Os órfãos de Nevinny Vol.2
15 A teoria em Eldermist
O silêncio dentro do veículo está tão denso que o tique-taque do relógio no pulso de Feralício parece uma batida de martelo. Lá fora, o parque começa a ser engolido por uma névoa condizente com a temperatura da tarde. Você pressiona a testa contra o vidro frio, tentando isolar o barulho do motor para buscar, mais uma vez, o ritmo metálico dos trilhos. Porém não ouve nada. Assim como o silêncio dentro do carro emitido por todos. Sem assunto, sem uma tentativa sequer de se iniciar uma conversa, como se fosse aquele minuto de silêncio clássico de um funeral de alguém.
Também, não é pra menos, todos apanharam você na mentira que contara dizendo uma inverdade pra uns e uma inverdade pra outro. Dentro do mesmo ambiente, não tem nem onde enfiar a cara. Por que foi fazer isso?
— Eu só… — você começa, mas a voz sai como um estalido seco interrompendo o final da frase.
— Eu só nada, S/N. Tem noção do que você estava prestes a fazer? Você enganou a todos nós e veio parar num lugar bem afastado, no limite da cidade. Tem noção do perigo que estava correndo? — Joseph reclama quebrando o silêncio no interior do veículo.
— Mas eu só…
— Essa parte isolada fica no limite da cidade por algum motivo. Ainda mais no meio da floresta. Você podia se perder e sei lá mais o que poderia ter acontecido.
— Bom, então se ela fica isolada e o senhor tem tanto medo dela assim, significa que com certeza tem alguma coisa lá, mas o senhor não quer dizer, não é? — você retruca.
— S/N… — Nat suspira — … o que seu pai tá querendo dizer é que você não deve sair sozinhx em lugares assim. Esse parque está abandonado e com certeza vão fazer alguma coisa nele, uma reforma, alguma coisa do tipo.
— Então você já conhecia esse parque? Como que eu nunca ouvi falar dele?
— Nós já o conhecíamos, S/N. Não fisicamente, mas já ouvimos falar dele. Você deve ter esquecido.
— Lavínia, você viu ele também? O parque? — você pergunta.
— Claro que eu vi. Não sou cega — Lavínia responde — Na verdade eu nunca tinha visto um parque de diversões abandonado assim cara a cara, só pelos filmes e séries na televisão. Que coisa mais macabra.
— E não ouviu nada? Nenhum barulho de trem?
— S/N, por favor! — Joseph exclama.
— Calma, Joseph — Meghan fala — S/N, eu acho que você tá muito obcecadx com essa história. Precisa descansar. Já, já chegamos em casa e vamos te distrair rapidinho.
Olhando pelo espelho na fronteira do carro você observa Feralício que parece analisar toda a conversa. Seu ar parece de julgamento ou coisa parecida, sem mesmo precisar dar nenhuma palavra. Dá pra perceber apenas pela mensagem que seu corpo está passando: seus ombros inclinados, a sobrancelha levemente erguida e as mãos firmes segurando o volante, acelerando.
📍 Mansão Montenegro
Minutos depois, já tendo chegado em casa você chega acompanhadx de seus amigos enquanto que Joseph vai para o quarto. Ele não falou nada depois que chegou. Com a seriedade no olhar só pegou um whisky e foi de imediato. Seus amigos, agora se distribuem entre os móveis da sala como se fossem intrusos em um cenário de um crime.
Feralício é o primeiro a quebrar a imobilidade. Ao contrário dos outros, ele se mantém de pé, apenas esperando Joseph não voltar pra quebrar o silêncio da vez.
— Ele não vai esquecer esse dia e nem o que ouviu no carro — ele diz cortando o ar pesado — Joseph tolera mentiras contadas por quem é de fora, S/N, mas ele despreza a falta de lealdade pelos seus próximos. Ou melhor… ele despreza a falta de habilidade ao mentir. Você desapontou ele, S/N. Devia ter caprichado mais nas suas desculpas.
— Feralício! — exclama Meghan.
— Eu achei que você ia dar uma mega bronca em S/N. O senhor me pegou de surpresa, hein, seu Feralício. O senhor é de contar mentirinhas também, é? — Lavínia gargalha dando um tapinha no ombro de Feralício.
