Notas iniciais
Minha gente, demorei, mas cá estou. Peço um pouco de atenção, calma e carinho comigo. Estou recuperando do maior golpe da minha vida, perder a pessoa mais importante que tinha. Tenho tentado fazer a vida continuar, apesar de difícil. Finalmente consegui ter forças para postar mais um capítulo. Gostem, não gostem, esta história vai continuar. Devo-lhe isso. Espero que entendam a necessidade de um carinho virtual redobrado... Boas leituras, agora vão ficar mais regulares...

Tenho falado de grandes mudanças. Das que transformam, irreversivelmente, toda a índole. Tenhome debruçado sobre os acontecimentos que pautaram outros rumos. Mas esta jornada já tinha começado muito antes da tempestade, nas linhas que cruzavam tempos de todos e nenhum.

— ...desta história, a que diz ser “a mais bela história que jamais se ouviu”, continuo sem causas para a sua remissão...

A voz interrompeu, calmamente, reatando o discurso cuidadosamente delineado.

— Não busco absolvição...

Os vítreos olhos negros estagnaram, surpreendidos com a insolência. Fixaram-se, arrebatados, naqueles modos irreverentes, nos trejeitos doces no rosto pálido, estranhamente belo, que se iluminava, impassível.

Questionou como sustentaria aquele jeito ameno, mas seguro, resiliente.

Então a voz voltou no tempo e falou-lhe das pequenas mudanças que se infiltram, irreversíveis. Oscilações miúdas que forjam, encobertas, pacientes, grandes decisões.

Mas na sombra enigmática do breu daqueles olhos a mesma dúvida de acirrava, num crescendo feroz.

— Porque não busca regenerar-se dos seus feitos?

Porque esses factos não me pertencem...

O tom suave da frase incógnita refutou cada palavra da questão. Era-lhe um ser tão desconhecido quanto eram obscuras as suas intenções.

Aqueles tinham sido os dias da ira. Entre a mágoa e o rancor, todos precisamos de perdão...

Quantas vezes o perdão vem na forma de mudança?

Base de Edín

Dezembro 2012

Maria Lúcia abdicou do seu rumo quando aos 13 anos se cruzou com Alexandre Albuquerque. Renunciou-o sem saber, numa irreflexão confiada, própria de querer viver. Até então, sabia apenas carregar um apelido forte demais para sustentar.

Quando se passeava pelas ruas de Belmopan com os pais e irmãos, com o mesmo à vontade com que corria nos jardins da Casa Lúmina, a mansão do Governador, pelas suas diversas ruas com nomes de flores, reconhecia os olhares estranhos que lhes lançavam de soslaio e a raiva contida, timbrada na dúvida.

Os "mestiços das cabeças vermelhas", como designavam pelas costas os filhos de Johnson, eram tidos naquele recanto da América Central como seres invulgarmente estranhos, principalmente desde que o dom de Valentina se começou a manifestar.

Detestavam os ingleses que desde o século XVII lhes consumiam os recursos e roubavam a identidade, usurpando-lhes as terras, fazendo deles escravos. Abominavam a língua daquele povo frio da Europa do Norte e os seus modos brandos e polidos.

Quando viu pela primeira vez Alexandre, Lúcia sentiu segurança naquele homem nos seus 20 anos. Ele não estranhara a coloração clara da sua pele em contraste com a tez morena e os cabelos cor de ébano da população local. Não os tratava com o desdém característico, nem olhava para eles como intrusos desconformes. Via nela, nos irmãos, e até na dominação serena do Governador estrangeiro, seres humanos normais a quem dispensou a sua atenção e afeto.

