Os ventos de inverno
4 Parte IV
Notas iniciais
Ela estava grávida. A notícia a pegou de surpresa e completamente despreparada. Ela não estava pronta... ela não estava pronta para outra gestação. Ela não estava pronta para a ansiedade, para os chutes, para os vômitos. Ela não estava pronta para arriscar colocar tudo a perder novamente.
— Isso é maravilhoso. – Eddard disse encantado. – Eu nunca tive a oportunidade de ver sua barriga crescer. Você não está feliz?
Sinceramente?
— Não. – ela colocou a escova na penteadeira bruscamente. Ficou de pé e apontou para a pequena dobrinha em sua barriga. – Eu não queria isso, Eddard. Eu não posso passar por aquela dor de novo...
— Minha querida, isso foi há dois anos atrás.
— Jon ainda é muito pequeno. Ele depende muito de mim.
— Eu ficarei feliz em me envolver mais!
Ele não entendia. Ele não entendia que não era sobre o trabalho... ela não se importava de acordar de madrugada para trocar fraldas e amamentar. Ela também não se importava de ceder seu corpo para a criança. Ela não se importava com a renúncia, a abnegação. Para seus filhos Cersei faria tudo de muito bom grado!
Era sobre a dor, sobre o medo de ser feliz por dois minutos e então os deuses tomarem isso dela. Como haviam feito com Joffrey.
Sentiu-se culpada por não pensar nele com tanta frequência, mas ela estava cada vez mais ativa como Rainha. Aos poucos ela ganhava o amor do povo e quanto mais ela os conquistava, mais poderes Eddard a dava. Ela agora mandava e desmandava em Winterfell pelo menos. Nas políticas nortenhas ela não tinha voz ainda, mas era tudo uma questão de tempo e paciência.
— Se eu perder esse bebê, eu tenho medo de não conseguir... eu tenho medo de ceder, Eddard. Eu tenho medo de fazer uma loucura. Diversas vezes eu cogitei saltar da torre.
— Pelos Deuses, nunca diga uma coisa dessas na minha frente. Sem você aqui, Jon e eu não seríamos nada. Se você acha que eu sou capaz de criar nosso filho sem você está completamente louca, Cersei. Você é o alicerce desta família e eu preciso que você seja muito forte. Você não pode ceder, Cersei. Prometa-me.
A intensidade de suas palavras a assustou. Ele estava assim agora, cada vez mais devoto, cada vez mais apaixonado. Ele ainda era frio, sério e distante, mas entre quatro paredes Eddard era o cavaleiro das canções.
Ele quase a fazia se esquecer de Jaime. Ultimamente ela vinha sentindo mais falta dele do que nunca... especialmente porque ela contava histórias de um cavaleiro chamado Jaime para seu pequeno Jon.
— Prometa Cersei. — Eddard rosnou.
— Eu prometo. – mas ela não teve coragem de olha-lo.
A verdade é que sua última perda não havia sido dois anos atrás. Ela havia tido dois abortos espontâneos, mas era ainda muito cedo para que houvesse realmente um corpo. Eddard, porém, não sabia. Um deles havia sido durante o conflito contra os Greyjoy e o outro havia sido durante o dia, quando seu senhor marido estava numa caçada.
Os deuses foram bons daquela vez e não permitiram que ela começasse a amar a criança que crescia dentro dela. E Jon consumia tanto de seu tempo que as vezes ela se esquecia que tinha vida dentro dela.
— Levei Jon para andar a cavalo hoje.
— Eddard!
— Ele estava comigo, Cersei. Estava tudo sob controle.
— Eu não gosto que ele cavalgue. Não agora. Ele tem dois anos.
— Estava tudo bem, Cersei. – ele sorriu e a beijou. – Ele está seguro com o papai. Você sufoca o menino as vezes... eu não quero que ele cresça com frescuras. Ele é do Norte. Ele tem que cavalgar, cair, ralar, se sujar... estou pensando em começar a ensina-lo a nadar nas fontes termais.
Mordeu o lábio nervosamente. Ela sabia que em parte Eddard estava certo. Ela protegia Jon demais. Ele tinha uma péssima imunidade e vivia resfriado.
