmas, os avós de Luan por parte de pai ainda estavam muito chocados de perderem o filho, a nora e o neto tão cedo. Da parte da mãe de Luan apenas seu irmão mais velho e a família da irmã mais nova estavam vivos e que também compareceram na cerimônia, a nossa perda nos unia e eu não me sentia tão só quanto nos outros dias.

Após dois meses nada havia mudado, os sonhos continuavam os mesmos, e o vazio em mim só aumentava. A caixa que eu havia criado com nossas coisas começou a ser um pesadelo real e ela não me trazia mais alívio, apenas medo era o que eu sentia quando a fitava dentro do meu guarda-roupas. Isso começou a assustar meus pais, principalmente quando comecei a ter ataques de pânico, tanto na rua quanto em casa.

Com seis meses eu já tinha mudado drasticamente, eu perdi peso, ficando mais magro do que eu já era. Meus olhos tinham olheiras escuras e fundas. Eu fui péssimo nos vestibulares de fim de ano e não consegui ingressar em nenhuma faculdade. Meus pais muito preocupados me levaram em psicólogos e psiquiatras. Comecei com remédios antidepressivos, e a fazer tratamento regularmente. Tudo isso me cansava. E a única coisa que eu pensava era desistir de tudo, mas meus pais ainda me proporcionaram alguma luz, sempre que eu pensava em desistir da minha vida para me juntar a Luan eu lembrava de seus parentes e de como um acidente que tirou sua vida os tornou menos felizes, e eu não poderia simplesmente por um desejo egoísta abandonar os meus pais, e a minha família. Pensei em tentar ser mais ativo durante os dias, mas ainda tudo era cansativo e eu não conseguia encontrar prazer em nada. Tirei forças que não tinha para correr junto do meu pai no parque da cidade, de jogar basquete com ele e os filhos de amigos dele. Também passei a ir em encontros de leitura que minha mãe fazia. Era um grupo que escolhia um livro e nos fins de semana fazíamos uma reunião e comentamos o capítulo da semana. Aos poucos fui me recuperando, e eu acabei descobrindo que não tinha perdido o Luan para sempre e que uma parte dele viveria para sempre dentro de mim.

Há 4 anos...

Meus dias foram se tornando mais fáceis, mas não era 100% do dia que eu ficava bem. Enquanto ocupado eu não tinha tempo para pensar em Luan. Eu ajudava minha mãe em casa, mas isso só até o horário do trabalho dela. Meu pai saia muito mais cedo e o único tempo que eu passava com ele era nos finais de semana quando jogávamos basquete. Eu não era bom no esporte, mas também não era ruim, não marcava pontos, apenas passava a bola e deixava os outros fazerem o resto. Os filhos dos amigos do meu pai eram gentis, menos Caio, ele nunca aceitou o fato de eu ser homossexual, mas nem mesmo seu pai tinha problemas com isso, tanto que ele o repreendia quando o garoto me faltava com respeito. Os demais não tinham problemas com isso. Fora da quadra Hugo, um rapaz alto, pele de mogno e olhos castanhos claros flertava comigo, eu notava isso e sempre me esquivava, eu não estava pronto para isso ainda.

No final do ano seguinte meu pai aceitou uma proposta de promoção no trabalho, isso nos deu menos tempo para passarmos juntos. Os basquetes de final de semana acabaram, ele era o único motivo que me fazia jogar, eu parei de praticar o esporte e apenas continuei com o clube de leitura com a minha mãe.

Na manhã do primeiro de dia de março eu ouvi minha mãe ao telefone, e o assunto parecia ser sobre mim.

— Sim, ele teve uma recaída, nós não sabemos o quanto ele pode piorar. Meu menino sofre muito.

Ela parou para ouvir a resposta.

— Você acha? Eu não me importaria... Quero o melhor para ele, acho que um ano não fará mal. Tudo bem, até logo.

Eu terminei de descer as escadas e ela me olhou surpresa.

— Você estava aí, querido. — Ela me abraçou e afagou meus cabelos.

— Vim beber um copo d'água. Menti. — Quem era no telefone?

— Sua tia Catarina, lembra-se dela? Ela veio aqui fazer uma visita quando você tinha uns 10 anos.

— Sim, lembro dela sim. O que ele queria? — Indaguei.

— Tem algo que eu preciso falar com você. — Permaneci em silêncio e então ela continuou. — Estava pensando em deixar você passar algum tempo na casa da sua tia, sabe, ela tem um sitio, lá você poderá descansar, terá alguém sempre por perto. Não pense que eu estou falando isso porque não quero você aqui, mas porque o amo muito e quero te ver feliz.