E ela pensou encontrar naquele homem de riso fácil e olhar meigo e profundo alguém com quem partilhar todas as suas brincadeiras e desabafos de adolescente. Naqueles tempos, os olhos pretos de Alexandre poisavam nos verdes, sorvendo todas as suas palavras, serenando-lhe os anseios. Tinha sempre uma palavra em tom de graça que a fazia sorrir. Nesses momentos, Lúcia esquecia o peso das suas origens. Sentia-se solta quando as gargalhadas dos dois se fundiam num riso só. Era feliz. Sorriu sorrateira por Alexandre quando a UDP de Manuel Esquível conquistou o país. Agarrou-lhe as mãos secas e firmes quando entrou no carro que a levou ao exílio. E foram essas mesmas mãos que lhe secaram as lágrimas, foram os seus braços ternos que a ampararam, quando em 94 lhe entraram pela casa e confiscaram o ser, matando-lhe a família e arrancando-lhe a alma. Fora ele quem estivera sempre presente em todos os momentos dela, numa ternura constante e inalterável. E Lúcia entregou-se àquele homem bastião de fortaleza, seu porto de confiança e proteção. Mesmo sem vislumbrar ainda o que se escondia por detrás daquela brandura. Vinte anos depois, com as máscaras caídas na corrosão de todos os dias, percebeu ser esse mesmo passado, fonte anterior de tantos sorrisos, que lhe extorquira a consciência e toda a razão de ser. O seu ódio irrompeu, natural, de um amor engendrado, que nada mais tinha a oferecer. Hoje, era essa mesma presença impresente de Alexandre que a anulava e que era urgente afastar. Maria Lúcia Garza Johnson, não seria mais Meireles Almeida de Albuquerque. Voltaria a ter nas mãos o seu passado forte. Para ela, que não podia retornar à sua antiga estrada, era urgente mudar.

*****

A tarde começava a surgir nos céus cinzentos de Edín. O homem percorreu, sereno, os largos corredores do piso térreo dos escritórios da Base até se encontrar diante de uma grande porta dupla de madeira. Passou o código de barras no leitor e a porta abriu-se, automaticamente. No interior, o riso sonoro das três presenças, cessou, instantaneamente. O Governador, que não ocupava o lugar habitual na sua secretária, indicou-lhe onde sentar.

– Capitão da Guarda, estes são os membros da Intervenção, a primeira comissão organizada de Edín. — O Guarda voltou-se para as duas presenças que ainda desconhecia, um homem baixo, de cabelo raro, e outro alto, nariz adunco, ar reservado e mirrado, que o saudaram, num aceno formal de cabeça.

César Gallardo, Colin Young. — Mas não revele a alguém estes nomes, ou terá que pagar com a própria vida. Estávamos aqui entretidos a discutir a melhoria das condições de emprego dos nossos funcionários. — A risada alarve de Alexandre ecoou durante largos segundos na sala, até que se levantou, dirigindo-se à porta, indicando-lhes a saída.

— Esta conversa será só minha e do Capitão, a partir de agora.

O Guarda levantou-se, aproveitando para arranjar a farda encorrilhada. Alexandre fez o seu habitual percurso da porta à janela, vendo os membros da comissão, seus amigos de longa data, afastarem-se, escoltados pelo seu fiel e cabisbaixo conselheiro, Willoughby sem nome.

Era um vício de rotina, certificar-se, na segurança dos seus aposentos, que os outros cumpriam as suas ordens. Só então iniciou o tão ansiado questionário.

— Como está ela?

— Fechada.

O Governador entendeu o tom seco da resposta. Caminhou, lentamente, para a sua poltrona de pele. Sentou-se, pigarreou, sem nunca desviar o olhar do seu interlocutor.

Era um homem de estatura mediana, corpulento, de modos abstratos e alienados, incomuns para aquele mundo, e que tanto confundiam o Governador.

— Ora, ora. Está cá há menos de um mês e já usa da ironia. Veja só se esta Base não faz bem a tanta gente!

Foi a vez dos olhos cor de mel escaparem para o exterior da janela.

— Ironia? Estava apenas a relatar que a sua companhia é uma pessoa fechada. Que, dado o acaso, vive fechada...também.

Não pôde deixar de notar que a figura do Governador se remexia, um pouco mais, na sua poltrona confortável.

