Os ventos de inverno
7 Parte VII
Notas iniciais
Ela nunca pensou que veria Jaime outra vez e estava conformada com isso, mas quando viu seu irmão gêmeo atravessar os portões de Winterfell acompanhado de Benjen Stark era como se uma chama tivesse se reacendido dentro dela. Era como se durante todos aqueles anos ela estivesse morta e ele estivesse trazendo a vida de volta.
— Minha Rainha. – disse Jaime fazendo uma mesura exagerada que ela rapidamente dispensou.
Cersei não o abraçou, ela mal olhava em seus olhos enquanto Eddard alegremente abraçava seu irmão pentelho e então cumprimentava Jaime rispidamente.
Ela não imaginou que ele viria...
— Então nós teremos um torneio em comemoração ao dia do nome da Rainha, diga-me irmã, como está se sentindo? E também me diga como convenceu o meu irmão a abrir as portas do Norte para os sulistas virem.
Eles estavam no meio do jantar quando Benjen se dirigiu a ela. De certa forma ele a lembrava um pouco de Tyrion com seus comentários sarcásticos e brincadeiras inoportunas. Ela desejou diversas vezes durante o dia encontrar uma carroça e dá-lo o mesmo fim que ela deu a Tyrion quando ele a incomodou demais.
— Ficaria surpreso, Benjen, se visse a facilidade com que eu tenho o que quero quando se trata do seu irmão.
— Eu sempre soube que ele estava de quatro por você.
De fato Eddard não poupava esforços para agrada-la. Cersei o tinha envolvido ao redor de seu dedo tanto no que dizia a satisfação de seus desejos carnais quanto a sentimentos. Ela sabia que no início do casamento tudo era sobre sexo e seu marido era um escravo de seu corpo e de sua vagina, ele podia passar a noite inteira a tomando sem se cansar. Ele transava tão vigorosamente com ela como se eles fossem recém-casados e não como um homem que havia a segurado e a visto parir os filhos.
Mas ela também havia conseguido chegar em um lugar mais profundo em que conquistara um lugar no coração dele, e ele também tinha um no dela, embora estivesse sempre preocupado em competir com o lugar que Jaime ocupava.
As crianças estavam claramente empolgadas por ter seus tios em casa, especialmente quando apenas Jon conhecia Jaime já que Arya era um bebê e Myrcella estava sequer concebida.
Jon e Arya eram apaixonados por Benjen. A presença do irmão de seu esposo era uma daquelas raras ocasiões que Jon sequer dava a mínima pra eles. Ela não tinha Jon a seguindo ao redor de Winterfell ou Arya implorando para tirar o vestido e colocar as calças de couro que Cersei havia mandado fazer há algumas luas.
Benjen os entretinha tanto contando as histórias da Muralha, fazendo brincadeiras e permitindo-os manejar sua espada, que incomodar seus pais parecia uma atividade desinteressante.
Cersei achou bom. Ela não podia lidar com eles no momento e Arya sempre era muito exigente e estava sempre ao redor reclamando o quanto os vestidos eram desconfortáveis.
Agora, ela realmente percebeu o desagrado de seu marido quando ele viu o quanto Jaime e Myrcella pareciam interessados um no outro. A filha deles claramente parecia encantada com o homem que mesmo em preto parecia ter saído de uma das canções que ela amava ou as histórias que Cersei contava. Ela o seguia para todo lado e de repente o papai não era mais seu preferido e Jaime, que sempre foi excelente com crianças, parecia contente em carregar Myrcella nas costas, leva-la para caminhadas e pegar todas as amoras e morangos que ela quisesse.
— Sabia que sua mãe também adorava amoras e morangos como você? – ela os escutou conversando no pátio, assistindo Myrcella devorar os frutos, ficando com as mãozinhas pegajosas. – Mas infelizmente não tínhamos tanto em casa. Dependíamos do Norte para nos enviar algumas. Nós enviávamos limão e eles nos enviavam morangos e amoras.
— Você não gosta de morangos, tio Jaime? – perguntou a menina inocentemente.
— Eu gosto mais de pêssegos, minha querida, e isso tínhamos aos montes no Rochedo. Aparentemente sua mãe sempre teve uma coisa com o Norte.