— Eu tenho que estudar, mãe. Logo vão ter mais provas de vestibulares e eu preciso estar pronto, e também tenho que conseguir um emprego e... — Ela me cortou abraçando minha cabeça.

— Não, não, não. Você não precisa se preocupar com nada disso agora. Acho que um tempo lá te fará bem, descansar um pouco, tirar toda essa energia que pesa no seu peito.

— Não sei, mãe. Eu quero ficar aqui... eu.

— Vou falar com o seu pai.

— Mãe, por favor. A gente ainda tem o clube de leitura.

— Vai ficar tudo bem. Não se preocupe com nada. Só quero que você melhore.

Eu abaixei os olhos, fui até a pia e bebi a água que eu havia mentido que pegaria.

— Tudo bem. — Eu limitei a responder e fui para o meu quarto.

Fiquei lá pelo resto da tarde, meu pai só voltaria a noite e a minha mãe quando o sol estivesse se pondo. Passei o dia na internet, vendo vídeos aleatórios, e ouvindo música. Tinha muito tempo que eu não via a minha tia, pesquisei por ela nas redes sociais e encontrei seu perfil no Facebook. Ele era público, então tive acesso a todas as postagens dela, fotos e vídeos. O sitio dela ficava no interior de São Paulo, ela cuidava de cavalos, mas haviam muitos animais lá. Os finais de semana parecia sempre ter churrasco, e com os vizinhos que tinham por perto. Eu tinha um primo e duas primas por parte dela. Camila, Natália e Roberto. A mais velha era a Camila com 22 anos, aí vinha o Roberto com 19 anos e a Natália com 13 anos.

Camila lembrava muito a minha mãe, o mesmo tom escuro e ondulado de cabelo, o rosto fino e os olhos amendoados, acho que elas herdaram essas características da minha avó, se colocassem as três lado a lado você poderia dizer que eram a mesmas pessoas em tempos diferentes da vida.

Roberto puxou o pai, alto e forte, com os cabelos loiros e olhos azuis, um porte físico de dar inveja em qualquer um que se preocuparia o suficiente para esculpir seu corpo em uma academia. Em uma foto mais fechada do rosto notei que ele tinha leves sardas.

Natália também puxará os aspectos do pai, mas seus olhos eram castanhos como de sua mãe e irmã. Os cabelos também eram cacheados e seu rosto redondo, ela tinha as mesmas sardas que de Roberto, porém eram mais marcadas.

De repente uma questão veio a minha cabeça. Eu era completamente aberto sobre a minha sexualidade, meus pais não tiveram problemas com isso, o irmão do meu pai também não, apenas a esposa dele que não concordava. Meus avós também por parte de pai também não gostaram de ter um neto homossexual. Eu não via essa minha tia desde os meus dez anos, e eu não sabia o pensamento dela sobre isso. Eu não iria para casa dela se fosse para sofrer algum tipo de discriminação, isso eu deixaria bem claro. Ainda no Facebook, para um pouco de alívio tinha uma foto do meu primo com um menino segurando a bandeira LGBTQ, e na descrição da foto dizia: "Obrigado por me aceitar como sou, você não é só um amigo, é um anjo."

O garoto parecia estar em todas as fotos da família desde então, isso podia ser um bom sinal, mas ainda não tinha certeza de nada.

Minha mãe voltou no final da tarde e eu a ajudei a fazer a janta, era agradável de cozinhar junto dela. Nós fizemos frango a milanesa, arroz, feijão e batata ao forno. Ela usou uns temperos que eu não conseguiria reconhecer em lugar nenhum. No jantar quando meu pai chegou ela teve aquela conversa com ele.

— Eu estava pensando em deixar o William no sítio da minha irmã esse ano. — Ela contou seus planos para ele com empolgação.

— Na Catarina? Por quê?

— Só até as energias melhorarem, vai ser bom para ele. — Seus olhos caíram em mim com compaixão.

— Mas um ano? E os vestibulares, o emprego?

— Eu disse a mesma coisa para ela, pai...

— Não! — Ela objetou. — Nosso filho precisa de um tempo para ele. É jovem, tem muito tempo para esse negócio de emprego e faculdade, deixe que ele esvazie a mente. — Meu pai quase revirou os olhos.

— Você é muito fraca com essas coisas, amor. — Meu pai disse levando a comida à boca.

— Como disse? — Minha mãe perguntou em tom ameaçador.

— Hã, eu quis dizer que você é gentil, princesa. — Meu pai tentou esquivar.

Minha mãe garfou a comida com um olhar ameaçador para o meu pai, ele se encolheu com um risinho.

