Notas iniciais
Agradeço pelos comentários! Vocês me inspiram tanto que eu decidi até atualizar mais cedo. Obrigada pelas palavras gentis ♥ espero que gostem desse capítulo. Dedicado especialmente para BiaaOliveiraa que fez a primeira recomendação e ao Thiago (The Prince) pelas sábias palavras e conselhos.

Quando ela pensava sobre o pior dia de sua vida, Cersei se lembrava amargamente do momento que encontrou Joffrey morto em seu berço. Ela se lembrava daquela sensação horrenda do ar escapando dos pulmões, das pernas bambas, as mãos gélidas e uma dor indescritível nas entranhas de seu corpo. Ela se lembrava de chorar, berrar, ofender aos Deuses e então implorar a eles o retorno de seu menino, mas nada se comparava aquilo que Meistre Luwin a dissera no momento.

— A senhora não poderá ter mais filhos. Se a senhora tem amor a própria vida e planeja viver para ver suas crianças crescerem, então não poderá ter mais filhos.

Sentiu o aperto de Eddard em sua mão. Ela não conseguia encara-lo. Ela sabia dos desejos dele em ter uma família muito grande, mas infelizmente ela não poderia dar a ele aquilo.

Doía ser mulher, percebeu. Era muito difícil. Mais uma vez teve certeza que devia ter nascido homem. Mais uma vez teve certeza que Jaime devia usar as saias e ela manejar a espada. Ela não tinha forças para a responsabilidade que vinha com ser a figura feminina de um lar.

— Eu gostaria de ficar sozinho com minha esposa, Meistre Luwin.

Seus olhos se encheram de lágrimas. Lá estava Eddard, sendo aquela droga de homem bom, aquela droga de homem honrado. Deuses, ela vivia o dizendo que sua honra acabaria o matando um dia. Lá estava Eddard sendo um marido muito melhor que ela realmente merecia.

Não é sua culpa. — ele a obrigou a encara-lo. – Entenda isso de uma vez por todas Cersei... nem tudo gira ao seu redor e nem tudo que acontece é sua culpa.

Ela se sentia tão fraca perto dele. Ela se sentia tão impotente, tão arrasada.

— Ele está morto. – murmurou escondendo o rosto nas mãos. – Edric está morto, Eddard.

— Ele nasceu doente, Cersei.

— Eu vi, Eddard! Eu dei a luz a um anão!

— Eu não falo disso! Nanismo não foi o que o matou. Seu irmão é a prova viva que o nanismo não significa nada.

— Ah, você cale a boca Eddard!

— É a verdade, meu amor. Ele não respirava. Ele tinha o mesmo problema que Joffrey. – tomou suas mãos, beijando cada uma delas. – Edric não sobreviveu, mas nós temos Myrcella. Ela é perfeita, ela é saudável, ela é exatamente como você!

Ela é menina.

Não que ela não amasse sua menininha, não que ela não amasse seus lindos olhos verdes e seu cabelo loiro. Não que ela não amasse que Myrcella tivesse na coxa a mesma mancha de Eddard. É só que aquela vida era dura demais para uma menina... e ela sabia que Myrcella seria uma sonhadora.

— Se você acha que a maneira com que eu olho para Jon é diferente da que eu olho para Arya, então nós temos um problema. – ele beijou seus lábios ao mesmo tempo que limpava as lágrimas de seu rosto. – Eu te amo. E eu sou tão feliz e afortunado por tê-la.

Ela se sentia incompetente. Sentia que o controle estava fugindo de suas mãos. Cersei que estava tão acostumada em ter o poder na palma da mão, não estava muito acostumada a lidar com situações que as coisas fugiam do controle. Ela controlava o castelo, os servos, seu marido e as crianças. Ela cuidava da alimentação de sua família, ela escolhia as roupas de seus filhos, ela organizava os banquetes. Era uma sensação terrível estar de mãos atadas, estar impotente.

— Eu não quero que nossas filhas sejam vendidas como éguas para os meninos de Robert Baratheon as montarem! – fungou com os ombros trêmulos. – Por favor, não faça isso com elas.

— Nossas lindas filhas irão ter voz na escolha de seus futuros maridos. Eu prometo a você, Cersei.

Ele a fazia muitas promessas, percebeu. Surpreendentemente ele ainda não havia quebrado qualquer uma delas.

Myrcella se provou um bebê muito tranquilo. Em certo ponto ela lembrou a Cersei muito de Joffrey, por isso diversas vezes Eddard havia a encontrado chacoalhando a criança no berço, fazendo-a acordar aos berros, para então afaga-la e fazê-la dormir de novo.

Aquilo durou por pelo menos três luas. Por três luas Cersei não estava mais no controle de sua razão, ela tinha pesadelos, ela enchia Jon de vitaminas e nutrientes porque não poderiam arriscar que ele ficasse doente tão facilmente.

Ela ainda era uma boa mãe, uma boa esposa e uma boa Rainha. Mas ela estava aterrorizada demais ao ver como a linha que separava a vida e a morte era tênue. Tanto quanto ela não podia morrer e deixar seus filhos órfãos aos cuidados de Eddard, ela também não podia arriscar perder qualquer um deles.