— Vamos fazer um trato... – Eddard começou. – Eu vou deixar você presidir as reuniões do conselho sobre a colheita e em troca eu vou passar um tempo de qualidade junto com Jon. Você poderia também descansar. Eu sei que ele pega pesado com você.
Seria bom ter um pouco mais de poder, mas aquilo significava que ela teria que deixar Jon aos cuidados de seu marido e ela não sabia se confiava nele tanto assim. Ela não queria que ele se machucasse. Ela não queria perde-lo também.
— Tudo bem... mas sem trato feito por enquanto. Vamos fazer uma experiência. Se eu perceber que você não dá conta e que Jon pode acabar se machucando, você volta para a reunião e eu volto para meu bebê.
Eddard sorriu e a puxou para perto. Beijou seu pescoço até chegar em seu ouvido.
— Ele não é um bebê. – sussurrou. Sua mão tocou seu baixo ventre liso. – Nosso bebê está aqui e algo me diz que vai ser uma menina.
E era uma menina. Algumas luas depois Cersei deu à luz a Arya Stark e ela era tão parecida com Eddard quanto Jon e Joffrey eram. Provou-se também ter o temperamento do Norte! Jon ficou simplesmente encantado por ela, mas agora que ele entendia o significado de bebês e sabia que seus pais poderiam providencia-los, ele não parava de pedir um irmãozinho para brincar de espadas.
— Não Eddard... – ela disse evitando suas mãos certa noite que ele havia chegado com sede ao pote. – Arya tem quatro luas, eu mal a coloquei pra fora. Ela ainda estará no meu peito quando o bebê nascer.
— Tire-a mais cedo.
— Jon mamou até pouco mais de um ano. Eu não vou tira-la cedo.
Jon não era o único encantado com Arya. Eddard também era. Ele tinha muito mais paciência com suas birras que tinha com Jon quando estava na mesma fase. Ele a olhava encantado, dizendo o quanto era parecida com Lyanna, sua falecida irmã.
Ele era um ótimo pai. Ele era ótimo com Jon, ele nunca gritava, nunca foi violento e parecia saber dividir o tempo entre o bebê e seu príncipe.
Ela se lembrou com um pouco de amargura de seu pai. Ele sempre batia em Jaime e em Tyrion e muito embora nunca tivesse colocado a mão nela, ele sempre gritava. Ele a ameaçava, humilhava. Eddard era um pai e um marido melhor em muitos aspectos, porque mesmo que Tywin Lannister amasse Joanna, ele era brutal com ela. Ele a feria com palavras e seu comportamento seco.
— O que você está pensando? – ele sussurrou em seu ouvido enquanto esfregava suas costas doloridas. – Aqui?
— Sim, oh. Eddard, exatamente aí!
Seu marido riu e massageou os nós de suas costas. Ela não podia acreditar no quanto estava estressada nas últimas luas. Desde que o Rei e a Rainha do Sul anunciaram que fariam uma visita com interesse de apresentarem seus respectivos filhos, tudo que ela pensava era em deixar o castelo o mais apresentável possível.
Ela estava liderando as reformas, estava ajudando a tingir os tecidos das novas cortinas e estava até mesmo no comando da cozinha, chamando a atenção das cozinheiras para que não perdessem a cabeça porque precisavam poupar comida. A visita dos sulistas seria longa.
Mais cedo naquele dia ela recebeu um corvo com a mensagem de seu pai informando que Tyrion e ele também apareceriam para a visita. Que seu neto já tinha três anos e ele agora tinha uma neta também e que gostaria de conhece-los.
— Você poderia ter dito não. – resmungou Eddard.
— Ele é meu pai.
— Ele não parece ter se lembrado disso quando a deixou caminhar sozinha ao represeiro.
Eddard havia levado seus problemas com seu pai para um lado muito pessoal. Compartilhando histórias da infância, seu marido pôde perceber o quanto eles haviam sido criados de forma diferente. Particularmente ela ainda se considerava uma pessoa difícil, ela ainda tinha que controlar seu temperamento para que não obtivesse o melhor dela, especialmente porque Eddard não era o tipo de pessoa que aceitava desaforos.
Ele não gostava que ela gritasse ou que fizesse birra. Ele não gostava de jogos, preferia que ela dissesse o que a incomodava e então eles poderiam resolver. Ele também não gostava do tipo de formalidade que as pessoas tratavam o Rei do Sul fazendo-o parecer inalcançável! Ainda que a criadagem se referisse a eles pelo título e se curvasse, eles tinham ali muito mais liberdade para se comunicar.
