«Meu Deus, meu Deus… faz com que o meu plano sobreviva.»

Estas preces pareceram surtir efeito. Os gritos diminuíram, os vultos passavam apressados com os panos e entravam, a correr, no quarto. Um deles, saia de novo. Vinha a sorrir. Sorriso de quem cumpriu a sua missão. Alexandre aproximou-se e falou-lhe então.
– Fala mulher! Que motivo há para essa tua alegria?
– É um menino, senhor. – Disse mexendo os panos alegremente.
Alexandre não se conseguiu controlar e pediu para ver o filho. Ali, com o filho nos braços tudo lhe parecia diferente. Era o seu filho que segurava. A sua descendência, o seu orgulho. Aquele ser que o manteria vivo, perpetuado por toda a eternidade, muito para além da morte.

A criança era de tez clara. O pouco cabelo loiro cobria-lhe a cabecinha oval. Dormia sereno nos olhos do pai que lhe expiava as feições perfeitas. — É um verdadeiro príncipe. Pensou .

O pequeno tremeu brevemente, quase que a marcar presença, agitando para o ar os dedos finos e longos. Alexandre vibrou de susto, como se fosse quebrar o filho.
– E está de saúde? – Perguntou, ansioso.
– Parece-nos que nasceu são.
Ao ouvir estas novas, não conseguiu conter uma lágrima furtiva. Mas rapidamente a limpou.
Ele não é uma criança qualquer, é Miguel Meireles de Almeida e Albuquerque. Meu filho e da Lúcia também. Descendente dos melhores, tal como estipulado.

Era tarde quando Alexandre se recompôs daquele salto que estremeceu a sua vida. O nascimento do filho pelo qual esperara tanto tempo. O concretizar do seu sonho. Sempre se vira como um homem poderoso e influente, capaz de todas as façanhas. Diziam-no egoísta, arrogante talvez. Muitos o temiam, alguns aprenderam a aprecia-lo pela frontalidade e coragem com que se defrontava, poucos conheciam aquele homem cheio de força e vontade de viver. Era reconhecido, amado, temido, imponente. Nunca se importara em perceber se era um homem justo, os anos passaram-lhe rectos. Não era homem de sonhos, talvez porque lutara para que desaprendesse a sonhar. Nunca sonhara com um grande amor e como quem nunca o quisera, nunca este aparecera. Se aparecesse seria o primeiro a deita-lo borda fora. Não havia espaço para o imprevisto nos seus passos cuidadosamente delineados.

Mas dentro de si um vazio enorme, sideral invadira-lhe os dias. Desejara um filho e talvez por ser este o seu único desejo, fora também o único que insistia em complicar-se. Brincara com os céus, ousando pedir nada. E eles atentos deram-lhe o nada que lhe cobria os dias de solidão. Tinha na esposa a companhia das tardes de Domingo dos homens de salão que escondem a existência debaixo do tapete, anulada atrás da porta ou num qualquer outro canto de sua casa. Passeava-se com ela, exibindo-a orgulhoso, com todos os seus dotes. E ela não era mais do que isso, um qualquer modo de controlo e perfeição. Alguém que pode modelar a seu modo, travando-lhe os gostos, asfixiando-a em si.

Mas agora que aquele filho nascera, algo em si se rompia. Não era só aquela alma controlável que tinha para modelar. Tinha agora o expoente de todo o seu desejo, o fruto do seu maior sonho. Era invulnerável. Ousara enfrentar os céus e enfrentara-os, ousara voltar a sonhar e sonhara alto, tão alto, que agora caia-lhe nos braços o preço de arriscar-se nessas façanhas. Reduziram-no na sua condição humana, acorrentaram-no ao mínimo dos seus sentidos. Mas arriscara, o preço de uma liberdade conquistada a dissabor, embora caro, nada no mundo ou ser algum poderia compensar.