— Esposa! — Retorquiu, agitado. — E a minha esposa está presa para segurança dela. Confio em si, para que a mantenha debaixo de olho. — Pela primeira vez, mantinha o olhar preso ao chão. — Confesso, falhei, sabe? Não sei chegar a ela, nunca soube a razão, mas não sei, nunca soube chegar a ela…

O olhar de Alexandre aumentou a intensidade, e aquele trejeito violento, aceso de mágoa, orgulho e rancor voltou-se também para a janela. — ...e depois, esta chuva que não passa... quase um mês! Mas, não foi só para este tema, nem para conversa fiada, que o chamei. Quero ir consigo à depuração.

— Não é um espectáculo bom de ver…

— Está muito enganado a meu respeito, Capitão. Não sou nenhuma flor de cheiro. Já passei por muito mais nesta vida, passei por coisas que nunca se lembraria sequer de imaginar, pesadelos e tormentas que faço questão de não esquecer. Tenho pena que sejam coisas que ninguém nesta geração, mesmo nestes tempos, vá voltar a viver. Além disso, não foi um pedido, muito menos um desejo.

O Guarda encolheu os ombros. Como lhe era distante e invulgar a raça do Governador. Como lhe era difícil perceber o recurso à crueldade como único meio de obtenção de uma dose diária de adrenalina. Viu-o abrir a porta e sair, em passos pesados e rápidos, à sua frente. Esforçou um movimento de pernas, obrigando-se a acompanha-lo. Atravessaram em silêncio os longos corredores de mármore até ao exterior do edifício de escritórios da Base.

Alexandre apertou mais o sobretudo, protegendo-se do temporal que se abatia. Mesmo assim, o Guarda não se admirou quando o ouviu dispensar o carro que os levaria ao edifício da prisão.

— Se não se importa, prefiro caminhar.

Acenou-lhe positivamente e, mais uma vez, limitou-se a acompanhar a turbulenta caminhada do Governador. Deixaram para trás as enormes cancelas que guardavam a cidade da Base e dirigiram-se às minas, enquanto os guarda-chuvas cediam ao vento e os rostos iam ficando cada vez mais encharcados, mantendo ainda o mesmo silêncio reverente. Algo que o Capitão conseguia admirar naquela homem arrebatado de instintos imprevisíveis era a sua forma austera de lealdade. Aos seus traços, às suas convicções. Como uma ratificação constante e implícita do seu chão. Como caminhar quilómetros debaixo de chuva, apenas para desacreditar tudo aquilo que consolidara, antes da tempestade.

Era, de facto, um homem paradoxalmente atraente. Reconhece-lo assim, na confissão segura e expressa que proclamava, era algo que nem a segunda figura mais importante da base estaria disposta a admitir. De olhos retirados dos passos do outro, o Capitão pôde, finalmente, prosseguir.

As minas eram um local húmido, dominado pelo cheiro a bafio e a terra molhada. Muito distinto dos ambientes climatizados da zona citadina do núcleo de Edín. Mas o bloco de entrada era admirável. Esculpidas diretamente na pedra, as escuras paredes rochosas lapidadas contrastavam com o alvo e imaculado chão marmóreo.

Os guardas da receção receberam o Governador solenemente, indicando-lhe de forma imediata uma cabine para secar a roupa encharcada.

O Governador lançou os olhos para a grande janela de vidro que descortinava o trabalho escravo, nos níveis inferiores. Partículas de esforço fermentavam nas peles quentes e exaustas, confundindo-se, desordenadamente com a água de fora, do exterior longínquo, com os pingos gélidos e incomodativos que lhe desciam dos cabelos escuros, intrincados noutros fluxos mais cálidos, circundando-lhe o rosto, de enxurrada.

O tom inusitado e remoto, que o lembrava do frio, das roupas que envergava…

Não posso mais...”

