Os dias da Ira

5 Fronteiras


Notas iniciais
Desculpem a demora. Mas de férias torna-se mais complicado postar com regularidade. Cá segue, mais uma dose de ira.

Era algo esquisito, essas balizas externas. Nunca percebera muito bem a noção de território, talvez porque as águas fossem o seu mundo e falassem todas a mesma língua, para lá das milhas demarcadas. Já as internas, percebi-as. Tolerava-as. Eram precisas, firmes, seguras, aconchegantes. Tinha.se ensinado a respeitar os limites. E para cada fronteira, um nível mais de tolerância. Desde a partida, já havia livremente ultrapassado tantas dessas barreiras íntimas.
Foi num desses passeios pelo mundo, no baleeiro, que se deparara com ela, escondida no porão. Sim, tinham-lhe pago para ficar com ela. E sim, tinha-se rendido ao sussurro sedutor e fácil do dinheiro.
Só não sabia que há pesadelos maiores na vida que nada nem ninguém consegue compensar. Ela tinha sido o seu. E como o universo se lhe apresentara em ironia. Tinha acreditado que estava a dar um novo rumo à sua vida, que o mundo todo lhe nascia de novo ali, no convés de um veleiro, nas fases da maré. No fundo, precipitava-o para o fim. Sim, no mundo há cargas na forma de menina que nem um velho navio é capaz de carregar...
E para ele, aquela encomenda que ultrapassava continentes, naqueles cabelos ruivos suspensos nuns olhos térreos assustados, seria o seu agoiro, sim, o seu sorriso um início eterno, e o seu fim...

Rússia
Vyborg
Outubro 2012

Roma Orloff percorria as vielas desertas do porto de Vyborg de rosto fechado. Há um ano que as pessoas tentavam encontrar forma de sumir em debandada para fugir à Base. Ele que sempre se mantivera fiel às raízes, também fugia. Se tivesse que morrer, pensava, não deveria ser como foragido, contudo a desonra tornara-se levemente tolerável quando se tratava de sondar os desígnios da morte. Também há um ano que o remorso tomara conta de si, como um peso que não conseguia largar, um fardo.

– Aquela agoirenta é capaz de tudo, até de algo tão pérfido como esta Aliança macabra. E deixou esta cidade quase deserta…já cá não mora ninguém. Acolhia-a em minha casa, dei-lhe um tecto e fiz dela aquilo que é… – Os olhos cansados do velho pescador buscaram o solo como consolo. Nada naquela cidadezinha, anteriormente acolhedora, o conseguia aliviar. A ponte branca do outro lado do porto cada vez mais gasta e sem ninguém para a consertar, as casas de telhados degradados pelo tempo como ecos frívolos de um vácuo sideral. Tudo o chamava e culpava.

Chegou até à porta de um café. Abriu-a abruptamente contra o pendente que ressoou melodioso. O dono, um homem alto e corpulento, bigode farfalhudo e rosto afável, cantava bem alto ao balcão uma música russa enquanto limpava o mármore cinzento. As mesas vazias de mármore escura, o tilintar melodioso e gasto do vítreo invólucro das garrafas, como a única companhia. Trabalhava com o mesmo embalar cadenciado de toda a sua vida, como se os clientes entrassem ainda por aquela porta, num tempo suspenso e já esquecido, quase esquecido...
A cada esfregadela rítmica, levava o pano ao ombro para descansar enquanto olhava desinteressado o exterior, a assobiar. Ao desviar a atenção para a porta percebeu a presença de Roma Orloff, vindo de mais um dia de caminhada errante pelo porto de pesca, e baixou o olhar para o balcão.

– Onde é que ele está? – Gritava Orloff, percorrendo com os olhos o café espaçoso e arejado com uma força demolidora.

Um menino de 10 anos, pequeno para a idade e franzino, saiu detrás do balcão e sentou-se nos altos bancos de madeira do café, duros e desconfortáveis.

– Sasha, não penses que por ser o teu aniversário te livras de apanhar! – Orloff continuava aos gritos, perante o rapaz que lhe lançou uns olhos cinzentos infantis, mas desafiadores.

– Vou-me embora! – Disse-lhe Sasha, olhando o velho no rosto. – Não te queres despedir?

Roma sentou-se à sua frente no balcão, tentando seguir o pensamento da criança e não evitou um leve sorriso.

– Embora, sozinho? És muito novo! Para onde? – Perguntava-lhe, mais em brincadeira do que com seriedade.

Sasha olhou-o mais uma vez, a medi-lo. Analisava cada vinco daquelas rugas tão acentuadas e respondeu, calmamente e baixinho, quase a segredar:

–…para a Base. Não vou sozinho. Aquelas pessoas todas também vão. – Sem coragem de olhar directamente para o amigo e companheiro daqueles últimos anos, a criança levantou os olhos para o tecto, admirando em fuga a bela clarabóia de vidro, debruada a madeira.

