Os ventos de inverno
10 Parte X
Notas iniciais
Ela acordou naquele dia sabendo que devia ter permanecido na cama. Algo a dizia que coisas ruins iriam acontecer e foi no final da tarde que Cersei percebeu que seus pressentimentos estavam certos. Aquilo que ela mais temia aconteceu, a coisa que mais pesava seu coração e sua consciência havia acontecido.
Ele sabia. Jon sabia.
Cersei abriu a porta do gabinete com força, marchou em direção a mesa de Eddard, sabendo que faltava pouco para que saísse fumaça de suas narinas e orelhas. Ela abriu bem sua mão e desferiu um tapa forte na face de seu marido, gozando do prazer em sentir a pele de sua mão queimar e a satisfação de ver a marca de seus dedos no rosto dele.
— Como você pôde? – ela perguntou com a voz mais macia e controlada que podia, muito embora seu rosto marcado de lágrimas indicasse totalmente o contrário.
Seu mundo tinha caído e tudo era culpa dele.
— Ah Cersei... sejamos razoáveis, no fim das contas ele mereci-
Ela o bateu de novo, recusando-se a permitir que seu marido terminasse de proferir aquelas palavras. Sua mão queimou de novo e ela viu o outro lado do rosto de Eddard ficar ainda mais marcado se possível.
Seu marido respirou fundo, provavelmente tentava manter o controle de si mesmo para não avançar contra ela, mas ela não se importava. Ela não tinha mais nada a perder. Ela poderia facilmente saltar da torre mais alta de Winterfell.
Há muito tempo ela não sentia algo tão ruim quanto aquilo em seu peito. Ela havia se desacostumado com a sensação de ódio, a necessidade de bater em alguém, de gritar com alguém, de matar alguém.
— Você não tinha o direito, Eddard. – ela apontou um dedo trêmulo na cara de seu marido e Rei. – Você agiu pelas minhas costas. Você quebrou sua promessa! Depois de todos nossos esforços. Meu irmão está na Muralha porque ele ameaçou expor nosso filho. Eu coloquei uma faca contra a garganta de uma das servas e a obriguei a deixar o país. Fiz loucuras para manter isso escondido dele e você simplesmente acha que pode acordar num belo dia e decidir dizer a Jon que ele não veio de mim?!
Lentamente ele ergueu o rosto para encara-la. Parecia que ele estava sofrendo, mas Cersei não se importava. O que ele havia feito doía mais que qualquer tipo de traição.
— Cersei, você ainda é a mãe dele, independentemente que Jon saiba-
— É CLARO QUE EU SOU MÃE DELE! – ela pegou as coisas da mesa de seu gabinete e começou a jogar contra a parede. – VOCÊ TEM A MENOR DÚVIDA DISSO?! FUI EU QUEM O AMAMENTEI, EU QUEM CUREI SEU UMBIGO, EU QUEM ACORDEI DE MADRUGADA TODAS AS NOITES, EDDARD! EU NÃO TENHO A MENOR DÚVIDA QUE SOU SUA MÃE! MAS ELE TEM! ELE AGORA ESTÁ CONFUSO, EDDARD! ELE ME CHAMA DE...
As pernas dela não sustentaram mais seu peso. Ela foi de encontro ao chão, chorando aos prantos, soluçando e sentindo seus ombros tremerem. Enterrou o rosto nas mãos sabendo que estava a ponto de alagar todo o castelo de Winterfell.
Ela escutou a cadeira se arrastar e Eddard se agachar para acudi-la. Ele a perguntava o que Jon havia feito, mas ela não conseguia sequer repetir. Ela não conseguia repetir as palavras do menino que ela havia criado com tanto amor, com tanta devoção.
— Isso dói... – ela dizia com o rosto enterrado no peito dele. – Faça isso parar, por favor. Conserte as coisas Eddard. Acerte a cabeça de nosso filho numa parede, diga a ele quando acordar que tudo não passou de um sonho. Vá até ele e diga que mentiu, que você só estava tentando fazer uma terrível piada de mal gosto.
Parecia a realização de um terrível pesadelo. Em seus sonhos mais sombrios, Cersei tinha Jon a olhando com decepção e dizendo que ela não era sua mãe.
