Notas iniciais
Oi fantasminhas lindos ^.^ 1. Quero aproveitar para deixar aqui o meu obrigadão especial à Muller pelo belo comentário que me deixou. É um incentivo muito grande! Beijo no seu coração ❤ 2. Aproveitar também para dizer que sinto que não estou a corresponder às expectativas. Por isso, o que quer que seja, digam. Dêem ideias. Só não fiquem no silêncio. É um tema difícil, este que escrevo, sei que pode não agradar. Por isso, qualquer sugestão, crítica, desde que construtiva, é muitíssimo bem vinda =) Tenho medo da história estar ficando demasiado chata e que ninguém mais leia. 3. Também sei que, por ser portuguesa, talvez haja alguns termos ou construções frásicas que não sejam do vosso agrado, ou que até nem percebem, ou com interpretações diferentes. Mais uma vez, me perguntem, terei todo o gosto em responder, e em modificar, aprendendo com vocês, queridos leitores. 4. Vamos ao que interessa? Boas leituras, gente!!! ☺☺☺

Não podemos esquecer as origens. Alexandre Meireles Almeida de Albuquerque, não negava as suas. Nascera numa terra cujo solo se via regado de sangue. Desde as montanhas maias de onde se ergue imponente o Pico Victoria até às planícies costeiras, planas e pantanosas, do norte, Belize achava-se maculado de vermelho. A alma vaga do antigo Barão congregava a génese de tudo. Nascera, por engano, em Belmopan, numa rua pobre do bairro de San Martín. Toda a sua vida procurara um propósito que lhe guiasse a existência. Tinha 15 anos quando este lhe surgiu, como um desígnio, na primeira vez que matou um homem em nome da Revolucíon. Estávamos no glorioso ano da Independência, em 81. Ainda tremeu no primeiro golpe da catana, ao senti-la deslizar pela cabeça, mas depois, engoliu em seco vendo os espasmos do corpo moribundo que finava em convulsão até expirar, já hirto e inerte. Olhou o sangue que jorrava do cadáver decepado e, como se o seu corpo se adaptasse, sorveu com prazer o odor a sangue quente. Tomou o pulso da morte e sentiu que nunca mais conseguiria parar. Era o apelo da seiva da vida, a domar-lhe os instintos. Para ele não havia rostos, apenas alvos a matar pela causa revolucionária. Esteve ao lado dos Estados Unidos quando varreram sem piedade as tropas inglesas do seu território. Foi um dos seus apelos do sangue que o cruzou com Spencer Johnson, o novo Governador-Geral. Olhou para o inglês e sentiu a raiva nascer-lhe das vísceras, irracional. Não voltariam a usurpar o seu solo. Tinha que matá-lo, era a sua missão. E uma vez iniciado na arte de tirar vidas, nada mais pára o espírito sôfrego. Em Abril de 94, quando assassinou barbaramente Johnson, a sua mulher e três filhos, para ele matar era já um ato natural, parte indeclinável de uma vida dominada pela fúria. Apenas duas escaparam…

Base de Edín

Belize

Novembro de 2012

Eram as raízes do Barão que cunhavam os seus passos enquanto percorria o espaço que o separava da mulher, imerso num não sentir, rasto inefável dos dias, espias do cheiro intemporal da memória. Percorria a pequena cidade da Base de Edín, com as suas casinhas todas iguais, parte dos últimos ecos da presença humana na terra. Chegou a sua casa, onde entrou, placidamente. Subiu degrau a degrau a escadaria, tão calmamente como o seu espírito guerreiro. Abriu impetuoso a porta do quarto da mulher e olhou-a, de relance. Lúcia estava sentada no canapé vermelho fingindo não o ver. Tinha ainda o recém nascido no colo, embalando-o com uma canção de ninar. Miguel estava já mais calmo, naquele movimento ritmado. Alexandre aproximou-se, poisando a mão, grande e brava, no sofá, incapaz de tocá-la.

