Os dias da Ira
1 Pela fria madrugada
Sabia porque estava ali. Mesmo assim, todo o seu corpo se erguia do cansaço. Não seria complacente com a sua dor.
Nada é eterno. Tudo o que tem um início tem, inevitavelmente, um fim. Tudo o que é origem torna-se destino...
Era filha da sua mãe, corria-lhe nas veias o mesmo sangue audacioso, trilhando, teimoso e sem freio, o seu rumo, como um veneno, insidioso, letal... não ia desistir...por mais que o corpo magoado lhe gritasse, por mais que o coração bombeasse aquela lenta solidão.
Aquieta-te, só neste entremeio, cala as cicatrizes, quero viver...
E aqui começa ou acaba a sua história, quando as palavras que falavam já não tinham que dizer.
– Senta-te. Assim falou ternamente a voz. — A história é longa. Tens muito que ouvir. Não será uma perda de tempo. Antes, depois de entenderes esta lição, poderás saber como ,melhor perceber o tempo...
Fez uma pausa e começou a mais maravilhosa jornada que jamais existiu
*****
Anos antes...
Numa noite de tempestade…
Terra, ano 2012
Tudo tinha sido breve, demasiadamente fácil. Um céu que se tingia róseo, no horizonte, o medo, a dúvida manifesta nos passos apressados no asfalto, o nojo, remexendo as entranhas e um contrato. O que acordava a ditadura humilhante num papel. O ser humano escravizado, a dignidade roubada e eles...
Mais do que eles, o homem, lobo de si próprio, insistente, a assistir...
Novembro. Tarde chuvosa. Uma tempestade tropical assombrava a pequena cidade da base de Edín.
Quando chovia, os familiares da cidadezinha fechavam-se em casa. Os homens corriam para o clube e permaneciam lá durante horas. Durante esse tempo, Edín era uma cidade fantasma.
O clube oferecia a paz de um recanto estilo francês, acolhedor. As suas paredes de madeira de carvalho e os sofás já gastos eram os grandes testemunhos do reboliço que por lá se passava. Sentados perto do reconfortante calor da lareira, com o charuto e o copo de brandy na mão, os homens da cidade falavam de tudo.
Podia dizer-se que o calor tropical há muito abandonara aquele canto do mundo. Parecia que tudo se havia tomado por um vazio gélido, glacial. Desde o anúncio da sua chegada que a Terra parecia respirar mais pesado, como que num pranto compassado com o calor esquecido daquele canto tropical , com o rosto timidamente sereno dos seus habitantes, cabisbaixos e num segredo amordaçado, silente, penitentes.
Durante as longas partidas de bilhar lavavam-se as almas e jogavam-se opiniões como se aquele local fosse um confessionário de emoções.
O governador Alexandre de Albuquerque, saía de mais uma conversa com os seus ilustres amigos, companheiros, confessores reverentes do que não podia ser dito. As horas tinham passado como flechas apressadas e precisava voltar para casa. Agitado, percorreu as ruas desertas, olhando para as luzes acesas dentro das casas. Havia dois meses que tinha sido decretado o recolher obrigatório. Por todo o mundo nada mais respirava após o sol se pôr na abóbada celeste. Edín não era excepção. Às primeiras listras róseas de pôr-do-sol a cidadezinha fechava-se instalada no resto das finas frestas de conforto que reinava em cada casa. E, ao cair da noite, as nuvens arrastavam do céu toda a sua luz e a lua brilhava alta como se fosse o prolongamento do bater dos seus ínfimos corações apertados.
Girando a sua bengala companheira para a frente e para trás, com o seu chapéu de coco na cabeça, olhou para o farol iluminado e viu os barcos de guarda que ondulavam no mar. A tempestade estava para acabar, pensou.
Em passos tão largos e desmesurados como sempre fora o seu ser, caminhou ligeiro rumo a casa, vendo de longe as cancelas brancas que guardavam, frias, estridentes, tão férreas quanto impessoais, os limites da Base.
Mais uns poucos passos apressados e ofegantes, e viu o pequeno bairro elevado desenhar-se nos pequenos pontos que aumentavam, desvendando um conjunto de pequenas casas brancas, de telhados cinzentos, todas iguais, copiadas na lassidão de uma falsa serenidade.