Alexandre regressava ao quarto onde deixara a mulher. Lúcia jazia ali, plantada, imóvel. Talvez à espera, talvez... com ela seria sempre essa incerteza

Alexandre sentou-se na borda da cama e esperou que fosse ela a perguntar. Conhecia a natureza inquisitiva dela, sabia que não se ia demorar no silêncio. Contudo, foi ele quem rompeu aquela conspiração calada, falando num tom de voz calmo, como a sua mente tivesse já apagado a rudeza das palavras que lhe havia declarado, como se a vida se encarregasse de lhe apagar a violência dos seus passos, o sangue de todos os seus feitos.

– Sei que te custa falar, que em ti ainda te dói essa tua anulação, por mim. Façamos, então, o seguinte, o nosso pacto de silêncio não se quebrará. Só falarei dele quando quiseres, e só o verás quando achares que o teu coração aguenta o jeito.

– Eu vou vê-lo. — Disse decidida. – Mas só quando "ela" tiver saído desta casa. Não quero ter que olhar para aquela que cumpriu a tua visão.

– Quando quiseres significa que o tempo aguardará a teu modo que te prepares. Sussurrou Alexandre, e para a mulher, estrahamente, aquelas palavras raras entoadas, mais gargante do que coração, pelo marido, pareciam quase envolve-la num terno, maligno, beijo que se colava a cada poro na sua pele...

*****

Lúcia caminhava certeira em direcção à cave. Olhava de soslaio para trás, certificando-se que não era seguida. Parou, levando as mãos ao bolso retirando um molho de chaves.

– Desculpa fazer-te isto, mas também não é que não o mereças. Cheguei até aqui e não tenciono recuar… – Afirmou para dentro de si, tentando convencer-se. Do molho de chaves que tinha na mão tentava encontrar, com a pouca luz existente, a que abriria aquela porta sem conseguir escolher. Experimentou uma a uma temendo que a encontrassem naquele local onde não tinha permissão para estar. Finalmente umas das chaves deslizou na fechadura e a porta escancarou. Não sabia para onde avançar e ficou parada no patamar de metal que a separava do solo abaixo. Aproximou-se da borda, segurando o corrimão de metal frio, olhando para cada divisão minúscula que o ângulo em que se achava deixava antever. Estava tudo calmo e deserto.

Perdeu o medo. Desceu as escadas o mais rápido que pôde e, ao poisar o pé descalço no chão num último passo, um choro de criança guiou-lhe a direcção. Avançou pelo largo, dividido a meio por um canteiro redondo adornado de exóticas plantas verdes, contornou-o entrando numa divisãozinha estreita.

Lúcia, estranhamente calma e lúcida, deparou-se com uns olhos cor de céu amedrontados que fixaram os seus em angústia profunda.

Olhou para o berço de onde uma mulher pálida retirava uma criança, que se calou instantaneamente.

Sentou-se em silêncio na beira da cama admirando a mulher amamentar um menino claro e calmo.

– Ora aqui está uma coisa que nunca me darão oportunidade de fazer… – As palavras de Lúcia expeliam toda a decepção que se obrigara a reter em si durante tantos e longos anos. A mulher estatificou de pavor perante o comentário. Abriu ainda mais os olhos de espanto, as mãos que seguravam o filho a tremer, incertas.

– Não precisas ter medo, Clarisse. Cumpriste o teu papel.

Clarisse olhava a figura estranha de Lúcia sentada na sua cama, descalça, em roupão, falando mais depressa do que os seus sentidos podiam acompanhar.

