Belize

Janeiro 2012

Primeiro, o grito

Depois, todas as forças afastavam-se, em desprezo, os músculos relaxaram, um por um, numa cedência passiva, em resignação.
Sentia aquele rio, cálido, espesso, escorrer-lhe pelas pernas; o líquido da vida inundava-lhe os sentidos. Abandonava-a, mansa, lentamente, descia abstrato do seu âmago, insensível, em conspiração. Era sua a voz do sangue que perdia, quando a mão metálica se instalava fria, num aperto contundente.
Por instinto levou a mão ao ventre. E só quando a sentiu poisar naquele ponto sobre a carne dolorida, pensou sentir, num apelo inato, inerente, o seu filho mexer...
Sentia as lágrimas cairem e cada recanto do seu corpo estremecer. Mas já não era a dor que se aninhava em cada póro. Era a vida assistida pela morte, que se lhe afigurava presente, na mácula vermelha dos lençóis...

****

Alexandre de Albuquerque corria apressado pelas ruas de Belmopan como se a vida lhe fugisse em cada passo. O sol raiava naquela madrugada.

No fundo da rua, uma viela estreita onde se vislumbrava uma Igreja destroçada. Ao lado duas casinhas miúdas onde o cinzento das paredes se confundia com o do céu.

Pisava o solo verde da sua terra, a terra que o vira nascer e crescer. Era macia e suave a relva que nascia em contraste com aquele solo duro de terra batida e parda.

Corria, porque o tempo perdia-se entre a espera e a marcha. Enquanto palmilhava as ruas, vislumbravam-se rostos curiosos e olhares em dúvida. Alexandre lutava contra as horas. Em segundos chegou ofegante ao seu destino.

– O que se passa? – Inquiriu, com a voz trémula do esforço.

O Barão olhou para o rosto do homem sentado na pequena espreguiçadeira junto à janela. As mãos grandes cobriam-lhe o rosto rendido ao pânico e ao cansaço.

– Um golpe – Respondeu-lhe prontamente uma voz vazia vinda do fundo da divisão.

Zeph Willoughby parecia esperá-lo há horas. Tinha os olhos salientes, rosto apreensivo.

– Mais um golpe de estado? Mas esta gente não se cansa de revoluções? Quantas serão precisas para perceberem que o que querem é um pouco de inacçãoque populaça incomodativa! – Gritava Alexandre enquanto gesticulava febrilmente.

– Não é isso meu senhor, desta vez a revolução vem de cima.

O governador da cidade deixou-se cair na cadeira que o aguardava atrás da velha secretária wengé. O rosto perdia-se por entre os papéis e os porta-retratos.

– Não sei bem se percebi – respondeu articulando as palavras a custo.

Pesada, a sombra do conselheiro arrastava-se pelo pequeno escritório do Barão. A voz soava dura e fatal.

– Fomos conquistados! – A voz de Zeph entalou-se na garganta e mergulhou numa dor visceral, deixando-se apagar, estarrecido.

Alexandre, saído de um sono profundo, levantou-se.

– Já tinha ouvido falar da Aliança. Mas encarava-a como invenções das mentes frouxas deste mundo. Até mim nunca chegou nada de nenhum órgão de Estado

– Não gosto do tom do céu, não gosto – Continuava o conselheiro em alucinação repetindo-se, atirando o corpo para a frente e para trás em roda-viva.

– Cala-te homem, não te posso ouvir mais – Alexandre deixara de soar a autoridade, parecia mais um servo assustado do medo que o tomara a falsa fé. Também ele fez um esforço e olhou o céu de um tom escuro e sombrio. Lá longe, onde o horizonte se deitava no profundo mar, um vermelho carnal, sangrento misturava-se arrojado no matiz do céu desguarnecido.

– Não! Não seremos mais subjugados. As lágrimas de sangue que esta terra derramou não ficarão perdidas nos rodeios do passado. Aqui, ninguém faz história sem a minha anuência.

Saiu do escritório num sopro perscrutado pelo conselheiro.

– Alexandre, onde vai? — Indagava Willoughby cabisbaixo, demente, de voz cega.