A frase conhecida reverberada internamente, levada à insipiência, repetida tantas, quantas fossem necessárias as vezes. Até que dela sobrasse mais nada do que o insentido com que quereria brindar aquele lento desespero que o agonizava. — Porquê que há tão poucos escravos a fazerem o trabalho de muitos?

O Capitão da guarda aproximou-se do Governador. — Como lhe disse, senhor, hoje é dia de depuração e ainda não chegaram todos os escravos de substituição. — a resposta procurou, com calma, romper a densa névoa asfixiante da pergunta levantada pelo seu superior. — Como tem sido informado, temos registado grandes baixas, dado que, para além dos agentes tóxicos a que estão sujeitos, os escravos convivem ainda com o inibidor biográfico…

Voltando-se pela primeira vez para o Capitão, desde que entrara, Alexandre mostrava dúvida e mágoa no rosto. — Então, estamos a envenená-los, para além de lhes lixarmos a memória…

— Sim. — A resposta saiu fleumática, monocórdica e impassível da boca do seu acompanhante.

— Isto tem que mudar, temos mesmo que mudar…- notou apenas a cabeça do grande Governador balançar, dirigindo-se finalmente à cabine, para se secar.

Foi quando reparou. Aquele olhar vago e perdido no corpo que cirandava sem rumo pelo átrio do edifício em frente, o da prisão, nos mesmos modos desvairados e feridos.

Foi como se uma força motriz que não sabia controlar o impelisse até ao outro lado, numa velocidade que nunca tinha precisado usar. As mãos apertaram-lhe o braço, fazendo o corpo até então voltado virar-se para si. E então tinha-a nos braços, com aquele sorriso vertiginoso nos olhos de mar.

— Estava mesmo à sua procura…

— Como é que? O que é que…? Sabe perfeitamente que não pode estar aqui…

— A sua farda...está a molhar-me! — Aquele sopro insano de demência que o interrompia, regendo-lhe o sorriso.

– Não está a perceber, pois não? Isto pode custar-me o meu cargo...se a descobrem.

As mãos afastavam a manga do casaco que a molhava.

O Governador que regressava da cabine e os gesticular dos guardas das Minas, pedindo-lhe que aguardasse.

— Vá, vou tira-la da vista pública, espero que coopere comigo, e que obedeça. Não posso incumbir mais ninguém de retira-la daqui.

— Venho apresentar uma denúncia contra o Governador.

Os olhos dos outros guardas levantaram-se do balcão do nível de admissão da prisão da base de Edín, focando-se todos nas palavras proferidas pela mulher desconhecida. Os do Capitão abriram-se, pupilas assustadas, aquele misto de inconsciência e frio tomando conta de si. Tomou-lhe novamente o braço encaminhando-a até a sua sala particular. O sorriso completamente extinto no semblante morto.

— Então...é isso que quer fazer?

Nenhuma palavra, escrita ou proferida, se assemelhava à narrativa que acabara de assentar. E também nele algo desconhecido lhe assomava. Um reboliço que lhe perturbava a consciência e lhe punha o peito em alerta. Percebia, enfim, o medo que chegava, que o inquietava. Desejou não estar sujeito a ordens, poder ser outra a missão que lhe tinha sido confiada. E, outra vez, de novo, algo em si mudava. A dúvida que o menosprezava. Não gostava de sentir-se subjugado. Engoliu em seco, calmamente, como se também ele estivesse sob o efeito do inibidor de memória.

Jogos de imitação, do faz de conta, de adivinhas, de fugas. Jogos demais. Seria a vida ali apenas uma reincidência progressiva e permanente do presente? Até que os corpos se cansassem e os ânimos se revoltassem contra repetições…

Mesmo assim, nesta partida, todos tinham cumprido as suas funções, tal como todos tinham já, previamente, ocupado as suas posições. E o lance estava feito.

*****

Um armário de viga branca como esconderijo, uns olhos verdes pálidos que a procuravam dispersos, um barco navegante num mar tormentoso e uma menina fraca e extenuada que não parava de chorar.

