Os ventos de inverno
8 Parte VIII
Notas iniciais
— Você estava bonita hoje...
Ela encarou Eddard através do reflexo do espelho. Cersei estava penteando o cabelo que estava preso em um penteado extravagante. Normalmente ela preferia usar seu longo cabelo solto, especialmente porque ele era muito pesado e ela sentia dor de cabeça em tê-lo num coque e a tiara.
— Obrigada. – disse agora tomando um paninho para limpar o rosto.
Eles ainda não estavam se falando direito, embora eles estivessem fingindo bem para os visitantes. Tia Genna, a quem Cersei não via desde que era uma menina, ficou maravilhada com Eddard, ela nunca poupava a ele elogios e insistia que ele devia conhecer o Rochedo e se hospedar um tempo na casa deles.
Seu tio Kevan também parecia bastante interessado em seu marido e com exceção de Tyrion, aquele era o único Lannister que Cersei acreditava que seu marido pudesse ser cortês.
Tyrion foi recepcionado com euforia pelas crianças. Jon que encheu os ouvidos de Arya e Myrcella com histórias sobre o anão transmitiu todo seu carinho pelo homem e não foi surpresa que Tyrion tivesse as conquistado verdadeiramente em pouco tempo.
Com a partida de Jaime, era Tyrion agora quem Myrcella seguia para todos os lados, mas Eddard não parecia incomodado com isso simplesmente porque ele tinha Tyrion em grande estima.
Seu pai por outro lado não parecia ser muito atrativo para quaisquer de seus filhos. Mesmo Myrcella não parecia gostar muito dele e ela gostava de todos, até mesmo do Rei Robert. Cersei imaginava que Tywin a assustava... ela se lembrava de ter muito medo de seu pai.
— Você se divertiu essa noite? Será que foi em qualquer coisa parecido com a corte do Sul?
— Eu me diverti, mas não foi parecido com a corte do Sul. É melhor assim, de qualquer maneira. Eu não gosto daquele lugar, pelo menos não mais.
— Bem, um torneio é um modo bastante sulista de se comemorar o dia do nome.
— Mas é importante que nós façamos esses eventos vez ou outra, Eddard. Passamos por antissociais lá fora. Nossos jantares são cheios de lordes nortenhos apenas, seu conselho tem apenas homens do Norte.
— E me diga, o que um homem do Sul poderia ser útil na minha mesa? O que eles sabem do inverno?
Rolou os olhos. Ela não estava de bom humor. A comida havia sido muito pesada e havia descido mal, ela só gostaria de dormir.
— Esqueça. – disse com brusquidão e então caminhou até a cama, segurando a vela e a apoiou sobre a mesa ao lado.
Levantou as peles e se enfiou embaixo delas, desejando rapidamente uma boa noite para seu marido.
— Vai dormir?
— Sim, eu gostaria. Eu tenho estado exausta.
— Você deve estar anêmica.
— Anêmica está sua grande amiga Catelyn. – disse rispidamente. – Boa noite, Eddard.
Ou será que ele realmente pensava que poderia tomar seus direitos naquela noite? Ele não cruzaria um centímetro de seu pênis perto dela.
Ela só desejou que a Rainha Catelyn tivesse ficado em King’s Landing. Era ridículo que se sentisse tão incomodada já que era bastante evidente que seu marido, apesar de ter o sangue do lobo, não parecia gostar muito de ossos. Ela era muito cuidadosa mantendo uma alimentação saudável e fazendo os exercícios que a Velha Ama havia ensinado para manter a saúde estética e íntima.
Mas incomodava como Catelyn parecia muito adequada a ele e ela também as vezes ficava com tanta pena da mulher, pensando que jamais se permitiria ser tratada da forma que Robert fazia.
Durante aqueles dias, caminhando pelos corredores, ela escutou os dois brigando porque Robert havia levado uma empregada para os aposentos particulares deles. Ela escutou a mulher gritar e o som de um tapa.
Todos seus pelos se arrepiaram e ela ainda que escutasse o choro de Catelyn, continuou andando reto e agindo ignorante aos sons de dor que ela fazia.
— Será que nós não podemos dar uma trégua? Estou me sentindo péssimo, Cersei. Você não está?
