Os olhos azuis.
4 Capítulo 3.
– Você terá sua alta hoje, Heloísa. — o médico disse depois de anotar algumas coisas na prancheta. — Porém terá que vir me visitar algumas vezes para ver se tem alguma anormalidade em seu estado, tanto na perna como na cabeça. O enfermeiro Ismael vai te acompanhar a sala de gesso e depois vamos ver se precisa de algumas sessões de fisio terapia. — o médico fez um sinal positivo com a cabeça e o supoto Ismael conduziu a minha cadeira de rodas para fora do meu quarto.– Vai doer? — perguntei olhando para as pessoas do corredor. – O que? Para tirar o gesso? — ele perguntou, dava para perceber que estava sorrindo só pela intonação da voz dele. — Usamos uma serra. — arregalei os olhos e tentei me virar para olhar para ele, ele estava rindo. — Para cortar o gesso, nada de mais. Você não vai sentir nada. — ele disse rindo entrando em uma sala com algumas macas e vários armários. — Lorenzo. — ele chamou alguém com um sotaque latino. — Tem que tirar o gesso dela e ver se ela consegue andar. Ficou um mês e meio com gesso. — um rapaz com rosto completamente com traços latinos saiu da porta que tinha dentro daquela sala.
– Tu és a menina do acidente? — ele perguntou para mim mas eu estava abismada com a perfeição do sotaque dele. Eu tinha uma queda por sotaques. – Sim. — Ismael respondeu me ajudando a subir em uma maca. — Nem disfarçar você sabe? — ele disse baixo apenas para eu escutar. – Han? Não, não.. Não é isso! — eu disse um pouco alto, coloquei a mão na boca e olhei para ver se o tal de Lorenzo tinha escutado. — O sotaque dele é lindo. Sou suspeita para fala sobre isso, gosto muito de sotaques. — completei esticando a perna esquerda na cama. – Aham, sei. — Isamel disse rindo e eu o repreendi fazendo uma careta. O latino chegou com uma serrinha e eu apertei a maca. — Relaxa. Depois do medo enorme de serrarem a minha perna voltei para o meu quarto e me troquei. Minhas roupas, suspirei sentindo o cheiro de amaciante das mesmas. Fiquei meia hora na sala de gesso tentando andar, mas consegui mesmo sentindo um pouco de dor, Lorenzo me aconselho a não me esforçar demais para não acabar com a minha perna novamente e com o tempo ela iria voltando ao normal. Mad veio me buscar e me levou para casa. Casa! Que saudade da minha casa, da minha cama, do meu quarto, da minha comida.. Até que enfim em casa.A empresa fica perto do Parque Oak, claro que dentro dos limites de Chicago, e minha casa ficava mais perto do Litoral então o caminho era um pouco longo e com uma pitada do transito de Chicago. Cheguei na empresa por volta das três da tarde, e tudo estava funcionando como antes. Confesso que estranhei afinal as últimas noticias que me deram foi que estava tudo um caos. Adentrei ao prédio espelhado e a recepcionista logo me deu passagem, passei pela catraca ao lado direito do balcão imenso de mármore escuro e aguardei o elevador com algumas pessoas que estavam lá de terno e uma maleta em mãos, eram dois homens e uma mulher. O cabelo dela era muito lindo por sinal, dona de um loiro brilhoso e por causa do lugar que estava não pude ver o rosto dos dois homens. Entremos no elevador e fiquei na porta, apertei o último andar. No elevador parece que temos a obrigação de puxar assunto para não ficar aquele clima constrangedor, cruzei os braços e suspirei. Fique quieta Heloísa, pensei comigo mordiscando os lábios e fechando os olhos. Não gosto de ficar quieta, gosto de falar mas não iria me deixar levar por alguns minutos no elevador. Levantei os olhos para ver em andar estávamos, faltava apenas 3 andares, olhei para as portas espelhadas e vejo um par de olhos me olhando, encarei de volta notando seus olhos azuis profundos. Desviei o olhar e meu corpo estremesseu, involuntariamente eu me arrepiei e respirei bem fundo, olhei para cima novamente e o elevador apitou avisando que havíamos chego fiz questão de ser a primeira a sair. Logo a secretária me deu passagem e fui até a sala do meu avô, entrei e fechei a porta me encostando na mesma, respirei fundo novamente.– Esta tudo bem, milacre? — meu avô se levantou da sua mesa e veio até mim, apenas balancei a cabeça positivamente. — Venha, sente-se. — ele me guiou até a cadeira em frente a sua enorme mesa de uma madeira bem escura. — O que aconteceu?– Nada. — arfei tentando me concentrar. — Apenas.. — vasculhei minha mente para ver se achava alguma desculpa boa. Afinal não iria contar essa besteira que acabou de acontecer no elevador para ele, a pessoa certa a contar esse tipo seria Madison ou até guarda isso para mim mesma, acho que essa seria a melhor opção. — Apenas algumas lembranças que vem atona.. Nada preocupante, o médico disse que seria normal. — me ajeitei na cadeira e olhei para ele. — Pelo o que tinha me dito no hospital, imaginei que viria pessoas puxando os cabelos correndo para os lados e até jogando os papeis para o ar. Não vejo nada disso, algo a me dizer Senhor Anthero? — ergi a sobrancelha olhando para ele.– Então Senhorita Heloísa.. — ele pigarreou ajeitando a voz. — Hoje é o meu último dia aqui. Sua tia conseguiu o que queria, mas não irei ser afastado.. Por enquanto. Vou ficar sobre vista grossa e qualquer avanço do Alzheimer, eles me tiram daqui. — ele completou me olhando nos olhos. Se ele chorasse, eu choraria junto. – Calma vô. — soei mais segura do que pretendia, me levantei e fui ao seu lado. Me apoiei no braço de sua cadeira e o abracei. — Agora eu vou achar um trabalho e vamos pagar o seu tratamento, você não vai piorar só melhorar. — ele deu um sorriso fraco e me abraçou de volta, beijei sua testa.