Ela sabia que ele havia a percebido xeretando a conversa dos dois por conta do comentário. Engolindo seu orgulho, ela decidiu se aproximar para participar da conversa.
— Mamãe! – Myrcella cumprimentou alegremente.
— Oi minha querida... – disse enquanto a pegava para colocá-la em seu colo. – Veja só, você está toda suja, toda melada Cella...
Cersei ainda não gostava tanto de apelidos, mas sua filha gostava e aquele era Eddard quem havia a dado. As crianças ainda a chamavam pelo nome, mas seu marido se referia a ela mais pelo diminuto.
Usou aquilo como um lembrete. O lembrete que ela era de Eddard, não de Jaime. Não importava o quão a imagem dos três como uma pequena família parecesse linda e tentadora.
— Tio Jaime estava me dizendo que a senhora sempre gostou de morangos e amoras. – a doce menina disse e então empolgadamente pegou um morango muito maduro e que parecia de fato saboroso. – Você quer um, mamãe? Eu posso dividir com a senhora.
— Hum... e esses morangos estão gostosos?
— Sim! O tio Jaime me ensinou a escolhê-los. Ele disse que quanto mais vermelhos, mais saborosos. Que você sempre gostou dos mais vermelhos.
— Ele está certo. – Cersei disse encostando seu nariz ao da menina e os esfregando. Roubou uma risada gostosa de seu pequeno amor. – Bem, eu acho que um não fará mal. Há muito tempo eu não como morangos. Mas será que você colocaria na minha boca? Eu não gostaria de sujar minhas mãos.
A menina empolgadamente levou o morango até a boca da mãe. Cersei comeu fruto da mãozinha melada da menina, mas então incapaz de resistir levou a mão até a cesta com as frutas e colocou um na boca dela.
Ela estava entretida em seu momento com a doce criança, quando percebeu que Jaime as olhava intensamente. Ela podia dizer que ele estava pensando o mesmo que ela alguns minutos antes... o quanto os três pintavam a imagem da família mais bonita e perfeita.
— Agora tio Jaime... – Myrcella disse se inclinando para pegar um morango na vasilha.
Ela apoiou um braço e então se esticou sobre a mesa, ainda no colo de Cersei e colocou um morango na boca do homem em preto. Ele beijou a mãozinha melada sem qualquer vestígio de nojo e sorriu para a menina.
— Você é uma coisa rara, doce menina...
Cersei nunca desejou tanto que Jaime não existisse. Ela não podia suportar olha-lo, ela não podia tolerar sua presença. Era forte demais, era como se seu corpo procurasse o de Jaime. Era como se eles fossem ímãs, constantemente atraindo o outro.
Seu casamento estava melhor que nunca, seus sentimentos com Eddard haviam evoluído. Ela não podia se esquecer do excelente homem que aquecia sua cama e seu coração todas as noites, e olhando sobre o ombro ela o viu com Arya pendurada sobre o ombro, gargalhando gostosamente enquanto era carregada como um saco de batatas. Jon estava nos ombros de Benjen e ele tinha flores nas mãos, flores que ela percebeu que eram pra ela quando eles começaram a se aproximar.
— Mamãe, olha o que eu peguei pra senhora! – disse Jon enquanto era colocado no chão e ele foi até ela para entregar as flores com um sorriso orgulhoso.
— Ah, você não é o perfeito cavalheiro? – beijou o rosto do menino, arrumando seus cachos rebeldes. – Será que você está se lembrando de colher algumas flores pra Rainha do Sul e sua princesa? Seria gentil presenteá-las quando elas chegassem, você não acha?
— Eu ia colher, mas o papai disse que era melhor pegar as flores mais frescas no dia que elas chegassem. – Jon imediatamente tentou encontrar um cantinho ao seu lado e ele também aceitou a amora que Myrcella oferecia para colocar em sua boca. – Oi tio Jaime...
— Olá rapazinho... – Jaime disse com simpatia.
Era como se Jon tivesse os mesmos receios que Eddard tinha com o homem diante deles. Com um pouco de amargura ela se lembrou que seu irmão trajava o preto agora porque ele havia ameaçado expor o menino ao seu lado.
Protetoramente passou um braço ao redor de Jon enquanto o via brincar e aceitar mais amoras de Myrcella. Ele não gostava tanto de morangos.
