Lá estavamos nós, eu e Leo sentados em cadeiras barulhentas na sala do diretor da chácara. Leo encarava um quadro na parede enquanto eu brincava com um pêndulo de Newton.

– Está resolvido — disse ele, voltando para a sala. — Consegui falar com os pais de vocês e irão embora amanhã durante a tarde.

– O quê? — voltei a atenção para ele.

– Seus pais não poderão vir lhe buscar, sr. Leonardo, mas os pais de Camila se prontificaram em levar-lhe.

– Você está brincando?! — me levantei rapidamente.

Leo deixou de encarar o quadro e me olhou com um sorriso torto nos lábios.

– Você nem vai me notar — disse ele.

– Se a volta for como na ida, tenha certeza de que irei te notar, afinal, você não cala a boca!

O diretor nos liberou e nos guiou até as respectivas casas. Clara me ajudou a arrumar minha mala enquanto Lara e suas amiguinhas falavam sobre nós e davam risadinhas ridículas.

– Da próxima vez, eu deixo toda a sua cara deformada — ameacei.

– Quero só ver — revidou Lara.

– Para com isso, Cami — pediu Clara.

Após terminarmos de arrumar minha mala, fomos todas dormir. Essa foi minha primeira e última noite na droga do acampamento.

No dia seguinte, tomamos café no imenso refeitorio e depois fomos para a quadra jogar basquete. Dessa vez, os monitores deixaram o jogo ser misto, então só jogou quem queria. Claro que de quase 50 pessoas só 14 jogaram, entre elas estavam: Eu, Clara, Lara e Leo. Você já pode até imaginar como foi, certo?

– Ei, idiota — disse Lara.

– O quê você quer? — perguntei, revirando os olhos.

– Pega — ela jogou a bola com toda sua força.

Subitamente, Leo apareceu na minha frente e a pegou antes que batesse em mim.

– Você deveria tomar mais cuidado — disse ele, debochado.

Lara revirou os olhos e saiu andando.

– Valeu — eu disse enquanto ía em direção ao banco.

– Foi você que fez aquilo com o olho dela? — perguntou ele.

Aquilo o quê? Eu realmente não havia reparado em nada diferente na cara de Lara, então a encarei por alguns segundos e vi seu olho roxo se sobressaindo. Não pude evitar uma risada alegre.

– Eu nem tinha reparado — disse.

– Mas aquilo está enorme! — ele abriu os braços fazendo menção ao olho de Lara.

– Ainda não compensa minha perda!

O diretor acenou para nós e veio em nossa direção.

– Sua mãe já está aqui, Camila.

Eu fui até a casa amarela pegar minhas coisas e Leo foi até a azul. Nos despedimos de Clara e fomos até o carro. Minha irmã estava sentada no banco da frente e fez birra para que minha mãe a deixasse ficar ali.

– 13 anos fazendo birra, que palhaçada! — eu disse entrando na parte de trás do carro.

– Você deve ser o Leo — disse minha mãe cumprimentando-o.

– É, sou eu — ele sorriu de orelha a orelha.

– Você é um gatinho — disse Melissa, minha irmã, dando uma piscadinha com o olho direito.

Leo ficou vermelho como um pimentão e entrou no carro. Mamãe fechou o porta-malas e também entrou.

– O quê você quer ouvir, Leo? — perguntou Melissa.

– Imagine Dragons — ele sorriu olhando para mim.

Não pude deixar de notar o olhar de minha mãe pelo retrovisor. Era um misto de "minha menininha cresceu" com "seu namorado é um fofo!". Eu arqueei uma sobrancelha para minha mãe, que voltou os olhos para a estrada. De repente, o som de Ready Aim Fire explodiu nos alto falantes.

– Adoro essa música — disse Leo, cantando junto.

Não posso negar, ele até que canta bem.

Depois de 4 horas ouvindo Leo e Melissa discutindo sobre o quê ouviriam a seguir (ele até que tem bom gosto!), finalmente chegamos em casa.

– Leo, seu quarto fica no segundo andar, a Mila vai te mostrar — disse mamãe.

Eu comecei a subir as escadas e ele me seguiu.

– Mila? — perguntou ele.

– Tem gente que me chama de Cami e tem minha familia, que me chama de Mila.

– E como eu posso te chamar? — ele sorriu.

Eu parei no meio da escada e o encarei com os punhos cerrados.

– Camila.

– Hum... — ele olhou para meus pés.

Voltei a andar e fui até o quarto de visitas, bem ao lado do meu.

– É aqui que você ficar.

Então fui para meu quarto. Finalmente pude fazer o que eu vinha adiando desde a hora em que vi meu livro voando pela janela: me sentei no chão em posição fetal e chorei.

Depois de chorar por um tempo, acabei adormecendo e só acordei quando Melissa bateu várias vezes seguidas na porta do quarto.

– Milaaaaa — gritou ela.

– O quê? — olhei para o relógio ao lado da cama, ele marcava 19:30.

– Você está dormindo desde as duas da tarde!

– Que seja — enterrei a cabeça no travesseiro.

– O Leo tá no telefone!

– Depois eu pago a conta dele.

– Você não entendeu, ele saiu e ligou para cá.

Eu me levantei e abri a porta do quarto.

– O quê esse idiota quer?

– Ele é lindo, tá? — pude ouvir a risada de Leo vindo do telefone.

– Passa pra cá — arranquei o telefone das mãos dela. — o quê você quer?

– Me encontra aqui no shopping — respondeu ele.

– Duvido que minha mãe me deixe pegar um ônibus agora — menti. Minha mãe sempre deixava.

– É importante!

– Seu... — ponderei sobre aquilo. — Se eu for, você vai ter que me dar algo em troca, ouviu?

– Isso não vai ser necessário — ele riu. — Te vejo em frente ao cinema — ele desligou.

Tomei uma ducha rápida e coloquei um jeans, uma camiseta branca e tênis vernelho de cano médio.

Peguei um ônibus que parava ali perto e fui até o shopping. Leo me esperava em frente ao cinema com uma grande sacola amarela nas mãos.

Ele pediu para que eu sentasse em um banco próximo e disse:

– Fiquei sabendo que amanhã é seu aniversário — ele corou levemente.

– É sim, imagino que a Clara que te contou.

– Sem dúvidas — ele sorriu. — Então comprei isso pra você -ele estendeu a sacola amarela para mim.

Eu a peguei e a abri. Dentro havia um grande embrulho meio retângular. Eu o abri com cuidando, revelando o box com os três livros da série divergente em inglês.

– Ai. Meu. Deus! — eu me levantei e o abracei com força, eu devia estar fora de mim para fazer isso.

– Acho que você gostou — ele retribuiu o abraço.

– Ahn... — me soltei do abraço. — Então...

Nós dois ficamos vermelhos. Preciso assumir algumas coisas:

1 — ele sabe escolher presentes muito bem.

2- eu estava começando a gostar dele... COMO AMIGO, claro!