Otello - Sonho de Uma Nova Melodia
2 Capitulo 1 - Paranóia
Sempre contei nos dedos os dias que via minha mãe perdendo a vida de tão fraca como estava, os olhos lindos da cor do mar pareciam nuvens brancas de um dia ensolarado, coisa que raramente tinha em nosso céu. Percebia que logo logo não teria mais volta, era hora de assumir o posto de "irmão mais velho" nesse momento, vendo as minhas duas irmãs chorando perto do semi-cadáver implorando aos céus para que ela não parta...Crianças... O que eu tinha medo era da não conseguir me impor diante delas como o novo chefe da casa, pois sabia que mais cedo ou mais tarde teria que assumir essa responsabilidade, e eu já estava ao contrario do que muitos pensam, pronto para ocupar o cargo de "chefe", elas teriam que me respeitar e fazer tudo que eu ordenasse, já sentia que o poder chegava mais perto de mim a cada instante, só era questão de minutos.
Quando diante dos meus olhos eu vejo aquela mão frágil dirigindo-se a mim, e guiando-se por aquele dedo esquelético, os olhos das minhas duas irmãs, um sussurro cortou o choro dizendo palidamente: "Orpheu...Cuide bem das suas irmãs", em questão de segundos a voz emudeceu e o dedo foi-se ao chão como pedra, no mesmo tempo que me assustava aquela cena, eu me sentia com um peso nas costas, era o peso do poder? A morte era algo normal para mim, me acostumei depois de ver meu cachorro ser decapitado e servido de jantar para nossa família, meu pai despencando de um precipício e sua cabeça na noite seguinte sendo degustada pela minha mãe, até uma mosca morta era uma "refeição" feliz, agora teríamos que "comer" o corpo de nossa mãe? De quem nos carregou durante 9 meses cada? Mas afinal, o que acontece comigo? Não era eu quem desejava tanto o poder? Não era eu quem desejava estar no comando? Por que isso me incomoda agora? Será pelo fato de ver tantas mortes ou pelo fato de minha mãe ter morrido? Quanto mais eu pensava, mas incomodo e pesada minha cabeça ficava, e junto com ela o choro das minhas irmãs pesavam junto, parecia que minha cabeça iria se abrir, foi quando não suportei, e gritei com todas as minhas forças: PAREM COM ISSO! Elas se calaram, e foi quando eu percebi que pareciam estatuas olhando para mim, e as lagrimas jorrando de seus pequenos olhos. O que houve afinal das contas? Parecia que nada de anormal havia ocorrido, estava tudo bem, minha mãe apenas morreu, só isso, todos nós estávamos acostumados, era nosso dia-a-dia por ali, não havia como mudar aquilo, é a lei do sacrifício e teríamos que segui-la contra nossa vontade. As duas continuavam olhando para mim, como se eu tivesse a face de um assassino: "Que merda! Por que olham tanto para mim?" Mas nem respondiam, nem mesmo quando eu praguejava em tantos termos feios que eu ouvia, elas se mantinham o olho fixo para mim, me assustava. Meu corpo começava a ficar como o olhar delas, pálido, seco, duro, um movimento era como se tivesse uma faca perfurando o meu corpo disparada pelos olhos delas. A do meio se aproximou, meu corpo não se movia nem por vontade própria, parecia que eu tivesse perdido ele, como se tivessem o arrancado de mim, e ela mais se aproximando, agora quem chorava era eu, de tanto medo. Ela da mais um passo e olha fixamente para os meus olhos, dizendo numa voz fria: "Quando você vai com a mamãe?" Isso soou como uma bala perfurando o coração, a minha vista ficou mais uma vez embaçada e com isso tudo ficou escuro, apenas sentia minha cabeça batendo no chão duro.
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