— Ugh! Pai será que dá pra me colocar no chão? Eu estou ficando com dor de cabeça.
Olhou para o lado e percebeu que seu marido fuzilava Jaime Lannister com os olhos. Se um olhar pudesse matar, seu irmão estaria morto no chão naquele momento, os punhos de Eddard estavam cerrados e ela se perguntou se veria o Rei do Norte perder a compostura pela primeira vez.
Eddard colocou a menina no chão e foi só então que ela percebeu Arya usando as calças de couro. E Jaime também havia percebido, ele riu para a pequena fera que sentou do outro lado de Cersei e tomou dois morangos na boca de uma vez.
— Arya! – repreendeu-a. – Modos.
Jaime riu.
— Sua mãe costumava devorar uma caixa inteira de morangos. Ela os enchia na boca até que as bochechas ficassem tão cheias que ela não parava de babar ou sorrir. Nós costumávamos competir para saber quem conseguia ter mais morangos na boca.
Arya riu e Cersei percebeu novamente o desagrado de Eddard. Se fosse Tyrion ali seu marido estaria rindo e implorando para que compartilhasse mais das histórias de Cersei.
— E eu percebo que ela lhe deixa usar calças. Ela passou a infância inteira entrando em minhas roupas.
Engoliu em seco sabendo que Jaime estava tentando causar uma situação, muito embora as crianças apenas ouvissem aquilo como se Cersei tivesse passado a infância tentando se vestir como um menino.
Ela viu Eddard girar os calcanhares e sair pisando duro. Ela temia que seu marido estivesse indo buscar a espada para cortar a garganta de seu irmão.
Jaime começou a narrar uma história em que ela havia se vestido de menino, passando-se por ele e ninguém havia percebido. As crianças pareciam muito envolvidas pelas palavras do leão dourado, mas ela agora só conseguia pensar em Eddard pronto para decapitar seu irmão.
Tirou Myrcella de seu colo e rapidamente se desculpou enquanto refazia o caminho que Eddard havia percorrido. Ela o perdeu de vista em algum momento, claro, mas ela sempre sabia onde encontra-lo, onde ele ia para se refugiar quando estava em crise consigo mesmo.
Ela o encontrou embaixo do represeiro polindo a espada de aço valiriano. Ela o viu sussurrar palavras desconexas e incompreensíveis porque ele orava aos deuses naquele momento. Pedindo para matar Jaime talvez ou então pedindo para que o impedisse de mata-lo.
— Eu sinto muito... – murmurou.
Não, ela não sentia. Mas Cersei também não conseguia pensar em algo mais a dizer. Afinal, o que podia ser feito?
— Será? – Eddard sequer ergueu a cabeça. – Eu percebo que você está pisando em ovos com a presença dele aqui, mas isso não quer dizer que eu não vejo a forma que você olha pra ele.
— E o que você espera que eu faça? Você acha que eu não tento o bastante, é isso? Eu não sei mais o que posso fazer para arrancar isso de mim, Eddard. Não é nada com você, é tudo sobre Jaime e eu. Antes de me casar com você, acha que eu não tentei? Eu sabia que era errado. Eu chorei uma noite inteira quando me deitei com ele pela primeira vez...
— Poupe-me...
— Poupe-me você! Você acha que é o único que sofre com a presença de Jaime. Eu estou arruinada, porque eu vejo o homem que eu amei, vejo o meu irmão gêmeo, vejo o tio das minhas crianças, mas vejo também o homem que ameaçou expor nosso filho. Você não tem ideia da série de contrariedades que são meus sentimentos por Jaime. Eu nunca achei que eu poderia ter qualquer tipo de sentimento por outro como o que eu tinha por ele, surpresa foi quando você acabou invadindo as entranhas do meu ser e quando eu percebi que eu me importava mais com Jon que me importava com ele.
Houve silêncio entre eles. Um longo e duro silêncio em que Eddard não mais afiava sua espada, mas também não a olhava. De repente havia aquela barreira entre eles novamente, a mesma barreira de quando Jaime havia os visitado da última vez. O tipo de barreira que não podiam mais se dar ao luxo de ter.