No início ela estranhou muito. Havia chegado em Winterfell pronta para brigar, pronta para mudar todas as regras do jogo e jogar o deles! Mas aquilo não aconteceu... ela não era tão amada quanto Eddard, mas todos tinham um respeito absoluto por ela. Sempre que saía pelas vilas cumprimentando as pessoas, ela podia ver que eles eram sinceros quando a faziam elogios, quando a desejavam coisas boas. E eram todos apaixonados por Jon... ninguém conhecia Arya porque ela ainda era muito pequena, mas eram todos apaixonados por seu filho. Ele ia ao vilarejo e sempre saía com as mãozinhas pegajosas, porque assim como a mãe ele gostava muito de doces.
Sorriu sozinha. Era uma das poucas coisas que ele não havia puxado o pai completamente. Eddard detestava doces.
Naquele momento ela se perguntou se seria tão feliz quanto era naquele momento se tivesse ido para King’s Landing e usado a coroa de Rainha do Sul. Ela escutava sussurros e diziam que o Rei era um boêmio, que ele traía a Rainha com suas criadas, que era cheio de filhos ilegítimos. Todos diziam que a Rainha Catelyn o desprezava e o achava um constrangimento ambulante. Eles tinham dois filhos, um menino chamado Robb que era da idade de Jon e uma menina chamada Sansa que era um ano mais nova apenas.
Olhando para Eddard ela sabia que ele era fiel a ela. Que sua cama era a única que ele procurava, que seu corpo era o único que tinha e que seu cheiro era o único que impregnava as túnicas dele.
— Você está pensativa de novo...
Ele subiu em seu corpo e começou a desfazer os laços de sua camisola. Ela não o impediu. No início a assustava o fato que Eddard queria tê-la todas as noites, que ele faria longos rituais beijando cada polegada de seu corpo. Ela adorava as coisas maravilhosas que ele podia fazer com sua boca em seus lugares mais íntimos. Eles tinham aquilo em comum... nenhum deles achava que tabus no sexo levaria a qualquer lugar. Por isso da forma que ele quisesse tê-la, ele a tinha.
— Estou pensando que eu nunca seria tão feliz quanto sou hoje se eu tivesse me casado com seu amigo fanfarrão e vivesse em King’s Landing.
— Você vai me deixar sem graça. – ele brincou rindo.
— Estou falando sério. Eu não sei se eu seria o que sou hoje... eu tive uma criação muito diferente da sua Eddard e o Sul é um lugar perigoso. – ela tocou seu rosto. – Eu não quero voltar pra lá nunca mais... eu não quero que nossos filhos conheçam sequer o Rochedo. Se os Deuses permitissem, eu não gostaria que sequer meu pai chegasse a conhece-los.
— Não diga isso. – ele falou seriamente. – Os Deuses podem puni-la por desejar algo assim ao seu pai. É o legado dele, no fim das contas.
— Eu odeio essa palavra. Prometa que nunca chamará nossos filhos de “seus legados”, Eddard. – ela beijou sua mandíbula. – Ninguém é de ninguém. Pertencemos apenas a nós mesmos.
— Eu discordo... porque você é toda minha e eu sou todo seu.
Foi um par de dias até que a Família Real do Sul e os Lannister chegaram a Winterfell. Cersei obrigou Eddard a vestir algo que não era sua túnica e seu colete, porque ela não queria que os sulistas pensassem que eles eram pobres e seu marido tinha a tendência de se vestir como um de seus vassalos ao invés de um Rei.
A Rainha desceu de sua casa rolante com seus dois filhos, cada um em uma mão. Os dois eram ruivos e muito parecidos com ela. O Rei Robert desmontou seu cavalo e Cersei teve que reprimir a surpresa ao ver sua figura gorda. Ele costumava ser um homem forte e bonito, com a barba escura e olhos que queimavam a pele de qualquer um, mas agora ele parecia apenas um traste gordo. E a Rainha do Sul, apesar de muito bela, também não parecia em sua melhor forma, mas diferente de seu marido ela estava muito magra.
— Ned!
— Sua Graça... – Eddard cumprimentou o amigo muito mais respeitosamente.