— Bem, é sua culpa. Foi você que o convidou, foi você que ficou agindo como uma criança mimada. Acho que você deveria conviver com a consequência de seus atos. Você não irá tomar seus direitos, marido, se é isso que quer...
— Nós dois sabemos que se eu quisesse tomar meus direitos eu já teria tomado.
— Você seria incapaz de me forçar.
Eddard riu.
— Cersei, eu não preciso lhe forçar. Seu corpo responde a mim. Seus poros arrepiados e sua respiração pesada te entregam totalmente, sem falar que você está inconscientemente esfregando suas coxas na outra.
“Maldito” pensou irritada, mas quando se tem uma vida sexual tão ativa e de repente ela bruscamente para, era normal que sentisse falta, certo? Ela era humana.
Logo ela sentiu Eddard aproximando o corpo deles. Enquanto ela estava de camisola, ele estava nu. Ele passou os braços ao redor dela, afastando seu cabelo e beijando sua nuca.
— Eu só quero que fiquemos bem de novo. – sussurrou o Rei do Norte em seu ouvido. – Honestamente. Estou cansado dessa muralha entre nós, eu só quero que isso se resolva e que fiquemos bem.
— Você quer transar. Acha que não estou sentindo seu pau cutucando meu traseiro?
— É claro que eu quero transar com você! Eu poderia transar com você o dia todo, Cersei. Todo maldito homem de Westeros gostaria de transar com você e isso as vezes me enfurece e me deixa louco!
As mãos dele começaram a percorrê-la e como Eddard havia afirmado, seu corpo a traía. Ela sentiu um arrepio pela espinha enquanto ele beijava sua nuca e tocava os seios.
— Por favor, Cersei.
Deuses, ela queria-o. Ela na verdade queria tanto quanto ele e o volume contra seu corpo estava a matando, as mãos dele brincando com seus mamilos por cima da camisola estavam a matando, mas ela também estava decidida a fazê-lo lamentar.
— Eu estou cansada e com nem um pingo de vontade de foder com você. Se puder então me deixar dormir, eu vou ficar muito grata marido.
O homem cedeu e parou com os toques inapropriados, limitando-se em puxa-la contra seu peito. Ela estava tentada a fugir dos braços dele, mas Cersei adormeceu mais rápido que imaginava.
O torneio em sua homenagem duraria sete dias. Surpresa foi quando Eddard decidiu se juntar aos jogos, já que seu senhor marido não era um fã da prática.
Cersei só não imaginava que ele fosse bom também! Porque até agora o Rei do Norte, Sor Barristan e a Montanha estavam liderando o jogo. Robert Baratheon como sempre bêbado demais havia sido um dos primeiros a ser eliminado.
Ela estava em seu camarote particular aplaudindo os dançarinos folclóricos da região. Jon estava bastante entediado e a todo momento a perguntava quando o pai iria competir e Cersei sempre repetia o mesmo.
— Ele está se preparando querido... você já comeu, Jon?
— Não estou com fome.
— Eu não estou perguntando se você está com fome. Estou perguntando se já comeu.
O olhar em seu rosto denunciou aquilo que ela suspeitava. Não, ele não havia comido. Fez sinal para que ele se sentasse e sussurrou para que a servente no camarote trouxesse algo para seu filho.
Ao seu lado Myrcella distraidamente brincava com as bonecas que o tio Tyrion havia a trazido de presente. Intimamente era a primeira vez que ela estava grata pela presença de Tyrion, porque ele era tão afeiçoado as crianças, especialmente Jon que o tratava com tanto carinho e nunca havia feito uma piada sobre sua altura, que ele se certificava que Tywin Lannister nunca os encontrasse sozinhos.
Ela podia ver de longe Arya serelepe e brincando com ele. Benjen também estava junto e eles distraíam a menina.
Logo a moça voltou trazendo uma bandeja com a refeição de Jon e ele fez uma careta. Ele estava ficando cada vez mais difícil para se alimentar conforme crescia.
— Eu não gosto de beterraba. – ele reclamou.
— Bem, eu também não gosto. – confidenciou-o. – Mas aí eu penso: se eu comer bem rápido e misturar na minha comida, eu quase não vou sentir o gosto. Os benefícios que ela trará durarão muito mais que seu sabor na minha boca.
O menino ainda não parecia muito convencido.
— Eu tenho pão de mel comigo, mas eu só vou te dar se você comer tudo.