— Mamãe, olhe pra mim!

Ela seguiu o som da voz infantil de Jon e sorriu, acenando a cabeça e incentivando o que ela sabia que ele queria fazer. Seu pequeno menino de quase quatro correu e pulou na fonte de águas termais, nadando até onde Eddard esperava para agarra-lo.

— Viu só? – ele perguntou tirando os cachos compridos dos olhos. Tal como o pai ele tinha muita resistência em cortar o cabelo.

— Sim querido! Você é o melhor nadador que o Norte já viu!

Ele ansiosamente se soltou do pai para nadar até ela. Aquele era um momento entre Cersei, Eddard e Jon, porque apesar de manter sua consciência limpa com o que dizia em relação a criação de seus filhos, Cersei sabia que Jon era um caso à parte. Ela havia o mimado muito, havia o criado muito próximo, apertando o cordão umbilical o tanto que podia, e seu filho estava se sentindo levemente deixado de lado pela chegada de duas bebês em momentos tão próximos quando por um bom tempo ele havia tido Cersei só para ele.

Ela mergulhou para encontra-lo no meio do caminho e ele passou os braços ao redor de seu pescoço, descansando a cabeça em seu ombro e mexendo em seu cabelo molhado. Ela beijou seu rostinho, fechando os olhos e gostando da sensação de tê-lo. Ele era tão amável, tão carinhoso.

Arya não era assim. Ela não gostava de colo como Jon, ela não gostava que Cersei a controlasse. Ela também havia aprendido a andar sem tropeçar com mais facilidade que seu irmão mais velho. Ela era brava e destemida como Eddard.

— Mamãe, quando eu for um menino grande o papai disse que terei que me casar.

Estreitou os olhos para Eddard que desviou o olhar e se preocupou em lavar seu cabelo.

— Sim, meu amor... você vai ser Rei e você precisará nos dar vários príncipes e princesas. Você precisará de uma Rainha para governar ao seu lado.

— Eu podia me casar com você!

Ela riu enquanto o levava para a parte mais rasa da fonte. Aproveitaria para lavar o cabelo de Jon e também limpá-lo devidamente.

— Você certamente não vai querer sua mamãe por perto quando for um rapazinho. Você vai querer tomar suas próprias decisões... eu ainda vou te amar imensuravelmente porém! Faz parte da vida. As mães criam os filhos para o mundo e não para si mesmas.

— Não mamãe... Você, Arya e Myrcella são as únicas meninas que eu gosto.

— Você diz isso agora... – esfregou a cabecinha dele com um pouco da mistura perfumada. – Um dia você vai se apaixonar por uma linda moça.

— O papai disse que eu vou me casar com a Princesa Sansa. É verdade?

Ela olhou ao redor com raiva, procurando Eddard, mas ele já havia desaparecido da fonte. Ele sempre a deixava sozinha para explicar as coisas difíceis.

— Bem, o pai da Princesa Sansa é muito amigo do seu papai. Eles ficariam muito felizes se um dia você escolhesse ela como sua Rainha!

— Eu gosto da Sansa e isso significa que eu sempre poderia visitar Robb quando eu quisesse.

— Não é verdade? Eu também gosto de Sansa. Ela é bonita, não é? O cabelo vermelho, os olhos azuis...

— Mas eu prometo que não vou deixar de te amar, mamãe.

— Eu sei, meu amor. Eu sei. – sorriu, enquanto terminava de lavar sua cabecinha.

Houve um longo minuto de silêncio entre eles. Ela agora o secava e o ajudava a entrar em suas vestes quentinhas.

— Mamãe?

— Sim, meu bem... – indicou que estava ouvindo.

— Será que quando Myrcella estiver maiorzinha, você não poderia me dar um irmãozinho? Eu gosto de Myrcella e Arya, mas é que eu realmente gostaria de bater espadas com alguém. As outras crianças têm medo de me machucar.

Ela sentiu como se uma mão muito firme, como a de Hodor, tivesse esmagado seu coração com aquele pedido. Respirando profundamente, ela se agachou na altura de Jon, colocando as mãos em seus ombros.

— Jon... você lembra que quando a Myrcella nasceu, nós conversamos com você que seu irmãozinho tinha nascido dodói e que ele não...

— Que não sobreviveu. O papai disse que isso significa que ele iria viver com a tia Lyanna, o tio Brandon e o vovô.

— Isso. – sorriu e limpou a garganta. – A mamãe também ficou muito doente após o parto. Você lembra que quando Arya nasceu no dia seguinte nós dois saímos para passear e colher flores para o berçário?

— Sim! – ele confirmou avidamente.

— Bem, a mamãe ficou muito fraca depois do parto da Myrcella e do Edric. A mamãe não vai mais poder ter filhos por causa disso...

— Oh...