— Ora, se você espera que eu me curve com esse meu joelho fodido você está ficando louco. Venha cá!
Cersei cumprimentou a Rainha, mas enquanto elas faziam suas reverências para a outra, seu olhar capturou o dele. Lá estava ele, seu amor impossível, o homem que ela deixou para trás.
Ele desviou o olhar do seu. Não demorou para que ela entendesse... ele tinha a esquecido.
Após fazer os devidos cumprimentos a Família Real foi vez de cumprimentar seu pai, Tyrion e Jaime.
— Eles não têm nada dos Lannister. – comentou seu pai dando uma boa olhada em Arya e pousando então seu olhar em Jon. Ele se agachou para falar com o menino. – Como vai rapazinho? Sua mãe lhe disse quem eu sou?
Jon agarrou a saia de seu vestido com força e desviou o olhar do rosto severo do avô. Cersei fez carinho em seus cachos escuros.
— É o vovô, Jon. Ele é o pai da mamãe. Por que não o cumprimenta como o bom príncipe que você é?
Ainda nada. Ela sabia que Jon era tímido no início, mas também se devia ao fato que seu pai não era dono das feições mais macias e gentis do mundo. Ela não o forçaria.
— Ele só está tímido, papai. – decidiu tirar o foco de Jon. – Esta é Arya.
Seu pai não demonstrou qualquer interesse em sua filha. Ele parecia obstinado a conquistar Jon a qualquer custo. Ele pegou na mão do pequeno príncipe e pediu para que ele o mostrasse ao redor.
— Ah minha querida irmã, apesar dessa sua terrível cara de inseto, eu tenho que admitir que você faz lindas crianças. – comentou Tyrion.
Pela primeira vez ela não prestou atenção no Monstro, ela não o colocou em seu lugar. Estava ocupada segurando Arya e permitindo que Jaime a analisasse bem.
Ele não falou nada. Pegou a mãozinha da menina que olhava curiosa para ele. Surpresa foi quando seu bebê sorriu e Jaime o fez de volta.
— Ela é linda. – ele a disse. – Meus parabéns, irmã. Você tem tudo que sempre quis.
Havia um quê provocativo em sua fala. Ela estreitou os olhos para Jaime, mas sentiu igualmente algo queimando em sua nuca. Ao olhar sobre o ombro viu Eddard. Ele não parecia apreciar a visão.
— Sim, irmão. Eu tenho.
Mas olhando para Jaime, seu sorriso familiar e seus cabelos dourados, ela não estava mais certa se tinha tudo o que queria. Ela olhou para a criança em seu colo, olhou para Jon brincando com o Príncipe Robb e a Princesa Sansa e se perguntou como seria se ela tivesse os filhos dourados de Jaime.
Aquele era o plano... ela iria para King’s Landing, teria um primeiro filho de Robert para assegurar o trono e os outros seriam bastardos de Jaime. Porque ele era o amor de sua vida...
“Nós nem sempre ficamos com o amor da nossa vida” a voz de tia Genna novamente.
A festa de boas-vindas a Família Real do Sul transcorria bem, ela estava satisfeita com o comportamento de Jon. Ele estava sendo gentil e hospitaleiro com as crianças. Ela não sabia, porém, se gostava do Monstro perto de seu menino. Estava tentada a ir até onde Tyrion fazia imitações para as crianças e tirar seu pequeno príncipe das garras daquele-
— Deixe-o. – uma mão firme em seu braço a puxou de volta para a cadeira. Eddard a olhou com seriedade. – Jon o adora. E ele é bom pra ele.
— Ele é um canalha, um salafrário Eddard.
— Isso vai acabar te matando, Cersei. Supere o que sente pelo seu irmão. – ele disse e voltou a comer, até que acrescentou baixo. – Os dois.
Ela queria esbofeteá-lo. A faca estava firme em sua mão e ela se encontrava respirando fundo enquanto seu senhor esposo comia tranquilamente ao seu lado.
— VENHA CÁ DELÍCIA CREMOSA!
Arregalou os olhos, horrorizada ao ver o Rei Robert agarrando uma das criadas e a beijando nos lábios, agarrando-lhe o traseiro e os seios. Procurou imediatamente a Rainha Catelyn e a viu com os lábios crispados e assistindo aquela cena com os olhos frios e calculistas.