– Eu ainda sou o Barão Almeida de Albuquerque, Governador-geral a mando de Sua Majestade, a Rainha Isabel II! Diabos me levem se deixo abstraírem-me de tudo o que é meu, de tudo o que conquistei com o meu esforço!

E galgava em direcção à estação. Porém antes de continuar, algo o deteve.

O que os olhos do Governador viram na saída não pode ser contado. Era dor e tortura e sede e sanguemais do que a alma humana pode conter.

À sua volta, tudo inigualavelmente igual e, contudo, inegavelmente diferente e austero.

Diante dos seus olhos um mundo que esperava acção e força de um simples homem que caia num turbilhão.

Diante dos seus olhos delineavam-se 3 figuras de contornos ainda distantes.

Ao aproximarem-se percebeu que se tratava de dois homens e uma mulher. Vinham vacilantes, oscilando entre a inevitabilidade da noticia e a tristeza de o comunicar.

Um homem pequeno, abatido, curvado, cabelo raro e escuro olhava raso para o chão. Escondia debaixo do fato as mãos que tremiam. Ao seu lado seguia-o uma figura mirrada, sumida, de nariz adunco estatura espectral. Alexandre reconheceu-os de imediato. Eram as mais ilustres figuras do Congresso. A acompanha-los, uma mulher de tez pálida, cabelos ruivos atados em contenção entrou, segura, na paz precária daquele escritório.

– Nada nos poderia avisar de tamanha façanha no mundo, nem sequer o céu tremeu com a mudança, Governador. — Lançou a voz feminina, ao vê-lo, pareceu-lhe nervosa, quase frágil, fechada em si mesma e no temor.

– Em Dezembro Nibiru passará pela eclítica e dará início à destruição. – O medo que sentiam os seus acompanhantes parecia desvanecer-se nela. Deixou-se tombar para a cadeira do Governador e olhava muda o escritório diminuto do Barão. Os seus olhos outonais, de um castanho severo, desconcertante, percorriam a divisão ávidos de tudo. Gravava cada detalhe em busca de um pretexto para manter o silêncio.

– Dois terços da população da Terra serão dizimados – Continuou a figura masculina, alta, inflexível procurando apoio no olhar do outro. O nariz adunco sobressaia na face encovada de Colin Young.

O outro homem, mais baixo e sinuoso desviou rapidamente o olhar do amigo, voltando-se para a mulher que ainda percorria sentada todos os recantos daquela diminuta divisão tropical.

– Observadora, o dossier por favor. – Pediu gravemente à mulher cujo olhar fora obrigado a cruzar-se com o dele. O corpo de baixa estatura de César Gallardo diminuíra mais com o cansaço. Abatido abafava uma tosse nervosa com a mão.

– Vejo que não é de Belize, minha cara. O que a traz ao nosso país, esquecido nos meandros da América central? Decerto que não lhe agrada o calor – Referiu, momentaneamente poderoso, o Barão Almeida de Albuquerque.

– Eu fui nomeada pela comissão para acompanhar o Congresso, Governador. – Retorquiu a mulher de sotaque de leste.

– Que comissão? – Eu aqui só reconheço autoridade a estes distintos membros do congresso do meu país, Belize.

– César, o que se passa? – Alexandre procurou o amigo com quem convivia há mais de 20 anos e encontrou-lhe no rosto o desespero espelhado nas horas. A figura penitente do companheiro continuava a diminuir.

– César, por favor – Pediu Colin.

César suspirou, tentando buscar forma de ajudar os companheiros.

– O planeta que nos quer no Império é Nibiru. Conhecido como o planeta de origem de um povo designado como "raça dos deuses", os Anunnaki.

– O que há a fazer? – Questionou Alexandre num completo descrédito, perplexo pela rapidez dos acontecimentos que se abatiam sobre o mundo.

– Não tema, Governador. Não estamos propriamente na era dos conquistadores. – Ela estendeu-lhe, superior, os papéis que segurara até então. Os olhos fumegavam, provocadores. Esta Aliança transcende-nos na sua globalidade, mas um propósito é-nos claro. Querem-nos como aliados, o que será para nós uma forma de enriquecimento da nossa cultura.

– Os Anunnaki querem uma aliança pacífica, Alexandre. – Falava César, o corpo pequeno com a inevitabilidade, acalmando o génio atento do Governador.