– Tu ainda não me perdoaste o que fiz, pois não? Tinha que ser feito, minha querida. Acredita que eu não estou a ficar mais novo, se isso te serve de consolo. E esta era a minha última oportunidade de prolongar-me eternamente pela história e perpetuar-me no tempo. O meu nome nunca surgiria na lista de reprodutores do Império, tal como o teu…lembrei-me apenas de conduzir as coisas a meu favor. Usei uma reprodutora das listas do Império, a que vivia mais perto. Ofereci-lhe segurança, e uma vida confortável.

Lúcia interrompeu-o com uma impetuosidade que brotava da sua imensa mágoa e frustração, consumida pelo peso de uma vivência de desamor.

– …tal como fizeste comigo. Promessas que não pudeste cumprir. Usas-nos como objetos a que depois não sabes que fim dar. Vais fazer o mesmo com o Miguel?

Alexandre sentou-se no lugar deixado vago pela mulher. Lúcia procurou-o de esguelha, apertou mais o pequeno contra o peito. Alexandre olhou-o, orgulhoso da sua obra.

– Irá crescer grande e bonito o nosso filho. Ele é um verdadeiro Almeida de Albuquerque! A minha continuidade, de biótipo perfeito! Sem falhas! Nascido para liderar o Império, como senhor da Aliança. – Proferia enlevado.

– Terei que arranjar uma cuidadora que trate bem dele! – Continuava Alexandre, em total alienação.

– Eu posso cuidar dele. Há coisas que são intrínsecas a qualquer mulher…embora isso não faça de mim mãe dele… – Respondeu-lhe Lúcia, secamente.

– Sabes que não pode ser criado por nós. São regras do Império.

Clareando a voz, Lúcia perguntou-lhe em desdém.

– …Diz-me Alexandre. Tenho esta questão encravada na garganta. Quem disparou o tiro? – Jogou a pergunta, dura e amarga, do âmago do seu ser. Ficou parada, a olhar Alexandre que a fitava também. Este levou a mão direita ao queixo, pensativo, enquanto passava a outra pelo veludo do canapé, sentindo o seu toque macio de encontro a pele. Depois, como se esperasse todo aquele tempo para o dizer, recuperou fôlego e respondeu, seguro e desafetado:

– … fui eu! – Levantou-se do divã e, sem mais esclarecimentos do seu ato, arranjou o casaco e dirigiu-se a Lúcia que se afastava dele, horrorizada. Parou junto dela que, estupefacta, o olhava com cada vez mais desprezo.

Lúcia tentava vislumbrar-lhe um ponto ténue de remorso que pudesse despontar tímido do seu ser.

Alexandre retirou-lhe o filho dos braços e dirigiu-se à porta. Saiu, tal como entrou, no silêncio conspirado das horas de abandono. Nas minas de Edín, entrou superior, como em todos os outros dias e, como se houvesse tateado em Lúcia todos os seus temores, anunciou espectral que deixassem as cancelas da saída da cidade abertas, sem nenhum guarda perceber a intenção do Governador que se afastava, de sorriso nos lábios. Ela vai querer fugir…

Lúcia aproximou-se de novo do seu velho canapé vermelho, onde há tantos anos atrás, se sentara a sua mãe, Valéria Garza. Retirou do forro uma lata velha de bolachas que abriu com ternura. Com cuidado, como se pegasse em algo frágil demais para partir, retirou umas fotografias descoloridas pelo tempo, e desbotadas nos cantos. Sentou-se. A vida era pesada demais para os olhos a cruzarem levianamente. Pegou num dos pedaços de papel já gastos pelo tempo. Era uma fotografia tirada num belo pôr-do-sol tropical. Nela desenhava-se um homem de expressão bondosa e feliz, de cabelos ruivos pendentes num teimoso desalinho, abraçado a uma mulher, de grandes olhos outonais, que lhe sorria plena, com um bebé nos braços. Lúcia passou com ternura os dedos nas figuras dos pais, a acariciar cada contorno dos seus traços. As lágrimas caíam-lhe como cascatas que pulavam no seu rosto de cera. Continuou a percorrer a imagem como um vício, a alma ardente presa a cada pormenor. Ao lado direito de Spencer Johnson, dois rapazes com uniformes do Colégio Militar sorriam despreocupados, e duas meninas de cabelos ruivos ondulados faziam caretas para a objectiva. Fora a última fotografia que tiraram antes do exílio. Os olhos verdes de Lúcia fecharam-se na dor da lembrança que remoía. Levantou-se e só aí tomou a sua decisão. Nunca mais deixaria Alexandre Albuquerque ter o controlo da sua vida e domar-lhe as decisões. Entre eles, nada mais havia que duas mãos afastadas, num lento desviar de cada dia. O vazio do exterior, por mais que a empalidecesse, não seria suficiente para detê-la nas margens daquele inferno mascarado de vida. Decerto o destino não tinha que lhe ser tão desamigo.

