Os quatro reinos o quinto reino
1 Capítulo Um
Notas iniciais
Aqua — Alice
Alice estava olhando por uma janela na parede leste da Sala do Trono. O teto abobadado dividia o pôr-do-sol em mil reflexos irregulares fazendo o salão inteiro cintilar com uma luz alaranjada e no fundo do salão havia seis tronos, sendo os maiores os dois do meio que pertenciam ao rei e a rainha. As paredes do salão eram quase transparentes e mostravam a paisagem deslumbrante de campos verdes e quedas d’água gigantes. Pássaros coloridos e outros animais apareciam aqui e ali e logo sumiam de novo para seus ninhos e tocas, pois o inverno estava chegando e ele seria rigoroso, como sempre.
— Princesa Alice! Princesa Alice! – Um homem entrou correndo no grande salão e Alice virou-se para ele.
O homem vestia calças grossas, botas e um casaco de pele de cordeiro. Tinha cabelos negros compridos presos e barba rala. Assim que a princesa olhou-o, ele se ajoelhou.
— O que houve Mortmain? – Perguntou Alice assustada e fez um sinal para Mortmain se levantar. Ele se levantou e ajeitou o pesado casaco sobre seus ombros.
— Vossa Alteza Real deve saber da guerra que se aproxima de nosso reino. – Ele esperou que ela confirmasse para continuar. – Vossa Majestade, seu pai, deu-nos ordens, a mim e a todos os guardas que pôde reunir, de leva-la até para um lugar seguro.
— Mas ele sabe que posso ajudar com a guerra. Eu posso liderar tão bem quanto Gabriel, meu irmão, liderou. – Alice murmurou dando as costas ao homem enquanto seu cérebro trabalhava.
O rei não estava pensando direito. A doença que o acometia era desconhecida até mesmo para os melhores médicos do reino. Ele delirava sobre olhos de fogo azul e corpos queimando. Ele sabia que todos no reino concordavam que mandar Alice para longe era o mesmo que tornar o reino vulnerável a ataques de inimigos e ainda mais a guerra, mas não podia permitir que sua filha mais nova ficasse em perigo.
— Nós sabemos que a senhorita pode liderar até mesmo melhor que Gabriel, mas vosso pai ainda é o rei e não podemos ignorar um comando direto. – Mortmain disse quando ela se virou para ele. Os olhos azuis da princesa estavam frios como o gelo.
— Eu não vou. Não posso ir. – Ela disse e Mortmain balançou a cabeça.
— Suspeitávamos que fosse dizer algo assim. Mas, mesmo que não fosse um comando direto de seu pai, o povo quer que Vossa Alteza Real fique segura. Iremos partir ao amanhecer. – Com isso, Mortmain fez uma reverência e deixou o aposento.
Alice estava furiosa, mas entendia os motivos do pai. Mesmo doente queria protege-la. Ela teria de agradecê-lo mais tarde, quando ele melhorasse.
Se ele melhorasse, pensou ela balançando a cabeça. Ela saiu da Sala do Trono, como era chamada a sala, e subiu as escadas espiraladas para seu quarto, passando por quadros de seus antepassados, mas não prestando atenção.
— Alice! Irmã! – Chamou-a um garoto abrindo uma porta no corredor e fazendo Alice parar. Ela olhou o garoto.
Ele tinha cabelos loiros platinados e olhos azuis escuros. A pele dele era igual à dela, branca como a neve mais pura. Vestia uma calça preta e uma camiseta regata preta também, mesmo com o inverno se aproximando de maneira rápida.
— Algum problema Ezequiel? – Perguntou Alice e ele sorriu entrando no quarto. Ela suspirou e entrou também.
— É verdade que você vai ser transferida amanhã? – Ele perguntou de costas para ela, que fez uma careta e colocou a mão em seu ombro. Ele a segurou.
— Ao amanhecer. Não me disseram para onde vou, mas sei que será para longe. – Ele apertou sua mão e então soltou.
— Não quero que vá. Ficarei só e não conseguirei liderar o reino em uma guerra com nosso pai doente deste modo. – Seus ombros tremeram e Alice percebeu que ele estava tentando reprimir o choro.
— Ezequiel, olhe para mim. – Ela o fez virar-se até encara-la. Ele era o mais alto dos irmãos, então ela teve de levantar a cabeça para olha-lo nos olhos. – Você nunca ficará só. Você terá nossa mãe e tenho certeza de que papai melhorará.
— Mas… — Ela colocou o dedo em seus lábios para parar o protesto que com certeza viria.
— Deixe-me terminar. – Ele continuou calado e ela sorriu com lágrimas toldando sua visão. – E você é o mais velho de nós quatro e o mais experiente. Tenho certeza absoluta de que, quando a guerra chegar, você será um ótimo líder. Talvez até o melhor que este reino já teve.
Ele respirou fundo e fechou os olhos, tentando se acalmar. Quando os abriu, eles estavam brilhando de lágrimas.
— Não vou conseguir sem sua ajuda. – Ele disse seriamente e ela sorriu abraçando-o.
— Você vai conseguir porque é necessário. Você é necessário aqui. Eu não. – Ele separou-os e olhou-a por um longo tempo. Logo ouviram uma batida na porta e Alice a abriu.
— Alice! Sabia que estava aqui! – Gritou Misty abraçando Alice.