Eles tinham três filhos, eles iam sediar um torneio, iam abrir as portas de casa para a Família Real Sulista e a família de Cersei. Ela não queria que as pessoas chegassem e sentissem o gelo entre eles ou melhor o gelo que Eddard estava a dando.
— Acho que é minha culpa no fim das contas. – disse seu esposo. – Fui eu que o chamei.
— E por que você cometeu tamanha estupidez?
Foi até onde ele estava para se sentar ao seu lado.
— Porque esse sou eu... sempre cometendo estupidezes. Casar com você, permiti-la reclamar meu filho...
Seu sangue ferveu com as palavras dele.
— Talvez então você quisesse estar casado com Catelyn Tully. Acho que deveria aproveitar das bebedeiras de seu bom amigo e tomar a esposa dele após o banquete. Eu estou esgotada, Eddard. Eu não posso mais lidar com suas crises, seu ciúme.
— Eu não estou com ciúme! Você é quem tem ciúmes de Catelyn, Cersei! Eu não sei se há sequer uma palavra para descrever o que eu sinto quando você olha para o Regicida. É como se vocês dois... é como se vocês dois estivessem ligados. Eu posso vê-lo deixa-la nua com os próprios olhos!
— Então por que você criou uma situação entre nós?! Por todo esse tempo eu venho me esforçado para deixa-lo pra trás! Desde que eu me casei com você eu não o escrevi mais, ele não pôde sequer me levar ao altar. Quando ele veio nos visitar e ameaçou nosso filho eu não fiz nada para impedir que você o mandasse para a Muralha. Por todos esses anos eu estive dando tudo de mim, eu tentei mudar, eu tentei ser uma esposa melhor, uma dessas que você sonhou a vida inteira... eu talvez não seja boa em remendar suas roupas e não, eu não sei cozinhar, eu não sei acatar suas ordens sem lhe questionar e os Deuses me ajudem, eu tenho vontade de torcer seu pescoço e as vezes em meus sonhos eu o faço, mas você não pode passar o resto de nossas vidas armando uma cama de gato para mim e para Jaime, achando que nos flagrará a qualquer momento e aí sim terá um motivo para me odiar e para decapitar meu irmão. São suas paranoias, porque em momento algum eu fui a infiel desse relacionamento. Mesmo em meus pensamentos eu tento ser fiel a você, porque embora não pareça, eu sou grata por ser sua e não a esposa do hipopótamo que vem nos visitar.
Ela havia deixado Eddard sem palavras, é claro. Ela podia ver um pouco do embaraço, um pouco da culpa, da vergonha. Ele não tinha uma boa resposta, porque no fundo sabia que tanto quanto ela era complicada, ele também era. O tanto que ela era mandona, ele era paranoico.
Todos dias eles lutavam para fazer aquele casamento dar certo, tanto porque eles tinham três filhos pra criar quanto porque haviam criado uma dependência da força do outro. Ela lutou para esmagar seus sentimentos por seu irmão e ser uma boa esposa para Eddard, e ele também fazia a parte dele em ser um esposo melhor, menos carrancudo. Ele havia aprendido a rir com Cersei, ele podia passar longas horas se dobrando de rir das coisas que ela dizia, tanto quanto ele ficava maravilhado com os comentários espertos e ácidos, ele também ficava apaixonado com o quanto ela podia ser intensa, cem por cento coração.
Eles não percebiam, mas eram desesperadamente apaixonados pelo outro. Não apenas se amavam mais, eles estavam apaixonados, isso com certeza. O único problema é que Cersei tinha um passado intenso com seu irmão gêmeo e Eddard simplesmente não conseguia deixar aquilo para trás.
Teimosos demais, eles viviam andando em círculos.
O barulho de sussurros infantis e de um galho se quebrando denunciou que eles não estavam mais sozinhos.
“Arya! Eu disse pra você prestar atenção!”
“Cale a boca”
“Não diga a Jon para calar a boca! É feio!”
“Você cale a boca também, menina estúpida”
Ergueu-se da rocha que estava sentada e marchou até os arbustos e encontrou seus três filhos escondidos. Seria muito adorável se ela não estivesse preocupada com o quanto eles haviam escutado de sua discussão com seu pai.
