Outono
1 Prológo
Em todos os meus pensamentos sobre a morte, aquele que eu pensei ser o mais adequado, seria morrer no lugar da pessoa que eu mais amo.
O maior ato de amor que alguém poderia realizar.
Essa imagem muda rapidamente quando a morte envia seus escravos e você os encara, com seus punhos de ódios e palavras cortantes, o pior disso é saber que você não irá morrer no lugar da pessoa que ama. Vocês irão morrer ali, juntos. Enquanto corríamos dos lacaios, a mão de Pedro me puxava, ele não iria me soltar, e nem eu dele, acompanhar sua corrida era difícil, ele tinha um porte atlético melhor, ele poderia fugir facilmente, mas eu estava ali, o arrastando para a morte. Eu poderia morrer por ele ali, para que ele respirasse mais um dia, mas se eu ficasse para trás, ele iria me empurrar e me colocaria para correr, ambos estávamos dispostos a morrer para o bem do outro.
O ritmo da corrida era muito para mim, eu tropecei nos meus próprios pés, caí. A minha mão agarrada a de Pedro o puxou para baixo. Eu era a âncora de sua morte. O último movimento que o vi fazer antes daquilo aparecer foi seu corpo passar para a frente do meu e se curvar, formando um escudo humano. Os passos dos lacaios ficaram mais próximos e um espaço de tempo entre as passadas determinou que Pedro levaria um chute, mas isso nunca aconteceu, apesar de ouvir o som de corpos se chocando. Os sons que se seguiram foram de gritos e socos. Os braços de Pedro me seguravam com uma força que eu desconhecia e que nem mesmo em um surto de adrenalina eu poderia me soltar. Afundei meu rosto em seu pescoço. O som atrás de nós se intensificou, alguém gritou como se estivesse caindo de um prédio e seu som ficou distante, um outro sinalizou que alguém havia se chocado contra alguma parede, e em seguida um estalar de ossos e um guinchado agonizante inundou nossos ouvidos.
Pedro deslocou seus braços me soltando ao mesmo tempo que virava para saber o que estava acontecendo. Uma figura escura lutava contra aqueles homens, três estavam no chão, logo notei que eram quatro, havia um caído próximo a parede de uma loja. Pedro estava tremendo. Me ajeitei de joelhos e passei a mão para a sua barriga, seu braço instintivamente laçou o meu pescoço, sua outra mão me segurou pela cintura e ele me colocou de pé, mas ele não me sustentaria por muito tempo, estava tremendo muito. Eu me tornei o apoio dele.
A figura a nossa frente segurava o último homem pelo pescoço, não importava os pontapés e socos que o homem aplicava no braço que o segurava ou no corpo, a imagem encapuzada parecia não sentir. Em um movimento rápido o pescoço estalou e o corpo do homem caiu ao chão como se fosse um boneco de pano. A figura encapuzada parecia nos encarar, suas mãos tiraram o capuz revelando uma máscara, seus pés o levaram para trás, colocando-se sob a iluminação de um poste e revelando cabelos perfeitamente cacheados, um vento soprou sua capa dando um drama na cena e então ele desapareceu.
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