Ao lê-los o Barão tremeu de revolta e teve mesmo que conter a náusea que sentia ao percorrer os documentos de olhos em frenesim.

– Zeph. A minha caneta, por favor. – Alexandre não ordenava, nem pedia, do fundo da sua alma em choro suplicava silencioso ao conselheiro que o detivesse, que algo maior que aquela catástrofe se abatesse nas ruas e que o tempo parasse num pesadelo superior aquele horror. Mas nada conseguiu obter para além da caneta estendida em submissão.

Alexandre Almeida de Albuquerque, assinava de coração sangrante o pacto que matava a sua alma mas que traria, mesmo que oscilante, vida aos seus corpos humanos.

Vida por vida, morte por morte. Morria privada a alma que contrariara, duraria penitente o seu corpo que a outros mantinha a existência.


César Gallardo olhou para Colin Young. O mundo caia-lhe aos pés tão fácil, tão previsível, tão fraco. Tudo morria vergado ao peso das letras numa simples assinatura de um acordo.

O corpo baixo aumentava gradualmente. Colin esfregava contra as mãos o nariz adunco e ressoava resignação. A gabardina preta suspensa na mão vacilava. Segurou o papel e guardou-o no dossier que carregava. Em seguida fez uma vénia respeitosa ao Governador, beijou a mão da observadora do Congresso e preparou-se para sair. Atrás dele, César seguia-o como que aproveitando a chance de sair daquela pequena divisão reservada demais para cinco. Esperou na porta que a mulher o seguisse, mas esta escusou-se.

– Podem ir, meus senhores. Façam boa viagem. O Chanceler aguarda-vos para receber o Tratado da Aliança. – Ambos obedeceram à voz da mulher e dirigiram-se ao carro que os aguardava no exterior.

Aparentemente calmo, Alexandre fez sinal a Zeph que escoltasse os companheiros à saída. A porta bateu à sua frente. Alexandre inspirou longamente, cerrando os punhos contra a secretária. Olhou para a jovem que o atormentava há longas horas. Em 45 anos de vida nunca sonhara debater-se com os resquícios das suas acções. Não era possível, pensou para si, ela não podia estar ali. Entre eles um abismo de gerações separava-os, a distância dos continentes apartava-lhes as direcções. Contudo era ela, quem estava ali, no seu escritório de rei e senhor, de volta a Belize.

Aproximou-se dela, repentino. Violentamente, empurrou-a contra a cadeira à sua frente e viu-a tombar, desamparada. O disfarce caiu.

– Como pudeste descer tanto Valentina? – O Barão olhava-a de frente, tomado por uma imensa fúria.

– Não sei a que se refere, senhor. – Valentyna olhava com espanto Alexandre que não desarmava.

– Não sejas cínica, isto foi tudo criação tua. Pensas que me esqueci de ti? O frio fez-te bem mas os teus olhos não enganam, Valentyna, Durnova. Ou pronuncio de maneira diferente?

Os olhos da mulher esvaziaram por completo. Engasgou-se e olhou o chão. Era a primeira vez em tantos anos que lhe lembravam as origens. Imagens incertas invadiam-na torturando-a. Raiou-lhe na mente o cheiro de terra que trazia consigo, as ruas apertadas onde brincara às escondidas, o casarão imponente onde vivera (ainda não Dornova) e a fonte do cupido que a recebia no átrio da casa. Repeliu uma lágrima que se lançava furtiva nos seus olhos, ao mundo Valentyna não mostraria dor. Levantou-se, segura e firme. Sorria, mais por provocação, lançando um esgar de vitória.

– A verdade Alexandre é que não me conhece. Sou muito diferente daquela menininha descalça que corria pelas suas propriedades.

O barão sentou-se na espreguiçadeira e olhou pela janela, fingindo não ouvir.

– Os meus amigos já vão longe. O Zeph não tarda também está de volta. Vai-te embora, sua miserável. Parecias muito melhor quando eras aquela menina ranhosa, exilada com o teu pequeno pai. Não te mostravas tão arrogante de roupas rotas e com fome. O Dornov fez um bom trabalho contigo, nunca pensei que aquele velho demente o conseguisse, tenho que admitir...