Ele abriu a boca para negociar.
— Inclusive as beterrabas.
Uma explosão de gritos e aplausos denunciou que a Justa ia começar e Cersei sabia que seu marido estava competindo. Ele adentrou em sua armadura cor de chumbo, trotando em seu cavalo mais forte. Sor Barristan iria enfrenta-lo.
— É o pai! – Jon voou para a barra do camarote novamente apesar dos protestos de Cersei que não gostava que ele se pendurasse.
— Jon, venha almoçar.
— Não! Por favor, por favor, agora não.
Cersei desistiu, ela sabia que era inútil. Como para a maioria dos meninos de sua idade, Eddard era o herói de Jon. Ela sabia que em poucos minutos seu marido iria até ela e a pediria para amarrar a fita em sua lança.
— Será que o papai vai me dar a coroa a Rainha do Amor e da Beleza? – perguntou Myrcella.
— Não, Cella. – Jon se virou. – Ele vai coroar a mamãe, senão Arya poderia ficar chateada. Ela também é bonita e mereceria uma coroa.
— Mas eu sou seu xodó, ele mesmo me disse. – a menina falou alegremente. – Apesar que eu não sei o que é um xodó. O que é um xodó, mamãe?
— É só uma forma carinhosa de se referir a você, meu bem. Todos vocês são xodós do papai.
— Ah... mas eu sou mais certo?
Riu e beijou a testa da menina, achando melhor não responder para evitar problemas futuros. Não com Jon, ele era uma criança tranquila, mas Arya poderia realmente ficar enciumada. Ela sabia que Eddard teria o bom senso de não coroar Myrcella caso ele viesse a ganhar.
Ela não estava confiante porém... não com a Montanha derrubando seus oponentes e mesmo com os Reis, a Montanha não costumava ser mais gentil ou menos brutal pelo menos.
Na verdade Cersei desejava que seu marido caísse do cavalo na competição do dia. Sor Barristan pelo menos jogava limpo.
— Você tem feito um excelente trabalho em me evitar desde que eu cheguei.
Seu sangue esfriou quando escutou aquela voz familiar. Fechou os olhos e praguejou baixinho, percebendo Myrcella ficar tensa ao seu lado e lançar um olhar estranho para Tywin. Passou um braço protetor ao lado de sua criança e sorriu, queria dizer a ela que estava tudo bem, que era apenas o vovô e que ele tinha doces no bolso.
Mas não era verdade. E Cersei não alimentava mentiras a seus filhos.
Virou-se para o pai e o lançou um sorriso falsamente cordial.
— Eu tenho feito um excelente trabalho em lhe evitar nos últimos dez anos. O que você quer?
— Assistir ao torneio! – ele abriu os braços e deu uma risada. – Não é para isso que viemos todos? O torneio em comemoração ao dia do nome da Rainha do Norte.
Estreitou os olhos para ele. Ela não havia o convidado e ela tinha certeza que o mesmo se podia dizer de Eddard.
Como se lesse seus pensamentos, Eddard trotava em sua direção com o cavalo e a lança. Cersei teve que se soltar de Myrcella para poder amarrar a fita.
— Oi papai! – Myrcella disse alegremente.
— Oi princesa...
— Será que se o senhor ganhar vai me coroar a Rainha do Amor e da Beleza?
— Eu imagino que você não queira dividir a coroa com sua irmã, então acho que vou dá-la a sua mãe.
— Mas eu sou mais bonita que a mamãe. E você me ama mais.
Cersei riu enquanto laçava a fita na arma de seu marido. Myrcella sempre conseguia vencê-lo usando apenas o charme e batendo os cílios romanticamente.
— Eu as amo igualmente. Você, Arya e a mamãe. – ele então se voltou para Cersei, lançando um olhar para Tywin. – Está tudo bem?
— Sim. – sussurrou e então disse. – Tente não se machucar...
— Eu aposto que você adoraria isso.
— Um pouco.
Eddard sorriu para ela ainda assim e ela não pôde fazer nada que senão sorrir de volta. Ele lançou um aceno de cabeça para Tywin e então se virou para Jon.
— Está cuidando das nossas garotas? – perguntou enquanto bagunçava os cachos.
— Sim. – Jon disse com firmeza.
— Já comeu suas beterrabas? – Eddard lançou um olhar severo para Jon e então para o prato de comida.
