Os ventos de inverno
12 Parte XII
Notas iniciais
Jaime Lannister assistiu seu suposto sobrinho passar pelos portões de Castle Black com tanto horror e admiração quanto qualquer um de seus homens. Imediatamente todos caíram em uma profunda reverência, enquanto o Príncipe Herdeiro saltava de seu cavalo e coçava as orelhas do que parecia ser uma grande fera selvagem, um lobo gigante albino.
— Jon!
Foi Benjen quem quebrou o silêncio constrangedor que havia sido instalado entre eles. Ele caminhou na direção de seu sobrinho, de braços abertos e com um grande sorriso. Abraçou-o, batendo em suas costas e fazendo aqueles costumeiros comentários que a maioria dos tios faz quando não vê seu sobrinho favorito há um tempo.
“Você cresceu! Virou homem, foi? Fico feliz que você ainda pareça ter tempo em sua agenda lotada para visitar seu velho tio Benjen... vamos, vou lhe mostrar seu quarto”.
Embora o Ranger estivesse agindo como se tudo aquilo tivesse sido planejado, como se a visita de Jon fosse esperada e planejada, Jaime não perdeu o olhar que Benjen o lançou e o sinal que ele fez para que o seguissem.
Mas quando Jon explicou seus motivos para estar ali, Jaime sentiu ganas de dar um bom corretivo naquele moleque mimado e ingrato que sua irmã havia criado.
— Eles mentiram pra mim! – Jon urrava para Benjen.
— Você teria morrido sem eles! – gritou Benjen de volta. – O que você está pensando afinal? Você não pode simplesmente largar seu posto. Todos já devem estar suspeitando que há algo de errado a essa altura! Será que não percebe que se essa informação cair em ouvidos errados você vai estar em perigo?! Que todos nós estaremos em perigo?! Você não tem consideração pelo que seu pai e sua mãe sacrificaram para te manter em segurança!
— Isso não muda o fato que eles mentiram pra mim! Não há a menor razão para que eu ficasse em Winterfell, eu sequer sou um Stark! Eu nem mesmo sou Targaryen, parando pra pensar! Rhaegar estuprou Lyanna, todos sabem disso. Eu sou filho de um estuprador, neto de um maluco que você mesmo matou. – ele apontou para Jaime naquela ocasião. – E vocês acham que eu devia simplesmente aceitar isso muito bem.
Ninguém aceitaria aquilo bem, reconhecia Jaime, e ele realmente esperava que quando chegasse a hora de Jon saber, ele descobriria em uma esclarecedora conversa com Eddard e Cersei. Não através de um diário de guerra que o marido de sua irmã não havia dado um fim.
— Jon, será que você não entende a gravidade disso? – Benjen rosnava com os punhos cerrados. – Você parece não entender a todos os perigos que se expôs ao vir para cá. Você acha que tem a menor honra nisso aqui?! Há estupradores, marginais, ladrões, regicidas...
Jaime sorriu desdenhoso.
— Isso aqui é um lugar de redenção, Jon. Homens vêm até aqui para que não percam o pinto ou a mão. Você é a porra de um príncipe, sete infernos! Você foi treinado por Ser Rodrick pessoalmente, você tem estudo, de origem nobre.
— Origem nobre, claro. – havia sarcasmo em sua fala.
— Eu não quero escutar uma palavra sobre isso. Você vai passar alguns dias e eu quero que você vá pra casa. – Benjen sentenciou.
— Você não pode me dizer o que fazer! Você-
— Eu o quê garoto?! Foi esse seu argumento com sua mãe, quando ela se jogou aos seus pés e implorou para que você não partisse?! – Benjen avançou na direção de Jon, ambos peito a peito quase que nariz a nariz. – “Você não é minha mãe!”. Isso é baixo até para homens como os que tem aqui... talvez haja lugar aqui pra você, afinal de contas.
Benjen saiu batendo a porta de seu gabinete. Eles haviam se refugiado a sala do Lorde Comandante, já que era o único lugar em Castle Black que eles teriam privacidade para conversar.
Fez uma nota mental de falar com Benjen depois, para descobrir por que a notícia que eles iriam receber o Príncipe Herdeiro não havia chegado a seus ouvidos com antecedência.
Jon estava respirando profundamente, os punhos ainda cerrados e a cabeça jogada para trás. Pegou a jarra que estava equilibrada sobre sua mesa e serviu um pouco de vinho para si mesmo e para o confuso garoto que estava a sua frente.
— Aqui, beba.
Ele imediatamente aceitou, mas logo no primeiro gole fez uma careta e esfregou a boca.
Jaime riu e virou o conteúdo com facilidade.
— Isso tem gosto de... de... – Jon parecia procurar a palavra.
— De merda. – Jaime concluiu. – Pode falar.
O príncipe ficou calado e largou o cálice. Jaime suspeitou desde o início que ele não conseguiria beber. Como a primeira lei que ele impôs em Castle Black era “nada de desperdícios”, pensou que era apenas justo que ele limpasse o conteúdo do cálice oferecido a seu sobrinho.
— Você sabe que Benjen está certo, não é? Isso aqui não é lugar pra você. Não há vinhos dorneses, não há cerveja de boa qualidade, mal há comida as vezes.
— Eu vou sobreviver.
— Dificilmente. – Jaime revirou os olhos. – Eu sei que eu sobrevivo dificilmente por aqui...
— Se você pode, então eu também posso.
— Você pode, mas você não deve, Jon. – Jaime disse em tom cansado e puxando a cadeira para si, fazendo sinal para que ele também tomasse uma. – Como você pode ser tão burro? Você não tem irmãos, Jon. Você é o único herdeiro de seus pais. Myrcella está noiva de Lancel, se eu ouvi corretamente.