Myrcella estava encolhida contra Jon enquanto Arya claramente liderava a espionagem.
— Oi mamãe! – Myrcella cumprimentou-a alegre e inocentemente, obviamente não percebendo que aquilo se tratava supostamente de algo secreto.
— O que vocês pensam que estão fazendo? – perguntou esfregando o rosto. – E há quanto tempo estão aqui?
— Não mais que dois minutos e foi tudo ideia do Jon. – Arya disse imediatamente.
— Minha?! – Jon repetiu com os olhos arregalados e apontando para si mesmo. – Foi você que me disse que seria legal assustar o pai e a mãe.
Respirou aliviada, aparentemente eles haviam se denunciado antes que pudessem escutar qualquer coisa comprometedora. Ela percebeu que Eddard havia embainhado a espada e caminhava na direção deles.
— Quantas vezes eu tenho que dizer que é muito feio escutar conversa alheia? Conversas que não lhe dizem respeito? – perguntou enquanto ajudava as três crianças a se colocarem em pé. – E ainda arrastam sua irmã pra isso!
Quando Eddard se aproximou, Myrcella imediatamente balançou os braços pra ele. Claro, ele podia estar se contorcendo de ciúmes por tê-la visto cheia de chamegos com Jaime, mas Eddard não resistiria a ela.
Rapidamente ele a ergueu em seus braços e beijou seu rosto, tocando as flores em seus cachos.
— Você é a princesa mais linda que eu já vi.
— Você acha mesmo? – ela perguntou brilhantemente enquanto eles se afastavam.
Rolou os olhos. Aquilo a irritava tanto! Por que ele sempre tinha que deixar o papel de bruxa má para ela conforme as crianças cresciam?!
Logo ela estava sozinha com Arya e Jon.
— Vocês não podem fazer isso de novo. Eu estava tendo uma conversa séria com o pai de vocês.
— Vocês estavam discutindo. – Arya disse espertamente. – Eu vi, você estava brigando com ele.
— Por que você estavam discutindo? – Jon perguntou curioso. – Será que nós fizemos alguma coisa que os aborreceu?
— Isso não é sobre vocês... as vezes eu discuto com seu pai como vocês dois discutem entre si. É importante para uma boa relação que exista a discussão e o diálogo para saber o que está incomodando a outra parte. Por isso seu pai e eu estávamos discutindo, há coisas que eu faço que o incomoda e há coisas que ele faz que me incomoda.
— Acho que você o deixou magoado. – Arya disse cruzando os braços e arqueando as sobrancelhas para ela impiedosamente. – O que foi que você fez com ele hein? Meu pai nunca fica chateado...
Ela respirou profundamente, lembrando-se que a menina que estava diante dela podia não ter seu cabelo ou seus olhos, mas era devastadoramente semelhante a Cersei da infância.
— Eu não fiz nada, não aconteceu nada. Nós só estávamos chegando a termos para melhorar nossa convivência e você observe bem o tom que usa comigo, Arya Joanna Stark. Eu sou sua mãe, eu não sou Jeyne Poole, eu não sou Myrcella. Eu sou sua mãe.
Satisfatoriamente ela percebeu que havia muito de Eddard nela também, porque envergonhada como estava Arya foi incapaz de retruca-la.
As vezes Cersei só queria que Arya tivesse toda a liberdade que ela mesma não havia tido em sua idade e ela tinha problemas para impor os limites. Ela não gostava de sequer pensar em que tipos de discussão teria com Arya quando ela fosse uma mulher e não mais uma criança.
— Desculpe mãe. – foi Jon quem disse. – Nós não deveríamos estar xeretando ou fazendo perguntas impertinentes. Eu prometo nunca mais escutar suas conversas com o pai sem autorização...
— Tudo bem, estão desculpados, mas Arya vai colocar o vestido e me entregar a calça pelo resto da lua para que ela não se esqueça que quem manda sou eu.
Arya abriu a boca para reclamar, mas Jon a lançou um olhar. O olhar que Eddard lançava a Cersei quando ela estava passando dos limites.
— E vocês dois vão passar o resto da tarde fazendo cópias de um livro da escolha do Meistre Luwin. Fui clara?
Eles acenaram com a cabeça.
— Ok. – ela ofereceu uma mão para cada um. – Agora vamos.