— Seu amigo está fazendo uma cena. Ele está fazendo a Rainha se sentir desconfortável.
— Pobre Cat... – suspirou Eddard. – Ela merecia algo melhor.
Inclinou a sobrancelha para ele. Cat? Certamente aquela era uma forma muito íntima para se referir a Rainha do Sul. Apesar do Rei Robert não ter achado inapropriado tomar certas liberdades com Cersei, como colocar as mãos em seu quadril.
— Talvez você deva fazer uma visita aos aposentos de Cat enquanto eu faço uma aos aposentos de Jaime.
Ela dormiu com suas duas crianças naquela noite e com as portas de seus aposentos trancadas. Ela não sabia onde Eddard havia passado a noite, até porque aquela era a câmara do Rei... ela havia destruído a câmara da Rainha há anos atrás e lá havia virado uma espécie de ateliê.
No dia seguinte ela acordou para descobrir que Eddard havia deixado o castelo para uma caçada ao redor da propriedade com Robert. Ela precisava cuidar dos assuntos de Winterfell, então deixou Jon brincar com o Príncipe Robb e a Princesa Sansa pedindo para que uma das amas o vigiasse. Jon podia ser a criança mais amável e carinhosa do mundo, mas os Deuses sabiam que ele adorava desobedecer suas ordens e acabava se machucando.
Caminhando pelos corredores de Winterfell, com pergaminhos em mãos e se apressando para chegar as cozinhas e averiguar se o porco já estava sendo recheado, ela passou pela porta dos aposentos da Rainha do Sul.
— Oh, Sua Graça... – fez um leve aceno com a cabeça. – Eu confio que sua estadia esteja sendo agradável. Perdoe-me se eu não tenho sido a melhor das anfitriãs, mas fica muita coisa em minha responsabilidade.
A Rainha sequer tirou os olhos do crochê que ela fazia. Limitou-se a sorrir e responde-la.
— Está sendo maravilhoso, Sua Graça. A felicidade que é poder sentir o ar fresco do Norte e não aquele fedor terrível de King’s Landing.
Cersei sorriu e juntou as mãos e deu uma olhada ao redor. A Rainha havia mudado alguns móveis de lugar, mas ela parecia a vontade em seus aposentos.
— Deve ser bom fazer alguma coisa diferente de costurar. – murmurou Catelyn olhando para suas agulhas e então erguendo o rosto para Cersei. – Como é? Sentir que está no controle de sua própria casa...
Franziu o cenho. Não sabia se tinha uma resposta para aquilo.
— Ah, Sua Graça, não podemos comparar Winterfell com King’s Landing. Somos um reino menor, somos uma fortaleza menor... meu senhor esposo confia em mim as obrigações de Lady Stark e ele trata dos assuntos políticos como Rei. Aos poucos eu chegarei a política também, eu confio pelo menos.
A mulher ruiva respirou fundo e se colocou de pé. Caminhou lentamente até a janela, dando uma olhada para o lado de fora.
— Engraçado como são as coisas... era suposto que eu fosse a Lady Stark e Rainha do Norte, e você Lady Baratheon e Rainha do Sul. – murmurou Catelyn. – Mas meu pai ameaçou não financiar a guerra se eu não fosse me tornar a próxima Rainha.
— Oh, e eu inocentemente acreditando que era tudo sobre mim. Acreditava que não quisessem uma Lannister em King’s Landing. Outro Lannister...
A Rainha do Sul se virou para olhá-la. Sua feição era severa e triste.
— Você está em dívida eterna comigo, Sua Graça. Eu lhe livrei da sentença de uma humilhação eterna. Ontem foi apenas um terço daquilo que eu passo e passei nos últimos anos. – respirou fundo e fechou os olhos. – Eu implorei para que meu pai marchasse contra King’s Landing e me resgatasse, me tirasse dos braços daquele homem horrível...
— Ele lhe machuca? – perguntou.
A mulher ruiva riu e arregaçou as mangas do vestido mostrando marcas roxas de mãos fortes em seus pulsos frágeis.
— Desde o nascimento de Sansa eu oro todos os dias aos Deuses para que o Estranho leve meu marido, Sua Graça. – Catelyn Baratheon engoliu em seco. – Você acha que isso me faz a mulher mais horrível de Westeros?
