Notas iniciais
Olá a todos! Sei que demorei a postar o novo capítulo. Acredito que estejamos próximos ao final de uma fase... espero que vocês gostem de qualquer forma!

O tempo, sempre deslumbrava Cersei o quanto o tempo parecia passar estupidamente rápido depois dos quinze anos. Era incrível como era fácil perder o controle das luas e dos dias, era perturbador o quanto ela via os anos se passarem tão rapidamente e não havia nada, absolutamente nada que pudesse ser feito a respeito disso.

— Você acha que eu estou gorda, Eddard?

Ela perguntou enquanto se olhava no espelho com um pouco de tristeza. Ela tinha muitas linhas prateadas na pele, cicatrizes da pele esticada para habitar suas crianças, que não eram mais crianças. Os seios dela estavam começando a cair, ela tinha linhas de expressão mais acentuadas e seu traseiro não era mais o mesmo.

Sem falar dos terríveis cabelos brancos! Deuses, ela os arrancava diariamente quase. Cersei sentia que iria ficar careca qualquer dia.

— Você sabe que não está gorda, Cersei.

— Mas você tem que reconhecer que eu não entro nos meus vestidos antigos mais.

— Eu também não entro nas minhas roupas antigas, esposa. – Eddard riu. – Pare de se torturar, você fica chateada quando faz isso. A idade chega pra todo mundo, Cersei, até pra você, a mulher mais bonita de Westeros.

Caminhou resignadamente até a cama. Ela ficou consciente de que estava ficando velha, quando Myrcella acordou assustada com sangue escorrendo do meio das pernas. No ano anterior quando Arya havia sangrado, Cersei ainda não estava consciente de que a idade também havia chegado, mas ver Myrcella se livrando das bonecas e começando a usar um corpete, era como assistir o seu reflexo de muitos anos atrás.

Ela tinha treze anos agora, ela era uma mulher e os lordes perceberam isso. Ela protegeu Myrcella da cobiça masculina o quanto pôde, mas agora sua filha parecia deleitada com os cortejos dos mais graciosos rapazes e especialmente de um.

Cersei não sabia dizer como se sentia por ela estar se correspondendo com Lancel Lannister. Ela havia o visto apenas uma vez, quando tinha meros dez anos, mas desde então sua filha havia decidido que era com ele que queria se casar e tudo que ela sabia pensar era num futuro ao lado dele, vivendo no Rochedo.

De seus três filhos, Myrcella era a única que conhecia o Sul. Nem Arya ou Jon faziam questão de estar em contato com o lugar que ela havia crescido, mas sua filha caçula ficou deleitada quando recebeu o convite de sua tia Genna para se hospedar em sua casa e, aparentemente, quando Myrcella não estava na companhia de Genna, ela estava passeando com Lancel.

Segundo sua tia ele foi muito amável, ele agiu como um irmão querido porque ela tinha apenas dez anos, ela ainda dormia abraçada com bonecas, mas Genna não deixou de salientar que um dia a menina seria uma mulher e que seria um verdadeiro prazer cuidar dela em nome de Cersei se Lancel e ela viessem a se casar.

E agora, a notícia que Myrcella era uma mulher havia chegado a Westeros inteira e eles recebiam todos os dias pedidos pela mão da princesa. Inclusive do príncipe que ela queria.

— Você pretende aceitar a proposta de meu tio? – perguntou nervosamente, brincando com as pontas loiras do cabelo.

— Você não quer que eu aceite? – ele respondeu com outra pergunta.

— Não é isso... é só que eu gostaria de ter meus filhos em casa. Eu não queria que eles fossem para o Sul.

Lá estava ela... adormecida por uns tempos, mas viva. A mãe neurótica e superprotetora que Cersei tanto havia trabalhado para deixar pra trás estava de volta.

Seu marido suspirou pesadamente. Ela sabia então que Eddard queria concordar com a união. Ela sabia também que ele estava certo, que Myrcella e Lancel seriam felizes e satisfeitos com o outro, ou com a ideia do outro, mas ainda assim ela sentia seu peito afundar.

