Os quatro de Eden
3 Nós, os mentirosos.
Greg, o garoto ossudo, foi um desvio em minha rotina, tardiamente percebo que há pouco que eu possa fazer antes do retorno de mama, ainda assim me movo até o pequeno buraco que convencionalmente chamamos de banheiro, tomando cuidado para cobrir a entrada com o plástico velho que utilizamos para encontrarmos alguma privacidade, me encolho contra a parede que nada mais é do que areia e pedregulhos, minhas mãos cravando-a profundamente e me concentro.
Está lá, como sempre, a energia abrasadora que há dentro de mim, aquela com a qual eu luto o tempo inteiro e que sempre me joga para a borda, ela é branca como uma lâmpada de alta potência, mas consegue parece ter vida própria como um vaga-lume, ela cresce até explodir, quando abro os olhos que não percebi ter fechado, as coisas estão da mesma forma e ainda assim, não são mais as mesmas, o cruzamento que resulta nas paredes, tem uma outra cor, mais viva, jovem.
Mas não é algo que você normalmente percebe se não souber o que está procurando.
Ainda assim a energia ainda está em mim, ela sempre está presente, mas o formigamento em minhas mãos está fraco, controlável, o meu pequeno segredo sujo resisti a mais um dia.
Mama não demora para retornar, imagino que no mesmo horário que todos os dias, é difícil se manter sintonizado com o tempo quando você é uma moradora dos túneis, a não ser mama, ela sempre está de acordo com as horas.
Ela inspeciona o lugar como sempre, e se ela percebe evidencias de visitas, ela nada diz, mas ainda assim senta-se sobre alguns panos e me convida a acompanha-la, ela pergunta sobre minhas lições do dia, mas eu sei que não é realmente essa pergunta que ela almeja, como sempre, finjo pequenas dificuldades sobre as tarefas, procurando não levantar suspeitas sobre o que acontece com o resto do meu tempo livre, e sutilmente, quase de maneira inocente, menciono o formigamento, que é sobre o que ela realmente quer saber, digo que é quase imperceptível agora e que a cada dia parece diminuir.
Ela parece contente com isso, e eu com minha habilidade para mentiras.
Odeio mentir para o meu próprio sangue e carne, mas aprendi da maneira mais dura que certas palavras devem serem mantidas para si próprios, com o tempo entendi que minhas lições e livros não são apenas fontes de conhecimentos, de certa maneira, são forma de controle.
Para eu nunca sair.
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