– Prometi-me que só veria esse, essa coisa, depois de tu saíres. Mas tive que vir, tenho que te perguntar: Será que ainda não te perguntaste o que faz uma mulher em 2012 “parir” uma criança nestas condições? Numa cave, perdida em sitio algum…podias estar morta. Sei porque aceitaste fazer a inseminação, percebo o teu desespero. Mas isso não justifica que te usem como animal reprodutor. És praticamente uma criança. Muito mais nova que eu. Que assistência te deram, Clarisse? – Lúcia pronunciava o nome da mulher sem qualquer sentimento, quase sem o dizer. As letras passavam-lhe tão ásperas e rápidas nos lábios que mal as sentia. Já Clarisse parecia degustar cada uma delas como um prato delicado. A fome com que sorvia cada palavra alimentava-a intimamente. Sentia-se usada, toda a vida manipulada, os sonhos, jovens ainda, já traídos. E sem se aperceberem, as duas estavam unidas pela mesma forma de humilhação e por outra fome, a dele. Ambas partes na mesma engrenagem maquinal dos seus planos, para ambas, tarde de mais para recuar, impossível não ceder. Era um vácuo violento que as sugava, embrenhando-as mais e mais no escuro que lhes levava e torturava todos os sentidos, tóxico, viciante, mortal...
Mas não se atrevia a falar. Embalava com desvelo o filho, extraordinariamente calmo, que dormia já saciado, nos seus braços com um sorriso na boquinha pequena.

– Tens que sair desta base. Tu e o teu…“filho”. Tem que haver alguém capaz de pôr um travão a este horror. Se tiver que ser eu, que seja. Vi o mundo desaparecer aos meus pés e não tenciono vê-lo cair perante mim uma segunda vez. Ainda há esta chance e não me dou por vencida. Foge com esta criança para que nunca mais vos descubram.

Lúcia pendeu as palavras num fio ténue, baço. Aos ouvidos, chegava-lhes a reverberação estridente de apressados passos.
A porta abriu-se perante os olhos das duas mulheres. Diante delas, um homem severo, de olhar frio e distante, o cabelo oleoso e grisalho penteado uniformemente par trás, estendia o dedo gordo, apontado ao colo de Clarisse.

– Era assim que o Governador pensava que enganava o meu aguçado engenho. Tenho um bom faro. Nada, ninguém me engana! – Os olhos fervilhavam de raiva, a cara vermelha transfigurada de cólera.

– Afinal era esta “coisa” a quimera do grande Governador…que subtileza! – Continuava, a mente sempre em delírio, o Chanceler. — Ninguém nasce aqui sem a minha permissão! Ninguém! Eu mato-vos! Mato também essa trouxa que veneram...

– Não tinha sido isto que tínhamos combinado! Não pode! Eu cedi, eu cedi à experiência! –
Alexandre entrava em transe na confusão daquele quarto. Estava desesperado, o rosto aflito carregado de suor, os olhos pretos percorriam torturados a penumbra do quarto balançando-se entre Lúcia e o filho.

O lugar iluminado apenas por um débil raio de luz proveniente de uma pequena janelinha deixava antever o Chanceler. Por breves segundos, Alexandre ainda tremeu, interiormente. Aquele homem a quem prestava contas, aquele que, tempos antes lhe havia apagado os sonhos, violado os seus pertences e devassado a vida, de rajada, lançava-se agora lancinante sobre ele. Alexandre, o governador, havia-se transformado no novo objecto da ira do chanceler.

– …ou melhor, mato-te traidor! Já devias ter percebido que o teu plano não podia dar certo. Querias ultrapassar-me? A mim?
Alexandre lançou-se a ele também. O olhar desvia-se do da esposa, também ele ardia, numa ira, que o arranhava, mais e mais.
– Livrei-vos dos ingleses, da corrupção. Se não fosse eu, Belize ainda seria um antro de prostitutas e marginais de vão de escada…
– Belize já não existe, Governador. Pensei que tivesse percebido que nada do que criou subsistiu, caiu na sua própria derrota. E agora, bem, agora, vai mesmo ficar só o nada! Pensei que não lhe custasse, afinal, é só o que costuma oferecer...- O Chanceler deitava um sorriso escarninho ao Governador que, pela primeira vez, não tinha respostas.

O choro do bebé irrompeu no quarto aumentando-lhe a ira louca.

– Qual delas mato primeiro, Governador? A sua “santa esposa” ou a progenitora do seu filho?

