Os ventos de inverno
11 Parte XI
Notas iniciais
Eddard teve que joga-la como um saco de batatas sobre seus ombros. Ele achou que fosse ficar surdo com os gritos de Cersei e os socos que ela deferia em suas costas. Ele lançou olhares malignos aos servos que assistiam a cena de sua esposa, suas filhas haviam desaparecido de sua vista, mas ele podia apostar que encontraria Myrcella encolhida em algum canto, chorando e Arya perfurando coisas.
— Maldito! Eu te odeio! – ela gritava puxando os próprios cabelos e deixando as lágrimas escorrerem. – Você acabou de sentenciar nosso menino para a morte!
Eles estavam no gabinete, onde poderiam conversar sem que os ouvidos curiosos dos servos ficassem sabendo de tudo. Ninguém realmente sabia o motivo da partida de Jon, somente eles e as meninas e era melhor que continuasse daquele jeito.
— A razão vai chegar até a ele, Cersei. Benjen está lá também! Acha que Jon vai simplesmente atravessar os portões e ser nomeado Ranger? Ele tem tempo até fazer os votos e acredite, ele vai sentir falta de casa. Ele vai voltar.
Seu coração estava em pedaços por vê-la daquele jeito. Ela merecia mais dele, merecia mais de Jon. Foi a primeira vez que quis bater em Jon quando viu a maneira que ele a desrespeitou.
Eddard nunca pensou que a veria daquele jeito, em prantos, apavorada e tão nervosa. Aos poucos ele se aproximou e a puxou para um abraço, fazendo Cersei enterrar o rosto em seu peito, o corpo trêmulo, enquanto ele a segurava com firmeza contra seu corpo. Beijou sua testa e afagou as longas mechas loiras.
Em um momento ela se afastou dele bruscamente e se curvou para vomitar. Ele não estava enojado, apenas foi pego de surpresa, mas se aproximou para apoia-la e segurar seu cabelo enquanto ela vomitava em todo chão do seu gabinete. Sabia que o resultado daquilo tudo era por causa do nervosismo.
— Desculpe. – ela sussurrou.
— Ei, não precisa se desculpar. Está tudo bem. Eu vou chamar alguém para-
Mas antes que ele pudesse terminar, sentiu a mão firme de sua esposa cravar o abridor de cartas em sua coxa. Eddard cambaleou de surpresa e também pela dor. Ele gritou com ela enquanto se apoiava na mesa e tirava o utensílio que havia sido afundado até o punhal.
Ele olhou para ela sentindo ganas de esgana-la, mas ao vê-la daquele jeito, de olhos inchados, cabelo desmazelado e com um resto de vômito no canto da boca, percebeu o quanto ela era frágil.
— Isso é tudo culpa sua. – foi o que ela disse antes de deixar o recinto.
Naquela noite eles dormiram separados. Ele havia a visto na cama de Myrcella, abraçada a filha. Ela estava com tanta raiva dele que não podia tolerar estar no mesmo ambiente, mas se Cersei havia realmente dormido ele não sabia dizer. No dia seguinte ela tinha bolsas ao redor dos olhos, mas podia ser também do choro.
Ela não comeu, ela não falou. Ela se sentou em uma janela e ficou esperando Jon voltar. Ela ignorava ele, ela ignorava as filhas, ela ignorava os criados e nada parecia que iria tira-la daquela janela.
Fazia metade de uma lua desde a partida de Jon, quando Eddard a encontrou vomitando dentro de um balde. Ela chorava copiosamente e não parava de vomitar.
— Pelos Deuses, Cersei... – ele fechou a porta do recinto atrás dele e se apressou até ela. – Você não pode mais continuar assim. Você está adoecendo minha querida.
Ele a agarrou nos braços, percebendo que não havia mais forças em seu corpo e a colocou na cama. Ela se contorcia, ainda com as lágrimas escorrendo e segurando o estômago.
— Não, não, não... isso não pode ser, não pode ser.
Franziu o cenho e colocou a mão em sua testa. Cersei não parecia-lhe febril, mas estava começando a se perguntar se a mulher não estava tendo alucinações. Ele se perguntou quão ruim estava o emocional e a mente de sua pobre esposa, perguntou-se quão profundo era o dano causado pela partida de Jon.
Naquele momento o machucado em sua perna parecia tão pouco perto de tudo que ela estava sentindo.
— Onde dói, meu amor? – se sentou ao lado dela e pegou suas mãos suadas. – Diga-me, onde dói? Vou chamar Maester Luwin e ele há de cuidar de você.
— Por favor... – ela implorou. – Não me deixe, Ned.
Por um minuto ele achou que fosse um truque. Ela nunca o havia chamado de Ned em tantos anos de casamento, mas ela parecia tão apavorada naquele momento...
— Nunca, querida. – beijou a testa dela empurrando os fios de seu rosto. – Mas estou preocupado com você. Quando foi a última vez que você comeu?
— Eu não consigo comer, Eddard. Tudo volta. – ela disse baixo, empurrando as lágrimas do rosto.
— Você está muito nervosa, Cersei. Você precisa dormir, precisa se tranquilizar, comer adequadamente. Sentar-se nessa poltrona empoeirada dia e noite, esperando-o apontar em seu cavalo não vai mudar nada. Eu recebi um corvo de Benjen e ele disse que Jon está a salvo em Castle Black.
Aquilo pareceu ganhar sua atenção e Cersei segurou seu pulso com força.
— O que mais Benjen disse? Ele está mesmo decidido a tomar o manto?
— Benjen não entrou em detalhes, ele foi sucinto. A mensagem dizia: Ele está aqui. Ele está bem. Vou fazer o melhor que posso.
