Os olhos de Sophia
3 Sophia
Jefrey até conseguiu dormir, mas nunca deixara de ser incomodado pelo que tinha vivido. Seus próprios sonhos foram envolvidos pela dúvida e medo do que seria a sua sina. Abriu seus olhos e viu no seu quarto a sua mãe arrumando roupas em seu armário.
Pelos seus atos, Belinda demonstrava ansiedade. — Chegou cedo das suas aventuras — disse ela — O que aconteceu? A floresta escondeu suas surpresas?
— Sim — respondeu Jefrey — passeei um pouco por lá, mas nada aconteceu hoje.
— É uma pena, pois hoje você poderia ter histórias para contar no jantar — disse Belinda — Hoje nós...
— Vamos jantar com os Jones — interrompeu Jefrey.
— Espera! Como você sabe?
— Só achei que fosse isso — disse ele, saindo pela porta e rindo por dentro de sua expressão sonolenta.
Saiu para ver o pomar e notou que tinha dormido muito. A lua, mesmo clara, aparecia no céu, e as primeiras estrelas davam boa noite. O vento estava rasteiro, levantando poeira e compassando os movimentos das árvores. Estava tudo num silêncio incômodo, até que o grito de Arthur cortou a calma, mandava Jefrey se apressar e se arrumar para irem para o jantar.
Entrou, tomou um bom banho e se arrumou rapidamente, vestiu sua melhor roupa, mesmo que ela deixasse-o parecendo um Hobbit. Uma camisa branca, um espartilho verde-escuro, uma bermuda que pegava em suas canelas e um sapato preto eram suas vestes. Se você estivesse lá para ver, pensaria o mesmo que eu: sem os sapatos ele seria um bom Bolseiro.
Todos estavam prontos e ansiosos, mas nenhum mais que Jefrey, ele já sentia que encontraria algo nesse jantar, e pra sua surpresa, ele já se sentia bem, como se bons olhos o vigiassem para seu bem. A caminhada até lá foi calma e relaxante, à luz de uma lamparina eles podiam ver na beira da estrada o brilho de olhos no negrume da floresta, um aqui, outro acolá, mas nada perigoso ou para se assustar.
Toparam a bifurcação, e rumaram para casa dos Jones. Lá fora estavam os dois esperando para recepcionar os convidados. Cumprimentaram-se e conversaram um pouco até entrarem. De fora da casa já dava pra se sentir o cheiro agradável da comida, e aquilo deixou Jefrey faminto, tão faminto que quase se esqueceu do possível propósito do jantar: Sophia.
Entraram e sentaram-se, e enquanto conversavam, as duas filhas dos Jones cozinhavam e punham a mesa. Jefrey não tirava os olhos das duas, tentando achar qual era Sophia, mas aparentemente, ele não percebeu nada de estranho em nenhuma das duas.
Se ocupou pouco com as duas filhas, era até difícil se concentrar, pois a conversa entre os casais não estava agradável de ouvir (coisas de adultos sempre são chatas, pelo menos para Jefrey), e isso deixou Jefrey sem graça e entediado. Não fez questão de disfarçar, e os Jones, percebendo a humor do garoto, fizeram uma proposta:
— Hey jovenzinho — disse o Sr. Jones — Por que não brinca lá fora com minha filha. Talvez, você não viu, mas ela está lá no balanço, no ipê rosa. Ela sempre fica lá. Fazendo o que, eu nunca descobri. Quem sabe você não descubra.
Jefrey sem pensar duas vezes saiu pela porta e foi rumo ao ipê rosa, tinha certeza de que lá teria com o que entreter. Chegou, e estranha foi sua reação ao ver a garota: sentiu-se paralisado, mas ao mesmo tempo estava caminhando rumo à garota. Chegou e parou na frente dela. Ela olhava para chão, mas não esboçou reação. Jefrey ficou sem o que fazer e não disse palavra. O vento bateu entre os dois e ambos se arrepiaram, não pelo vento, mas pela simples presença um do outro. A garota elevou sua cabeça e olhou, por coincidência, profundamente nos olhos de Jefrey. Foi algo como mágica, não era natural aquele olhar, era coisa de outro mundo, talvez. A sombra do ipê, por um instante, tampou os olhos dela, mas com o farfalhar das folhas a sombra se balançou e em vultos ele conseguiu ver, o que seria a coisa mais bela que viu na sua vida, e provavelmente nunca mais veria, pois, no coração de Jefrey, aquilo era incomparável. Os olhos dela pareciam mais um rio cristalino que corriam entre nuvens; eram azuis e traçados por linhas negras. Com um toque final, ela deu um tímido sorriso e baixou outra vez sua cabeça, talvez por timidez.
— Engraçado — disse ela, no mesmo momento em que Jefrey tremeu por causa da voz suave de Sophia — Não me sentiria bem com ninguém em uma situação comum, mas, não sei se sentiu... O vento sussurrou no meu ouvido que você é alguém que tem bondade. Bondade o suficiente para me entender.
— Bom — disse Jefrey, gaguejando — Não sei do que é preciso para te entender, mas eu mesmo sempre penso que o vento nunca mente.