— Uh...
— Obedeça sua mãe. Coma as malditas beterrabas, Jon. Não quero ter que deixa-lo de castigo enquanto estamos todos nos divertindo.
Aquilo pareceu agitar os ânimos do Príncipe Herdeiro. Cersei suspirou pensando em como seria bom se seus filhos a obedecessem com a facilidade que obedeciam Eddard. Mesmo Myrcella as vezes teimava em lhe bater o pé.
A competição estava para começar, os tambores estavam já batendo quando Arya chegou ofegante e suada, sequer dando um olhar na sua direção e se inclinando sobre o beiral do camarote para ver o pai.
— Arya, por favor, cuidado. – implorou.
A menina apenas se virou e sorriu entusiasmada, voltando a acenar para o pai animadamente. Jon começou a reclamar, dizendo que não era justo que Arya pudesse assistir e ele não.
— Ela já comeu e não reclamou das beterrabas. Agora fique calado e coma. – disse duramente.
Myrcella foi para perto da irmã e Cersei sorriu quando viu Arya segurar a pequena menina protetoramente. Myrcella estava na pontinha de seus pés e apoiada no beiral. Elas podiam brigar o tanto que fosse, mas Cersei sabia que no futuro elas cuidariam uma da outra.
— É inacreditável o quanto Myrcella e você se parecem fisicamente, mas é ainda mais inacreditável pra mim o quanto Arya imita você em tudo quando tinham a mesma idade. – ela escutou seu pai dizer. – Você realizou seu sonho de infância para a menina... você permite que ela use calças em casa quando não há convidados, ela sabe usar uma espada e pode lançar uma flecha melhor que eu.
Deu de ombros. Não era sempre que ela permitia Arya usar as calças, ela precisava se acostumar com o vestido, mas eles viviam no Norte, numa fazenda de certa forma. Ela precisava estar confortável e Arya estava sempre correndo! Inúmeras vezes Cersei teve que beijar seu queixinho machucado por ter tropeçado na barra dos vestidos. Certa vez ela quebrou um dente, a sorte é que era um dente de leite e ela o trocou um par de anos depois.
— O que você espera que eu diga? Nem todas as meninas nasceram para tricotar, cozinhar e ser uma esposa omissa. Eu sei que eu não nasci, minha sorte foi ter encontrado um marido que não arrebenta minha cara por não concordar com suas opiniões.
Ela lançou um olhar para a Rainha Catelyn que tinha um lábio machucado. Ela havia dito que era o frio, mas Cersei duvidava que mesmo o mais rigoroso inverno podia fazer um estrago como aquele.
O punho do Rei Robert, por outro lado...
— Mas Myrcella tem o queixo orgulhoso dos Stark. – continuou seu pai. – Eu quase pude ouvir seu marido quando ela disse o inverno está chegando.
— Ela adora imita-lo.
— E Arya tem as mãos de sua mãe. Mãos assustadoramente delicadas para uma menina tão selvagem como ela. – comentou Tywin. – Ela só não terá a altura dos Lannister. Ela é baixa como seu pai.
— Eddard não é baixo. Eddard é maior que eu.
— Você é alta para uma mulher, mas seu marido é baixo para um homem. É o sangue dos Velhos Homens dizem... os homens nortenhos são baixos.
Rolou os olhos. Seu pai era especialista em conversas desinteressantes.
— Ele também não tem a altura dos Lannister... – comentou seu pai rispidamente e Cersei viu que ele olhava para Jon. Fuzilou-o com os olhos. – Não é mesmo menino? Ou você acha que um dia vai ser tão alto quanto sua mãe?
— Maester Luwin diz que eu estou indo bem na minha taxa de crescimento. – Jon falou confuso.
— É claro que está meu querido. Você está indo muito bem. – disse começando a sentir seu sangue ferver.
— Bem, mas está bastante evidente que não vai crescer tanto. – insistia Tywin ignorando os olhares de Cersei e então tomando o braço do menino. – Está vendo isso aqui? Esse osso do antebraço? O de Jaime era bem maior. Na sua idade ele era uma verdadeira negação como espadachim porque ele ainda precisava crescer muito mais. Você, por outro lado meu jovem, já dá indícios que vai ser um espadachim muito brilhante. Você é ligeiro e rápido. Homens grandes não são rápidos, eles são fortes. Jaime é um homem forte e ele é ainda mais alto que eu.