Ouvia o comunicador numa emissão longínqua que lhe falava numa tempestade que matava, ouvia, desinteressada, aquelas vozes que lhe falavam em escravos, em revolta ...

Bebia em tragos largos o brandy que lhe queimava a garganta, deixando-lhe um suave travo a vinho destilado e a baunilha.

Deixou a noite cair, e nela descia-lhe também outro tipo de inquietação que a minava mais do que aquela chuva que caía, lá fora, pela noite que se fazia cada vez mais fria...

Miguel chorava, do outro lado do corredor. Aproximou-se da porta, a mão suspensa no puxador, sem se mexer. Ouvia os gritos agitados do menino que a começavam a afligir, a pouco e pouco. Saiu do quarto e abriu a porta em frente do pequeno corredor, onde se encontrava o pequenito. Lúcia aproximou-se do bebé que a fixava, placidamente, numa segurança ingénua. Nenhuma cuidadora ou gaio se encontrava no quarto. Inclinou-se sob o bercinho de grades do menino. Baixou-se, passando o braço pelas grades, pegando-lhe na mão pequena e frágil. Largou-lhe a mãozinha rechonchuda e virou-lhe costas. O menino chorou, indefeso e abandonado. Lúcia voltou-se de novo para ele, em compaixão.

– Pobrezinho, também tu tens medo da solidão... – Disse-lhe tomando-o nos braços. Na sua mente, o momento em que o retirara, coberto de sangue, dos braços imóveis de Clarisse, naquela fatídica madrugada de ira e tempestade. Sentiu o seu calor de encontro o seu peito. Apertou-o mais de encontro a si, afagando-lhe os cabelos claros. Este olhou-a, oferecendo-lhe um delicioso esgar sorridente.

E de novo aquela tempestade, a tomá-la, silenciosa, doce, docemente...

Desceu em bicos de pés as escadas traseiras da casa, com o pequeno nos braços.

Abriu a porta da rua, descalça, para não fazer barulho. Sentia a terra molhada do solo beliscar-lhe os pés e oscilava de nervos. Os músculos comprimiam-se e fechava as mãos, apertando com força o bebé e todos os seus sopros de força e de esperança. Caminhou algumas horas até chegar às cancelas, que se encontravam abertas. Hesitou. Conhecia o caminho por ela já percorrido, mas perdia-se nas rotas.

Olhava Miguel como se parte do asco e aversão que sentia por Alexandre se passasse também para aquele pequeno ser que a fitava com os seus imensos olhos celestes, agora bem abertos, mesmo que não a conseguissem ver, ainda. O rosto de Alexandre naquele ser, a carne daquela carne num exercício de genética perfeita onde o sangue de Alexandre não cessaria de correr.

Não havia saída. Tinha uma sombra cruel e corrosiva que lhe roubava a vida. Algo que a guardava trancada no fundo do seu trono de olhos cor de mar. Um cansaço, companheiro fiel das horas longas, que não a deixava avançar.

Sentia-se encharcar. Miguel chorava, agitado, nos seus braços. E percebeu ter nos braços, o que seria, para marido e mulher, o mesmo destino e o mesmo fim.

Era tão simples. Pessoas como Alexandre não se anulavam com o brando cunho da morte. Poderia invalidar toda a sua obra, suprimir da sua vida todos os seus feitos, todos os sonhos.

Os olhos baixos no pequeno, pedindo-lhe perdão. Seria fácil demais, subscrever da sua covardia. levar-lhe as mãos ao pescocinho frágil e esguio. Acabar com ele, enquanto expiação de outros sonhos, ali, no breu de uma noite de tempestade. E juntou às dele as suas lágrimas e as suas preces. Fechou os olhos...

