Os olhos de Sophia

2 Deduções sombrias


Notas iniciais
Aproveite!

Acordou num pulo, por um momento sentiu uma forte tonteira, suas vistas embaçaram, mas logo tudo ficou nítido e conseguiu perceber onde estava. Jefrey, em alguns instantes se sentiu apavorado, mas aos poucos foi se sentindo melhor, afinal, aquele era um lugar aconchegante. As paredes eram de tijolos vermelhos, separados pelas linhas do concreto, a mobilha era simples e bonita, feita de uma madeira escura e reluzente, e no centro da sala havia uma espécie de colchão onde Jefrey repousava.

Tinha esquecido tudo, mas ao passar a mão sobre a testa, sentiu o ferimento que sua queda havia lhe causado. Rapidamente, um desespero começou a tomar conta de Jefrey, pois pela janela dava pra ver o céu negro e a lua cheia. Pensou no quanto seus pais estariam preocupados e só tinha como objetivo sumir daquele lugar estranho e dormir de novo à luz daquela lareira quente e acolhedora na sala de sua casa.

Desvencilhou-se dos cobertores e saiu correndo descalço pela casa. Chegou a um corredor, e enquanto atravessava-o, teve uma surpresa um tanto desagradável: viu uma sombra de uma pessoa enegrecendo a parede em sua frente. A pessoa não se via, apenas podia se deduzir seus gestos. Jefrey parou e se escondeu atrás de uma estante de livros que ficava na lateral do corredor. Arriscou colocar apenas uma parte de seu rosto à mostra para que pudesse ver o que acontecia ali, naquela situação tão estranha.

O que a sombra dizia, ou pelo menos o que Jefrey deduzia era que o dono da sombra estava cozinhando algo, ou pelo menos ele estava fazendo uma receita, pois algumas vezes o homem da sombra se questionava sobre ingredientes. “Vejamos, onde está o tempero? Hum, aqui está. Agora é só esperar ficar pronto” dizia a sombra numa voz fina para a estatura deduzida a partir da sombra refletida na parededa cozinha, mas apesar de aguda percebia-se que era uma voz masculina. Jefrey ficou mais tranquilo, pois parecia que estava sendo bem cuidado ali naquele lugar, porém, lembrava sempre dos conselhos de seus pais, que diziam para nunca aceitar nada de pessoas estranhas. Enquanto refletia sobre qual atitude tomaria, eis que a sombra desaparece num vulto e todos os sons se calam. Jefrey prendeu sua respiração e começou se apavorar, mas logo viu que o homem tinha saído da cozinha. Era a oportunidade perfeita para Jefrey sumir dali, disparou em corrida e quando chegou a cozinha viu uma porta que dava para o quintal, comemorou em silêncio o sucesso de sua fuga, mas quando pôs seus pés no gramado uma voz veio de dentro da casa:

— Onde pensa que vai, rapazinho? — disse o dono da sombra, que agora refletia na parede atrás de Jefrey — Não se lembra de onde veio? Por lá é impossível sair. Quem entra aqui só sai com minha permissão, pois só eu conheço os segredos deste lugar.

Jefrey então se encheu de medo e ficou paralisado por um momento, até que conseguiu soltar algumas palavras:

— Desculpe-me senhor — dizia ele numa voz fraca e trêmula — mas eu não lhe conheço, nem sei onde estou. Só quero voltar para casa, meus pais devem estar preocupados comigo. Eu devia ter voltado antes do jantar!

— Não se preocupe com o tempo, meu jovem — disse a sombra, num tom intimidador — Ele acaba com tudo e todos, mas não neste lugar. Aqui o tempo está parado, mas entre e sente-se que eu te explicarei tudo.

Sem escolha, Jefrey entrou e sentou-se numa poltrona de frente para onde se refletia as sombras.

— Por que você não aparece?! — indagou Jefrey — E desconfortável conversar com sua sombra.