Conforme o dia do nome de Cersei se aproximava, as grandes casas nortenhas e sulistas que haviam sido convidadas, chegavam ao Norte para a comemoração. Os Baratheon haviam chegado naquela manhã, a Rainha Catelyn descendo grávida da casa rolante, com um menino nos braços de nome Steffon e acompanhada da sempre encantadora Sansa.
Eddard e ela ainda não conversavam e Cersei desconfiava que as crianças estavam percebendo algo estranho entre eles, principalmente porque era comum que os cinco fizessem atividades juntos, mas nos últimos dias estavam tão distantes.
Arya não falava com Cersei porque estava irritada por ter suas calças confiscadas. Cersei que era conhecida por dar tratamentos de silêncio a seu senhor pai quando não obtinha as coisas a sua maneira, decidiu dar espaço para a menina, sabendo que Arya iria procura-la quando quisesse alguma coisa.
Eddard estava não mais apenas irritado com Jaime, mas também chateado com sua presença porque Myrcella e ele se tornaram inseparáveis. Sem falar que Winterfell estava um turbilhão e seu marido não podia tolerar alvoroços, ela sabia que ele estava agora arrependido por ter concordado com aquele torneio em sua homenagem.
Jon a evitava, mas não somente ela, Eddard também. Ele estava frequentemente com Benjen. Quando ela perguntou a Jon se não gostaria de tirar uma soneca com ela durante um dia particularmente chuvoso, ele recusou, dizendo que iria treinar sua técnica em espadas como tio Benjen. Reforçou o convite oferecendo a ele o leite com canela e os biscoitos, mas ele ainda assim preferiu a companhia do tio.
Sentiu um pouco de ressentimento, mas então forçou um sorriso e disse para ele se divertir. Conteve a vontade de mostrar o dedo do meio para Benjen quando ele a lançou um olhar de deboche. Mal sabia ele que o Monstrinho também estava a caminho e que Jon simplesmente o adorava e o idolatrava, especialmente com todas aquelas ridículas histórias sobre dragões.
Apenas Myrcella parecia em seu modo normal. Ela ainda estava sempre seguindo Jaime, mas quando sua boneca perdeu a cabeça, ela foi chorando até Eddard porque era sempre ele quem consertava seus brinquedos. Cersei rolou os olhos quando o viu simplesmente largar uma reunião do Conselho, tomando Myrcella nos braços e se desculpando com os Lordes, dizendo que voltaria em alguns minutos depois que a cabeça da boneca estivesse devidamente presa a seu corpo.
Mas ainda assim, quando os Baratheon chegaram a Winterfell, eles haviam esquecido as diferenças e os problemas da semana e se alinhado como uma família. Myrcella alegremente carregava sua boneca remendada nos braços de Eddard, enquanto Cersei discretamente tentava tirar os pelos da roupa de Arya e amansar os cachos selvagens de Jon.
— Ned! – o Rei dos Hipopótamos saldou seu marido saltando do cavalo.
Cersei teve que prender o riso, pensando que aquilo sim era literalmente o peso do mundo nas costas. Pobre animal...
A casa rolante da Rainha chegou instantes depois enquanto Robert bagunçava os cachos de Jon, chamava Arya de ‘pequena grande encrenca’ e dirigiu um sorriso para a pequena Myrcella.
— Agora, olá pra você... você tem cara de chorona. – ele brincou.
— Não sou. – a menina loira cruzou os braços. E então se virou para o pai, com um beicinho. – Papai, seu amigo o Rei Robert está dizendo coisas desagradáveis a meu respeito.
O sulista soltou uma grande gargalhada e alisou o cabelo dela, desculpando-se, dizendo que ela era uma mocinha bonita e gentil. Aquilo sim fez Myrcella sorrir.
E então ele se voltou para Cersei.
— Cersei... você não envelheceu um dia. Devia ensinar alguma coisa a Catelyn. Cada dia que passa ela parece mais perto da cova, os Deuses a protejam.
Quis dar uma resposta dura e ríspida, já que Cersei bem sabia os horrores que a mulher enfrentava nas mãos dele e foi quando ela viu finalmente a mulher sair da casa rolante. Ela estava grávida, mas também sustentava um bebê ruivo nos braços e Cersei quase caiu pra trás quando finalmente a viu.