Doeu mais que perder Joffrey. Doeu mais que qualquer outra coisa que Cersei pudesse comparar. O olhar frio em seu rosto, a forma como ele se referiu a ela por seu nome e não pelo costumeiro ‘mãe’. Doeu quando ele a afastou quando ela tentou abraça-lo.
Ela não sabia quem odiava mais naquele momento. Eddard ou Jon ou a maldita que havia se deitado com seu marido! Ela gostaria de cumprir sua promessa e arrancar a cabeça de Eddard, queimar aquela droga de diário e esconder Jon em uma torre, tranca-lo e dizer que só o libertaria quando ele voltasse a reconhece-la como sua mãe.
— Por que você teve que dizer a ele, Eddard? – ela fungava em seu peito. – Meu amor não é o suficiente? Ele precisa de outra mãe?
Sentiu vontade de vomitar. Será que Jon agora iria viver em uma busca incessante por sua mãe de barriga e ela é quem receberia todos os afagos e o olhar amoroso que costumava pertencer a Cersei?
Não... Jon iria tomar um chá de bom senso. Ele perceberia o quanto aquilo era ridículo, ele perceberia que ninguém no mundo poderia ama-lo da forma que Cersei o amava. Nenhuma mulher em Westeros faria o que Cersei fez! Ela bem sabia que a Rainha Catelyn desprezava e maltratava todos os bastardos de seu marido, e parte de Cersei sabia também que se não tivesse perdido Joffrey, Jon também teria tido uma infância sofrida nas mãos dela, mas... mas as coisas eram como eram, e ela perdeu Joffrey, e Jon perdeu sua mãe, e ela tinha tanto para dar e Jon tinha tanta sede de receber.
E agora ele a renegava! Renegava seu abraço, seu carinho, as noites mal dormidas, as sopas, os biscoitos, os banhos, os beijos, as histórias. Ele a renegou e a colocou em um patamar nivelado a de um parente muito distante, como se ela fosse uma qualquer... como se ela fosse a droga de uma tia avó sulista que visitava a cada dez anos!
— Cersei, tanto quanto você, eu nunca quis que Jon soubesse a verdade. Eu amo tê-lo como meu filho, ele é meu maior orgulho, meu maior troféu. – ele começou a enxugar as lágrimas do rosto dela. – Ele também está me chamando pelo nome, mas isso vai passar... ele só está confuso. Está triste. A razão vai chegar a ele, Jon é um bom rapaz.
— Você está tão tranquilo porque ele ainda é seu filho. – ela fungou. – Eu fui humilhada. Ele me chamou de Cersei na frente da criadagem.
Houve uma longa pausa entre eles. Ela ainda chorava, recordando-se da frieza das palavras de seu filho.
— Então... ele não te disse sobre a mãe dele?
— Não... O que há pra dizer? É alguma vagabunda que você conheceu por aí...
— Cersei... a mãe de Jon é minha falecida irmã com Rhaegar Targaryen.
Os olhos dela se arregalaram e ela se afastou bruscamente de Eddard que esfregou o rosto. Ele então começou a narrar a história sobre a promessa que havia feito a Lyanna, que protegeria Jon e o criaria como seu próprio, que não permitiria que ninguém soubesse sobre sua verdadeira paternidade e linhagem.
Contou-a que Jon apenas descobriu porque como Eddard havia começado a dá-lo mais liberdade e acesso ao que havia em seu gabinete, Jon encontrou seu velho diário de guerra e começou a ler em segredo. Estava sendo uma leitura saudável para o rapaz, até que ele chegou nas últimas páginas e descobriu a verdade sobre seu nascimento e consequentemente encontrou uma carta de Howland Reed, jurando a Eddard que nunca diria a ninguém sobre Jon e que aquele segredo ele carregaria ao túmulo.
Quando seu filho o confrontou, ele não tinha sequer o que dizer. Tentou explicar a ele, implorou para que Jon não dissesse nada a ela, que ele provavelmente a machucaria muito, mas aparentemente o menino não havia o escutado.
Ele havia sumido por um dia inteiro, Cersei havia ficado louca de preocupação. Ela mesma havia montado em um cavalo para procura-lo na propriedade, mas era evidente que Jon havia trotado para fora das redondezas e ela não era uma excepcional amazona para arriscar um possível trajeto em busca de seu filho.