Cersei pensou em sua pergunta. Ela fechou os olhos com força e se lembrou de todas as vezes que Tywin Lannister bateu em Joanna, bateu em Jaime e Tyrion. De todas as vezes que seu pai havia sido um cretino e berrado com ela.
— Não, Sua Graça. Faz de você uma mulher bastante razoável por ter encarregado o Estranho disso... – Cersei girou os calcanhares. – Eu o faria com minhas próprias mãos.
Ela estava novamente a caminho do serviço quando escutou o barulho de armadura e passos pesados. Para sua completa infelicidade era Jaime, mas não conteve a surpresa ao encontrar o rosto de seu irmão esfolado. Ele pretendia passar direto por ela.
— Jaime! O que houve com seu rosto? – gritou se metendo no meio de seu caminho e tocando seu queixo.
O nariz estava quebrado, o lábio e a sobrancelha rasgada. Cersei percebeu o sangue seco em seu rosto e o quanto seu cabelo parecia uma bagunça, muito ao contrário do normal.
— Pergunte ao seu senhor marido.
Ela estava penteando seu cabelo de frente para a penteadeira quando Eddard adentrou os aposentos, sem sequer dirigi-la uma palavra ou olhar. Aguardou até que ele tivesse o bom senso de encara-la, mas quando percebeu que ele não o faria, jogou a escova de cabelo em sua direção e a madeira o acertou na cabeça em cheio.
— Ai! Você enlouqueceu? Por que fez isso? – ele esfregou a coroa com uma careta.
— Foi você que fez aquilo com o rosto de Jaime? – ergueu-se e caminhou com firmeza na direção dele.
— Sim. E teria feito mais.
Cersei levantou sua mão pronta para esbofeteá-lo, tamanha raiva que sentia, mas Eddard segurou seu braço. Quando ela tentou usar o outro, ele também a deteve. Restou-lhe apenas se contorcer e gritar com ele.
Como ele ousava tratar Jaime daquela forma?! Ele era seu irmão, ele era o tio de seus filhos, ele era extensão de seu ser.
— Solte-me! – gritou. – Eu não acredito que você foi capaz de fazer aquilo com ele. Eu não estou com Jaime, não mais! Eu estou casada com você! Eu estou isolada neste fim de mundo olhando pra essa sua cara de merda, engolindo seu azedume há três anos Eddard! Eu nunca lhe dei motivos para duvidar de mim!
Ele estava machucado com suas palavras. Ela realmente não queria dizer aquilo, ela só estava muito furiosa com o que ele havia feito para Jaime.
— Já que você é tão infeliz e miserável comigo, talvez você devesse aproveitar a visita de seu pai e seguir com ele de volta para o Rochedo. – ele era firme, mas diferente dela Eddard não precisava gritar para ser autoritário. – Jon, Arya e eu ficaremos bem!
— Se eu for, meus filhos irão comigo!
— São meus filhos também! E meus filhos são príncipe e princesa deste reino. O lugar deles é no Norte e não numa cova de leões. O lobo solitário morre, mas a matilha sobrevive.
— O lobo solitário será você, porque estaremos em três no Rochedo! Você é quem vai morrer sozinho e amargurado se eu lhe deixar, Eddard, porque dificilmente outra mulher teria o estômago que eu tenho para aturar seu mau humor e sua carranca!
Ele a jogou na cama e Cersei caiu sentada, olhando-o com ódio. Ele ainda parecia muito contido de suas próprias emoções, mas ela sabia que estava o machucando. Eddard tinha medo de ficar sozinho e ela estava o aterrorizando naquele momento com a ideia de fugir com as crianças e deixa-lo. Ele ainda chorava e orava no Bosque Sagrado pela perda de sua família.
— Você não perguntou ao seu querido irmão a razão pela cara dele estar arrebentada? – ele rosnou, os punhos cerrados.
Ela não temeu. Eddard nunca a machucaria fisicamente.
— Ele sabe sobre Jon! — Eddard falou furiosamente. – Ele sabe o que aconteceu com Joffrey, ele sabe sobre Jon e ameaçou anunciar isso para todo Norte, toda Westeros. Anos atrás quando você reivindicou seu direito como mãe de Jon, fez-me prometer que lidaria com aqueles que ameaçassem expor isso. Eu lidei, Cersei.