Acredita que se te vejo mais uma vez por estas bandas, perco a compostura, prometo-to. E sabes bem que a minha palavra não falha!

Valentyna não se deixava abater. Virou-se fitando de frente os olhos do Governador:

– Matei a fome a que me tinhas lançado tão cruamente. Não há em mim ponta de fraqueza a que possa ceder. Estas planícies viçosas onde corri não me dizem nada. O cheiro fétido de bolor desta terra cinzenta, deixa-me agoniada. — Levantou os olhos do chão encerado e sorriu desdenhosa a Alexandre. Tinha pouco mais de 25 anos, contudo as suas expressões davam-lhe ao rosto um tom carregado, quase ancião. Cerrou o rosto e dirigiu-se à porta, preparando-se para sair.

Sem que Alexandre percebesse a intenção continuou a falar, recuperando a compostura e o pronome respeitoso para com o Governador:

– Mesmo sem atingir as repercussões do seu acto, salvou-me, Alexandre. Salvou uma miserável de uma vida deplorável em que podia ter-me encerrado. Tenho boa memória e, acredite ou não, sei agradecer. Garanti-lhe uma boa posição, no topo da cadeia. Já não lhe devo mais nada!

– Calou-se e o silêncio instalou-se no escritório diminuto. O ar rareava, contrafeito no peso das palavras dos dois.

– Dei-te nova vida e mesmo assim insistes em voltar? – O Barão fitava a mulher num misto de pena e repulsa. Sem olhar para trás Valentyna levou a mão ao puxador.

– Talvez seja a vida que insista em trazer-me de volta ao que me roubou e era meu por direito, Governador. Depois, como se tivesse esquecido algo entalado nas profundezas da sua alma, proferiu vaticinadora:

– Vendeu-me. E agora, vendeu-se também, Albuquerque! A sua dignidade é algo já difícil de atingir. E, como algo em que já não pode pôr o dedo, acabará também por sarar nas entranhas do seu ser, podre, estagnada, consumindo-o. Está gasto Alexandre, a idade infiltra-o. Agora que esta ocupação se concretiza talvez perceba a dor de ver desmoronar tudo o que construiu. Até que de si e da sua obra sobrará apenas a ideia do homem recto que arriscou ser. Quando me vir sair esta porta, é bom que reze para nunca mais cruzar o seu caminho. Também eu rezei um dia para que jamais cruzasse o meu

Saiu. A porta aberta deixava ver os seus passos certos, maquinais. O barão, impávido na confortável espreguiçadeira retirou o sorriso que lhe mascarara a face naqueles minutos. Observou-a a entrar no carro preto que a esperava. Viu o carro dar a curva na rua da pequena Igreja e sumir. Nele afastava-se também Valentina, actualmente Dornova.

Tão diferente da criança que arrancara à força da sua cama em nome da Revolução dezassete anos antes, numa madrugada quente de Abril de 1994. Levou as mãos ao rosto, tapando os olhos. No escuro via ainda o rosto inanimado de Spencer Johnson caído no solo do seu quarto. Instintivamente retirou as mãos da face esfregando-as freneticamente contra o fato.

– Estão sujas. Não consigo tirar este sangue. Nunca me vou livrar deste sangue, nunca vou fugir deste peso – Alexandre não chorava, porque não sabia. Mas nele a alma desfazia-se em pedaços que caíam no fundo do seu ser.

****
Alexandre estava ainda no escritório sozinho já a noite ia alta no céu. O calor húmido e abafado ainda se fazia sentir. Ao percorrer os episódios da manhã sentia ainda a traição a arder em si, declarando-se viva e a minar. Sofria, mas seria o Barão de Belize digno de sofrer? Percebia em si afinal uma réstia de dignidade humana a despontar, fraca, insípida. E temia, ouvindo ainda a voz de Valentina, não ser capaz de chegar a ela e traze-la viva ao cimo de si. O coração acelerado de Alexandre galgava-lhe o peito, galopante, enquanto os sentidos percorriam e reliam as palavras que assinara há apenas algumas horas atrás e que o horrorizavam.