Sentiu uma mãozinha apertar-lhe o dedo, num choro cada vez mais ofegante.

Desta vez o perdão saiu, só dela, na vergonha. De novo a tristeza, que a tomava. Talvez o efeito do álcool que enfraquecia, com o frio que a absorvia. Lembrou-se que havia horas que ele não comia.

Voltou a caminhar, para onde? Não sabia. Esperava apenas que os movimentos que obrigava as pernas a impelir a levassem para longe de si e a um outro porto.

Ao seu lado desenhou-se a figura esbelta de um homem que lhe poisou levemente a mão no ombro.

– Não faça isso. Lá fora não existe mais nada. Apenas um deserto ainda maior que esse seu ódio a esta Base. Volte para casa…eu levo-a. Fique descansada que mais ninguém vai ter que saber… – Disse-lhe a voz, impedindo-a de continuar.

Lúcia ouvia aquele som detrás das suas costas e pareceu-lhe um anjo que lhe falava do fundo do seu ser. Daqueles que Valentina lhe contava existirem antes de adormecerem. Olhou-o de lado e vislumbrou-lhe o uniforme azul de Guarda que perdia os traços no negro da noite. Reparou na barba rara e clara que lhe despontava do queixo e nuns olhos indefinidos na noite que a olhavam, impressionados.

Não lhe perguntou porque razão um Guarda a tentava ajudar. Também não falou todo o trajeto em direção a casa e ao limbo que a congelava em si.

Limitou-se a olhar o homem que a guiava com passos certos rumo ao porto que horas antes desprezara. Cansada, deixou-se adormecer ouvindo apenas a voz doce do guarda que seguia caminho.

Engoliu em seco quando sentiu a porta do carro abrir-se e o guarda que lhe retirava docemente o pequeno do colo, ajudando-a a sair.

O guarda passou o pulso pela ranhura e a porta abriu, automaticamente, entrando na casa pela qual sentia tanto horror. Na sala, Alexandre recebia as visitas de algumas das mais importantes figuras do Congresso. Pôde vislumbrar, ao longe a figura conhecida, alta e desengonçada, de Colin Young. Alexandre ria, animado, diante da figura feminina de cabelos cor do sol que o outro apresentara como a cuidadora. Foi quando percebeu as duas presenças que chegavam que a figura do Governador voou, ligeira, até à porta.

– Desculpe, Governador. Não pensei que estivesse por aqui, hoje. Encontrei-a a deambular, perto dos portões da base.

Os olhos de Alexandre oscilavam entre a mulher e o pequeno, que descobriu adormecido nos braços do guarda.

Lúcia passeava-se, cambaleante, pela câmara da entrada.

– Mataste-a! Para mim basta! Mataste a minha família, mataste a Clarisse…tanto, tanto sangue.

Lúcia chorava, e gesticulava, desvairadamente, falando alto, para quem a quisesse ouvir.

– Não me vais apresentar aos teus amigos, meu querido? Que falta de respeito pela tua santa esposa castrada!

As figuras voltavam-se todas para ela. Tinha conseguido. Alexandre experimentava, ao menos, uma pequena espécie de desonra. A raiva tomou-o então, por inteiro.

Sentiu a mão forte do marido agarrar-lhe com força no braço, sendo arrastada até ao quarto.

– Acabou Alexandre! Deixa-me ir embora, por favor!

Mas foi prontamente embaciada pelos gritos de Alexandre que a olhava alarve, gritando como um louco.

– Eu sou rei e senhor do teu destino. Mais ninguém! Puseram-me à prova…e venci! infindáveis vezes, vezes sem conta! Mas acredita, mais ninguém me vai pôr a teste! Muito menos tu! – Praguejava em lengalenga enquanto se agitava de um lado para o outro no quarto. O rosto vermelho de Alexandre denotava toda a cólera até então latente.

– …não sais daqui, nem mesmo para morrer, entendes? Tens comigo uma dívida de sangue. Eu fiz tudo por ti, sua ingrata! Salvei-te a vida, a ti e à tua irmãzinha! É assim que me agradeces? Nunca vais mudar, pois não? Devia ter acabado contigo como acabei com aqueles ratos dos ingleses, uns ratos…são todos uns ratos! – Rugia o Governador. Os lábios cerrados e comprimidos, os belos olhos negros esbugalhados declaravam uma alma fora se si.