Seu rosto como o de uma caveira, cheia de rugas, cabelos brancos mal disfarçados e tão magra, mas tão magra que Cersei temia que ao abraça-la a mulher fosse desfalecer em seus braços.
— Jon! – O Príncipe Robb disse quando chegou acompanhado de seu escudo.
— Robb! – ele estava pronto para correr para o grande amigo, quando Cersei colocou uma mão em seu ombro.
Ela se curvou para ele e arqueou as sobrancelhas.
— Você tem dois buquês nas mãos. Será que você não gostaria de entrega-los para as senhoras primeiro?
— Ah sim... – ele sorriu docemente, ficando corado.
Quando eles se aproximaram, a Rainha Catelyn com o bebê, Sansa e Robb.
— Como você está grande, Príncipe Jon! Eu mal pude reconhece-lo. E Arya, eu estive aqui e você era um bebê.
Jon estufou o peito orgulhoso, mas Arya deu um sorriso amarelo para a Rainha. Algo dizia a Cersei que sua filha estava tão assustada com a aparência da mulher diante delas, quanto ela.
— Isso é pra senhora, Rainha Catelyn. – ele disse a oferecendo um buquê e a mulher, encantada, aceitou as flores com uma mão enquanto a outra ainda segurava o bebê. – E essas são para a Princesa Sansa.
Jon estava extremamente vermelho, mas Sansa sorriu e pegou o buquê imediatamente e agradeceu audivelmente, saindo então para mostrar para o Cão, Sandor Clegane, escudo da princesa, o presente que o Príncipe Jon havia a dado.
— Qual o nome dele? – perguntou Arya apontando para o bebê no colo da Rainha.
— Oh, seu nome é Steffon. Você gostaria de carrega-lo mais tarde?
— Sim! Eu gosto de bebês. – Arya disse dando seu primeiro rastro de simpatia do dia. Ela estava de péssimo humor por ter que usar o cabelo trançado e ainda por cima um vestido. – E o bebê na sua barriga, quando nasce?
— Arya... – disse em tom de aviso.
A Rainha Catelyn riu por outro lado.
— Em breve, eu espero. Também acho que é menino, mas eu vou batiza-lo de Edwin se for o caso, como uma homenagem ao bom amigo de meu marido e a meu irmão Edmure. Mas eu não ficaria triste se fosse uma menina... Sansa é bem solitária.
— Eu também sou. – Arya disse.
Cersei quase rolou os olhos. Arya adorava um drama.
— Bem, talvez você possa se tornar amiga dela.
— Não... eu não gosto de bonecas. Mas eu posso me tornar amiga de Robb se estiver tudo bem com a senhora.
Catelyn riu de novo. Arya as vezes podia ser embaraçosa, mas ela sabia como fazer alguém rir.
— Eu vou ficar feliz com isso. Talvez vocês possam bater espadas, Robb não tem muito com quem praticar.
— Claro. – Arya deu de ombros, como se fosse um prazer fazer aquele “favor” e então saiu sem sequer fazer uma mesura.
Cersei observou como Catelyn olhava maravilhada para seus filhos. Fascinada com o carisma e a educação de Jon, divertida com Arya e suas traquinagens, mas sequer prestou um olhar a Myrcella.
“Provavelmente minha única criança loira é um lembrete que Eddard está casado comigo... e que as únicas crianças minhas que poderiam ser dela são aquelas crianças de cabelo escuro” pensou com um pouco de desgosto.
Entretanto, Cersei obrigava-se a ser educada com a boa mulher porque sentia um pouco de pena dela.
— Viagem agradável, Sua Graça? – perguntou dando uma olhada para o bebê. Logo percebeu que ele também teria cabelo vermelho.
— Na medida do possível. – ela disse com um suspiro. – Agora eu só gostaria de me esticar. Por horas estivesse nessa carruagem e Deuses, vocês devem estar certos, o inverno deve estar chegando. Está ainda mais frio.
“Você é quem está ainda mais magra” foi o que Cersei pensou enquanto assistia a mulher ir cumprimentar seu senhor esposo.
