Os ventos de inverno
13 Parte XIII
Notas iniciais
Era madrugada e ela estava se sentindo particularmente esfomeada. Tomou todo cuidado do mundo para não acordar Eddard, porque ele merecia uma noite de sono adequada, mas infelizmente seu bebê parecia ter ânsia. Ânsia de pão de mel.
Enrolou-se no roupão felpudo e grosso, pegando a vela sobre a cômoda. Não importava quanto tempo ela vivesse em Winterfell, ela não conseguia se acostumar com o breu como seu marido que era capaz de caminhar pelos corredores sem tropeçar em sequer uma pedra fora de seu devido lugar.
Ela esfregou a barriga que começava a aparecer. Cersei se sentia faminta e ela não havia jantado há muito tempo. Naquele dia havia tido festança para comemorar o dia do nome de Arya e todos foram dormir muito cedo, porque haviam enchido a barriga e estava frio.
Quando ela fez a curva e chegou a cozinha teve que reprimir o grito ao vê-lo sentado à mesa. Levou uma mão a boca vendo fumaça sair da caneca e o cheiro de canela impregnado no ambiente. Num prato havia alguns biscoitos em forma de lobo, porque embora seus filhos nascidos fossem adultos, a Velha Ama não parecia pensar o mesmo.
— Jon... – sussurrou.
Ele não parecia com ele mesmo. Ele tinha sumido por tanto tempo... ele usava roupas estranhas, roupas dos selvagens. Ele estava muito mais cabeludo, barbudo e parecia mais magro. Mas definitivamente, para todos os efeitos, era seu filho. Ela nunca se enganaria quanto aqueles lindos olhos.
Jon ficou por um longo tempo a encarando. Ela sentiu os olhos dele pousarem em sua barriga. Sendo o mais velho e tendo acompanhado duas gestações dela, ele provavelmente reconhecia uma barriga de gordura e uma barriga de bebê.
Escutou as pernas da cadeira arranharem o piso. Ele estava se levantando. Manteve-se parada, temendo que qualquer movimento brusco pudesse afugenta-lo. Não podia se dar ao luxo de perde-lo de vista tão cedo... ele havia sumido há cerca de cinco luas! Ela escutou que ele estava bem em Castle Black, mas depois recebeu uma carta de seu irmão dizendo que a cavalaria que acompanhava Jon para casa havia sido atacada por selvagens e que desde então nem os homens da Patrulha da Noite ou Jon foram vistos.
Ela se lembrava de ter chorado por noites, acreditando que ele estava morto, entretanto Cersei se agarrou no mantra que ela disse a ele antes de partir.
“Nossos batimentos cardíacos estão interligados. Eu só vou viver enquanto você respirar”.
Seu coração bombeava vigorosamente e aquele era motivo suficiente para que Cersei não perdesse as esperanças e mantivesse a fé que, cedo ou tarde, Jon voltaria para casa.
— Mãe...
Nunca aquela palavra soou tão linda aos seus ouvidos. Parecia que era a primeira vez que a escutava, como quando ele havia começado a balbuciar ‘mama’ e ‘papa’ na infância.
Ele andou até ela lentamente e por um longo momento eles se olharam. Cersei assustou-se quando o viu cair de joelhos no chão e chorar, agarrando suas pernas e encostando a cabeça em sua barriga.
— Eu sinto muito, eu sinto muito... me perdoe, por favor. Perdoe-me, mãe. Eu não sei de nada, eu não sei de porra nenhuma.
Ela estava sem reação, o melhor que pôde fazer foi tocar os cachos castanhos de seu menino e respirar fundo, agradecendo aos Deuses por terem o devolvido a salvo.
— Eu errei com a senhora, mas eu juro que eu nunca mais vou errar. Vou compensa-la pelas coisas que eu disse e fiz pelo resto de minha vida.
Ela queria se jogar nos braços dele, chorar, batê-lo por ter dado a ela aquele susto, mas ela percebeu que naquele momento Jon era o único que precisava de colo. Ele precisava do conforto dos braços de sua mãe e por mais que ela estivesse com vontade de esbofeteá-lo, Cersei se agachou na altura dele e o abraçou com força. Os dois sentados na pedra fria da cozinha e com seu menino que havia crescido demais chorando em seus braços.