Chegando à sua porta, aquela que ainda não concebia como morada, mas que aceitava, mais por orgulho e ambição, subiu um pouco a manga do fato que evidenciava o seu cargo, que deixou antever uma pequena tatuagem junto ao pulso, com um código de barras, que passou prontamente num visor. A porta da casa sem número abriu-se, prontamente. Sentiu o calor, o crepitar da lareira, que buscava conferir um breve acalento ao gelo que aquele espaço oferecia. Pousou o chapéu no bengaleiro. Em seguida olhou para a pequena mesa de entrada e viu um recado: «chegou o dia. Estou cá em casa. Quarto das empregadas…»
Quem usaria ainda papel? pensou.
Alexandre, por momentos, ficou imóvel. Assaltado pelo espanto. «Chegou o dia…». A frase ressoava na cabeça. Sabia que este «hoje» chegaria. Mas não esperava que fosse tão cedo. Mais um minuto parado e o corpo reagiu freneticamente ao bilhete. Rasgou-o em mil pedaços, atirando-os em seguida para o chão.
Estúpida. — Pensou. -Estava irremediavelmente perdido, condenado a viver desperdiçando as suas forças com quem...
A mente despertou do leveza do passeio rumo a casa e correu para a cave, abandonando pelo chão, ao ritmo dos seus passos, os pensamentos que corriam incoerentes.
Apertou o botão que dava acesso à divisão subterrânea, e este vibrou violentamente.
Esperou poucos segundos, antes de entrar. Ninguém se ouvia, e nenhuns passos se apercebiam nos corredores da cave escura.
O lampejo breve de lucidez fez os olhos negros dilatarem, a respiração desregulada e cada vez mais descompassada.
– Ela...por favor...não...
Ansioso, Alexandre deu meia volta, lançou-se em corrida escadas acima. As escadas que davam ao seu quarto.
No entanto, ao chegar ao último lanço de escadas, estacou. Reflectiu então sobre o porquê de ter ido na direcção contrária ao acontecimento que o pusera naquele alvoroço. A resposta surgiu-lhe numa visão: a da mulher. Aquele ser que lhe enchia os dias de tormentos e lhe embebia as noites numa lenta solidão. Por mais que quisesse, seria sempre escravo dela, mesmo não o admitindo, mesmo mostrando-se dono e senhor dela, seria sempre ela e as suas vontades. Queria satisfazê-las, realiza-las todas, principalmente aquela.
Se ao menos soubesse...se ao menos pudesse...
Como estaria ela naquele momento? Nos últimos dias não saia do quarto. Pouco comia. O corpo consumia-se numa fraqueza que se renovava, perigosa, latente, dia pós dia. E sentia-se culpado, mesmo sem conhecer os meandros em que se infiltra a culpa, sentia que havia burilado, lentamente, com destreza, no trabalho de uma vida, a lentidão asfixiante da mulher.
Não queria, devido a um desejo quase como um mandamento da honra de distinto cavalheiro, perder alguém que tanto amava. Subiu o restante lanço de escadas com o ímpeto que lhe caracterizava o ser e abriu a compacta porta barroca. Embora ténue, uma certa luminosidade cinzenta invadia o quarto. A janela estava aberta, apesar do vendaval que do exterior se estendia por toda a divisão, devassando-a, agitando-a em pequenos arrepios frios.
Olhou para a cama e não viu aí a esposa, algo raro nos últimos tempos. Assustou-se.
Mas rapidamente pôde respirar de alívio. Do outro lado do quarto, no canapé vermelho distinguiu a silhueta esbelta, deixando os olhos navegarem pelas costas hirtas, cuidadosamente alinhadas, abandonadas na poltrona, enquanto os dedos finos tamborilavam ritmicamente no recosto. Distinguiu na penumbra os cabelos de fogo de encontro o sangue da cadeira, beijando-lhe levemente os ombros alvos. Os olhos fechados para o escuro, enxergando, esgravatando-lhe todos os seus apelos interiores.
Lúcia, minha Lúcia, só minha...até morrer
– Podes sair da escuridão em que te escondes, Alexandre, aparece...- falou, como se ordenasse brandamente, num desejo rouco que lhe prescrutava a voz de sombra. Os olhos ainda fechados e inertes.