Ela observou o espanto de Eddard quando a viu. Ele parecia quase sem jeito para toca-la, beijando sua mão com tanto cuidado quanto podia. Quando a Rainha o puxou para um abraço ele mal a encostou.
Sentiu seu estômago revirar e fez uma careta. Ela agora se lembrava.
Mais tarde naquele dia ela estava marchando aos estábulos para encontrar Arya. Ela havia dado falta das calças da menina em suas coisas e tudo indicava que a pestinha havia afanado de volta. Imaginou que era para cavalgar porque havia escutado Jon e Robb fazendo planos para aquela tarde.
Mas quando chegou não encontrou Arya e muito menos as crianças. Era Jaime e ele estava passando as rédeas no cavalo que havia o trazido para Winterfell.
— Partindo tão cedo? – perguntou com o cenho franzido.
Ele parou o que fazia para olha-la, os dois ficaram daquele jeito por um longo tempo. Ambos tentando decifrar aquilo que não era dito, a mensagem que os olhos verdes de cada um tentavam passar.
— Eu não devia sequer ter vindo. – engoliu em seco. – Eu devia saber que aquele convite não era seu, mas acho que uma parte maior de mim desejou que fosse.
Sentiu ganas de esfolar Eddard por ter criado aquela saia justa. Ela honestamente não sabia como proceder.
— Você tem uma boa vida e um bom marido. Ele pode lhe dar muitas coisas que eu não poderia, mesmo com todo ouro de Westeros. – Jaime lentamente caminhou em sua direção e Cersei se sentiu prendendo a respiração. – Você tem crianças adoráveis. Quando eu vim aqui aquela vez eu pensei que você tolerasse o menino, mas não, você realmente o ama.
— É claro que sim... – disse baixo.
— E Arya, Deuses, ela é absolutamente como você. – ele riu. – Eu me diverti com ela de uma forma que eu não fazia há muito tempo. Myrcella é a criança mais inocente e sonhadora que eu tive a felicidade de conhecer... durante esses dias, tendo-a atrás de mim e me implorando para carrega-la, para leva-la pra colher morangos e amoras, percebi que eu daria qualquer coisa para que ela fosse minha. Eu seria capaz de fazer isso que você fez, sabia? Reconhecer filhos que não são meus e amá-los devotadamente.
— Jaime, por favor, não...
— Eu já estou indo. – ele prometeu. – Você nunca mais vai ter que me ver de novo, Cersei. Eu nunca mais vou incomoda-la. Você pode contar para sempre comigo, mas se o que você quer é que eu suma, eu vou fazer isso. Apenas escute...
Ela não achava que podia. Ela desejou não ter percebido a ausência das calças. O que em nome dos sete infernos ela estava fazendo ali afinal?
— O pai está a caminho e... ele sabe, Cersei.
— O quê? Você o contou?
— Deuses, não! Eu jamais faria isso!
— Então só pode ter sido-
— Não. Tyrion ama seus filhos, ele realmente os adora. Mas ele me escreveu e diz que tem todos os motivos para acreditar que o pai sabe sobre Jon. Ele sabe que ele não é seu filho, Cersei.
— Independentemente do pai saber ou não, o que ele poderia fazer? Ele não é ninguém aqui, os nortenhos o odeiam. Seu ouro não significa nada, seu sobrenome não significa nada. A única razão pela qual o Norte negocia com os Lannister é porque eu sou a Rainha de Eddard e o Norte, querendo ou não, provê muito ouro ao Rochedo.
— Agora... – Jaime colocou as mãos sobre seus ombros. – Mas o pai é paciente Cersei e quando você e o Norte se tornarem inúteis a ele, não pense que irá proteger seu menino. Apenas me prometa ter cuidado e qualquer coisa que eu puder fazer por você ou pelas crianças, eu juro que farei.
Ela podia ver a intensidade e a honestidade em cada uma de suas palavras.
— Mesmo Jon?
— Especialmente Jon.
Acenou com a cabeça e então o abraçou com força, mas pela primeira vez não havia segundas intenções em seu contato com Jaime. Ela simplesmente se sentia muito grata a ele.
Cersei assistiu Jaime cavalgar até que ele sumisse de suas vistas, mas ao mesmo tempo que seu gêmeo partia, ela viu as tropas Lannister se aproximarem.
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