— Deixe que o garoto decida. Nós somos pais dele, não donos.

— Está bem, decida até sexta feira, caso você queria ir sua tia virá te buscar no domingo. Entendeu?

— Entendi, mãe.

A janta terminou e deixei os dois a sós e fui para o meu quarto. Lá continuei navegando pela internet, alguns colegas de classe vieram perguntar como eu estava depois de passado dois meses da partida de Luan, menti dizendo que estava bem. Marcaram de sair na sexta, mas eu recusei.

Passei a semana arrumando o meu quarto, separando algumas roupas e colocando em uma mochila. Não tinha decidido ir para o sítio, seria uma decisão de última hora. Conheci um pouco mais da família da minha tia, conversei com ela por mensagem, assim como o meu primo, a notícia de que eu iria para lá já tinha corrido, e o entusiasmo deles era de como eu já tivesse aceitado. Mesmo com a felicidade deles eu me contive em não dar certeza de nada.

A sexta feira chegou e com isso minha tia já estava a caminho, chegaria no meio da tarde para fazer a visita e me levar. Eu tinha decidido ir, mas não tinha contado para minha mãe ou para o meu pai. Eu levantei da cama e fui para o banheiro. Me higienizei e reparei no espelho o quão magro eu estava, com os olhos fundos e com o cabelo sem cor. Troquei e fui até a cozinha tomar meu café.

Minha mãe já estava de pé, arrumando a mesa para mim.

— Bom dia filhinho da mamãe, coisa fofa. — Ela veio apertar minhas bochechas e me encher de beijos.

— Bom dia. Não, baba de mãe, eca! Eu não sou mais um bebê. — Eu disse tentando me desvencilhar dela.

— Deixa eu mimar você em paz. Você é igualzinho o seu pai.

— E então já se decidiu? Vai ir ou ficar?

— Eu vou com a tia, talvez um ano me faça bem. Ela chega quando?

— Umas 15h da tarde. Ela vai ficar tão contente.

Eu dei um pequeno sorriso para ela. Tomei o café e ajudei minha mãe em algumas tarefas diárias, e a preparar a casa para recebermos a sua irmã. A tarde estava demorando para chegar, e eu percebi então que eu estava ansioso. Subi para o meu quarto e verifiquei se tudo estava em ordem, tanto o meu quarto quanto a minha mala de viagem. Nós já estávamos no outono, mas os dias permaneciam quentes. As chuvas eram frequentes e no interior o tempo mudava mais, de modo que a minha mala tinha roupas para o calor e frio.

Ainda tinha muito tempo para o almoço e muito mais para a chegada da minha tia. Calcei um converse e sai.

Andei pelas ruas do centro atrás de uma florista, havia uma loja no centro, pequena, espremida entre uma farmácia e uma loja de ótica, comprei um buquê de Dalilas. Aquelas eram as flores favoritas de Luan. Passei no cemitério onde enterramos o meu melhor amigo, em frente ao seu memorial estava escrito "Um grande amigo e inseparável companheiro". deixei as flores sobre a pedra que marcava seu nome, data de nascimento e falecimento.

Eu me sentei.

— Eu vou embora. — Comecei a dizer. — Preciso ir, sinto muito por deixar você sozinho, mas todos esperam que eu faça algo com a minha vida, se a decisão você somente minha, se eu vivesse somente por mim, com certeza hoje eu estaria aí com você. Infelizmente eu não posso. Então eu irei embora, mas só por um tempo. Tenho coisas pra fazer, você conhece os meus sonhos tão bem quanto eu conhecia os seus, vou realiza-los por nós. A vida é difícil sem você...

Caminhei lentamente para casa, não tinha pressa. O dia estava agradável e tinha vários meses que eu não o via assim, o sol estava forte, mas não me incomodava.

Quando cheguei em casa já eram duas horas da tarde, minha mãe perguntou onde eu estava.

— Você passou muito tempo fora, eu já estava ficando preocupada. Sua tia já está quase aqui.

— Só fui das uma volta, nada de mais. — esclareci. — Vou tomar banho.

— Tudo bem, mas se apresse.

Tomei banho apenas para tirar o suor do corpo, e por que minha mãe sempre dizia que deveríamos fazer isso quando voltamos de um cemitério. Nunca entendi o porque. Troquei de roupa e ouvi uma buzina na frente de casa. Uma agitação na parte de baixo da casa e eu percebi que era a minha mãe, ela era a única pessoa que podia fazer barulho e parecer dez.

Eu esperei no pé da escada.