Roma não respondeu. O dono do café segurou-lhe o braço, ainda forte de lançar as redes ao mar e de tanto remar, prevendo no velho um impulso comum de pescador. Este levantou-se do banco, deixando para trás o balcão onde Sasha ainda se encontrava sentado, acompanhado do dono sempre em atenção. Espreitou a janela, rectangular e espaçosa, e reparou no grupo que partia escoltado por cinco homens de aspecto animal. Tinha corrido atrás de Sasha com tanta sofreguidão que se esquecera da hora da rusga dos guardas. Mais uns quantos que foram apanhados, a vida agora posta em cheque. Para não ter que se jogar àquela triste sorte, daria até a alma, pensou para si, com vergonha demais para o dizer em voz alta. Agora todo o seu interior se apertava, quando se apercebeu que era tarde, tão tarde. E pela primeira vez em muitos anos de vida, voltava a chorar.

Sasha perdeu o medo de Roma e dirigiu-se a ele, quase sem pensar. O velho mantinha-se imóvel diante da janela, as lágrimas a toldá-lo, em desespero, enquanto via o grupo passar.
– Misha, leva o Sasha para a cave, ainda podes escapar. — Soluçou, lançando um olhar baixo ao homem que saíra do seu local atrás do balcão.

O pequeno pousou-lhe a mão pequena e quente no ombro grande e falou-lhe, quase que como um pai:
– Vou para Abzu porque tenho lá o meu futuro. Não posso ficar aqui. Esta cidadezinha não me deixa respirar. Quero muito mais do mundo do que ele alguma vez me poderá dar…estou farto de me esconder, irrita-me ter que fugir.

Roma desviou a atenção do grupo que partia em êxodo para a Base de Abzu, fitando fixamente o menino "neto" que lhe retirou a mão do ombro, pousando-a no parapeito da janela, olhando deliciado o mundo a abater-se no exterior. O menino olhava deslumbrado os cinco homens com emblema da Aliança que guardavam o rebanho de pessoas que seguia tristemente o seu caminho rumo à Base. Não se importava com o sofrimento desenhado no corpo arqueado dos que se viam obrigados a partir para trabalho escravo.

– Eles sabem o que o mundo espera. Parece que o ouvem respirar. – Falava a criança, mais para consigo, antevendo o medo palpitar no peito do velho.

– Meu pequeno companheiro, tu és novo demais para imaginar coisas, sabes o que eles fazem aos secundários? Mandam-nos para as minas, Sasha! Eu não te quero nas minas…foi ela quem te pôs estas ideias. Eu sabia, desde aquele noite em que foste àquela casa…

Sasha retirou num ímpeto uma faca que se encontrava na mesa ao lado da janela, interrompendo violentamente o velho, bradando numa voz infantil:

– Não falas mais dela…tu não sabes nada da Valentina! Não me podes prender aqui! Olha para isto, tudo velho e degradado…como tu! – O dono do café precipitou-se por trás de Sasha levantando-o facilmente do chão e retirando-lhe a faca da mão pequena da criança. O menino continuava aos brados, como que a uivar, de olhos fechados de raiva.

– Não faz mal, deixa-o. Deixa-o ir. – Repetia fraco e sem certezas o pobre Roma.

O menino, finalmente solto, correu para a porta do café abrindo-a num arrebatamento inocente, ignorando os gritos velhos que o chamavam de volta, num brado.

Saiu para a rua, já a noite ia escura, e juntou-se ao aglomerado que começava a jornada para a Base. Os olhos dos adultos fitavam-no inquisidores, mas o menino não se deixava arrear. Um dos homens da guarda reparou no corpo pequeno escondido entre os desenvoltos e dirigiu-se a ele, puxando-o para fora.

– Não são permitidas crias na Base, fedelho. – Falava autoritária a voz atirando Sasha para o chão. A criança levantou-se superior fixando o Capitão da Guarda.

– Eu não sou uma cria. E já posso trabalhar! Não fico aqui a apodrecer! Faço qualquer coisa, o que quiserem.

O menino reparou em Roma que saia desvairado do café no impulso de o proteger.

– Então não te importa que matemos o velho, pois não? – Indagou o guarda, corrosivo.

– Nem ele, nem ninguém nesta aldeia me interessa. São todos velhos e gastos. De útil, aqui não resta ninguém.

O rosto do homem abriu-se num sorriso

– ...Para além disso...eu sei algo sobre a observadora. A Valentina.

O sorriso no rosto do outro era agora precedido de uma expressão curiosa e pareceu esquecer o rosto velho que saíra do café. Não sabia de deveria, mas por instinto, resolver apostar na história do menino e deixou Sasha seguir com o resto dos escravos.