– A Lúcia não, por favor…ela não! Deixe-a ir, por favor… – Alexandre implorava, prostrado aos pés do Chanceler, lembrando-se fatalmente da figura de Spencer Johnson, quase 20 anos antes. Ele ao menos não suplicara. Pensava para si.

– É sem dúvida uma mulher admirável, agora entendo a sua fixação, Governador… – O Chanceler, contemplava Lúcia. O roupão aberto deixando antever os seus contornos bem delineados e esbeltos.

– Foge daqui, sai! – Gritou Alexandre a Lúcia que o olhava, plácida, sem qualquer emoção.

A alucinação arrebatada do Chanceler não o deixou ver Lúcia que permanecia na frente do pequeno e jovem corpo, em desafio. Os olhos ardilosos dele vincaram-se em Clarisse e percorriam-na de lés a lés, envolvendo-a em terror.

– Se a matam, matem-me também a mim! Desafiei-te uma vez, e acredita que o volto a fazer…não derramam mais sangue à vossa vontade. – Lúcia entrepunha-se praticamente colada na frente de Clarisse.

A fúria daquele quarto rompeu-se no som do tiro desferido certeiro naquele peito. A massa inerte tombou, vazia. No chão um pequeno carreiro de sangue desenhava-se, desbravando aquele solo de madeira. Vermelho de ira contra o castanho da terra num sondar rematado da morte no corpo que acalmava eternamente.

Alexandre gritava histérico, surdo e praticamente cego de horror e de lágrimas que lhe brotavam nos olhos. Sentiu o gosto salgado daquele rio cálido. Quase como se fosse de novo jovem, a força nascia-lhe animal das vísceras. Correu para o Chanceler pegando nele pelos colarinhos do fato suado e arremeteu-o contra a porta do quarto.

– Mata-me agora besta, ainda me queres matar, não queres? Eu tinha um nome, uma casa, um legado…Fede como um animal! Recomponha-se Chanceler. Quero mata-lo dignamente. As lágrimas nos olhos tingiam a visão do Governador cada vez mais enfurecido.

– Alexandre…não o faças! – A voz trémula de Lúcia levantava-se com ela. Alexandre olhou-a de alto a baixo, o Chanceler ainda suspenso nos braços, enquanto a mulher e o coração parecia encher-se de novo com um renovado fôlego de esperança. Lúcia arrastou Miguel, debaixo de um corpo inerte, colocando-o no colo. O bebé chorava ainda, coberto de sangue.

– Bem…não podemos fazer de conta que nada se passou, Governador. Na sua vida já derramou demasiado sangue…- Cobardemente, o Chanceler tentava uma última vez demover Alexandre que o atirou para o solo, o corpo caiu em choque.

– Já pouco me interessa…saia à sua vontade. Mas não se esqueça, esta é a minha base!

A porta abriu-se e de um jacto saiu o poderoso Chanceler, por então vencido.

No chão jazia Clarisse. Perdida para sempre, vítima dos meandros daquele plano de insensatos.

Lúcia estava ainda inclinada sobre o seu corpo, fechando-lhe os olhos etéreos já baços.

– O que foste fazer? O que te deu na cabeça para vires a este quarto? Podias estar morta agora…só de pensar… – Sondava Alexandre com uma imensa ternura, baixando-se ao nível da mulher.

– Como me enojas Alexandre. Acabaram de mater a mulher a quem pagaste para parir o teu plano… A vida humana não te diz nada? – Perguntava-lhe a mulher, com o bebé nos braços.

– Coitadinho…meu pobre pequenino. Passaste por tanto já! Eu também sei o que é perder uma mãe… – Cantava-lhe Lúcia, enquanto se afastava do quarto rumo ao piso superior, beijando o menino e limpando-lhe o sangue da mãe que se lhe colava no rosto.

– Derramei demasiado sangue, mas o teu ainda vive nas duas… – segredava Alexandre a si próprio – Não importa…pensava para si. Foste, és, serás…a minha redenção.

Notas finais
E aí? Que dizem?