Acordou derreada, com um suor frio que a encharcava até ao peito, colando-lhe à testa os cabelos vermelhos desalinhados. Despiu a camisola cinzenta e arranjou a pulseira negra no pulso, para esconder a tatuagem de códigos. Era já era tarde. Olhou para a farda cuidadosamente pendurada na porta do quarto e suspirou. Levantou-se repentinamente, vestiu o primeiro agasalho e saiu. Dirigiu o seu carro até às cancelas que anunciavam a fronteira da cidade e estacionou junto da velha casinha que deixara horas antes. A mesma música clássica de saudação, o mesmo mobiliário, mas na mesa, apenas uns sacos de comida vazios e uma fotografia antiga, com umas palavras de despedida, em jeito de recado. Entrou no edifício do escritórios da base e percorreu os seus corredores, desta vez não tão certa e maquinal. Os olhos fechados, as palavras de rejeição ainda sonoras no pensamento.

Não vou prender a tua vida...”

— Observadora, signora, senhora…

Ouviu a jovem figura italiana que corria enlevada, atrás de si, tentando acompanhar os seus passos apressados.

...tenho que pensar nela, não em ti.” “...sigo o meu rumo.”

Já regressou da sua viagem?…não estou ao serviço a esta hora, lacaia.

Foi ao chegar ao patamar do nível do Governador que o viu, os olhos esverdeados postos no chão, apercebendo-se dos dela. Seria possível o peito apertar-se ainda mais por um minuto de paz?

— O que estás aqui a fazer?

Aquela presença familiarmente incómoda, o cheiro sordidamente conhecido, revolvido.

— ...eu fico.

O corpo que se afastava, concluído. Duas palavras, atropelando-lhe os sentidos.

Não bateu à porta nem esperou por permissão. Entrou de improviso no escritório do Governador, que, permanecia sentado no seu sofá de veludo azul, mesmo àquela hora.

— Vejo que ambos consideramos dormir um desperdício de tempo, temos algo mais em comum… — ironizou, poisando no sofá o livro que lia, levantando-se para cumprimentar a figura que se aproximava dele, intempestivamente.

— Posso saber que merda é esta? O que fazia ele aqui?

O sorriso meigo do Governador de Abzu só se adensou ao sentir os dedos finos da mão dela marcarem-no sonoramente.

— Pensa que pode brincar comigo? Já não chega, governador?

— Temos um novo físico, que apenas aceitou a minha proposta! — A mão de relance na vermelhidão que sentiu formar-se no seu rosto que ardia. — Ele tem que ficar. Desculpe, observadora, não há outra maneira.

A maçaneta da porta rodava em silêncio, vencida. Tudo caía assim, aos seus pés, tão inútil, desperdiçado. Esforço, dedicação, abdicação, estória...

Desnecessário, nulo, banal

A adolescente que a esperava, no patamar, com uma lealdade canina.

— Promitente observadora, agora não, por favor...

Sofreguidão...vida...palavras...sopro...palavras. Frívolas, inconsistentes...

— Osservatore, por favor, prego… escute-me!

Levou os dedos às mexas ruivas onduladas e suspirou, outra vez vencida. — Diga lá de uma vez, criatura, o que quer, o que é que se passa?

— Um registo audiovisivo de Edín, minha senhora. Ao seu encargo, para que o analise e reporte ao cancelliere...

Pegou na gravação e dirigiu-se à sua sala.

Eu Maria Lúcia Garza Johnson venho reportar que fui trazida para esta base de Edín à revelia do império. Fui esterilizada e mantida em cativeiro, dado que é proibida a presença de uma mulher nos Paços do Governador. Venho ainda acrescentar que, nos idos de Fevereiro, o Governador de Edín, forjou a identidade de um membro da intervenção, Colin Young, para poder ter contacto com uma reprodutora do império, Clarisse Bruun, por ele morta, após o parto. Mais relato que a criança é mantida em cativeiro, tal como eu, nos seus aposentos de Governador, afastada do mundo, à responsabilidade de uma cuidadora. Dizem entre dentes que o próprio Chanceler terá conhecimento deste absurdo. Peço-lhe, como cargo de avaliadora, que tome posição quanto a esta situação e que restabeleça a ordem natural do Império. Para qualquer outro esclarecimento adicional, encontro-me ao dispôr.”