O homem riu. — Realmente, mas antes de tudo, devo cumprir minha promessa, vou contar-lhe tudo, afinal, aqui só entram os escolhidos — fez uma pausa e iniciou a história — Sei exatamente quem você é, Jefrey McIan, filho de Arthur e Belinda, novo aqui na região, não é? Eu estava esperando sua visita, afinal, nossos destinos estão entrelaçados.

— Explique isso direito! Você não diz nada com nada. — interrompeu Jefrey, num grito.

— Acalme-se, garoto. — disse a sombra — Sei de tudo sobre você, pois sou o senhor da Floresta da Cachoeira, é ela que protege a mim e minha morada, se alguma coisa entra, eu sei, se alguma coisa sai, eu sei. O urso que correu atrás de você fez isso por minhas ordens, queria atraí-lo para minha casa. Você tem um futuro destinado, vim aqui para este planeta justamente por causa de seu destino e o destino de Sophia.

— Como é que é?! — disse Jefrey assustado — Por que você se refere a este planeta desta forma? Você por acaso não é daqui? E quem “diabos” é Sophia?! E, aliás, quem é você, ou o que é você?!

— Uma pergunta de cada vez, meu caro — disse o homem — Meu nome é Izard, venho do planeta Írion, que fica há alguns anos-luz daqui, cheguei aqui por meio do que, aqui na Terra, vocês consideram magia. Simplesmente, para que você entenda melhor, eu sou um mago de outra galáxia, mas um pouco diferente dos magos que estão nos seus livros de fantasia.

— Quer mesmo que eu acredite nessa loucura? — questionou Jefrey — Você é no mínimo um louco, e isso está me cansando, pode me deixar ir embora, por favor?

— Claro que sim — disse a sombra — mesmo de que nada adiante, já que você voltará em breve.

— Creio que não — falou Jefrey — quero total distância deste lugar.

— Isso mudará hoje, quando conhecer Sophia, no jantar com seus vizinhos, os Jones. E só lhe digo uma coisa antes de ir, mas quero que olhe nos meus olhos, então me revelarei agora.

Jefrey escutou os passos no chão de madeira vindo em sua direção, ficou tenso e sentiu um forte frio na barriga, sua mão tremeu e esperou, enquanto a sombra se movia rumo a sua visão. Um vento frio e calmo invadiu a sala e soprou, a porta se moveu rangendo agudo e lentamente, até que, depois de todo o pavor naquela hora, Izard, o homem da sombra se revelou.

A reação de qualquer um seria um tanto cômica naquela situação, pois ao se revelar, Jefrey viu que o suposto mago extraterrestre tinha pouco mais que um metro e meio de estatura, usava um espartilho e um short que dava no meio de suas pequenas canelas. Seu cabelo era negro e batia quase nos ombros, tinha orelhas pontudas e seus olhos eram pretos como o céu à noite. Jefrey quase riu na frente de Izard, mas era perceptível ao olhar nos olhos do mago que ele continha muita sabedoria, então Jefrey achou melhor não provocar, pois muitas podiam ser as atitudes do E.T.

— Da pra ver na sua feição que quer zombar de mim — falou Izard, sem dar muita importância — Mas quando sair daqui nem me lembrarei disso, eu só me lembrarei de que só eu posso te ajudar com os olhos de Sophia, e com certeza, amanhã você estará aqui de novo, querendo saber como posso te ajudar. Só que isso não vem ao caso, deixemos isso pra amanhã. Agora está na hora de ir, não acha? Venha, eu mostro a saída.

— Ah! Obrigado, e mesmo que só tenhamos tido discordâncias, eu agradeço por ter cuidado de mim — disse Jefrey.

— Não há de que! — respondeu Izard — Mas deixemos de baboseira, agora quero que olhe nos meus olhos e depois que eu mandar, você fecha os seus.

— Pra quê? — indagou Jefrey.

— Apenas me obedeça, se é que deseja sair daqui.