Ele chorou, implorou perdão, chorou mais e ela teve que repetir mil vezes que estava tudo bem. Sugeriu que ele devia ir se deitar e que no dia seguinte poderiam conversar com mais calma.
Felizmente seu filho parecia ainda muito familiarizado com aquele castelo para se esquecer de onde sempre havia sido seus aposentos. Ela o dobrou embaixo das cobertas como quando ele tinha cinco anos, beijou a testa dele amavelmente e o viu dar o primeiro sorriso em tanto tempo.
— Obrigado. – Jon sussurrou.
— Não há de quê, meu amor. Durma bem.
Ela estava pronta para sair do quanto quando ele e a chamou.
— Mãe?
— Sim, Jon?
— Eu te amo.
Ela sorriu.
— Eu te amo mais. – e fechou a porta.
Apressada e ansiosamente Cersei fez o caminho de volta para os aposentos que ela compartilhava com seu marido. Seu sorriso escancarado nos lábios, a emoção quase não podia ser contida no peito. Ela adentrou o recinto, fechando a porta cuidadosamente atrás dela, para caminhar até a cama e sacolejar o marido calmamente até que ele resmungasse.
— Ele voltou, Eddard. Ele voltou.
X
Respirou pesadamente enquanto assimilava as palavras de Cersei.
“Ele voltou, Eddard. Ele voltou”, mas tanto quanto ele queria acredita em sua doce e amável esposa, Eddard estava consciente de que aquela não era a primeira vez que Cersei o acordava daquela maneira.
Suspirando e apoiando-se em seus cotovelos, ele se sentou e a puxou para seus braços, beijando o topo de sua cabeça loira. Partia-lhe o coração ver Cersei tão afetada com a fuga de Jon. Mais de uma vez ela teve um daqueles sonhos que ele voltava para casa e no dia seguinte saía do quarto dele com o semblante cheio de decepção.
Escolhendo bem suas palavras e a forma como lidaria com aquela mulher muito grávida e com o coração arruinado, Eddard começou.
— Cersei, querida... Foi só um sonho. Há cinco luas não temos notícias de nosso filho, lembra? Benjen prometeu que seríamos os primeiros a saber quando a Patrulha da Noite tivesse notícias dele. Meu irmão está pessoalmente liderando uma busca Além da Muralha em busca de Jon... mas... ah, Cersei.
Era doloroso demais pensar naquilo ou mesmo falar sobre o assunto. Ele ainda não queria cogitar aquela possível realidade... Eddard gostaria de ter esperanças que seu garoto estava vivo e bem.
— Querida...
Ela tampou sua boca para que ele não dissesse qualquer outra palavra. O sorriso dela era tão lindo, havia um brilho tão grande em seus doces olhos verdes. Ele queria abraça-la e conforta-la.
— Vá até o quarto dele.
Familiarizado com a situação, Eddard sabia que Cersei não iria permitir que nenhum dos dois dormisse enquanto não fosse checar o quarto de Jon. Chutou as peles e se enrolou no roupão, preparado para percorrer o trajeto até os aposentos vazios do príncipe herdeiro.
Nem sabia porque insistia naquela loucura. Talvez ele devesse parar de ser tão pateticamente fiel a Cersei. Era sempre doloroso entrar naquele lugar, ver a cama vazia, não ver os pertences de seu filho espalhados. Cersei sempre estava brigando com Jon por causa de sua desorganização.
Talvez parte de Eddard acreditasse nos sonhos e delírios de sua amada esposa. Talvez parte dele, assim como Cersei, acreditava que a qualquer minuto Jon atravessaria os portões de Winterfell e voltaria para eles.
Chegou até a porta, mas não teve coragem de olhar dentro. Encontraria o vazio, encontraria uma cama bem feita, papéis empilhados sobre a mesa de estudos, encontraria a almofada sobre a poltrona e o tapete no lugar.
Porém antes que tivesse a oportunidade para girar os calcanhares e voltar para a cama onde sua senhora esposa o aguardava, Eddard escutou um ronco. E antes que ele contivesse a si mesmo, ele adentrou o quarto de Jon e lá estava ele... suas pernas faltaram pouco para não ceder.