— Por favor, me chame só de Feralício. Não sou tão velho. Falando assim até posso me ofender. Por favor, me respeite — ele diz.
— Tudo bem. Me desculpa.
— Agora, Joseph deve estar uma fera, S/N. Além de você ter mentido, ainda mentiu mal. Bem mal, na verdade. Como você esperava que ele reagisse?
— Eu não esperava nada. Na verdade eu tô surpresx com o que o senhor tá falando. Tá querendo me dizer que eu menti mal e deveria ter melhorado? É isso mesmo ou “eu tô escutando coisas de novo”? O senhor deve saber de muitas mentiras do meu pai. A sua fala acabou de provar isso. Ainda existe aquele Feralício que eu conheci ou ele se deixou corromper também? — você reclama, incrédulx com o que acabara de escutar da boca de Feralício.
— S/N, calma. Lembra do que o seu pai disse? Você precisa descansar — Nat fala.
— Por que vocês acham tanto que eu preciso descansar? Eu não tô nem um pouco cansadx. De onde tiraram isso?
— Nós ficamos preocupados com essa sua história de trilhos de trem. Por que você falou disso? Por que insistiu naquela alucinação sonora e deu uma resposta pra se afastar da gente? Era isso que você queria o tempo todo? Passar o dia do seu aniversário sozinhx pra ir atrás de uma trilha de trem que nem existe? — Meghan dispara.
— Meghan, falar desse jeito não tá ajudando — Feralício fala arregalando os olhos expressamente.
Você dá um breve suspiro e logo recorda dos sons no parque de diversões abandonado. Pela milésima vez teria que afirmar o que já tinha afirmado outra e outra vez…
— Porque eu ouvi… — você responde firmemente enquanto olha para todos — E se meu pai tá bravo lá dentro do quarto tomando whisky é porque ele sabe de alguma coisa. Ele sempre toma whisky e se tranca no quarto quando tem um pepino grande pra resolver. Ele sabe que naquela propriedade que eu tava tem alguma coisa e eu, sem querer, descobri. E ele sabe dos meus feitos de investigações em Nevinny e sabe que eu vou querer fazer o mesmo com a área protegida dele.
— Que feitos de investigações em Nevinny, S/N? Você e Allison ficaram dias e dias andando por aqueles bairros, lendo livros e pesquisando na internet e não descobriram nada. E pra não dizer que não descobriram, o pouco que encontraram foram algumas informações e outras que não serviram pra muita coisa. Não sabem nem o que fazer com isso. Vamos ser sinceros aqui entre nós, não é? — Lavínia dispara cruzando os braços dando uma breve gargalhada.
— Então quer dizer que você vai investigar sobre os sons dos trilhos, S/N? — Nat pergunta.
— Não existem trilhos de trem em Atelis, Nat — Meghan fala agora arregalando os olhos e balançando a cabeça para Nat como se quisesse insinuar algo.
— Não existe na superfície, Meghan. Eu já te expliquei essa história. Deixa de ser burra. E não, eu não vou investigar os trilhos de trem. Agora o que me chama a atenção é o parque. Com certeza deve ter alguma abertura lá pra os trilhos, mas deve ter mais alguma coisa. Pro meu pai ter ficado bravo assim com certeza tem mais alguma coisa. Por que seria apenas pelos trilhos se ele sabe das minhas investigações como ele mesmo disse?
— É, isso faz mesmo sentido. O que não faz é por que você quis ficar longe da gente pra fazer isso. Não seria melhor se a gente tivesse ido também? Assim você não seria pegx pelo Feralício, nem pelo seu pai e poderíamos ter descoberto muito mais coisas — Lavínia fala se aproximando, pondo as mãos sobre seus ombros.
— Descoberto o quê? Você acabou de dizer que eu não descubro nada — você chacoalha seus ombros retirando as mãos de Lavínia deles — Eu vou tomar um banho e vou pro meu quarto descansar um pouco como vocês disseram. Preciso falar com Allison, pensar um pouco. Depois eu posso voltar, se quiserem.
— Começou o drama — Meghan resmunga.
⌚️ Algumas horas depois…
Passado algum tempo, depois de uma chuveirada, não mais quis ficar lá embaixo conversando e tendo que dar novas explicações. Depois de se trancar no quarto e escutar algumas vezes o chamar do seu nome e batidas na porta de alguém a fim de te tirar do quarto, o mais propício a fazer foi fingir que tinha dormido e assim parariam de fazer o que estavam fazendo.
