Os espetáculos de uma vida nada normal
5 O passeio
O quê é o inferno? Um lugar quente que abriga uma criatura vermelha maligna e almas ruins? Pra mim, o inferno é o mesmo que passar 4 horas num ônibus junto com toda sua turma e sentada ao lado de um idiota. R$150 que eu poderia ter gasto em livros e fui gastar logo com essa droga. A cada cinco minutos ele tentava puxar assunto e eu era obrigada a tirar os fones para responder. Eu não consigo ler em nada que se mova, desde carros até ônibus de viagem, então eu não tive escolha a não ser responde-lo.
– O que você está ouvindo? — foi a primeira coisa que Leonardo perguntou.
– Monster — respondi.
– Do Paramore? — ele perguntou quando eu ia colocar os fones de volta.
– Imagine Dragons.
Durante o resto da viagem ele tentou falar sobre livros, jogos, filmes, comidas etc.
Ao chegarmos na chácara nos separamos por sexo, as meninas foram para uma casa amarela e os meninos para uma casa azul. Eu iria dividir o beliche com Clara.
Depois do almoço os monitores nos levaram para jogar volei enquanto os meninos assistiam. Não pude deixar de notar o olhar de Leonardo. Era como se ele me queimasse, me intimidasse. Meu time ganhou e chegou a vez dos meninos. Todos os garotos dos primeiros anos estavam ali, os mais sarados tiravam a camisa para que as meninas ficassem babando, os mais atléticos faziam questão de mostrar como sabiam jogar... E tinha Leo, que jogava como qualquer outra pessoa.
Ao fim do jogo permitiram que todos fôssemos até uma cachoeira próxima para nos divertirmos, mas isso é meio impossível com tanta gente transando (sim, transando!) em baixo d'agua. Então eu resolvi voltar para a casa amarela e dormir um pouco.
Quando acordei, todas as garotas daquele quarto já estavam de volta, inclusive Lara, a menina que eu mais odiava no universo.
– Ei, retardada — ela acenou com as malditas unhas postiças.- Você está de caso com o Leo ou com o Lucas?
– Com nenhum deles, pode pegar qualquer um — respondi, pegando um livro na mala.
Ela se aproximou e pegou o livro de minhas mãos.
– Divergente... já ouvi falar — ela o segurou como se ele estivesse infestado de vermes.
– Me devolve isso! — me levantei.
– Quem vai me obrigar? — ela colocou a mão que segurava o livro para fora da janela.
Só então que eu percebi que estava chovendo, se o livro caísse dali ia se sujar de lama.
– Por favor, Lara, me devolve o livro — pedi.
Ela riu. O que aconteceu nos outros segundos foi como um flash. Ela soltou o livro, que caiu aberto na lama. Eu avancei em seu pescoço e nós duas caímos no chão.
– Sua idiota — eu soquei a cara dela.
– Me larga! — gritou ela.
Clara saiu do banheiro e me tirou de cima dela.
– Eu vou matar essa idiota! — gritei.
– Camilinha, por que você não vai ler um pouco? — perguntou Lara ironicamente enquanto se levantava.
Eu saí do quarto e bati a porta atrás de mim. Lágrimas de odio escorriam de meu rosto e salgavam minha pele.
Quando finalmente cheguei até onde o livro estava, percebi que ainda estava de meias e que agora estavam sujas de lama, assim como meus jeans e o pobre livro.
– Como eu vou termina-lo agora? — resmunguei me jogando no chão.
Quando peguei o livro ele começou a se desfazer, me fazendo chorar mais e mais.
– Oi — disse uma voz conhecida, atrás de mim.
Eu me virei e vi Leo usando uma grande capa de chuva amarela que o cobria até os joelhos, deixando a mostra o jeans acinzentado e os tênis de corrida.
– O que você está fazendo aqui? — perguntei, me levantando.
– Deu para ouvir seus berros lá da casa azul.
– Eu... machuquei um pouco aquela ridícula, mas ela me destruiu — levntei o livro para que ele pudesse ver.
– É, não há nada que dê para fazer — disse ele estendendo a mão para que eu me levantasse. — Mas você pode tentar seguir em frente.
– Eu não posso ler os outros livros sem ler o primeiro — me levantei sem precisar de ajuda.
A chuva lambia minha pele tirando toda a lama de meus braços e minhas mãos. Comecei a tremer de frio.
– Vamos entrar — ele passou um dos braços por meus ombros.
Mesmo com a capa de chuva ainda era possivel sentir o calor que emanava de seus braços. De repente, a voz rouca de meu professor de física invadiu minha mente.
Calor é a troca de temperatura entre corpos de diferentes temperaturas.
Aquilo era calor.Eu estava gelada, enquanto ele era como um cobertor: quentinho e aconchegante.
– Venham comigo — disse uma voz grossa. — Vocês estão encrencados.
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