— Eu te disse. – ele escutou e ao olhar sobre o ombro encontrou a figura satisfeita de Cersei,
Jon ressonava audível e tranquilamente em sua cama, usando roupas comuns a um selvagem e não a um príncipe. Os cabelos compridos e presos, a barba sem aparar. Estava mais magro, com bolsas embaixo dos olhos. Eddard queria acorda-lo apenas para olhar em suas orbes cinza e fazê-lo jurar que nunca mais cometeria uma loucura daquelas novamente.
— É ele mesmo... – sussurrou ainda estarrecido.
— Ele voltou para nós, Eddard. – Cersei pegou sua mão. – Nosso príncipe está em casa. Ele está vivo. Ele está bem...
Naquele momento, porém, Eddard não podia ir para a cama mais. Ele tinha que fazer uma visita ao Bosque Sagrado. Ele tinha uma dívida com os Deuses.
Jon estava em casa.
X
Como se ele tivesse cinco anos de novo, Cersei começou a tomar conta dele. Primeiramente ela o fez se livrar dos trapos de selvagem, jogar tudo em direção ao fogo. Ela queimou também o enxoval que estava na cama de Jon no dia anterior. Não podiam arriscar trazer nenhuma doença do Norte da Muralha, muito embora seu filho tivesse afirmado que era loucura.
Louco estava ele.
— Mamutes, gigantes, os Outros... é tudo verdade. – ele murmurava durante o banho que Cersei o dava.
Ela esfregava com força a pele de Jon, levando todas aquelas luas sem se enxaguar para longe deles. Puxou o cabelo dele, e ainda que em meio a protestos, ela cortou um palmo dos fios que haviam crescido assustadoramente e estavam cheios de nós, embolados com a sujeira. Ela também ordenou para que ele fizesse a barba em algum momento.
— Eu tive que fingir que queria ser um deles. Nunca cheguei a dizer quem eu realmente era... – ele falou durante o momento em seus aposentos em que Cersei começou a curar algumas feridas mal limpas que pareciam resultados de flechadas muito certeiras. – Eles nos odeiam. Faziam piadas da senhora, do pai, de mim o tempo todo.
Ela não aguentava mais aquele tom mórbido de seu filho. Ele estava em casa, ele estava a salvo. Ela não queria mais escutar uma palavra sobre sua pequena aventura além da Muralha.
— Esqueça, Jon. Está no passado. Você nunca mais terá que ver essa ralé, nunca mais terá que ir para aquele lugar asqueroso de novo. – colocou as duas mãos no rosto dele e beijou sua testa. – Você está de volta, meu príncipe. Prepararemos um banquete em sua homenagem... suas irmãs estão todas ansiosas para vê-lo, mas eu não permiti que elas se aproximassem ainda porque quero garantir que você esteja em sua melhor aparência. Para todos os efeitos você esteve viajando por toda Westeros, Jon. Talvez Essos, mas não vá dizer a elas essas... essas maluquices. Não posso me preocupar em manter Arya longe da Muralha agora.
Seu filho riu e acenou com a cabeça. Cersei continuou cuidando de seus machucados, alguns deles estavam muito feios e exigiam mais delicadeza para que ela não acabasse ferindo Jon.
— Mãe?
— Sim, meu bem?
— Por que a senhora está fazendo tudo isso? Digo, me preparando refeições quentes, me dando banho, cuidando dos meus machucados...
— Porque eu te amo e eu quero te ver tão bem quanto o dia que saiu.
— Eu não mereço isso. Eu fui... eu fui um ogro com a senhora. Merecia mais de mim. – ele disse envergonhado e pegando sua mão livre. – Enquanto eu viajava desejei várias vezes voltar, mas eu estava bravo, magoado e...
— Não precisamos falar disso, Jon. Eu honestamente não quero ouvir uma palavra sobre seus dias em Castle Black e tampouco ao Norte da Muralha. Fará muito melhor ao coração de sua mamãe se começássemos a conversar sobre a possibilidade da Princesa Sansa aparecer para uma visita.