Funcionou? Completamente.
Com certeza arranjaram alguma coisa pra fazer e assim, você pôde voltar para o seus afazeres.
⌚️ 02:29 a.m.
Na página de um site aberta na tela do computador você vê algumas matérias sobre o parque no limite da cidade de Atelis, perto do The Rocco Flamingo. Na maioria delas, as matérias online revelam que o fechamento não foi apenas uma questão de falência, mas uma sequência de eventos perturbadores.
"Inauguração do Eldermist: Onde os sonhos ganham vida”, essa é a manchete do jornal Gazeta de Atelis de maio de 98. Já o post sobre outubro de 2005 diz: “O terceiro sumiço. Polícia faz buscas em túneis sob a roda gigante”.
— É isso! — você fala — Eu sabia que tem alguma coisa por debaixo do parque.
E a última: "Eldermist fecha as portas 'indefinidamente' após incidente na Casa dos Espelhos”
— Como eu nunca fiquei sabendo disso antes?
E claro que, como toda reportagem, existem aqueles “fatos” peculiares que servem mais pra dar fama ao ocorrido ou, como em questão aqui, o local do parque. Notícias envolvendo coisas mais puxadas pro lado do sobrenatural como “o reflexo atrasado da casa de espelhos” e “o caso do visitante de cinza” que está presente em praticamente todas as fotos de acidentes no parque. Um homem vestindo um terno cinza fora de moda aparece ao fundo de cada tragédia — desde o descarrilamento da montanha-russa em 2002 até o misterioso incêndio no carrossel. O detalhe assombroso? Ele nunca possui rosto nas fotografias. Está sempre de costas ou com o rosto virado para o lado, mas sempre ali à espreita.
— Meghan, Nat e Lavínia precisam saber disso.
O brilho azulado da tela do notebook é a única fonte de luz no quarto, projetando sombras longas e distorcidas contra as paredes. Você fecha a última aba do navegador com um clique seco que parece um tiro no silêncio absoluto da mansão.
As informações sobre o parque de Eldermist lhe traz vários sentimentos mistos sobre como aquele lugar pode ter impacto com relação ao que Joseph estava tentando esconder na hora em que te encontrou depois da floresta. Ele não é só um parque abandonado, mas certamente uma ferida para a história de Atelis. E é essa história que você quer levar adiante.
⌚️ Minutos depois…
Finalmente, depois de inúmeras dúvidas e teorias, quase quatro da manhã você decide sair do quarto para checar a movimentação lá fora. A neve suave está caindo lá fora e um som de TV ecoa no andar de baixo. Com o celular em mãos, a luz da lanterna corta a escuridão e você passa primeiramente pelo quarto onde estão Nat, Lavínia e Meghan. Ninguém está lá. Cada passo pelos corredores parecem ecoar mais que o normal e o silêncio é interrompido apenas quando ouve uma pequena conversação na sala.
— S/N, já acordou — Lavínia fala.
— O quê? — pergunta Meghan.
— Oi. O que vocês estão fazendo aqui? Achei que estavam em casa — você diz.
— É, mas achamos melhor a gente ficar por aqui. Inclusive, espera que eu volto já — Meghan fala indo em direção à cozinha.
— Pra onde foi Nat?
— Nat foi pra casa e disse que ia encontrar com Ash. Talvez volte só amanhã — Lavínia responde.
Apressada, Meghan volta da cozinha lhe entregando um copo com um líquido meio transparente e azulado.
— O que é isso? — você pergunta.
— É um suco que nós fizemos. Uma mistura com limão e menta. Super refrescante.
Você avalia o conteúdo do líquido antes de tomá-lo. O gosto é realmente refrescante e diferente. Ótimo pro verão.
— É bom — você afirma, degustando — O que vocês estão assistindo?
— As patricinhas de Beverly Hills. Dizem que é um clássico dos anos dois mil. Estamos vendo se é bom mesmo como falam — Meghan diz.
— Tá dando umas aulas pra Lavínia de como se tornar uma?
— Nunca que eu vou virar uma patricinha. Se é isso que ela tá tentando fazer vai perder o tempo dela.