— Você não pode permitir que ele tome o manto. Você é o Rei do Norte! Você precisa fazer alguma coisa.
Esfregou seu rosto. Cersei as vezes não entendia que ele mesmo sendo o Rei nem sempre podia ter tudo que queria.
— Cersei, ele é meu filho também e eu o amo tanto quanto você.
— Não parece... eu jamais permitiria que Jon nos deixasse. Eu o tinha comigo até você aparecer e estragar tudo.
Sentou-se contra a parede da cama e colocou Cersei sentada. Ela ainda estava meio fraca, mas não parecia ter tido problemas em permanecer naquela posição.
Começou a desatar os laços de seu vestido e os puxou para baixo para evidenciar os ombros e as costas. Ele começou a fazer exatamente aquilo que a viu fazer durante todos aqueles anos de casamento, quando ela queria acalmar seus filhos ou mesmo a ele.
— Jon é um homem adulto no fim das contas e eu confio que nós o educamos corretamente para que ele tomasse a melhor decisão possível. Eu estou tão miserável quanto você por Jon ter escolhido esse destino. Eu acho que ele merece mais, eu acho que ele faria um excelente Rei, eu acho que Jon seria o líder que eu nunca fui. – massageou os ombros dela, descendo pela linha de sua coluna e colocando beijos em seus ombros tensos e na nuca. – Nós escondemos a verdade dele porque ele era criança e nós acreditávamos ingenuamente que o melhor seria mantê-lo no escuro... fizemos com a melhor das intenções, mas fomos egoístas. Eu fui egoísta por pensar que eu poderia tomar o bebê de minha irmã para mim. Jon tem uma possível reivindicação ao Trono de Ferro, Cersei. Há pessoas que chamam Robert de usurpador.
— Somente por cima do meu cadáver... – ela rosnou. – Ele nunca irá para o Sul.
— Infelizmente, minha querida, nem tudo está sob seu controle. Jon não está mais sob sua guarda, ele está agora por conta própria... você precisa começar a aceitar, Cersei. Jon fez uma escolha.
Ela não disse nada. O único indício de que ela o escutava foi quando tomou os seios dela nas mãos e ela gemeu de dor, acotovelando-o nas costelas.
Sua esposa parecia razoavelmente melhor e se ela não estava, pelo menos fingia muito bem. Eles decidiram que o melhor era tomar um banho e ele, é claro, se juntaria a ela.
Cersei se deitou contra seu peito e ele deslizou as mãos por seu corpo, mantendo-a abraçada junto a ele. Beijando seu rosto, murmurando palavras gentis em seu ouvido. Ele estava feliz, ela parecia definitivamente melhor.
— Eu acho que estou grávida.
A notícia o pegou de surpresa. Ele viu o temor nos olhos dela, um pouco de hesitação e receio.
Eles ainda eram jovens e Cersei ainda era fértil, mas Eddard sabia que ela ministrava o chá da lua religiosamente justamente para não engravidar, porque ela sequer podia se dar ao luxo. Maester Luwin havia sido bastante claro os riscos que outra gravidez traria para a Rainha do Norte.
— Desde quando você desconfia disso?
Ela encolheu-se.
— Desde um pouco antes de Jon... – Cersei umedeceu os lábios. – Não sei como aconteceu. Eu tomo meu chá... ele não parece ter funcionado. Tudo indica que estou esperando um bebê.
Ele não sabia o que sentir naquele momento. Tudo que sempre quis foi uma família bem grande. Ele havia se conformado há um tempo que a única forma de ter crianças em sua casa novamente dependia de seus próprios filhos lhe providenciarem alguns netos.
Pensar em ter outro pacotinho para amar e cuidar era maravilhoso, mas ele também estava assustado. Ele não queria perder Cersei.
— Então eu preciso mais que nunca que você se reerga com força total, Cersei. – colocou as mãos no rosto dela. – Eu não posso fazer isso sem você.
Ela fechou os olhos. Cersei era tão linda, ele a amava tanto que chegava a doer... desenhou os traços de seu rosto com as pontas dos dedos e a escutou suspirar.
— Eu não quero que as pessoas saibam ainda. Você deve me prometer que isso ficará entre nós. Myrcella vai costurar vestidos maiores para mim e nós vamos manter isso entre nós até o momento que pudermos.
— Ela sabe...?
— No fundo acho que sim, mas eu a disse que era porque eu tinha ganhado peso.
Houve um longo momento de silêncio entre eles. Pela primeira vez parecia que eles estavam em paz depois de travar uma longa batalha. Ela martirizando e odiando cada milímetro de seu ser por ter levado seu menino para longe e ele, além de se culpar, sofrer assistindo sua esposa definhar e não poder fazer nada quanto aquilo.
Pela primeira vez em dias não havia lágrimas, não havia gritos, não havia lamentos. Ela estava de volta. Cersei estava de volta.
— Eu sinto muito, Eddard.
— Pelo quê? – por um segundo ele achou que ela se referia ao machucado que ela havia causado em sua coxa, mas não.
— Por ser essa confusão. Por ser essa grande contrariedade em sua vida, por ser um furacão de emoções, por ser uma péssima esposa e uma péssima mãe. Por tornar sua vida tão difícil. Eu sinto muito...
Ela podia ser tudo aquilo e muito mais, mas uma coisa era certa, Eddard amava Cersei porque Cersei era Cersei. Ela não precisava de uma máscara da perfeita dama sulista para ter seu respeito e seu amor. Ela nunca precisou.
Talvez o fato que Cersei era cem por cento coração combinasse com aquele lado mais selvagem do Norte. No fim das contas o leão acabou se adaptando ao frio nortenho.
Fale com o autor