Acercou-se dela,devagar, pesado. Estava lívida, encarava-o agora, abrindo os belos olhos verdes, agora avermelhados, perdidos na escuridão do quarto.
Alexandre não sabia o que dizer. Queria-lhe perguntar como se sentia, mas algo na garganta lhe travava o som.
Estranhamente, estava calma. Iniciou ela o diálogo. Uma estranha conversa entre marido e mulher:
– Chegou o dia…- falou, em ironia.
– Leste o bilhete? Não me digas que sabes o que está a acontecer?
– Mais do que julgas. Não li bilhete nenhum. Mas sei que o teu filho está a nascer. Tudo providenciaste para que nasça como um príncipe. O quarto na cave, cuidadosamente arrumado, as ordens para os teus gaios ajudarem no parto...
A voz foi-lhe brandamente interrompida
– Filho meu, que também será teu,seremos uma família...minha querida — Respirou fundo ao pronunciar as últimas palavras, que nela ecoaram gastas e banais, despojos do dia-a-dia.
– Não! – Neste momento as lágrimas corriam na face de Lúcia. Não falaria, não abriria a boca para dizer que filho fora aquele que lhe arrancaram das entranhas e que família...seria a que lhe roubaram, quase 20 anos antes. Os seus lábios, mais por honra que por exercício de vergonha, não se abririam para reverberar os soluços do seu peito. Não para ele..que não merecia.
E se mais houvesse que o silêncio, permaneceria sempre ali, naquele espaço confortável do desprezo.
– Não saiu de mim – disse a soluçar.
– Quando tive aquela ideia, pensei que a tinhas aceite sem reservas. – Indagou Alexandre, cabisbaixo, soturno.
Lúcia parecia perdida nos apelos da sua mente e continuava, sempre desconexa, corpo impresente, das conversas do marido.
– ...talvez seja castigo de Deus esta ideia ter-se concretizado. Talvez o mereça, sei que ainda tenho muito que pisar nos meus pecados. Mas não sei se posso aceitar um filho dessa mulher como meu. Não sei se estou pronta para fingir-me mãe de um filho, de um ser que não saiu de mim.
– Mais discussão não vale a pena – disse Alexandre, resignado. — Quero que também tenhas a certeza do seguinte: amanhã Clarisse desaparecerá desta terra. A criança receberá o nosso nome, Almeida de Albuquerque. E quero que sejas sua mãe. E que para todo o sempre assim ajas.
– Terei que mentir até à sepultura, Alexandre?Não vou aguentar...
Todo o seu corpo se contorcia agora no canapé vermelho, reflexo daquela humilhação que se cravava nas suas entranhas, roubando-lhe o fôlego, a razão, hipnotizando-a numa raiva, que a apoderava, que a queimava num fogo intenso, visceral.
– Fá-lo por mim! — Pediu, caindo de joelhos aos seus pés, tomando-lhe as mãos num beijo terno, manso, prontamente afastado, num impulso, pela mulher.
– O que nos aconteceu? — Perguntou o governador, procurando o rosto da mulher que era o seu tormento. — Éramos felizes....desejavas-me...éramos felizes...- repetia, mais para si, como num mantra.
– A mulher inclinou-se mais na cadeira e o seu olhar já não era de fraqueza ou de dor, mas um esgar engasgado de palavras que se atropelavam na sua garganta. Aquele olhar, o puro reflexo do que não podia dizer...
– Aconteceste tu. Tu, apareceste! — Respondeu, num tom de voz baixo, eco da serenidade de uma revolta que se revelava.
– Acredita Alexandre, não vou mais jogar palavras contigo. Estou cansada, farta. Vai! Vai ver o teu filho.
Foram estas as palavras, as armas que levaram o homem soluçar, num pranto infantil.
– Não posso...não te vou perder, ouviste? — O tom baixo gritava-lhe, violento, os pulsos doeram-lhe tomados pelo aperto forte dos dedos do marido.
– Prefiro morrer, a ver-te assim, a fugir de mim...- As mãos largaram os pulsos agora marcados da mulher para percorrerem os braços cobertos pela fina seda azul do roupão que a abrigava, até alcançarem o seu rosto. Mão direita e esquerda, lado a lado, no seu rosto,puxando-o para mais perto do seu, até que os lábios se aproximaram para o beijo, tocando os dela, que se arrepiou, afastando-os instintivamente.