Alexandre parou baixando a cabeça, retendo na memória o estranho conteúdo que assinara. Pela segunda vez, a náusea voltava inteira a atormentá-lo.

– Não posso mais! – Gritou o Barão deitando para fora toda a contenção que o comprimia.

Uns passos, cabisbaixos, penitentes, ecoaram no silêncio sideral daquelas divisões desertas.

– Esperei por ti a tarde toda. – Falava o Barão ao conselheiro, só agora regressado, de face lívida e olhos encovados, procurando uma justificação em Zeph Willoughby.

– Desculpe Senhor parece que hoje o dia serviu apenas para lhe dar más notícias Está lá foraum carro. Querem vê-lo. – A gaguez apoderava-se do Conselheiro, como se o som se entalasse na garganta sem vontade de sair.

O Barão saiu do escritório fechando a porta e com ela todos os rumores daquele dia.

O relógio da Igreja batia majestoso vinte e uma badaladas.

Do carro estacado mesmo diante dos seus passos saiu uma mão de homem, pequena e roliça, fazendo-lhe sinal para entrar. Alexandre fez um gesto com a cabeça a Zeph que saiu ligeiro em direcção contrária.

Entrou no carro. Um homem de cabelo grisalho, rosto anafado e róseo limpava com um lenço o queixo duplo debruado de suor.

– Boa noite, Governador. Estou certo que não nos conhecemos, mas acredite que é para mim um prazer falar com tão ilustre figura. – O homem guardava o lenço na lapela e perscrutava os gestos de Alexandre que o olhava nervoso e em dúvida – Vim agora mesmo da Base de Edin e estou felicíssimo com tão franca adesão à Aliança. Desculpe não me ter apresentado – Continuou em tom leve e divertido – sou o Chanceler.

O homem gordo, hediondo, persistia em êxtase voltado para o Governador que se agitava, ainda mal adaptado aos assentos daquele carro.

– Agora que a Terra faz parte do Império os Anunnaki controlam a natalidade com um sistema que apenas permite aos melhores reproduzirem-seinfelizmente deve perceber que poucos são os que estão ao alcance de serem reprodutores do Império. — O tom cravado de ironia, penetrara nas entranhas do Barão.

– Se quer um filho, Governador, não o podem ter "juntos". Mas não tem que se dilacerar continuamente com isso. Há outras formas.

– Eu tinha um sonho, e de repente tudo mudou – Bradava o Governador. Sentia-se pequeno, como se a vida lhe passasse ao lado sem tocá-lo sequer. Cada palavra parecia martela-lo no fundo de si e estremecia.

– Tinha um sonho tudo mudou – Imitava-o jocoso o Chanceler. Ria-se alarvemente, vermelho, a barriga saliente inchada, projectada como se fosse rebentar o colete apertado demais para as suas medidas. — Tudo mudou, tudo! – A ocupação é real! Não somos mais o topo da pirâmide, somos a criatura de companhia de uma raça qualquer! Temos que viver pelas suas normas, com os seus modos. Não podemos permanecer instalados na nossa solidão de seres superiores. – Gritava, a paciência para com o Governador expirada no calor daquele carro, o bafo quente a roçar o rosto de Alexandre.

– Quando tiver um filho, este terá que nascer de um sistema de castas, dentro das quotas de seres humanos de biótipo perfeito – Continuava o Chanceler, recuperando a calma, os olhos ainda fixos em Alexandre, a tentá-lo.

Tudo isto aparecia ao Governador em ironia. Tantos anos tinha feito dos outros a extensão das suas vontades que agora o mundo revoltava-se fazendo dele objecto da vontade de outros.

Alexandre sentia a vertigem do precipício de onde o jogavam. Mas não cedia.

O carro parou diante dos majestosos portões esverdeados e Alexandre, olhando através dos vidros fumados da viatura, reconheceu a casa onde vivia, sua propriedade há quase 20 anos. Enraivecido abriu a porta fazendo tensões de sair.

– Se eu fosse a si, não saía já Governador. – O homem olhava o rosto em fúria de Alexandre que se debatia para abandonar o veículo.

– Não me pode impedir de entrar em "minha" casa depois de tudo o que passei hoje- Alexandre foi interrompido pelo Chanceler que o olhava, surpreendido. — Aí é que se engana meu caro Governador, esta não é mais a "sua" casa. Faz agora parte do Império.