— É simples me entender — soltou o balanço e penetrou no coração de Jefrey, que dessa vez, nada amenizou seu assombro com tal paz em uma pessoa só — O grande problema é que as pessoas lutam pelo complicado e desistem do simples. Basicamente, você não precisa me ver ou ouvir, apenas sinta minha presença. É o que eu sempre faço, e como você vê, funciona bem.
— Mas não é simples assim — respondeu ele enquanto sentava na grama e olhava ela de baixo pra cima — Sentir é complicado, você parece ter muita sensibilidade, mas talvez seja por causa do seu jeito, seu olhar parece ver tudo.
— Pois saiba que você está enganado — disse ela com receio e virou sua cara rumo à mata a direita — Eu sinto, talvez com os olhos, mas não com a visão, pois nada enxergo. Quando eu tinha três anos eu comecei a perder a visão e hoje tudo é uma noite infinita, e pra minha infelicidade é um noite nublada em meus olhos, pois nem mesmo a lua ou as estrelas eu posso ver.
Jefrey abaixou a cabeça e entristeceu-se. Mal conhecia aquela garota, mas tamanha foi a ligação entre os dois.
— Não abaixe a cabeça, prefiro que olhe pra mim — disse ela rindo, como se além de ver o mundo, mesmo cega, via também os sentimentos — Eu não preciso que se curve, pois não sou nenhuma majestade, eu sei que é pedir muito, mas esteja do meu lado. Só isso.
A voz dela dizia não preces, mas ordens. Não com a intenção de mandar, mas por que se via tão necessário que qualquer um atenderia, mas ninguém além de Jefrey receberia um pedido assim.
— E bom, se me permite perguntar — disse Jefrey — como você sabe que eu baixei a cabeça, sendo que você é cega?
— Eu sou sensível, apenas deduzi. Você pode não acreditar, mas quando estou perto de qualquer pessoa, eu sinto algo como a alma dele se movendo. E é daí que eu senti, mas o engraçado de tudo é que sua alma me traz uma paz imensa.
— Fico muito agradecido. Receber um elogio seu é muito especial, se é que não sabe disso.
— Não sei, pois não costumo elogiar.
Nesse momento, um olhou para o outro, e como se ela o visse, os dois sorriram ao mesmo tempo, Sophia enrugando suas sardas e deixando de lado seu cabelo ruivo, e Jefrey, tímido, mas aparentando estar calmo. Foi um momento muito especial. E mais especial foi quando os Jones gritaram da casa deles dizendo que o jantar estava pronto: Jefrey e Sophia se levantaram e o menino tomou a frente, mas estranhou não escutar as passadas da garota. Quando olhou pra traz, viu Sophia parada e segurando no balanço, e viu também que ela não chegaria ao jantar sem ajuda. Voltou e sem ao menos pedir, tomou a mão de Sophia e disse:
— Vem, eu te acompanho. Eu estou do seu lado.
Sophia olhou e riu soltando um “obrigado” em sua expressão. Eles andaram um pouco até escutarem um “Depressa!” de Arthur e saíram correndo, e o mais estranho foi Sophia ter tido uma confiança tão grande, a ponto de correr sem ver onde pisa, mas afinal, pela primeira vez, alguém estava do lado dela, do jeito que, talvez, ela sempre sonhou.
Quando Jefrey e Sophia chegaram à porta, suados e sorridentes, a reação dos Jones foi diferente. Riram com uma felicidade enorme, mas pouco demonstrada, pois segundo eles, Sophia nunca estava feliz, e queriam mesmo saber como Jefrey fez isso em tão pouco tempo.
Depois de uma pequena conversa das duas famílias, desta vez por inteiro, foram atacar o jantar. Durante a refeição, olhares cortavam a mesa em direção as conversas de Jefrey e Sophia, mas depois que perceberam que não conseguiam entender, começaram a conversar sobre coisas corriqueiras e sobre o dia-a-dia no campo e deixaram o paralelo entre as crianças.
A conversa era boa, os Jones eram gente de boa prosa, igualmente eram os McIan, e juntando os dois só poderia dar nisso, uma longa conversa, que só parou quando o sino da capela tocou, pois isso significava que já eram dez horas da noite. Os McIan se apressaram para ir embora, estava tarde e o caminho podia ser perigoso numa hora daquela, se despediram de forma cortês, menos Jefrey, ele abraçou Sophia, e disse “até amanhã”, pois ele tinha planos com sua nova amiga, ou mesmo sua primeira paixão.
O caminho de volta pra casa foi tranquilo, apesar dos barulhos ameaçadores, mas nada mais era do que imaginação da família. Os grilos cantavam alto, o céu estava estrelado como nunca, e é por isso que dizem: O começo de algo pode ser monótono, mas na volta você sempre terá algo para contar.
Chegaram em casa, estavam cansados, fizeram a oração em família, que era costume deles, e foram todos dormir. Belinda e Arthur conversaram tanto que nem sonharam, tiveram um sono frio e direto, já Jefrey sonhou toda a noite, com ventos fortes, sombras, florestas e tudo mais, mas no meio disso tudo, ele via olhos, olhos azuis como o céu...
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