Jon ficou calado por um longo minuto. Ela o viu estalar os dedos, olhar para os próprios pés, provavelmente pensando em boas palavras para tratar o assunto.
— Eu a desonrei, mãe. Deitei-me com uma selvagem.
— Jon!
— Eu sei que foi errado, estou prometido a Sansa, eu sei... mas Ygritte era totalmente diferente de qualquer coisa que eu teria em Winterfell. – ele disse rapidamente.
— Não é essa a questão, mas... ah querido, logo com uma selvagem? O que há de errado com as boas putas que você encontra em qualquer prostíbulo pela cidade?
Não que ela quisesse ver Jon com prostitutas, ela só estava desgostosa por seu filho ter se deitado com uma selvagem.
— Eu a amo mãe... – sussurrou. – Mas eu sei que eu tenho um dever com Sansa. Tudo que eu sempre quis foi ter um bom casamento com ela, uma época até começamos a trocar cartas, mas eu não sou nada que Sansa procura e vice-versa. Ela é feita de porcelana.
— Sansa é filha de Catelyn Tully, a última coisa que aquela mulher pode ser é porcelana. Percebe o marido que ela tem? – Cersei rolou os olhos. – Jon, seu pai também não era nada daquilo que eu queria e veja nosso casamento... nós construímos uma grande base de apoio, nós confiamos plenamente no outro. Somos sólidos.
— Você não disse que o ama...
— Amor é pra gente que não tem o que fazer. – Cersei disse ganhando uma risada de Jon. – É verdade, meu filho. Amor é para as leiteiras, para os padeiros, para os agricultores. Você precisa se casar com a Princesa Sansa por razões políticas, para que o Norte continue mantendo sua independência. É seu dever... gente comum pode se dar ao luxo de seguir o próprio coração. Mas quando você nasce com um sobrenome, você tem que se conformar em fazer aquilo que esperam de você.
Ela sabia que era errado massacrar os sonhos de alguém desse jeito. Mas ela gostaria que alguém tivesse massacrado os dela antes, que não tivessem a permitido sonhar demais. A vida era dura demais, os Deuses eram ruins demais. Há poucas coisas que Cersei podia dizer que valia a pena naquela vida miserável.
X
— O senhor disse que queria falar comigo, pai?
Ergueu os olhos de uma das cartas que respondia, fazendo sinal para que Jon entrasse. Ele precisava terminar aquilo no entanto, pediu para que o filho aguardasse enquanto ele enviava para Robert a notícia que Jon estava em casa e que possivelmente a Princesa Sansa deveria começar a se preparar para viajar para o Norte.
Quando ele pediu ao seu escudeiro para levar a carta a Maester Luwin, também pediu para que este desse um pouco de privacidade. Conversaria com Jon pela primeira vez de homem pra homem.
— Sua mãe veio conversar comigo...
Jon riu.
— É claro que ela conversou. Ela lhe contou que eu me deitei com uma Selvagem e que estou apaixonado por ela...
— Sim. – acenou com a cabeça. – Eu espero que você saiba que sua paixão por essa moça não lhe liberta das obrigações com a princesa Sansa. Ao invés de aceitar o pedido de casamento de outro homem, ela e a mãe oravam no septo duas horas por dia! Ela foi leal a você, foi leal ao dever dela para com você mesmo que só tenha lhe visto um par de vezes durante a vida.
— E agora o senhor me pune por eu não ter sido leal a ela...
— Ninguém aqui está falando de punição. – negou com a cabeça. – Você se deitou com uma mulher antes do casamento... ótimo, eu também me deitei com outras mulheres antes de me casar com sua mãe. Mas quando eu fiz meus votos diante do represeiro, eu os honrei, eu fui leal a sua mãe e pretendo ser até o último dia de minha vida.
Jon permanecia em silêncio, olhando para as próprias mãos.
— E sua mãe também permaneceu leal a mim. Mesmo eu tendo a feito acreditar que você era fruto da minha desonra... ela amou você e continuou sendo uma boa esposa e como mãe nem se fala. Acho que você e eu podemos concordar que quando se trata de você ou suas irmãs, sua mãe faria qualquer coisa. Mas especialmente você, Jon... sua mãe é capaz de matar e morrer por você.