Alexandre já não sorria ou pausava. Olhou esgotado o Chanceler. Levou as mãos aos cabelos escuros, procurando as palavras em busca de respostas.

O Chanceler estendia o braço gordo e curto a Alexandre que o olhou já sem forças. Pegou na pilha de folhas agrafadas que pendiam na mão do homem. Finalmente vencido leu os documentos que o outro lhe entregara.

"Eu, Alexandre Meireles Almeida de Albuquerque cedo os meus títulos pessoais, os meus bens e todos os meus cargos anexos aos Associados do venerado Império da Aliança de modo a cumprir cabalmente as funções tão honrosamente a mim concedidas. Mais cito que perante o Império me ofereço também para exercer o cargo de Governador da base de Edin, o terceiro entreposto construído pelo Grupo Inicial da Aliança. Abdicando de todos os privilégios a mim anteriormente concedidos para que possa, de forma plena e equitativa, liderar este entreposto do sacro Império em toda a sua visão..."

– O que significa isto? – Indagava o Barão, fraco, desapontado.

– Que tudo o que é seu, incluindo esta casa, foi confiscado e é agora nossa propriedade. – Respondeu-lhe frio e firme o Chanceler

Alexandre saiu em choque, os portões abertos deixavam antever a rampa que percorreu com as poucas forças que tinha até chegar ao átrio. Sentou-se na borda da fonte do cupido. Uns homens encontravam-se à porta carregando parte da mobília do Governador.

– Despache-se homem, não sei o que faz ainda à espera. Vá buscar a sua mulher e o resto das poucas coisas que ainda tem verdadeiramente suas. Ainda o esperamos para acompanhá-lo ao seu novo posto. – Atiçava-o o Chanceler, que o seguira até à entrada.

Alexandre virava as costas ao Chanceler, dirigindo-se às escadas em mármore que o levavam ao andar superior. – Não tenho que ceder a alguém de quem nem sequer sei o nomeeu sou o Barão Almeida de Albuquerque, a minha reputação precede-me nestas terras, nunca alguém ousou tentar-me tanto! — Gritava mais uma vez enfurecido.

– Eu se fosse a si continuava o meu caminho, seu demente. Ainda não percebeu que nada disto é seu? Construiu castelos na areia, Governador, e estes foram-se ao primeiro sinal de tempestade. Não é mais Barão, não é mais dono de nada, nem sequer da sua nobreza. E tem sorte em ser Governador, porque os homens não têm nome, seu lírico, somos apenas as nossas funções.

A conversa do Chanceler foi interrompida por um grito vindo do andar de cima. O corpo gordo afastou-se um pouco do outro, ficando agora de frente para o rosto do governador.
– Já agora, há algo que deve saber. Deve não, tem. Aliás, acredito que nem preciso de ser eu a dizer. Vá ver a sua «santa esposa», acho que não está muito bem, a pobrezinha.

Alexandre precipitou-se para as escadas, pulando os degraus dois a dois.

No quarto, uma empregada de olhar perdido apontava a varanda ao Governador.

– Lúcia – Conseguiu ainda murmurar Alexandre precipitando-se para o exterior.

Subiu três pequenos degraus que davam acesso ao telhado de olhos fechados e em pânico. Lúcia encontrava-se inclinada do outro lado das grades de protecção prestes a lançar-se. O vestido rosa com que a tinha deixado naquela manhã ainda vestido e ao vento, os cabelos vermelhos desarrumados tombavam com ela em gravidade, o rosto alucinado, de olhos esverdeados vermelhos de esforço.

– Outra vez não, outra vez não — Chorava Lúcia enquanto largava uma das mãos das grades.

Lá em baixo o pânico dos restantes empregados juntou-se em coro, todos olhavam para cima. No telhado, Alexandre tentava a custo impedi-la de arremeter-se para a morte.

– Minha querida – disse-lhe docemente –Foram muitos acontecimentos para que os sigas friamente, bem sei.