— Chega pai. – ralhou Cersei e o obrigou a soltar o braço de Jon.
O menino parecia confuso, não chateado, mas confuso. Cersei sentia seu sangue ferver dentro das veias e era um daqueles momento que ela desejou poder quebrar alguma coisa, preferencialmente quebrar alguma coisa na cabeça de seu pai.
— Até porquê... – uma voz bêbada e arrastada preencheu o recinto. Lá vinha Tyrion tropeçando nos próprios pés e com um copo de vinho. – Nem todos os Lannister têm a altura dos Lannister, correto?
Jon pareceu contente com a explicação e lançou um sorriso para o tio. Ele pegou uma coxa de galinha e abocanhou, esquecendo os comentários de Tywin e o ódio no rosto de Cersei.
O barulho de uma armadura sendo atingida e cavalo relinchando denunciou que um dos cavaleiros havia caído e para seu enorme desprazer havia sido seu marido.
— Mãe, o papai caiu! O papai se machucou! – Arya disse nervosamente enquanto Myrcella começava a chorar assustada.
— Ah Deuses... – ela recolheu suas saias. Eddard iria escuta-la, ela foi contra desde o início que ele participasse daquele estúpido jogo. – Como se eu já tivesse pouco trabalho, agora vou ter que cuidar de um possível aleijado.
Castigou-se mentalmente por ter dito aquilo em voz alta ao ver o olhar das crianças. Myrcella chorou mais ainda, ela duvidava que sua filha soubesse o significado de ‘aleijado’, mas certamente não soava bem aos ouvidos.
— Não é nada, o papai está bem. A mamãe, porém, vai ter que ir até a tenda dos curandeiros para estapeá-lo por ter se metido em problemas.
— Não bata no meu papai. – Myrcella dizia aos prantos e levando as mãos ao rosto molhado.
— Vá. – Tyrion de repente não parecia mais bêbado. – Eu cuido disso.
Ela disse a si mesma que aquilo não mudava nada, que o Monstro ainda era o Monstro, mas Cersei estava extremamente agradecida por ele lidar com seus filhos naquele momento. Seu coração estava saindo pela boca. E se Sor Barristan tivesse feito um terrível estrago em seu esposo?
Adentrou a tenda, vendo todos imediatamente se curvarem diante dela, mas para seu desespero percebeu que alguém havia chegado primeiro.
A Rainha do Sul estava inclinada, alheia a sua chegada, conversando com seu marido em tom baixo. Os dois conversavam em tom baixo.
Pigarreou.
— Sua Graça... – a Rainha Catelyn falou cortês.
— Eu imagino que a senhora tenha seu próprio marido, Sua Graça. Tenho quase certeza que o vi levantando as saias de uma pobre donzela enquanto eu vinha para cá. Talvez devesse intervir, a menina não parecia apreciar as investidas do Rei.
O senso de honra e dever do salmão velho parecia ter falado mais forte e ela saiu pisando duro para salvar alguma pobre criança, que mal havia florescido das garras de seu marido brutamontes.
— O que essa mulher estava fazendo aqui? – rosnou enquanto caminhava até onde Eddard estava estendido.
— Porra Cersei, você acha que eu dou a mínima? Olha pro meu ombro, está fodido!
— Os Deuses foram bons dessa vez. Eu orei para que você fosse derrubado hoje.
— Você o quê?!
— Sor Barristan joga limpo, mas isso não quer dizer que a Montanha joga. – ela torceu o nariz para o sangue no rosto de seu marido e em toda sua barba.
O ombro dele estava claramente deslocado, mas não parecia quebrado. Logo alguns homens puseram seu marido sentado para que Maester Luwin o colocasse no lugar.
— Isso pode doer, Sua Graça.
— Segure minha mão. – Eddard implorou covardemente para ela.
Ela riu. Era bom ver os papéis invertidos de vez em quando. Normalmente era ele quem segurava a dela e ela berrava de dor, empurrando suas crias pela vagina.
O grito que Eddard deu quase a deixou surda. Ela achou ele fosse bater em Maester Luwin por isso interviu rapidamente, fazendo sinal para que eles saíssem da tenda e deixasse seu marido lamentando sozinho.
— Dói pra cacete. – ele voltou a se deitar.