O coração que arranhava novamente a garganta num apelo de gerações... E ela era as próprias palavras que soavam ocas, gastas, vãs, no nome que distinguia, na voz que tremia.

— Chame-me o Chanceler...

*****

— O Capitão não chega, eu vou tratar do que me compete, ajudar estes pobres diabos.

Alexandre Albuquerque dirigia-se ao piso inferior das Minas com passos pesados que ecoavam no frio corredor de pedra. Ao chegar ao piso de extração, passou apressado o pulso pelo leitor de códigos, vendo, desconcertado, a luz avermelhada no visor não mudar para verde.

Anteviu a aproximação indesejada do seu conselheiro, o submisso Zeph Willoughby. esperando para o abordar. Por momentos, Alexandre não respondeu. Gostava de sentir aquela superioridade latente, implícita nos pequenos actos.

— Willoughby, fala, homem. Não sei do que estás à espera. Também me vais pedir licença para morrer? – Indagou, sarcástico, o Governador.

O conselheiro de olhos baixos no chão, fugiu do olhar do Governador. Estendeu-lhe o braço dobrado e magro, passando-lhe um pequeno chip que o Governador introduziu numa ranhura da pulseira, colocada no pulso esquerdo. À sua frente desenharam-se, projectados verticalmente no centro da carpete cinzenta, uns envelopes com o respectivo remetente. Alexandre passava os olhos pelas imagens numa leveza sossegada, até que se deteve numa, com o sinete do Chanceler. Apontou com o indicador para a imagem que se abriu, aparecendo o holograma, claro e refulgente, do homem baixo e gordo de cabelo grisalho e oleoso, em três dimensões diante de si. A voz do chanceler, formal e rouca, retumbou decisiva, ao Governador.

Ao Governador de Edín, superintendente do terceiro entreposto comercial do Império.

(latitude 17º25 N, longitude 88º40 O).

Está incriminado de Alto Dolo contra o Venerável Império da Aliança, pelo uso indevido dos instrumentos do Império, servindo-se da soberania a si concedida para sua inerente beneficiação. Por ser verdade, e me ter sido conferida autoridade, submeter-se-á a juízo sumário, perante a mais insigne figura do Império no Sumo Auditório de Jurisdição do Senado.

Junto envio relatório datado

Atenciosamente, O representante do Domínio do Império,

O Chanceler.

— Eu quero saber…quem foi o miserável. Quem me fez isto, Zeph? Quem é que poderia saber? – Inquiria rude o Governador, agarrando agressivo o conselheiro pelo braço que apertava, até o marcar de uma tonalidade avermelhada, fazendo-o guinchar de dor.

— …por favor, senhor, eu não sei. – Implorava de voz oscilante, Willoughby, retorcendo-se num trejeito de dor.

Alexandre retirou a mão que prendia rudemente o braço do outro. As palavras de Valentina, no seu antigo escritório de Belize, ainda Barão, vestiam-se do sentido que lhes faltara, anos antes.

“…talvez perceba a dor de ver desmoronar tudo o que construiu. Até que de si e da sua obra sobrará apenas a ideia do homem recto que arriscou ser”