— Politicamente falando é interessante ter uma princesa no Sul, Cersei. Casamentos em geral são meramente políticos, o nosso foi, o de Jon vai ser, mas se nossa filha tem a oportunidade de se casar com alguém que gosta e vai nos render bons frutos políticos, eu não vejo o porquê não seria possível. Eu não acho que seu pai a machucaria.

— Eu também acho que não, mas é que é Myrcella, Eddard. Ela alimenta esquilos, não come carne porque sente dó dos bichos, ela chora escutando canções tristes e quando Lancel se esqueceu do dia de seu nome ela passou luas sem escrevê-lo.

— Ela é jovem, ela é sensível, ela é romântica...

— Ela é como minha mãe, Eddard. E eu tenho muito medo que Lancel, mesmo que aparente ter saído de uma canção, no final não seja a canção que ela quer.

Isso porque Myrcella, diferente de Arya e Cersei, era boa por inteiro. Jon e ela tinham aquela alma pura, eles eram bons sem querer nada em troca, eles eram gentis, eles eram amáveis.

Eddard colocou a mão em seu queixo.

— Às vezes nós temos a canção que precisamos, não a que queremos. Eu confio que um casamento entre eles possa render bons frutos a nossa filha, nós não sabemos o dia de amanhã e talvez ela estivesse mais segura com Lancel quando o inverno chegar.

Ela sabia o que ele queria dizer. Há anos ela vivia com medo, temendo que seu pai pudesse fazer algo contra eles, algo contra Jon, porque eles haviam enviado Jaime para a Muralha.

Ele havia feito uma promessa de pagar sua dívida. E Cersei sabia que não importava o quanto demorasse, ele iria pagar. Ela temia que ele pudesse prejudicar suas crianças, ela temia que seu pai tivesse a oportunidade para machucar Myrcella no Rochedo e era por isso que estava com o coração na mão.

Myrcella sempre via o melhor em todos e parte disso era culpa deles, porque Cersei e Eddard a criaram em uma bolha de contos e canções. Se Lancel tivesse se apaixonado por Arya, Cersei talvez não estivesse tão temerosa. Bem, talvez estivesse, mas apenas pela integridade física de Lancel se ele tentasse força-la a qualquer coisa que não quisesse, especialmente quando Nymeria refletia tanto o temperamento de sua filha mais velha.

Nymeria era uma filhote de lobo gigante que Jon havia encontrado na floresta com Eddard e Ser Rodrick após irem cumprir justiça com a Patrulha da Noite e decapitar um desertor.

Eles haviam voltado com quatro filhotes de lobo gigante. Dois machos e duas fêmeas precisamente. Jon havia se afeiçoado muito ao menor deles, bem típico mesmo, Jon sempre foi o defensor dos mais fracos. Havia batizado a pequena fera de Ghost e ele se provou também muito parecido com seu dono, silencioso, disciplinado e dócil. Assim também era Lady, a loba de Myrcella.

Seria maravilhoso se a fera de Arya parasse de quebrar e atacar tudo que visse pela frente. Inclusive seu gato de estimação, Sor Baltazar. Ela havia perdido muito do Sul que havia nela, mas Cersei foi criada com gatinhos de estimação.

Havia um quarto lobo, ele era macho, mas geralmente passava o tempo inteiro seguindo um dos outros filhotes ou então dormindo. Ele também parecia afeiçoado a ela, embora Cersei não entendesse a razão. Ela nunca gostou muito de cães e aquele sentimento se estendia a lobos, seus primos próximos.

O quarto lobo era completamente preto e ainda não tinha nome, mas as crianças se revezavam cuidando dele. Myrcella adorava enchê-lo de fitas e flores, Jon o ensinava a caçar e Arya estava geralmente o cutucando e incomodando de alguma forma.

— E já que estamos falando de casamentos, eu acho que você deveria saber que Sansa vai completar o décimo sexto dia de seu nome em algumas luas e Robert gostaria que Jon e ela se casassem.