— Eu dificilmente te ouço xingar. Eu xingo mais que você.
— Isso porque sua alma foi a de um pirata no passado.
Ela estava limpando com um pano úmido os ferimentos no rosto de seu marido, sentindo a mão dele alisar seu traseiro. Ele deferiu um tapa.
— Pare com isso. – mandou.
— Da próxima vez eu a tomarei por trás. Eu já disse o quanto adoro sua bunda?
— Não, mas eu imaginei que sim. Você passa muito tempo a contemplando, tocando, beijando e até mordendo.
Roubou uma risada de seu marido.
— É bem desagradável.
— Você ficou mais bunduda depois de ter nossos filhos. – ele disse fazendo uma careta de dor quando ela limpou o machucado mais feio. – Não pense que não sou feliz com os filhos que tenho, porque eu sou, mas eu gostaria de poder ter mais crianças com você.
Suspirou, ela não gostava muito de falar sobre aquilo. Ainda era doloroso pensar no assunto. Ela também gostaria de ter mais filhos, pelo menos dois ou três. Ela sempre quis uma casa grande e cheia quando era pequena, especialmente quando a infância foi tão solitária.
Era triste também que Jon nunca fosse ter um irmãozinho para bater espadas.
“Nunca é uma palavra forte” ela quase ouviu a tia Genna. Mas depois de tudo, depois da última gravidez, ‘nunca’ parecia uma palavra bastante apropriada.
— Você sempre se queixou de estar engordando, de estar inchada, mas eu sempre te achei muito bonita grávida. Você ficava ainda mais vaidosa como se tentasse compensar a falta de algo, só que você não sabia que estava muito mais bonita. Seu cabelo brilhava o dobro, seus olhos também e você sempre parecia um raio de sol no meio do cinza nortenho.
— Eu acho que você está começando a delirar... será que o Maester te deu alguma coisa para tomar?
Eddard começou a rir, mas então esticou o braço bom e a puxou na direção dele. Quando seus lábios se juntaram, Cersei suspirou contra eles. Deuses, ela havia se esquecido que seu marido era excelente naquilo que fazia.
— Cersei, Cersei... é verdade, você me tem na palma de sua mão. – dizia seu marido, seu tom arrastado indicava que ele logo adormeceria. – Se você me pedisse a droga do trono do Norte eu provavelmente ficaria feliz em abdicar e deixa-la sentar nele. Eu até hoje não sei o que estou fazendo ali.
Ela começou a desfazer o aperto do cinto e do colete para que ele ficasse mais confortável para dormir. Ela iria massageá-lo um pouco também, tinha certeza que poderia alivia-lo.
— Se você me pedisse para dá-la um dragão eu daria, aliás já dei.
Riu. Ele estava mesmo delirando. Certamente os Deuses jamais permitiriam que ela tivesse um dragão. Ela atearia fogo no primeiro que a aborrecesse.
— Se você me pedisse para buscar todas as estrelas no céu, adivinha? Eu também o faria. Se você me pedisse para sentar, deitar, rolar e latir eu faria. Sete infernos mulher, não há nada que eu não faria por você. Claro, sua linda buceta cor de rosa tem um pouco de peso nisso.
Eddard tentou enfiar as mãos embaixo das saias dela, mas Cersei foi rápida em evita-lo.
— O que eu preciso fazer para ter um gostinho de sua loirinha, esposa? – ele questionou com a voz mole e ela se perguntou se em algum momento ele iria parar de papo furado e embalar no sono. – Eu faria qualquer coisa, esposa. Qualquer coisa. Pode encomendar qualquer vestido, qualquer joia, se você me deixar reivindicar meus direitos aqui e agora, os cofres de Winterfell sãos seus.
Por um lado parecia muito tentador, mas a verdade é que Cersei já tinha joias demais e ela sequer dava conta de usar todos seus vestidos. Como Rainha ela ganhava muitos presentes e aquele torneio em especial havia rendido muitos deles. Então, não há realmente algo que ela quisesse que pudesse ser obtido através de ouro.
Mas havia outra coisa.
— Lembra quando você me disse que quando meu pai marchasse contra Winterfell você iria me entregar a cabeça dele numa bandeja de prata?
Seu marido ficou em silêncio, mas acenou com a cabeça.
— Pois bem. Não se esqueça disso...
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