Alguém bateu na porta e ligeiramente me levantei. – Licença Senhor. Aquelas três pessoas que pediu para me ligarem, estão te esperando a um tempo já. — ela sorriu timidamente. — Não queria estragar a conversa de vocês.– Fique tranquila, Julieta. Já estava de saída. Fale para eles entrarem. Tchau vô. — beijei o seu rosto e sai apressadamente da sala.Olhei para os lados e não achei nenhum sinal dos três engravatados, tentei disfarçar a minha pressa indo para o corredor e logo apertei o botão do elevador. – Heloísa! Minha sobrinha, que surpresa vê-la aqui. Que saudades! Venha me dar um abraço. — só podia ser brincadeira. Me virei e era ela, minha tia, com um estilo de paletó feminino e amarelo com todas as bijuterias que se pode ter junto, seus cabelos castanhos estavam bem escovados formando leves curvas para fora nas pontas. Extravagante como sempre. – Olá Madalena. — sorri sinicamente para ela. — Saudades? Você nem ao menos foi me visitar no hospital, titia querida. Nem ao velório do seu irmão, você foi. Que tipo de saudade é essa? Ein? — ela estava me olhando pasma. É hoje que eu falo tudo que devo e não devo para ela. — Vamos fazer assim, guarda essa saudade pra você porque eu quero ficar bem longe dela. — me aproximei dela. — Você não ouse encostar um dedo no meu avô, porque se acontecer algo com ele terei certeza que foi você quem fez. Por que? Por causa da sua obsessão pelo poder, aposto que nem sabe o que fazer com uma empresa. Capaz que coloque o Luke para fazer o trabalho para você, enquanto você fica no salão fazendo o cabelo e as unhas. — me afastei dela e fui até o elevador, olhei a última vez para ela. — De você, eu e o meu vô não queremos mais nada. — entrei e apertei o terreo. Respirei fundo me encostando na lateral do elevador. Quem diria que no meu primeiro dia fora do hospital iria me estressar, pensei rindo da situação afinal eu não podia me estressar nem em sonho porém eu não contava com a ilustre presença da minha querida tia Madalena na empresa. Esperei muito por esse momento, o dia em que eu ia explodir para o que eu deveria chamar de tia. Me dirigi para fora do prédio e comecei a caminhar pelas ruas de Chicago a fim de achar alguma loja com algum tipo de plaquinha escrita “Precisa-se de ajudante.” Era disso que eu e o meu avô precisávamos, de um emprego. De um jeito ou de outro eu tenho que achar um meio de ganhar dinheiro ou eu e o Seu Anthero morremos. Suspirei e me sentei em um banquinho na praça.– Eu preciso arranjar um emprego. — me debrucei em minhas pernas e passei os olhos pelas lojas que tinham por ali.– Ela vai procurar por emprego agora e vai fazer de tudo para tentar pagar o meu tratamento. — Seu Anthero dizia à pessoas em sua frente. Dois homens altos e uma mulher loira. – Não se preocupe, Senhor Verona. Sou eu quem entra em ação agora, estará em boas mãos. — a moça sorriu vitoriosa. – Senhorita Petrovick, não coloque minha neta em maus lençóis! Alessandra não iria querer isso para a própria filha e você sabe muito bem disso. — o velho estava sentado em sua cadeira com a sua mão esquerda tremendo freneticamente. – O senhor sabe muito bem que eu não deixaria isso acontecer, em hipótese alguma. — o rapaz de chapéu disse ajeitando o mesmo para poder encarar o senhor. – Sei dos seus votos, Mayer. — o senhor respirou fundo. — Mas eu só irei acreditar vendo. — ele olhou pro teto e segurou sua mão que tremia. – E vai ver, com certeza irá. Nosso plano não irá falhar! — ele disse com convicção. — O senhor está bem? — o mesmo rapaz perguntou se aproximando dele.– Estou ótimo! — o velho disse alto demais e viu o rapaz se aproximar. — Saí! Saí! Saí de perto de mim! — ele se levantou subitamente da cadeira andando de costas. – Eu só quero ajudar o senhor. — o rapaz continuou se aproximando de Seu Anthero.– Saí daqui! Socorro! Socorro! — de repente ele jogou o vaso que estava encima do armário entre ele e o rapaz. — Não se aproxime de mim, seu louco!– Chamem a secretária. — o rapaz disse baixo para os outros dois, voltou a olhar para o senhor em sua frente. — Tá bom, pronto. — ele se afastou dele. — Estou longe de você. – O que foi? — uma voz feminina soou na sala. — Senhor Verona, sou eu a sua secretária, a Lily. Lembra? — o senhor balançou a cabeça positivamente enquanto ela passava ao lado do rapaz de chapéu. — Chame a ambulância. — ela disse baixo ajeitando em sua mão direta, nas costas, uma seringa. — Vem cá. Não farei mal algum ao senhor. — ela esticou a mão e o senhor logo a pegou. Em um movimento rápido a tal Lily puxou bruscamente o senhor para perto dela, abraçou ele pela cintura e aplicou a seringa em seu braço tremulo em fração de segundos ele relaxou em seus braços. — Pronto. — ela respirou fundo. — Espero que ambulância esteja a caminho.
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