Alexandre aproximou-se dela curvando-se, vendo a cabeça da mulher olhar o fundo, muito abaixo dela. Num ápice, agarrou prontamente umas das pequenas mãos frias da esposa. Puxou-a para si, para a segurança do telhado, tombando com ela no chão.

Lúcia tremia e chorava ao mesmo tempo que olhava em transe para o marido.

– Deixa-mese não me matas, deixa-me ao menos morrer. Outra vez não. Não passo por tudo outra vez. Tiram-me a minha casa, arrancam-me de dentro a vida....minha

Alexandre respirou fundo inspirando tragos abundantes de coragem. Como lhe custava ver aquele olhar remoto da mulher sem rumo nem arrojo.

– Desprezo-te, Alexandre. Governador? O meu pai era Governador e "tu" o seu porto. Mataste-osficaste-nos com tudo. Perdi tudo uma vez, se não me matas, deixa-me morrer não posso perder tudo outra veztiraste-me tudoagora também tu ficas sem nada- Alexandre sentado no telhado, ouvia como quem não escuta a conversa extravagante da mulher. Lúcia foi interrompida pelo marido que em desespero lhe encostou a cabeça contra o peito embalando-a. As lágrimas invadiram-lhe o rosto, molhando o peito do marido.

– Eu nunca confessarei isto, mas amo-te demais para te matar, ouviste?

Alexandre finalmente percebia. A decisão saia-lhe plena e de coração: apagaria nele qualquer centelha de orgulho e prosseguiria ao seu lado. Na sua vida sem princípio nem fim, fora Lúcia quem encontrou mesmo sem a procurar, sem saber.

De uma infância vazia, obrigara-a a brotar para uma adolescência cravada de artificialismos. Preocupado em fazer valer os seus jeitos, fê-la crescer uma sombra afastada de si e dos outros numa estrada onde nada se cruzava, nada se misturava no seu rumo onde o horizonte não se via. E guiara-a muitas vezes sem se perguntar porquê, ou para onde a levava.

No telhado, Lúcia já não chorava. Estatificara de cansaço, de mágoa e de dor, o sangue congelado no passado e na perda. Alexandre tomou a mulher no colo entrando com ela no quarto que fora de ambos. No quarto onde 30 anos antes Lúcia nascera.

Desceu as escadas com a mulher adormecida nos seus braços, deixando a casa que conquistara com o seu esforço. O Chanceler esperava-o no patamar da entrada impávido.

– Vamos embora, mas havemos de voltar. Esta será sempre a tua casa. — Murmurou Alexandre à esposa beijando-lhe os cabelos avermelhados.

Ao sair os portões de uma coisa Alexandre estava certo: terra é sempre terra. As rotas que traçava com os seus passos radicais jamais seriam apagadas daquele solo. De relance deitou um último olhar à mansão que deixava em colisão com o passado.

Nos meses seguintes milhares de pessoas haviam também de rumar forçadas ao futuro de Edin.

Num desses dias de 2012, nascia em segredo numa cave da Base, Miguel Meireles de Almeida e Albuquerque, a visão privada do Governador.

****
O carro preto onde seguia Valentyna entrou por uma viela chegando a uma avenida larga. Uma mansão imponente guardava todo o passeio. Ao aproximar-se dos portões esverdeados vislumbrou o lindo átrio da casa com a fonte do Cupido vendado num sono profundo. Lúcia de olhos cor de jade e cabelos avermelhados ao vento colhia buganvílias. Valentyna desviou o olhar da irmã.

– Levo-a até à Base, observadora? – Perguntava o motorista parado numa ruazinha estreita perto da Igreja, apercebendo-se do súbito interesse desta.

Valentyna não respondeu, conversava em segredo consigo própria como se estivesse congelada em si, e este prosseguiu viagem. Deixou-se afundar e poisou a cabeça no banco do luxuoso carro vendo calmamente a casa afastar. Aos seus olhos de terra, irremediavelmente perdidos galgou toda a água que trancara até então.

– A vingança é a minha maior herança, eu forcei a Aliança eu consigo, eu consigo – repetia num choro interior e profundo. Encostou a cabeça na janela e deixou-se adormecer.

Lá longe, na Base de Edin, Colin e César entregavam ao Chanceler o Tratado. A Terra mergulhou nos dias da ira.