– Não consigo...- sussurrou, baixando os olhos para o chão. — Não depois do que fizeste...do que lhes fizeste. — a sua mente percorria-lhe a história, numa memória míope com a distância que o tempo fez das horas, retalhada.
Alexandre levantou-lhe o rosto, segurando-o pelo queixo, observando-lhe o rosto esguio e perfeito, traçado em breves traços indeléveis. — Outra vez essa conversa? Quantas vezes já te disse que estou inocente? Quantos anos de penas terei que purgar, até que se destrua essa dúvida em ti?- Levantou-se impetuoso e agora fitava-a, o dedo esticado na sua direção, as pupilas dilatadas, a respiração ofegante, irracional.
– Não me podes deixar...sabes isso, não sabes? — Grunhiu, apertando-lhe mais o maxilar. — Estás presa a mim...eu sou o teu inicio e o teu fim. O único que pode retirar-te todos os martírios, e devolve-los, só para os ver esquadrinhar essa tua dor que insistes em nutrir. Conheço todos os teus demónios, sei perfeitamente retirar-te das sombras, e sei que posso da mesma forma, entregar-te a elas, a essa loucura escura a que dizes que me acometi. Posso fazer-te remoer tanto, trilhar tanto essas tuas entranhas e levar-te a desejar o sossego que já encontraste no meu peito.
E, tal como falou, toda a sua loucura revelada nas palavras, depositada no vão daquele quarto, ecoadas naquela madrugada fria. Saiu.
Lúcia ficou em silêncio. Estava certo, ela sabia. Ele era o seu inferno, o seu carrasco, a sua única salvação e a morte na sua vida
Alexandre percorreu velozmente as escadas em sentido contrário, rumo à cave. Ao fundo do último lanço de escadas encontrou finalmente um gaio.
– Tens notícias? já deu à luz?
– Ainda não governador. O parto está difícil...
Ao ouvir estas palavras, tremeu. Teve mesmo que se encostar a um velho bengaleiro, tacteando o metal frio. O servo apercebeu-se e suavemente pousou-lhe a mão no ombro. Alexandre, passados breves momentos, retomou a pose altiva que tanto o caracterizava. Com voz suave mas autoritária falou:
– Confio em ti muita coisa. O que agora te vou dizer e pedir será algo que esquece as nossas raízes. Que as ultrapassa. Estás ao corrente de tudo o que aconteceu nas frias noites de Fevereiro e nada divulgaste, que eu bem sei. Nunca te perguntei o que pensavas. Eu sei, e sempre soube, o que faço. Também amanhã sei o que farei. Por isso escuta o que te vou ordenar. Melhor. Não te ordeno. Peço. E é o seguinte: amanhã, depois do parto, fazes desaparecer Clarisse. Não quero saber mais dela. Quer a criança viva ou morra. Tomei uma decisão que não alterarei. E bem sabes que não altero as minhas decisões. Serei sempre fiel a elas. Se esta criança sobreviver será o meu filho. Arranja forças para esquecer tudo e também te digo, não serão eles, nem ninguém a ter a veleidade de destruir qualquer um dos meus planos.
Nesse momento um grito do quarto ao fundo do corredor percorreu a casa. Um grito de profunda angústia. De mulher que sofre para à terra um filho oferecer. Governador e servo entreolharam-se, com o mesmo espanto. Uma criada saiu apressada da exígua divisão. Ao ver ali o seu amo estacou assustada. Alexandre quase lhe berrou, nervoso:
– Fala mulher. O que está a acontecer?
Depois de breves momentos em silêncio, assustada com aquela presença espectral, a criada gaguejou:
– Está difícil o parto. Se me permite meu amo, vou buscar mais água a ferver à cozinha – falou, titubeante e sumiu-se apressadamente.
Entretanto os gritos aumentavam. A agonia parecia atingir o seu máximo. Outra criada saía com trapos ensanguentados do quarto. E dirigia-se também à cozinha sem reparar em Alexandre. A outra criada passou com a bacia de água a ferver. O rebuliço a sinfonia de gritos que abalava o corredor escuro, horrorizava o governador. Baixou a cabeça e sussurrou: «Meu Deus, meu Deus… faz com que o meu plano sobreviva.»
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