Jon apareceu cheirando a cerveja e a prostitutas. Ela queria enfiar uma faca em seu coração de tanto desgosto. Ele nunca havia frequentado aquele tipo de local, ele nunca havia sido aquele tipo de rapaz. Ela sentiu ainda mais raiva de Eddard.
Quando ela tentou ajuda-lo com as roupas e apoiado o braço dele ao redor dela, Jon a empurrou com força e disse “tire as mãos de mim Cersei”.
Não havia sido o empurrão que a machucara. Havia sido a forma como ele havia a tratado em frente a todos os criados e naquele momento, terminando de narrar o acontecido, ela viu que Eddard estava furioso.
— Ele te empurrou e lhe destratou na frente da criadagem?! – vociferou enquanto se punha de pé. – Não, tudo tem limite. Eu entendo que ele esteja chateado, mas ele não tem o direito de fazer isso com você. Ele lhe deve respeito.
Ela não conseguia parar de chorar. Ela não conseguia formular frases, seguir um raciocínio, pensar coerentemente.
— Isso não é o pior, Eddard... – ela fungou, apoiando-se na mesa para ficar de pé.
Seu marido estava a caminho da porta, olhando para ela.
— Jon quer renegar seu título e seus direitos como herdeiro. Ele quer ir para Castle Black.
Eddard foi até ela e segurou seu rosto, beijou-a com força e Cersei até queria lutar contra ele, mas ela estava fraca demais, ela podia apreciar um pouco de consolo físico.
— Nosso filho não vai a lugar algum. Eu prometo a você.
Ela se trancou em seus aposentos até o sol sumir. Ela não comeu, ela não conversou. Quando Eddard a disse que Jon se recusava a falar com tudo e todos, ela o culpou mais ainda. Mandou que ele saísse do quarto e a deixasse em paz, não se sentia particularmente motivada a ser gentil com seu esposo.
A porta se abriu e parte dela tinha esperanças que fosse Jon e a outra parte torcia para que não fosse Eddard com comida, mas quando ela se virou para olhar viu Myrcella com uma fumegante xícara de chá.
— Eu trouxe pra senhora ficar mais calma. – a doce menina foi até ela, com aquele equilíbrio invejável e depositou a xícara sobre o parapeito da janela.
— Obrigada, meu amor. – tomou um pouco do conteúdo. – Foi bem pensado. Eu não consigo comer.
Myrcella deu um sorriso triste e Cersei abriu os braços indicando que queria que a menina a abraçasse. Ela segurou sua cópia com força e tornou a chorar. Era a única coisa que ela sabia fazer no momento. Estava naquela janela há horas vigiando os estábulos para garantir que Jon não tentaria fugir...
— Se serve de consolo, Arya socou Jon e disse que ele está sendo um idiota.
— Você o viu? – Cersei perguntou tendo a menina em seus braços.
— Não, mas eu escutei eles brigando.
Ela estava pronta para perguntar sobre o quê Arya e Jon estavam brigando, quando ela viu a figura escura de Jon marchando com força na direção dos estábulos. Ele estava fugindo!
Deixou a xícara cair e abriu a janela com força, passando suas pernas para fora e saltando para o chão cheio de neve.
— JON! – ela gritou enquanto corria apressadamente na direção dos estábulos, tentando alcança-lo.
— Deixe-me em paz. – ele disse rispidamente.
— Não! Eu não vou te deixar em paz. Você está cometendo um erro, você não pode simplesmente acreditar que largar tudo vai mudar as coisas. – ela conseguiu finalmente alcança-lo e meter-se na frente de seu caminho.
Lá estava ele, seu lindo filho com o semblante irritado, os olhos cinzas cheios de mágoa. Ela tentou se aproximar para tocar seu rosto já barbudo, mas que por trás daqueles pelos, Cersei ainda podia ver o menino que cresceu embaixo de sua saia.
Ele se esquivou de seu toque.
— Jon... não faça isso comigo. – implorou. – Eu não vou mais me desculpar por ter mantido isso de você. Eu fiz o que tinha que fazer para mantê-lo a salvo, eu fiz o que fiz porque eu amava você mais que a mim mesma, ainda amo! Você me salvou, Jon. Você chegou pra mim no momento que eu mais precisava. Eu não sabia nem que era possível sentir aquilo que eu sentia quando via você no berço.