Jefrey não teve escolhas, olhou bem fundo nos olhos do pequeno ser extraterrestre, e ao fazer, viu se preso, não conseguia mexer nenhum musculo. Só se moveu quando, ao mando de Izard, fechou seus olhos. Na escuridão de suas pálpebras, ele, num momento de delírio ouviu canto de pássaros e sentiu um calor parecido com o do sol ardendo na pele. Neste momento Izard falou: — Pode abrir os seus olhos.

E ao abrir seus olhos, Jefrey ficou surpreso, pois não estava de noite, e nem estava na casa de Izard, na verdade ele estava de frente para a bifurcação que separava indo para a casa da família Jones e para a floresta. Como num déjà-vu Jefrey viu, ao longe, balançando nos galhos de um ipê amarelo, uma garota, com a mesma forma triste de antes, só que dessa vez, Jefrey deu mais importância. Esse foi um dia estranho, qualquer coisa poderia ser um sinal do que Izard disse. Jefrey passou por muitas aventuras naquele dia, se é que aquilo foi um dia, se tinha viajado no espaço-tempo, quem sabe o que tinha vivido ali? Apenas Izard.

Jefrey achou melhor descansar um pouco, foi direto para os carvalhos das colinas para descansar sob sombra fresca. Chegando lá ele se sentou no enraizado de uma árvore, pegou uma garrafa de água e um curativo para por na sua testa, pegou a água com a mão em forma de concha e passou na testa para limpar o ferimento, mas eis que tem outra surpresa, o machucado sumiu, sua testa estava curada. Foi como se tudo que ele viveu dentro da floresta fosse apenas imaginação, ou quem sabe um sonho. Ficou muito confuso, decidiu voltar logo pra casa e dormir um pouco, pois apesar de aparentemente ter voltado no tempo através de magia, o cansaço era o mesmo de quando estava na casa de Izard.

Arrumou suas coisas e partiu de volta a sua casa. No caminho andou de cabeça baixa, pensando em tudo, o vento batia fraco no rosto de Jefrey, o sol estava escondido atrás de uma nuvem, a grama na beira da estrada estava dançando ao som do canto de pássaros. Fez a última curva que dava pra sua e percebeu que estava recebendo visitas.

Na hora que chegava a curva, viu na cancela um casal camponês com vestes de fazendeiros, batendo palma e chamando por Arthur e Belinda. Jefrey escondeu-se atrás dos arbustos e escutou a conversa.

— Hey! Olá, tem alguém em casa? — disse o casal.

A porta se abriu e Arthur saiu. — Bom dia! Posso ajudar? — disse ele.

— Não sei se isso é ajuda, mas queremos conversar um pouco com nossos novos vizinhos — disse o homem, rindo.

— Oh! Você deve ser o Sr. Jones — disse Arthur — Entrem e tomem um café comigo e minha esposa.

O casal entrou e Jefrey foi pra sua casa, passou pelos fundos e sentou na escada, escondido e escutando a conversa.

— Bom, seremos bem breves, afinal, estamos com pressa, precisamos cuidar de nossa casa e nossa filha está sozinha. Isso nem devia acontecer. — disse o Sr. Jones — Viemos aqui para convidar vocês para jantar conosco na nossa casa, sempre somos receptivos com nossos vizinhos, e vocês, se me permitem palpitar, me parecem ser boa gente. Adoraríamos ter a amizade de sua família.

— Igualmente — respondeu Belinda — seria um prazer jantar com vocês.

— Que bom que aceitam — disse a Sra. Jones — vamos esperar vocês lá. Agora vamos indo, não podemos ficar por muito tempo aqui.

Foram conversando até a cancela e enfim se despediram. O jantar estava marcado, como disse Izard. Jefrey nunca esteve tão ansioso e cheio de dúvidas como naquela hora, então foi pra sua cama e dormiu, pra tentar esquecer seus medos.

Notas finais
Obrigado, se leu até o fim.