– …eu também sou inglesa, Alexandre! Uma Johnson. Se é assim, manda-me depressa para perto do meu pai!

A mão de Alexandre encaminhou-se exaltada e violenta contra a face de Lúcia, incapaz de resistir. A mulher caiu no chão, desamparada. Deixou-se permanecer ali, caída, como se o solo fosse uma breve forma de abrigo. Sentia a têmpora latejar, ritmada com o seu coração.

–Olha para ti! Encharcada, desgrenhada e...bêbada! Não podes descer mais...

O Governador retomou a pose superior e austera, a ele tão típica. Como se nada se tivesse passado, baixou-se e de joelhos no chão, dirigiu-se a Lúcia num tom baixo e aveludado, enquanto lhe limpava com um pano o sangue que escorria.

– Desculpa, minha querida, mas não te posso deixar ir…

O Governador aproximou-se mais, sentando-se a escassos centímetros dela, que se endireitou desconfortável, afastando-se ligeiramente dele. Alexandre procurou-a e poisou a mão bruta na sua perna. Ela sobressaltou-se sentindo os músculos retesar de incómodo. Mesmo sentindo a sua inquietação, Alexandre não retirou a mão, poisada silenciosamente na mulher, comprimindo-lhe a perna, percorrendo-a rudemente até à coxa, subindo abrupta ao seu sexo. Lúcia gemeu de aflição, cruzando as pernas. Alexandre abriu-as violentamente, o rosto ruborizado de cólera.

– És minha mulher! Tens que ser minha, sempre que eu quiser!

Tomou-a à força, jogando-a na cama, enquanto as lágrimas caíam enojadas em Lúcia. Sentia o rosto do marido de encontro a sua face, a barba a roçar-lhe a pele fina e clara, o hálito quente dele de encontro o seu pescoço, a respiração ofegante de Alexandre a queima-la até que um líquido viscoso lhe inundou as coxas. Alexandre deixou-se estar uns segundos em cima da mulher, levantando-se de seguida, com ar vitorioso, arranjando o fato branco transpirado. Saiu, numa irritação sem sentido, batendo a porta.

Lúcia esperou, deitada na cama, que o marido saísse ouvindo os seus passos enérgicos percorrerem o corredor. Mordeu com fúria a almofada, sentindo a raiva arranhar-lhe os sentimentos e revolvê-la em revés, percorrendo-lhe o âmago, a rasgar, a morder toda a sua consciência. A têmpora latejava ainda, e Lúcia tocou-lhe com o dedo, limpando os restos de sangue seco.

Percebeu que a sua única estrada era acabar com a necessidade que a prendia a Alexandre e que o tornava indispensável. Buscava com urgência uma saída para aquele jogo que a prendia num labirinto. Estava cansada de viver amordaçada e de esperar em meios caminhos.

Levantou-se de rompante da cama, sentindo-se suja até aos limites da sua alma que definhava. Dirigiu-se ao chuveiro onde se deixou ficar, sentindo a água submergir-lhe o corpo, inundando-lhe o espírito. Sentia ainda os braços pesados de Alexandre cravados nela. O seu cheiro cada vez mais embebido na sua pele. Revivia todo o asco que nutria por ele, pelos seus modos primários. Pela forma rude com que falava e a tratava, pelo cheiro a suor que o corpo dele exalava e que tanto a agoniava. A água escorria-lhe na pele nua que esfregava com fúria na ânsia de arrancar todos os vestígios daquele homem em si.

O sono impiedoso pesava-lhe nos olhos, sem a deixar adormecer, atrasando-se nas horas. O corpo queixava-se, derreado de se retorcer na cama. Os músculos dilatavam-se e a vida saia-lhe, como num sopro. Vestiu o roupão turquesa que pendia do canapé e olhou-se ao espelho de laca dourada que se encontrava em frente. Reconheceu os traços, repudiou a figura. Os mesmos lábios vermelhos que costumavam gargalhar estavam agora pálidos. Os mesmos olhos claros, dois faróis de vida, turvados com as memórias, despojos remotos, esquecidos nalgum vão. O que fizeram, o que fiz de mim? Quero entender…

Não conseguia adormecer, apesar do cansaço que lhe pesava nos olhos. O medo tinha-a prisioneira numa inércia que mutila e atrofia.