— Eu não vou perder toda a minha obra! — Fixou hostil o conselheiro que o seguiu para o exterior das Minas. Na rua, a chuva caía dura e condensada, e começara a trovejar. O carro do Governador esperava-o, mesmo em frente a eles, mas Alexandre preferiu caminhar. Zeph seguiu-o, no interior do carro que percorria as ruas enlameadas a baixa velocidade, até ao seu gabinete. Alexandre olhou a chuva que o fustigava numa irritação incontrolada, atirando-se contra as portadas, que fechou violentamente. Estas ribombaram no silêncio, mergulhando na escuridão total, como as trevas que se abatiam sobre o Governador., enquanto Alexandre se encaminhava para as escadas, descendo-as, desanimado, ladeando o patrão seguia Zeph, até se aproximarem das cancelas que davam inicio à cidade. A chuva caia, pela segunda vez, por Alexandre, escorrendo-lhe dos cabelos espessos até ao rosto, toldando-lhe a visão. O Governador dirigiu-se ao secretário, pedindo-lhe que voltasse ao escritório e apagasse dos seus arquivos pessoais, todos os registos de Miguel. Zeph acenou respeitosamente e seguiu caminho, deixando para trás o Governador, que percorreu sozinho o resto do caminho até à Casa que lhe coubera, como Administrador da Aliança. Lá dentro, esperava-o Maria Lúcia Albuquerque, cujo apelido a tolhia mais do que pesava, definhado no âmago do seu ódio entranhado a Alexandre.

Estava na sala, sentada calmamente nos sofás, vendo a figura abatida do marido aproximar-se, de fato branco encharcado. Alexandre arrastou-se até ao assento da mulher, e sentou-se aos seus pés, poisando suavemente a cabeça no seu colo. Lúcia estremeceu de repulsa, examinando o cabelo molhado do marido que ainda pingava.

— Devias ir secar-te, Alexandre. – Disse-lhe apenas, secamente.

O marido não lhe respondeu ouvindo no exterior o som dos relâmpagos que cortavam o céu, negro de breu. Aproximou mais a cabeça de Lúcia, abraçando-se à sua cintura, apertando-a contra si.

— Tu tinhas medo dos relâmpagos e costumavas pedir-me para te abraçar, lembras-te? – Perguntou-lhe, num tom afectuoso.

Lúcia retirou-lhe de um golpe seco a cabeça do colo e levantou-se, fitando o marido, ainda sentado no chão, encostado ao sofá.

— Isso foi antes… – Respondeu, deixando-o preso num silêncio que lhe aumentou o aperto no peito.

E a célebre dúvida reverberava novamente nos lábios agitados do homem, sob as mesmas e inusitadas vestes já gastas.

— O que é que nos aconteceu? – Indagou Alexandre, levantando os olhos mínimos, reduzidos em toda a sua dor, numa expressão lancinante. Lúcia permaneceu de pé, desviando o olhar do corpo curvado de Alexandre, sentado no chão.

— Que conversa é esta, o que se passa, Alexandre? – Questionou-o, incrédula.

Alexandre levantou-se, dirigindo-se ao piso superior. Lúcia seguiu-o, subindo atrás dele as escadas.

— Vou ser julgado! …por causa do Miguel! Eu nunca o devia ter feito… – Falava-lhe, olhando o chão. – Eles não podiam ter descoberto isto. Sou um homem morto.

Lúcia olhou-o transtornada e aproximou-se da cama, sem se sentar. Alexandre levantou a cabeça e examinou o rosto claro da mulher. Nem dor, nem tristeza, nem amor. Lúcia nada mostrava, num rosto fechado àquela estranha lente.

Alexandre levantou-se disparado da cama e agarrou o braço da mulher, puxando-a até ao outro lado do corredor. Entrou no quarto de Miguel, visivelmente perturbado. A cuidadora fitava o amo, com o menino ao colo, perplexa com as duas presenças naquela divisão. O cabelo cor de sol que rareava e os olhos verdes aveludados, que oscilavam atónitos entre o Governador e a mulher que este agarrava pelo braço.

Alexandre aproximou-se dela e acariciou pela primeira vez os cabelos claros do pequeno. Depois, largou o braço de Lúcia, atirando-a contra a parede. Retirou do cinto uma pequena arma que lhes apontou, de olhos arregalados. Na cuidadora, com o seu filho nos braços, e na mulher que o fitava, sem nada dizer. Alexandre fazia pontaria à testa do pequeno, que palrava, inocente. Os olhos de Lúcia embaciaram-se pelas lágrimas que lhe afloravam nos olhos, vendo apenas a figura imprecisa do marido, de arma apontada ao filho.