Ele sabia que seu filho não diria nada. Parte era porque ele ainda não entendia o que era ser pai, ele ainda não era capaz de compreender aquele amor sobrenatural. Mesmo no início Eddard não compreendia, foi depois de Myrcella e seus lindos olhos verdes que ele entendeu que só poderia respirar tranquilamente enquanto seus filhos estivessem bem. E a outra parte era porque Jon ainda estava confuso com tudo aquilo.
— Você sabe sobre Joffrey? – murmurou.
— Mais ou menos. Jaime disse algo sobre isso...
— Jaime? – repetiu arqueando a sobrancelha. – Jaime Lannister?
— Sim. – acenou com a cabeça. – Parece que você e a mãe o conceberam em suas núpcias, você partiu e quando voltou comigo, ele estava morto.
Acenou com a cabeça. Eles nunca haviam contado aos filhos sobre Joffrey. Eram alguns estresses que Eddard sentia que o melhor era poupar Cersei... ela era uma mulher sentimental e não tinha verdadeiro controle das emoções.
— Sua mãe ficou arrasada. Eu me lembro de chegar com você há exatamente uma lua desde o falecimento do menino. Ela o encontrou morto no berço... foi muito duro pra ela. – suspirou. – Nós o velamos rapidamente no septo e ele foi enterrado nas criptas num túmulo discreto.
— Realmente discreto... já bisbilhotei as criptas e nunca encontrei nada lá.
— Sua mãe não queria que ninguém soubesse da morte dele. – explicou. – Era perfeito que você estivesse comigo, você era poucas semanas mais velho que Joffrey e eram muito parecidos. Apenas Maester Luwin sabia sobre o que havia acontecido realmente. Os outros servos sua mãe fez com que eu me livrasse deles... para todos os efeitos você seria filho dela. Você não tem ideia do estado que Cersei se encontrava, os servos tinham medo dela, ela ameaçava se jogar da torre inúmeras vezes, ela estava infeliz no Norte, ela odiava tudo aqui. Mas quando você aceitou o leite dela, e veja, você estava muito magro e começando a adoecer porque rejeitava sua ama, rejeitava o leite das cabras e das vacas... Jon, quando você aceitou o leite dela e a tomou como sua mãe, foi questão de dois dias para que Cersei renascesse. Eu nunca a tinha visto daquele jeito. Ela estava apaixonada por você, ela ficava horas te olhando no berço, ela podia passar a noite toda acordada sem reclamar do cansaço... ela se sentia em uma grande dívida com você. Ela te amava o suficiente para não impedir que eu mandasse seu irmão gêmeo, a extensão de seu ser, para a Muralha por ele ter ameaçado expor a verdade sobre você.
Permaneceram por um longo tempo em silêncio. Nem de longe Eddard havia acabado, ele ainda tinha muitas coisas para dizer a Jon, porém queria dar a ele um tempo para assimilar tudo aquilo. Era a primeira vez que seu filho tinha contato com a verdade, a verdade partindo dele. Ele conheceria a verdadeira versão dos fatos e não apenas aquilo que escutou ou leu em seu diário.
— É verdade o que dizem sobre ele e a mãe? – perguntou Jon com o cenho franzido. – É verdade que eles se amavam... se amavam muito mais que irmão e irmã?
Fez uma careta. Aquele não era um tópico que gostaria de falar. O relacionamento do Regicida e de Cersei era complicado.
Eddard sabia que Cersei o amava, mas fato era que ela ainda estava apaixonada por seu irmão gêmeo.
— Sim. – acenou com a cabeça. – Mas não é algo que eu quero que você discuta com sua mãe, não é algo que você devia se sentir enojado... todos nós cometemos erros. Se é que isso pode ser considerado um erro afinal de contas...
— Foi ele que me convenceu a voltar. – Jon soltou. – Ele me sufocou quando eu o disse o que havia acontecido, disse que eu era ingrato, que eu não merecia o amor de Cersei e que se eu ficasse ali mais um minuto sequer ele iria me matar por quebrar o coração dela, porque a única razão que ele estava ali era porque Cersei queria me manter seguro e se eu havia a desonrado daquela forma então eu não era digno do amor dela ou dos sacrifícios que ele fazia por ama-la. Ameaçou até mesmo me jogar da Muralha.