Naquele momento não se importava mais com o rosto de Jaime. Não se importava mais com o fato que Eddard estava machucado e furioso com ela. Suas mãos suavam e ela estava pálida, sabia que estava.
— Como ele soube? Ele lhe disse?
— Espiões por aqui.
— Deuses, se Jaime sabe então-
— Ele me assegurou que seu pai não sabe.
— E como você sabe que ele não estava blefando?!
Eddard se aproximou calmamente dela, provavelmente temendo levar uma bofetada, mas ela estava nervosa demais. Ela nunca se sentiu tão desprotegida e assustada. Seus ombros começavam a tremer e seus olhos a arderem.
— Escute-me com muita atenção. – ele se sentou ao lado dela. – Você é minha esposa e minha Rainha, qualquer coisa que ameace lhe ferir, é meu dever esmagar. Esse homem que você tem como irmão e sua alma gêmea, ameaçou-lhe de forma indireta, ameaçou expor o nosso filho Cersei. Se você acha que eu simplesmente deixaria isso como está então não me conhece bem.
— O que você fez? – perguntou enterrando o rosto nas mãos e esfregando os olhos.
Eddard soltou um longo suspiro.
— Jaime Lannister escolheu tomar o preto ao invés de perder a língua, mas Benjen estará lá de olho nele. Os homens de Winterfell irão conduzi-lo a Muralha.
Seu coração apertou. Ela estava furiosa com Jaime por ter ameaçado expor Jon, mas ela não desejava aquele destino para seu irmão.
— E o Rei Robert? O que ele pensou disso?
— Robert não se importa com nada. Ele tem Margaery Tyrell prometida a Robb. Ele não precisa do ouro de seu pai. Ele só exigiu que-
— Que Sansa se case com Jon. – resmungou afetada. – Ótimo.
— Sim, ele quer que a filha seja Rainha. Ela parece uma menina gentil e amável, Cersei.
— Eu não quero pensar que meu filho de três anos está noivo, Eddard. – dispensou o assunto com a mão. – Quanto ao meu pai? Ele não pode estar feliz com isso. Ele ainda tinha esperanças que meu irmão abandonaria seu posto na Guarda Real e assumiria o Rochedo.
Eddard deu de ombros. Ele não parecia temer Tywin Lannister da mesma forma que Cersei o temia. Ela só ainda não havia decidido se aquilo fazia de seu marido um destemido ou um tolo.
— Ele veio até a mim, sabendo que era providência minha, e disse que um Lannister sempre paga suas dívidas. – rosnou, cerrando os punhos. – Eu não tenho medo do seu pai, Cersei. Aquele leão velho pode marchar contra o Norte se quiser. Metade de suas tropas não tolerarão o frio e irão morrer no caminho. O inverno está chegando. Vou ser feliz em lhe entregar a cabeça dele numa bandeja de prata.
Seu estômago embrulhou. Ela não conseguia mais pensar em guerras. Ela não queria ver seu pai e seu marido brigando.
— Desculpe... – disse baixo. O gosto do reconhecimento de um erro era terrível, amargava. – Eu não devia ter dito tantas coisas ruins pra você. Eu não estava falando sério. Você é carrancudo sim, mas é um bom homem e me trata com dignidade. Eu não gostaria de ser a Rainha Catelyn.
Ele a beijou com muito mais delicadeza do que ela realmente merecia naquele momento. Havia sido maldosa, dito coisas muito ruins. Independentemente de estar com raiva, Eddard era muito cuidadoso com ela. Ele se preocupava em nunca abatê-la, nunca diminui-la. Ele conversava com ela de igual pra igual até onde era possível sê-lo feito. Ele nunca gritava, nunca a machucou fisicamente, ele pensava muito antes de proferir ofensas.
Mas aquela era Cersei. Sempre estragando tudo.
— Eu te amo, Cersei. Eu te amo com cada batida do meu coração, com cada milímetro de meu ser. Desculpe por ter mandado você ir embora... – ele juntou suas testas. – Promete que não vai? Não posso perder vocês também.
A resposta para esse pedido foi um beijo, a camisola sendo arrancada e três luas depois a percepção da ausência de seu sangue lunar.
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