— Então, você vai ser transferida amanhã? Vai mandar noticias? Pelo menos para ele. – Falou Gabriel indicando Ezequiel quando Misty soltou Alice. Ela olhou para seus pés.
— Eu vou embora ao amanhecer. Não sei nem se poderei ter contato com vocês. – Alice deu de ombros como se não se importasse.
Mas ela se importava e muito. E se eles se esquecessem dela? E ela se tornasse mais uma sombra no passado da família? Olhando para os rostos dos irmãos e da irmã, ela jurou silenciosamente que todos se lembrariam dela de alguma forma. Ela não se deixaria esquecer.
— Talvez possamos trocar de lugar. – Ofereceu-se Misty sorrindo e Alice sorriu junto. Ninguém notaria que seria Misty a ir ao invés de Alice porque as duas eram gêmeas idênticas, mas era dever de Alice ir.
— Não. Eu vou, custe o que me custar. – Ela disse e Ezequiel limpou a garganta.
— Custe o que nos custar, irmãzinha. – Ele sorriu e Gabriel imitou o gesto.
— Custe o que nos custar. – Repetiu e colocou a mão no meio dos quatro. Ezequiel colocou sua mão em cima da dele e Misty fez o mesmo.
— Custe o que nos custar. – Ela repetiu e arqueou as sobrancelhas. Alice colocou sua mão acima da dela.
— Custe o que nos custar. – Alice foi a última a repetir e, assim que ela disse, uma brisa fresca soprou no quarto.
E eles iriam cumprir suas palavras, pois era uma promessa.
Perto do amanhecer, quando todos no castelo dormiam, Alice desceu até as masmorras do palácio e empurrou uma pesada porta de madeira. Ela rangeu e abriu, mostrando um espaço vazio, um túnel.
Colocando o capuz do casaco, que lhe cobria até os joelhos, ela adentrou no túnel, que se acendeu com chamas brancas. Suas botas faziam barulhos altos no gelo onde pisava, mas ela não se importou. Ninguém usava o atalho das masmorras mais.
— Princesa Alice, que ótimo vê-la. – Falou uma mulher quando Alice saiu do túnel, aparecendo em uma casinha perto do reino de Ignis.
— Olá, tia Francisca. – Falou Alice tirando o casaco e sorrindo para sua tia.
Francisca era uma mulher baixa, de olhos azuis escuros e cabelos loiros avermelhados. Era a irmã mais nova da rainha e, mesmo que tivesse muitos pretendentes, nunca se casou. Preferiu se dedicar ao aperfeiçoamento de sua magia e, logo depois, da magia de seus sobrinhos. Sua casa era simples porque ela não gostava de extravagâncias. Ela dizia que os luxos matérias desvirtuavam as pessoas do caminho certo da magia e as levavam para o caminho errado.
— Sei que você irá embora amanhã, mas devo lhe contar algo, um segredo sobre você. – Francisca disse sentando-se em uma cadeira de madeira e convidando Alice a sentar-se também.
— Um segredo sobre mim? O que a senhora pode saber que eu já não saiba? – Alice perguntou curiosa. Geralmente sua tia era clara quando falava, mas este não era o caso.
— Eu vi na correnteza. Algo grande vai acontecer, Alice. – A tia balançou as mãos e um trovão estourou do lado de fora da casa.
— O que? – Ela perguntou, mas a tia balançou a cabeça e não respondeu.
— Você, mais do que qualquer um, tem um poder. Este poder é difícil de controlar e perigoso. Muito perigoso. Quando ele se manifestar pela primeira vez, você deve tomar cuidado. – A tia levantou-se e abriu a porta. Um homem estava parado do outro lado. Ele acenou com a cabeça e as duas mulheres o seguiram.
Aquela ia ser uma longa noite, pensou Alice quando chegaram a um campo aberto em que tinham vários pilares de madeira no meio. O homem olhou-a e sorriu.
— Alice. Você já sabe o que tem que fazer. – Ele falou e Alice tirou o casaco, revelando uma blusa de mangas compridas azul, uma calça preta e suas botas.
— Está bem. – Ela murmurou aproximando-se do pilar da direita e então fechou os olhos e respirou fundo, relaxando o corpo.
Ela concentrou toda a sua energia na palma da mão e logo um brilho azul forçava seu caminho por suas pálpebras fechadas. Ela abriu os olhos e se viu segurando uma bola de energia azul do tamanho de sua palma.
A energia rodava sem parar, como se tivesse um pequeno tornado em seu interior. Alice sabia que se se desconcentrasse, nem que seja um pouco, ela poderia morrer.
— Seja rápida. Os guardas irão chama-la logo e se perceberem que não está na sua cama... – Lembrou a tia e Alice respirou fundo, jogando sua mão contra o pilar. Ela sentiu uma dor imensa atravessar-lhe o braço e foi arremessada para trás. O homem pegou-a antes que ela caísse no chão e ela ficou ereta, olhando para o pilar quase intacto, com somente uma espiral em seu centro, onde a mão dela tinha encontrado a madeira.
— Tente de novo. – O homem ordenou e Alice tentou pelo resto da madrugada, até o sol nascer e todos os pilares tivessem espirais, mas nenhum tinha sido destruído, como eles queriam.
Quando Alice entrou na carruagem, os guardas se perguntaram por que as mãos da princesa estavam cheia de cortes e esfoliações, mas não expressaram. Não era da conta deles.
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