Elas entraram. Minha tia era um pouco mais alta do que a minha mãe, seu corte de cabelo era chanel médio, batendo na altura da clavícula, a semelhança nos olhos de ambas era incrível. Ela usava uma camisa com um estampa de flores, uma calça jeans e um tênis.

Ela abriu um largo sorriso e veio me abraçar.

— Eu não acredito, olhe só para você, é maior do que eu imaginava. — Ela dizia me abraçando com força e balançando, seu perfume invadiu minhas narinas de um jeito suave.

— Geralmente dizem ao contrário. — Eu comentei sufocado pelo aperto do abraço. — Você é parecida com a minha mãe.

— Só que eu sou um pouquinho mais bonita. — Ela sussurrou no meu ouvido. — Ela não pode ouvir isso, se não ficaria louca.

— Também tem alguém pra você conhecer, querido. — Minha mãe disse.

No mesmo instante Roberto passou pela porta, alto e forte, os cabelos loiros bem penteados, agora eu podia ver muito bem as sardas que ficavam na região do nariz e abaixo dos olhos, seu cabelo tinha mais a cor de cobre agora do que loiro. Ele tinha uma barba bem aparada do mesmo tom do cabelo.

— Tudo bem? — Ele me estendeu as mãos, e eu o cumprimentei. Ele apertou com firmeza.

— Tudo. — respondi apenas.

— Vamos, eu fiz um lanche para nós. — Minha mãe disse com euforia.

Minha mãe foi com a minha tia, alegres e gargalhando. Eu ergui as sobrancelhas para o Roberto e segui na frente.

A mesa do lanche estava realmente muito linda. Dois bolos decoravam a mesa, com uma jarra de suco, pães muito bem dispostos em uma bandeja, queijo e presunto, assim como outras frutas. Minha mãe caprichava quando fazia esses lanches para nós nas tardes de final de semana, mas naquela ela tinha se superado. Com certeza ela tinha a intenção de impressionar a irmã.

O café foi bom, minha tia contou algumas coisas que eles fazem na fazenda, a maioria me fez querer desistir. O trabalho no sítio parecia ser pesado e alguém magrelo como eu não duraria muito tempo.

— Bom, é melhor nós irmos, chegaremos lá a noite. — Catarina disse após terminar de comer. Roberto também parecia ter terminado e ficava me observando.

— Mas já? — Minha mãe indagou. — Por que não dormem aqui e vão logo pela manhã? O will precisa se despedir do pai.

— Onde está o Christian? Pensei que ele chegaria logo do trabalho.

— Não, ele chegará só perto das 21h.

— Ele recebeu uma promoção no emprego tem poucos meses, e agora ele trabalha mais. — Minha mãe explicou.

— Espero que ele não esqueça da família como acontece nos filmes. — Minha tia comentou.

Catarina e Roberto decidiram esperar pelo amanhecer, assim eu teria como me despedir do meu pai.

Enquanto esperávamos pelo meu pai levei Roberto para o meu quarto. Minha mãe nos entregou um colchão inflável, nós o enchemos e deixamos do lado da minha cama com um travesseira e cobertas limpas. Eu liguei o videogame e nós passamos um tempo jogando e conversando. Ele era muito simpático, e muito delicado em suas perguntas, notei que ele estava me estudando.

— Você faz faculdade por lá? — Eu indaguei. Consegui acertar um combo de golpes no personagem que ele controlava.

— Não, eu to fazendo cursinho lá, quero cursar psicologia, mas não tenho dinheiro para pagar uma faculdade particular, tentei passar na USP duas vezes, mas não consegui, esse ano vou tentar de novo.

— Espero que você consiga. — Foi a vez dele me acertar um combo de golpes seguido de um especial.

— E você? Já tem ideia do que vai fazer?

— Não, eu ainda não sei. Queria algo que envolvesse jogos, talvez.

— Se você gostar, tente. A felicidade é algo que vale a pena ser vivida.

Meus lábios se repuxaram.

Meu pai logo chegou e recebeu minha tia e meu primo muito bem, eles conversaram enquanto Roberto e eu nos arrumamos para dormir.

Na manhã seguinte eu me despedi dos meus pais, não foi algo fácil de se fazer, eu fiquei triste por deixar minha mãe. Ela passaria muito tempo sozinha com meu pai trabalhando tanto. Mesmo ela dizendo que haviam várias coisas para ela fazer. Eu abracei os dois e então segui para o meu destino.

Depois que os perdi de vista no horizonte, não olhei mais para trás.

Notas finais
Espero que estejam gostando, comentem o que acharam do capítulo, o feedback de vocês me incentiva muito a continuar a escrever.