Jon evitou seu olhar. Ela dessa vez conseguiu tocar seu rosto. Ela pegou a mão dele e tocou o lado esquerdo de seu peito, colocando a dela sobre o dele.
— Às vezes eu podia jurar que nossos batimentos cardíacos estavam interligados. Eu sempre disse a seu pai que eu só viveria enquanto você respirasse... você mudou minha vida em todos os sentidos, Jon.
— Pare com isso.
— É a verdade, Jon! Agora você vai agir como se eu não existisse? Como se não tivesse sido eu a alimentá-lo, cuida-lo e ama-lo? Você não pode estar falando sério sobre isso. – as lágrimas escorriam. – Eu sei que foi errado te manter no escuro, mas você está me punindo por te amar tanto, por te amar o suficiente para querê-lo só pra mim e não dividi-lo com um defunto.
Ele se afastou dela com brusquidão. Cersei se amaldiçoou mentalmente, aquilo não era algo que devia ter dito.
— Eu vou para Castle Black. – ele disse com firmeza. – Escreverei para Sansa explicando tudo.
Ele girou os calcanhares para voltar e seguir aos estábulos, mas antes que Jon pudesse dar um passo, Cersei mandou toda sua compostura aos sete infernos e se jogou no chão agarrando as pernas dele.
— VOCÊ ME DESONRA, JON! A MIM, QUE SOU SUA MÃE, QUE LHE DEU TUDO. – ela berrava com as lágrimas escorrendo. – Você não tem um pingo de consideração por todas as noites que eu passei acordada morrendo de preocupação por você?! Você simplesmente irá privilegiar uma mulher que somente te pariu?!
— Não é como se ela tivesse tido a oportunidade de fazer muito mais!
— Exatamente! EU SOU SUA MÃE, JON! Toda sua honra deve ser a mim, toda sua obrigação é para comigo. Você pode não ter meu sangue, você pode não ter minha aparência física, mas tudo que você é hoje é porque eu te criei! Eu abracei a responsabilidade de ser sua mãe! Você acha que eu tinha a obrigação?! – ela berrava em prantos. – Eu não tinha, Jon! Você poderia ser criado como um mero servo, você poderia ser mandado para longe. Eu infernizaria seu pai e você sabe que eu tenho o que quero quando quero! Eu teria conseguido te mandar para o Norte da Muralha se eu assim quisesse, mas eu te amei. Eu escolhi te amar, eu escolhi te criar, escolhi ser sua mãe.
Jon ainda não a encarava. Ele tentava fazê-la soltar suas pernas, mas Cersei havia o envolvido com os braços e as pernas.
— Você não vai a lugar algum, Jon! Não enquanto eu estiver viva. Apesar que falta pouco para meu fim! Eu juro, Jon, que se você deixar Winterfell eu vou me jogar da torre mais alta e não duvide que eu não faria, porque eu não tenho nada a perder. Se você vai me desonrar dessa forma, então eu não tenho nada a perder. Prova aquilo que eu sempre soube! Que eu sou uma mãe inútil, terrível, que eu não presto para absolutamente nada, porque eu sequer fui capaz de dar um herdeiro vivo para seu pai.
Ela viu então que Eddard se aproximava, acompanhado das garotas. Ela estava tão aliviada, talvez Eddard conseguisse conter Jon.
Mas seu marido bem diferente do que ela esperava, a colocou de volta aos seus pés e a segurou, permitindo que Jon fosse para os estábulos.
— O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? SOLTE-ME! OLHE SÓ, ELE ESTÁ INDO EMBORA, EDDARD! VOCÊ TEM QUE FAZER ALGUMA COISA.
— Deixe-o ir, Cersei... se ele quer ir, que vá...
— VOCÊ NÃO PODE ESTAR PROFERINDO ALGO ASSIM! EDDARD, ELE ESTÁ INDO EMBORA! NOSSO MENINO ESTÁ INDO EMBORA!
E ela teve que assistir Jon sumir no meio das árvores da floresta da propriedade, enquanto era segurada por seu marido.
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