— Ainda há Arya.
— Ela é uma menina! – revirou os olhos impaciente.
— Ela não é qualquer menina e você sabe disso.
— Eu sei, mas não quer dizer que o povo entenda isso. Eles não vão seguir uma mulher... você sabe que eu tenho razão.
Jon olhou para ele com ódio, mas Jaime não se importava. Ele nunca havia sido o favorito dele ou de Arya. Benjen e Tyrion dividiam esse posto.
Fez outra nota mental para se lembrar de escrever a Tyrion. Da última vez que soube de seu irmão, ele estava nas Cidades Livres gastando todo o ouro dos Lannister como o bom boêmio que era.
Ele sentiu uma pontada de inveja de Tyrion. Lá estava seu irmãozinho, viajando o mundo inteiro, aproveitando o melhor que a vida tinha a oferecer, conhecendo pessoas, culturas e quanto a Jaime? Preso numa droga de muralha, lidando com a crise existencial de um príncipe ingrato e não o bastante tendo que escutar suas lamúrias.
Não demorou até que ele se sentisse enraivecido com Jon da mesma forma que Benjen estava.
— Eu gostaria de me juntar a Patrulha da Noite. – Jon disse baixo.
— Garoto, você é surdo?! Será que você não escutou uma palavra do que dissemos a você até agora?
Uma veia saltou da testa de Jon quando ele gritou.
— Eu não me importo! Eu não dou a mínima!
— Você não vai durar aqui! Homens de honra não têm vez por aqui. Você não acha que vai ser extremamente suspeito?! O único herdeiro do Rei do Norte se juntando a uma irmandade que tem redenção e celibato como fundamentos?! Se Robert Baratheon descobrir...!
— Eu não me importo!
Jaime sentiu o calor subir à cabeça. Ele agarrou a túnica de seu sobrinho e colocou a mão em seu pescoço.
Se aquilo era considerado traição, Jaime não sabia, mas bem ele já era o regicida! Outro crime contra uma coroa diferente não faria mal algum.
— Não se importa é? – rosnou. – Mas eu me importo. Porque se Robert Baratheon a essa altura sequer desconfiar de sua verdadeira linhagem, ele e suas tropas vão marchar contra o Norte e vão executar seu pai. Seria muito bom se fosse apenas seu pai, mas sua mãe seria considerada cúmplice, ninguém acreditaria que Cersei esteve na ignorância por tanto tempo ainda que por vontade própria. Não o bastante, eles marchariam contra a casa Lannister e matariam Tywin, Kevan, Genna e até seu precioso Tyrion. Todos que compactuaram e se arriscaram para proteger seu couro ingrato estariam sentenciados a morte.
— Você também. – rosnou Jon com dificuldades pela mão em seu pescoço.
Jaime riu.
— Eu não tenho nada a perder garoto... eu já perdi tudo quando me mandaram pra cá. – sua mão se fechou com mais força em torno do pescoço do príncipe herdeiro. – Você sabia que eu estou aqui por sua causa? Por que eu sabia sobre sua origem bastarda. Sua mãe nem hesitou ao virar as costas para o próprio sangue e me sentenciar a esse inferno. Eu nunca pensei que Cersei poderia amar alguém como ela amava você... ela amou você mais que a mim e não importa quantas malditas vezes eu tenha a implorado para- para fugir comigo. Eu estava disposto a criar você como meu se isso significasse que ela ficaria comigo. Deuses, eu faria qualquer coisa, eu estava disposto a te amar para que ela ficasse comigo. Mas nem isso pareceu ser o suficiente! Depois de você nada mais foi suficiente.
Jon começou a lutar contra sua mão, mas era inútil. Jaime diria tudo a ele daquela vez.
— A melhor coisa do mundo era limpar suas fraldas sujas, alimenta-lo, observar você dormir. Era tudo que ela fazia o tempo inteiro. Você sequer conhecia outro lugar que senão seu berço ou o colo dela. E ela estava tão satisfeita, tão realizada. Suas irmãs foram consequência futura, do acaso de seu pai não conseguir manter as calças quando ao redor dela... não poderia haver droga de marido nenhum, filhas algumas... se ela tivesse você, estava ótimo. Estava tudo bem.
Lentamente Jaime podia sentir o maldito bastardo perder as forças. A vida parecia se esvair de seus olhos, quando finalmente o aperto de sua mão cedeu.
Jon ofegou segurando o próprio peito e pescoço.
— Ela aceitou você como filho. Quando Joffrey morreu, ela ficou desolada e você a tirou de um sofrimento profundo. As gestações de sua mãe sempre foram complicadas, você sabe disso.
Nada. Ele não dizia nada, apenas tossia.
— Você vai ficar por alguns dias. Uma visita a seus queridos tios e reconhecimento a dedicação dos homens que trabalham duro para proteger o Norte. Você vai participar dos exercícios, ter um quarto só pra você, fazer as refeições comigo em meu gabinete e é isso. Depois você vai embora, eu poderia ceder alguns homens, volta pra casa e vai implorar perdão a sua mãe de joelhos e eu vou saber se você não o fizer. Juro pelos Deuses, é melhor que você vá, porque se você desonra sua mãe de tal forma, então não é digno do amor que ela lhe dedicou e provavelmente vai dedicar pelo resto da vida. E se você não é digno disso, então também não merece o sacrifício que eu fiz por ama-la. Juro que se você insistir nessa besteira de se juntar a Patrulha da Noite, não vai sobreviver para sequer fazer o juramento e a última coisa que você vai ver antes de morrer, será o meu rosto quando eu lhe jogar do topo da Muralha.
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