Havia um pouco de decepção no rosto de Jon. Como a maioria dos meninos ele sonhava com um irmãozinho que pudesse fazer as coisas de garoto com ele, e muito embora Cersei duvidasse que sua pequena Arya fosse fazer o tipo que brincava de bonecas, ela conseguia entender o desejo de Jon em ter uma outra figura masculina em casa além de seu pai.

— Eu espero que você entenda. A mamãe não pode mais te dar irmãozinhos, mas você tem duas irmãs lindas, que precisam de você. Precisam de você para protegê-las, para cuidar delas enquanto seu pai e eu não estivermos por perto. – ela puxou os cachos negros e os prendeu num rabo frouxo. – Será que você pode fazer isso por nós?

— Mas é claro que eu posso! Eu vou proteger minhas irmãs e você também, mamãe.

— É trabalho meu proteger você. – apertou o narizinho dele.

— Quando eu for tão grande quanto o papai, será trabalho meu proteger você. — ele riu e apertou o nariz dela.

Ela se perguntou se Jon sentia aquilo. Sentia aquele laço estreito que eles tinham, se ele era capaz de sentir tudo o que ela tinha no coração por ele. Ela se perguntou se alguma coisa mudaria para ele se ele soubesse que não havia saído dela... será que ele deixaria de ama-la? Será que a dona do coração dele seria a mulher que o pariu?

Ele era tão especial. Cersei nem sabia que era possível amar tanto algo quanto ela amava Jon. Ela amava suas meninas, oh, ela as amava desesperadamente, mas Jon tinha alguma coisa especial... ele era seu herói. Ele havia a tirado daquela terrível escuridão. Ele era sua âncora.

— Sim, mas até lá. – ela o agarrou no colo. – Deixe que eu cuide de você, tudo bem? Vamos pra casa?

— Sim! – dessa vez ele não tentou se livrar de seus braços e permitiu que ela o carregasse pelo caminho. – Mamãe, eu estou com fome.

— Eu imaginei que você diria isso. Vamos preparar leite com canela e alguns biscoitos, o que acha?

Mas quando eles chegaram já havia uma linda mesa posta e numa das canecas estava o fumegante leitinho com canela que Jon tanto amava. Em seu prato alguns biscoitos em forma de lobo que a Septã preparava para agradar o Pequeno Príncipe.

No prato de Cersei estava o pão de mel e uma nota com uma rosa de inverno.

Sou muito feliz por ter você.

E quando ela o procurou naquela tarde para tentar retribuir o gesto de afeição, Cersei não pôde encontra-lo em seus aposentos, não pôde encontra-lo em seu gabinete e nem na sala do trono. Mas ela o encontrou no berçário, sentado em uma cadeira de balanço com cada uma das meninas em um braço.

Naquele momento ela desejou que pudesse ser metade do que Eddard realmente merecia. Desejou ser uma esposa melhor, mais paciente, uma que não atirasse coisas em sua cabeça quando era contrariada... desejou que não gritasse tanto, que não fosse tão emocional, que aprendesse a controlar aquela língua terrível e afiada.

Ela desejou amansar a leoa que vivia dentro dela. As vezes ela era muito cruel com seu marido e ele era uma das melhores pessoas que Cersei havia tido a felicidade de ter em sua vida.

Não podia evitar pensar que seu destino poderia ser muito pior. Catelyn Baratheon podia ser terrivelmente fértil, ela criava como uma coelha, mas os boatos era que o Rei não tolerava seus comentários ríspidos e nem quando ela o negava sua cama. Diziam que ela estava cada vez mais doente de tanto desgosto.

Três meninos e uma linda menina que seria possivelmente a Rainha depois de Cersei, um palácio gigante, incontáveis servos e riqueza sendo esbanjada, torneios em sua homenagem e um poder indescritível na palma das mãos. Cersei tinha todos os motivos para sentir muita inveja de Catelyn, mas ela não sentia... não mais.

Ela nunca desejou tanto poder amá-lo. Ela nunca desejou tanto massacrar aquilo que sentia por seu irmão.

Ela não entendia por que não conseguia, refletiu enquanto se afastava do berçário. Ela amava seus filhos e eles eram de Eddard! Por que então ela não conseguia ama-lo?

Novamente sua mente foi invadida com memórias das sábias palavras de tia Genna.

“Amor é muito diferente de paixão, minha querida. A paixão te leva ao céu e ao inferno. A paixão consome e é por isso que nós permitimos nos enganar acreditando que paixão é amor... faz parte do homem buscar viver os extremos da vida. Mas o amor, o verdadeiro amor, Cersei, ele é construído aos poucos, ele é fortalecido com o tempo, e talvez o homem que você vier a amar não irá leva-la ao céu e ao inferno como o homem que você está apaixonada o faz, mas certamente você não conseguirá imaginar uma vida sem ele”.

Mas ela não diria a Eddard. Não, ela não admitiria que o amava, porque admitir que amava Eddard significava que ela tinha que deixar a parte dela que estava apaixonada por Jaime, ir... E ela não estava pronta.

Notas finais
O que acharam? Let me know! Estou trabalhando no próximo capítulo. Nós teremos mais um salto temporal e também o ponto de vista do ilustre Eddard Stark.