Eddard nunca imaginou que se sentiria grato ao Regicida por qualquer coisa. Fez uma nota mental de manda-lo um corvo em agradecimento, ainda que enfatizando que seu ato não o liberaria de seus votos com o manto negro.
— O que me lembra... eu devo dizer Jon que eu fico deleitado por tê-lo de volta, saber que você estava vivo e que estava bem deu paz ao meu coração. Tanto sua mãe quanto eu não conseguíamos dormir e você não sabe o quanto eu estava preocupado, com você, com Cersei e o bebê... você desaparece e ainda a expõe à uma dor desumana, o que você fez foi muito errado também. Eu não estou dizendo que sua mãe e eu estávamos certos, mas você poderia ter conduzido essa situação de outra forma. Fazer sua mãe berrar e chorar aos prantos, jogar-se aos seus pés... você a desonrou, Jon. Você desonrou a mulher que daria a vida por você, que cometeria atrocidades por você. Então eu já digo que se você tem planos de quebrar o coração dela outra vez, é melhor que junte suas coisas e parta. Explore o mundo, faça o que diabos quiser, mas não pense que tolerarei qualquer atitude sua desrespeitosa com ela! O mundo dela caiu, o meu mundo caiu, suas irmãs estavam confusas.
Jon se ergueu apenas para então se jogar novamente de joelhos. Ele podia ver claramente o arrependimento em seu filho, a dor dele, mas ainda assim, tanto quanto Eddard amava Jon, ele amava Cersei mais. Podia ser errado, mas ele a amava mais que qualquer um de seus filhos... ele a amava o suficiente para renegar sua honra.
— Eu prometo nunca desaponta-los, pai. Eu prometo nunca mais envergonhar nossa família.
Colocando a mão no ombro do rapaz solene diante dele, Eddard o obrigou a encara-lo.
— Não faça promessas antes de ouvir tudo o que tenho a dizer... – respirou profundamente e deu sequência. – Você gostaria de se abdicar dos direitos de príncipe herdeiro caso sua mãe dê a luz a um menino?
Os olhos de Jon se arregalaram. Eddard sabia que Cersei ficaria louca com aquilo, mas ele se sentia na obrigação de dar a Jon uma escolha. Especialmente quando ele agora sabia que tinha uma possível reivindicação ao Trono de Ferro que Robert se sentava.
— Eu ainda exijo que você se case com a Princesa, ainda que a maior das intenções dessa união era que Sansa viesse a se tornar Rainha... ela até mesmo recebeu um nome comumente nortenho, um nome da nossa família. – explicou Eddard. – Mas se é seu desejo se abdicar disso tudo, agora que sabe sua verdadeira linhagem eu não irei impedi-lo. Ainda que nasça uma terceira menina, eu não vou impedi-lo, Jon.
Nos olhos dele havia claramente a dúvida. Provavelmente Jon não sabia se aquilo era o comando de um Rei ou a proposta tentadora de um pai que o amava o suficiente para deixa-lo ir. Mesmo Eddard ainda estava em dúvidas sobre o que aquilo realmente se tratava.
— Eu vou permanecer fiel as minhas obrigações. – Jon disse com firmeza. – Eu fui criado para ser seu herdeiro, eu tive todos os privilégios e direitos de um príncipe herdeiro. Eu agora vou honrar meus deveres como príncipe herdeiro, pai...
Acenou com a cabeça, sentindo um tanto quanto aliviado. Parte dele gostaria de abdicar daquele trono, recolher-se com Cersei e o bebê em alguma propriedade menor que estivesse nos domínios da Coroa e aproveitar enquanto eles ainda eram jovens.
— Você está dispensado. – disse e beijou o topo da cabeça dele, antes do rapaz se levantar. – Peço que seja discreto a respeito do que viu além da Muralha... suas irmãs não precisam saber de nada disso. Você esteve em Castle Black, viajou ao redor de Westeros e ponto final.
Ele estava na porta antes de acenar respeitosamente. Quando Jon saiu do recinto, Eddard finalmente pôde respirar aliviado.
Aquele seria um longo inverno.
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