Seu estômago embrulhou. Ela costumava gostar de Sansa, mas conforme a menina crescia e ficava cada vez mais parecida com sua mãe, seu estômago embrulhava terrivelmente.

Arya parecia compartilhar de sua opinião. Sansa havia feito uma visita há alguns anos quando Jon e ela começaram a se corresponder. Ela viu seu filho beijar o clone de uma Catelyn Tully no Bosque Sagrado, ela viu a paixão nos olhos de Sansa, a mesma paixão que havia nos olhos de Catelyn toda vez que chegava no Norte e contemplava a vida de Cersei, a vida que Cersei havia roubado dela.

— Ela o ama. – disse ao marido.

— Bem, ele vai aprender a ama-la. Jon ainda é jovem, ele não entende muito de amor... ele está numa fase que só pensa em espadas, mas quando ele se casar com Sansa, dividir uma cama com ela e vê-la carregar seus filhos, dificilmente poderá resistir. Ele a amará por bem ou por mal.

Cersei não acreditava que era simplesmente assim, fácil assim. Eddard era otimista, ele acreditava que porquê Cersei e ele haviam conseguido deixar as diferenças para trás, o mesmo aconteceria com Jon, com Myrcella... seu marido havia se tornado um romântico, mas os pés de Cersei ainda estavam presos no chão.

Ela esperava do fundo de seu coração que Jon fosse feliz. Que Sansa o fizesse feliz. Ele parecia gostar da menina pelo menos... ele tinha muito mais chance de ter um bom casamento que Cersei tinha quando se casou com Eddard. Ela realmente acreditou que nunca iria aprender a amar um homem como ele, mas ele acabou abaixando sua guarda em algum momento.

Talvez Sansa abaixasse as guardas de Jon. Ou qualquer outra garota, ele merecia se apaixonar.

— E quanto Arya? Você sabe de algo que eu deveria saber? – Eddard arqueou as sobrancelhas.

— Ah sim, Arya também está apaixonada. Pela espada que Jon a deu. Juro que eu nunca a vi praticar tanto.

— Eu acho que nunca vi Jon se sentir tão culpado. – Eddard riu. – Acho que foi a primeira vez que o vi agir em nossas costas e encomendar uma espada para sua irmã. Uma espada adequada a ela, claro.

— Ela está feliz...

— Eu sei, mas eu disse a Jon que se ele vai dá-la uma espada, então deve ensinar Arya a manejar corretamente. Ele está praticando com ela todos os dias.

Sorriu com a lembrança de ver sua menina afiando a espada delicadamente. Havia batizado de Agulha a maldita coisa e a carregava na cintura por onde quer que fosse.

Há anos Arya havia abandonado os vestidos, ela agora só os usava em ocasiões extremamente formais. Mesmo o cabelo ela agora usava bem curto, pouco abaixo dos queixos e isso porque Cersei havia insistido. No entanto, mesmo assim, Arya conseguia roubar olhares. Ela só era intimidante demais para os homens, ela era forte demais, boa demais para qualquer um deles.

A masculinidade era uma coisa frágil, pensou Cersei. Mesmo seu marido se sentia um pouco ofendido quando ela o questionava ou quando ela o rebatia. Ele não era violento, mas Eddard a dava um daqueles olhares que dizia ‘Nunca mais me questione na frente dos meus homens’.

— Mas diga-me, como Jon está lidando com as novas obrigações? Ele está se saindo bem?

— Sim, ele está progredindo. Eu o dei acesso e liberdade para se aventurar em meu gabinete, as vezes eu entro e encontro Jon adiantando meu serviço. Esses dias eu o mandei em uma pequena viagem para negociar com os Umber. Saiu-se bem, resolveu o desentendimento, bebeu com Lorde Umber...

— Jon tem o carisma. – Cersei sorriu. – Ninguém resiste a ele. Ele é charmoso. Ele era bastante carrancudo aos treze anos, mas ele está progredindo, embora ainda gagueje para conversar com as moças. Jon tem uma queda pela filha do leiteiro.

Eddard riu.