Viu o dia nascer, em mais um início de jornada. Aquela chuva que caía, pesada, mordaz, lá fora, já há semanas. Ouviu no exterior a sirene que anunciava mais um dia de trabalho escravo nas minas. Eram seis e trinta da manhã. Os guardas saíam em mais uma mudança de turno.

Alexandre dirigiu-se ao quarto da mulher na sua ronda diária. Lúcia sentiu os passos do marido no corredor e tremeu, o medo ainda a inundar-lhe os sentidos. Alexandre abriu a porta de rompante e os olhos saltaram de admiração. Lúcia permanecia no quarto, os olhos oscilantes entre a janela e a porta.

– Para onde é que estás a olhar? – Perguntou-lhe implacável.

– Não tinha sono e fiquei a ver o sol nascer. – Respondeu-lhe a mulher, a tremer internamente.

– Estás vestida e a cama está feita…vens de algum lado? – Testava-a, austero.

– Não, passei aqui a noite toda.

– Então estás à espera que saia para ires aonde? – Continuava a espicaça-la.

Lúcia olhou-o, muda e atónita, sem saber o que responder a esse jogo de palavras do marido. Afastou-se em choque da janela e encostou-se à cabeceira da cama. Só então percebeu o porquê das cancelas abertas na noite anterior e agradeceu silenciosamente a mão amiga que a salvara do deserto dos seus dias.

Alexandre resolveu fazer o anúncio que o levara até ela, tão cedo.

– Encontrei uma cuidadora para o Miguel. A partir de hoje, não tens mais nada a ver com ele, minha querida.

Deixou-o sair e deitou-se na cama, a noite não dormida pesava-lhe no corpo extenuado. Mesmo assim, o sono era cruel e teimava em não chegar. Permaneceu deitada, olhando a janela onde o sol percorria a sua rota, erguendo-se cada vez mais alto no exterior. Queria tanto voltar a casa. Voltar a sentir-se forte e inteira. Voltar a sorrir. Voltar às raízes, levantar-se daquele chão. Retroceder a quem era, virar costas e regenerar o ser. Como poderia ela viver presa a uma vida tão ao contrário do que imaginara para si? Nunca se tinha imaginado propriedade de alguém, agora, tomava consciência deste facto. A sua vida era apenas um objeto de deleite nas mãos de alguém que a jogava por prazer, como a um troféu.

Ao longe, no corredor, ouvia o choro abafado de Miguel. Desculpa não me sentir tua mãe…

O dia já ia alto quando adormeceu, exausta, finalmente perdida em si. Procurou os sonhos como único e incomparável amparo da alma aviltada. O rosto do pai assomou-lhe à mente, sensato e complacente. "Nada está perdido", dissera, antes de morrer. Enquanto o ânimo existe, o coração denega a morte…

*****

E, tal como previra, o tumulto da dúvida que se agitava em si não se compararia à infindável desordem que lhe revolvia as entranhas. Via tudo passar-se, distante, a sua vida era o filme a que assistia.

No heliporto, o carro preto e, ao seu lado, um homem alto e curvo, esperava-a, paciente.

– Boa tarde, Nataliya. Sou Colin Young, membro da comissão da Base. Bem-vinda a Édin.

Sentiu a mão ser agitada num cumprimento vigoroso. A porta do carro abriu-se, diante dos seus olhos. Entrou, quase imediatamente. A humidade daquela terra, a tormenta que se abatia, aumentando o cheiro a bafio, eram-lhe praticamente intoleráveis. Agradeceu as janelas fechadas e o ar condicionado da viatura, proporcionando-lhe escassos minutos de conforto. O carro galgava, mecânico, a estrada, milhas de um cinzento triste, alongando-se, até longe,onde os olhos se perdiam no verde intenso do planalto.

A casa era igual a tantas outras do bairro. O telhados cinzentos de encontro o cal branco das paredes.

Aquela dor que a remoía, recordando-lhe a distância das raízes, por mais que as semanas se multiplicassem em incontáveis dias de chuva.