— Bem, como você está, S/N? Descansou bastante desde a hora que chegou e veio acordar só agora? — Meghan pergunta.
— Na verdade, não. Vocês não vão acreditar sobre o que eu encontrei sobre aquele parque perto do Rocco Flamingo. Várias coisas aconteceram naquela parque há alguns anos, coisas estranhas e por isso ele fechou. Não sei se dá pra acreditar em todas elas porque pareciam tão absurdas. O homem de cinza, reflexo atrasado e outras coisas, mas… não tinha nada falando sobre trilhos ou trens.
— S/N, pode ir parando por aí. Você ainda tá nessa conversa de parque?
— Ainda bem que Nat não tá aqui porque se elx escutasse isso, ia ser bem mais difícil ter a possibilidade de querer voltar pra você — Lavínia dispara.
— Quem disse que eu quero voltar pra Nat? Tenho outras coisas pra fazer.
— Nós já conversamos sobre isso antes. Todos sabemos que não existem trilhos de trem em Atelis. Tanto que você não encontrou nada sobre isso na internet. Mas…espera, você ficou o dia todo no quarto pesquisando sobre isso?
— Digamos que sim. Eu fingi que fiquei dormindo o dia todo.
— Você é inacreditável! Quase que pegamos a chave extra pra invadir o seu quarto e ver se estava tudo bem. Seu pai até pensou que você poderia ter escapado pela janela e ter começado a imaginar aquelas coisas de novo e… — Lavínia fala sendo interrompida por Meghan.
— Nossa, é verdade. Como eu não pensei nas janelas? — você fala, intrigadx — Eu sei o que vocês falam sobre os trilhos, que se não está no mapa é porque não existe e não sei mais o quê. Mas eu não pesquisei só sobre o que está lá. Eu pesquisei sobre o que foi “apagado”.
Você vira o celular para elas mostrando o recorte digital do inspetor da Vigilância Sanitária.
— O parque não tinha trilhos de trem convencionais, Lavínia, mas as notícias mencionam túneis por debaixo onde ficava a roda gigante. Túneis que levavam a algum lugar fora dos limites da cidade. Mas claro, como eu disse, não falava nada de trilhos.
O silêncio reina na sala. Lavínia olha a tela analisando a notícia e em seguida para Meghan.
— É, a notícia fala sobre isso tudo que você tá falando, mas… por que você ainda continua obcecadx por tudo isso? Anda, S/N, você precisa descansar. Prometo que depois podemos analisar o que você encontrou com mais calma e fazemos alguma coisa.
Você suspira, sentindo o peso do cansaço finalmente atingir seus ombros, mas a mente acelerada continua processando cada detalhe das notícias assombrosas.
— Mas por que não agora? — você questiona.
— A Lavínia tem razão, S/N. Olhe para você. Seus olhos estão meio vermelhos e você está falando de túneis, homem de cinza e reflexo atrasado. Acho que não precisamos criar um espaço em Atelis que prega peças na gente — Meghan afirma.
— Tudo bem — você cede, dando um suspiro abafado — Eu vou tentar dormir. Mas amanhã... amanhã nós vamos até o limite da cidade. Não para entrar, só para olhar de perto. Nossa, do nada me deu um sono — você diz já bocejando.
— Tá bom, S/N. Amanhã a gente vê, depois do café. Mas vai dormir — Lavínia afirma pegando o controle e desligando a televisão. Depois ela põe o controle remoto sobre o aparador e lança um olhar de advertência tipo querendo dizer “não ouse voltar a pesquisar no computador de novo”.
— Boa noite, S/N. Tenta não sonhar com trilhos e túneis — Meghan diz, com um meio sorriso que tenta aliviar o clima, embora com uma certa preocupação estampada em seu rosto.
Elas saem da sala em silêncio, os passos ecoando suavemente pelo corredor até que o som de duas portas se fechando sela a casa em um mudez absoluta. Você fica ali por um momento, paradx no corredor esperando que alguma delas apareça de novo, porém sentindo o peso do sono que veio de forma tão súbita e avassaladora, como se o seu corpo tivesse sido desligado por um interruptor.
Você caminha até o seu quarto, os pés arrastando levemente pelo tapete. Ao entrar, o ar parece mais frio do que o normal. Você se joga na cama, sem sequer trocar de roupa e fecha os olhos.
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