— Sim... ele vai ser bom nisso, ele vai ser um bom Rei. Ele tem se correspondido bastante com seu irmão e acho que Tyrion vai nos fazer uma visita à convite de Jon. Talvez eu devesse pedi-lo para trazer Lancel, eu gostaria de conhece-lo. Mas de qualquer forma, nosso filho está se saindo maravilhosamente bem, ele está tendo dificuldade com os números, mas Arya, em troca dos treinos com a espada, está o ajudando com matemática. Eu vi um progresso. E você vai ficar surpresa, mas Jon está praticamente fluente, em pouquíssimo tempo de estudo, em Alto Valiriano. Você ficaria deslumbrada.

Franziu o cenho. Ela nem mesmo sabia que Jon estava aprendendo outro idioma, mas ficou orgulhosa. O Príncipe Herdeiro nunca foi estudioso... ele não era estúpido, mas não era o tipo de menino que podia passar horas sentado com a cara enfiada nos livros. Jon era uma pessoa calma, então ele retinha muitas de suas emoções, ele precisava gasta-las de alguma forma, por isso estava sempre em constante movimento.

Winterfell parecia gigantesca quando se tratava de encontrar Jon, ele nunca ficava parado, por isso preferia o serviço braçal. Ele carregava as sacas com os homens de Eddard, ele cavalgava o Norte inteiro para levar mensagens, ele ajudava a tirar animais que ficavam presos na neve, ele subia em árvores para colher amoras para Myrcella.

Ele era como Eddard. Dificilmente alguém acreditaria que Jon era o príncipe herdeiro, principalmente porque ele andava sempre com as roupas remendadas e as botas sujas de lama.

Por um lado era bom, porque mostrava que apesar de ter sido uma criança que em seus primeiros anos de vida havia sido muito mimado por ela, Jon não estava dentro de uma bolha. Ele não era como o Príncipe Robb que vivia apenas para a corte e as prostitutas no Sul. Mas por outro lado, era difícil porque Jon enfrentava cada dia mais dificuldade com a diplomacia e a política.

— Foi conselho de seu irmão, aparentemente, ele disse a Jon que um Rei precisa de um diferencial, ele sugeriu que Jon procurasse aprender mais um idioma para possíveis negociações com mercenários de Essos e Jon pareceu achar a ideia válida. Eu gosto de Tyrion, ele é bom para nosso filho. Para todas as crianças, mas especialmente para ele.

Acenou com a cabeça, concordando. Sua relação com Tyrion ainda era complicada, ela era grata a ele pelo que ele fazia por seus filhos, pela forma como os tratava, por ter os protegido de Tywin, mas era difícil deixar para trás toda a mágoa que tinha por ele. Ele ainda era o Monstro.

— Deuses, eu estou cansada. – disse Cersei enfiando-se embaixo da coberta e pronta para fechar os olhos.

— Cansada? Cersei, você ficou deitada o dia inteiro.

— Somente os Deuses podem me julgar, Eddard. Se você soubesse o quanto é desgastante tolerar seus homens e as bestas de seus filhos transitando em minha casa. Por falar nisso, a peste da Nymeria defecou em minha sala. Eu disse a você, eu disse que isso traria problemas... você permitiu isso, você vai se resolver com Arya amanhã ou eu juro que vou despachar esse animal numa carroça.

Seu marido soltou uma alta gargalhada.

— Você e as carroças... certamente quando Sansa vier morar conosco, vou ter que checar cada carroça que estiver saindo de Winterfell todos os dias, para me certificar que você não amordaçou a pobre menina e a mandou de volta para King’s Landing no meio das batatas.

Cersei sorriu, sentindo-se ser abraçada por trás e então fechou os olhos, mas não antes de pensar que Sansa Baratheon poderia estar seriamente condenada a viajar no meio dos legumes caso a pegasse em um dia ruim.

Naquela noite Cersei sonhou com Jon. Ela estava montada em um dragão e Jon estava bem na frente dela, cantando alto e alegremente em valiriano.

Notas finais
É um capítulo simples, mas apenas para introduzir o lapso temporal e a virada que teremos. Espero que vocês gostem. Beijos.