Recebeu o pequeno. Sentir aquele corpinho miúdo, o seu cheiro característico, sabê-lo totalmente dependente dos seus cuidados, dos seus braços, era a única coisa boa na tarefa de cuidadora.

Lembrou-se de Lera. De como um dia, provavelmente o seu passado se tornaria árduo demais para carregá-lo.

Lembrou-se de Ilya, de como os seus caminhos teimosamente se afastavam. Talvez o seu mundo tivesse ficado nas rotas distantes de outro continente e começasse, ali, uma nova vida, nas curvas sinuosas das estradas de Belize.

Ouviu os passos exaltados que aprendera a associar a apenas uma figura. Ouviu os bramidos graves, no quarto ao fundo do corredor. Anunciavam-na, pela sua função, a alguém talvez tão assustado quanto ela. E de repente, não era mais do que um nome mantido mudo,remoto, num qualquer vão secreto de uma ideia. Percebeu porque, realmente, os homens se reduziam, muitas vezes, ao que faziam.

Questionava-se como o seu mundo pôde rematar-se e consertar-se todo ali, naquele corpo bambo, nos movimentos descoordenados de um bebé, que quase sempre lhe sorria, satisfeito, alheio ao mundo que corria, naquela Base, lá fora, alheio à sua própria história.

Ouviu a porta do quarto fechar-se e esses mesmos passos eufóricos aproximarem-se da sua divisão.

Só teve tempo de sentir-se apertada por aquela mão seca, forte. O antebraço tomado por uma dor que aumentava à medida que ele o torcia, mais e mais.

– Nunca mais deixe o meu filho sozinho! A sua sorte, é que nada de grave lhe chegou a acontecer. Peço-lhe, calmamente, que me tenha ouvido. Para a próxima não serei tão brando com os seus membros. E, só para que saiba, a minha palavra, em 46 anos de vida, nunca voltou atrás!

Deixou-o sair para então sentar-se na pequena cama metálica ao lado do berço, afagando o braço, que ardia. E pela primeira vez aqueles modos abruptos tinham um cheiro conhecido, alguém a quem recordar, nas milhas de distância.

O choro de Miguel ecoava, abafado, pelo corredor…

*****

Foram escassos os indultos do sono.

Miguel ainda chorava, quando sentiu uma nova mão assomar à porta.

– Vim ver se precisava de alguma coisa… – Perguntou-lhe uma voz doce e serena, que lhe falava, numa quietude que a conseguiu sossegar.

Lúcia levantou a cabeça, e reconheceu a silhueta do Guarda que a ajudara horas antes. Ele olhava-a, da porta do quarto, de sorriso brando no rosto.

Não lhe respondeu. Deixou apenas que os olhos se mantivessem ali, naquele belo sorriso que despontava naquele olhar melífluo iluminado.

Sentiu-o levar uma chave à porta, notando o seu rosto baixar.

– Desculpe. Mas vou ter que o fazer. Vou fecha-la, para seu bem, desde o que que aconteceu ontem. São ordens. Durma bem, minha senhora… – o som penetrou-lhe nas entranhas antes de ouvir bater a porta e adormecer, aos primeiros raios de sol.

Compreendeu que arranjar forças era a única arma que lhe faltava para lutar.

Percebeu que preferia a guerra das horas, os arrepios da solidão, àquela inação que a secava numa vida sem sentido. Não sabia de onde vinha essa força que descobria, mas persistiria nessas rotas que maltratam, até achar a sua estrada.

As suas raízes lutadoras esvaíam o último sopro de memória, lento e certeiro, arrancando-lhe as fundações impiedosas lhe pesavam e tolhiam a alma, levando-lhe a vontade. E enquanto as de Alexandre o prendiam, subjugado a si, as dela acenavam-lhe um novo amanhecer.

Notas finais
E aí? Gostaram? 👍 Mereço nem que seja mais um comentário, queridos? Não sabem a alegria que me davam chegar aqui e ver que tinha mais uma critica!!! Fico tão triste, quando não tenho...parece que a nossa obra não presta, mesmo. E então, vão fazer esta almina feliz? Bem, hasta la vista, babies. 💋💋💋 Beijo nos vossos corações ✨✨✨