— …Tu és louco, vais matar-nos e ao teu próprio filho? – Indagava, de voz trémula, saída do fundo de si.

— Não há alternativa …– Respondeu-lhe Alexandre, fixo no pequeno. – … e mesmo assim, não consigo… – Chorava profundo Alexandre, caindo de joelhos no chão do quarto.

Alexandre vislumbrou pelo canto do olho o Guarda que se aproximava atrás dele. Retirava um pequeno bastão, semelhante a uma lanterna. Este disparou uns feixes magnéticos que prenderam os braços de Alexandre. O Guarda afastou-se com o Governador, soturno e cabisbaixo. O silêncio apossou-se do corredor onde só os pingos compactos da chuva dispersados nos passos pesados de Alexandre se faziam ouvir.

Lúcia olhou pela janela e viu com prazer o carro preto parar em frente à casa. Viu Alexandre entrar nele, com o Guarda que o seguia. Saiu do quarto, onde a cuidadora segurava, trémula, Miguel, sentada na cama. Dirigiu-se ao seu quarto onde se sentou no chão. Encostou as pernas contra o peito, apertando-as com os braços e deitou a testa, fechando os olhos que se encheram de lágrimas expelidas de uma alma em dor. Ouviu, no corredor, uns passos acelerados, que antecipavam uma presença já conhecida ali.

O guarda olhava-a com um sorriso brando que a percebia, num aconchego cúmplice.

Com a voz baça e coração perdido, Lúcia gaguejava com os olhos verdes de jade cintilantes, de lágrimas, dissolvidas na fina luz prateada do luar que iluminava o quarto.

— Sou uma cobarde, não lhe cheguei a dizer que fui eu… que o denunciei…quando fui às minas…– Deitou para fora, como se se livrasse de um mal-estar opressivo que a murchava, pesado em si.

O homem olhava a figura esbelta da mulher, arqueada e abatida e dirigiu-se a ela. Sentou-se no chão ao seu lado, puxou-a para si, abraçando-a, sentindo na face os seus cabelos macios e avermelhados, com um leve odor floral. Tomou-a meigamente nos seus braços fortes enquanto soluçava.

— O seu marido era um bom Governador, tencionava implementar várias mudanças. Vai fazer falta.

Ele matou-me… Deixou-me sem vida, sem rumo, sem casa… o que esperava que eu fizesse?

O Guarda deitou-lhe a cabeça no seu peito, envolvendo-a num amparo aconchegante.

— …não pense mais nisso.. Quis fazê-lo engolir o próprio veneno que lhe dava a provar, não quis? Agora tudo vai mudar– Respondeu-lhe docemente.

Ela sorriu e pôde finalmente respirar fundo. Deixou-se permanecer sentada, encostando mais um pouco a cabeça no homem, fechou os olhos, deixando-se cercar de um silêncio apaziguador.

Ele olhava no exterior os raios estirarem-se ao luar. Um arrepio fino adensava-se como borboletas no estômago, percorrendo-lhe a espinha, eriçando-o, remoendo-lhe o coração que lhe doía, cavalgante no peito. Tinha nos braços o ser mais perfeito que alguma vez vira, estonteantemente belo, frágil e assustado, magnificamente encantador.

Percebia. Ela ia viver, ou morrer, dedicada a tudo o que não tinha, devota secreta das causas a que nunca se lançaria. A vida um exercício manso de linhas retas.

“Lúcia, Lúcia, porque tens tu tanta luz?”

Notas finais
Gostaram, meus doces? Sim, escrevo palavrão, mesmo. Na vida real também os dizemos, mesmo. ^.^ Gostem ou não, comentem, please. Beijo nos vossos corações. ❤❤❤
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.