Roma olhava de longe o seu menino partir e sentia-se pequeno e tão frágil como se não tivesse paradeiro. Vagou pelas vielas sem ver e a ver tudo, a sentir tudo e a sorver cada momento pleno de dor. Ele, aquele menino entregue por ela, a agoirenta, salvava-lhe a vida. E o peso dessa escolha crescia mais, extravasava-lhe os limites...

Caos, degradação, catástrofe. O coração bombeava tão forte que mal conseguia respirar. Levou as mãos ao peito, num sofrimento penetrante e cavado.

– Até tu me trais e não deixas de bater. — Rumava cambaleante ao porto, ainda de mão no peito. O cheiro a urina, sangue e suor, antecessores fieis da morte que arrasava o seu povo, despertavam-lhe o vómito.

Caos, degradação, catástrofe, dor. Maldito o dia em que salvara da sarjeta uma menina…Maldito o dia em que ousara construir um mundo debaixo do seu tecto.

Caos, degradação, catástrofe, dor, remorso, revolta, culpa.

Chegou ao porto que tão bem conhecia e dirigiu-se ao seu barco de menino. Os pedaços de madeira branca e azul esperavam-no no cais. Lembrava-se do dia em que teimara ultrapassar mais uma fronteira num barco com nome de tempestade.

– Dhima...- Gemeu, como se chorasse todas as dores para aquele barco. Puxou-o para a água com as forças que ainda lhe restavam. O vento da noite a esfregar-lhe o rosto de papel. Sentou-se e remou ao nada, o negro no horizonte obscurecendo-lhe os sentidos. – Perdi o meu filho, perdi a minha neta, o Sasha…nada mais me prende aqui. Esta terra usurpa mais do que o que cede! A mim roubou-me tudo! O mundo não é para mim…

Quando já não via terra, guardou os remos, deixando-se levar, à deriva, num rumo certo. "As vastas larguras dos sonhos e vida, os anos vindouros prometem a nós. A nossa força vem da fé…assim foi, assim é e sempre assim será!".

Na praia apenas o lugar onde aportara um dia o barco de Roma demoraria ainda durante largos anos como restos da sua presença nessas terras. Dele e do pescador, apenas o curso encetado à noite no mar, poderia falar.

*****

Sasha viajou com o grupo durante meses pelas planícies áridas dos Montes Urais rumo a Abzu. As calças em trapos deixavam antever as pernas gretadas e os pés ulcerados que mal lhe permitiam caminhar. Pararam perto de uma povoação de nome Miass, onde os mandaram descansar enquanto a Guarda recrutava mais escravos.

Sasha sentou-se na borda do rio, lavou as mãos pretas de fuligem e de terra, inundando as crostas já secas. Procurava despir a camisola rota colada ao corpo suado e ulcerado, afastando-a do tronco com o máximo de cuidado, para conter a dor.

À sua frente, um homem de rosto encovado e esquelético caiu num estrondo, mesmo aos seus pés, num último espasmo de cansaço do físico consumido e esgotado. Sasha não se afastou, permanecendo ali, com o corpo morto a roçar-lhe a pele.

– Enterrem-no! – Ordenou friamente o Capitão da Guarda.

– …tu! Enterra-o! Não penses que vens como apêndice para aqui. – Disse-lhe o homem, apontando para o menino. Os olhos de Sasha permaneceram impávidos. Levantou-se e, enquanto todos de afastavam do cheiro da morte, a criança precipitava-se para os seus braços. Pegou placidamente na pá que lhe ofereciam e andou alguns metros até encontrar uma clareira. Pegou na pá, maior do que o seu corpo infantil e mais pesada do que a sua idade e lançou-a, numa pancada seca, contra a terra. Nada. Era como se aquele solo o desafiasse, como se o olhasse, também ele coso, também ele mostrando-lhe que nunca conseguiria. Custava-lhe respirar e o peito ofegava, as pernas tremiam de fraqueza com o esforço empreendido, mas não cederia. Voltou a desferir um golpe preciso do metal pesado contra o solo e finalmente este cedeu diante dos seus olhos. E Sasha cumprimentou-o, com um leve sorriso de vitória. Um golpe, e mais outro, depois outro, num compromisso sagaz e persistente contra a derrota e durante horas, dias, quem sabe? cavou a cova, leito de morte. Depois, puxou sem emoção o corpo mole pelos braços até ao buraco. Com a pouca força que tinha, virou o corpo leve de lado, chutando-o depois para o fundo. Levantou-se e sacudiu a terra das calças. Naquele momento algo nele se quebrava para sempre. Todos o olhavam. – Como te chamas? – Perguntou-lhe uma voz vinda do grupo que o menino não distinguiu.

– Sasha, apenas Sasha. E, um dia, chegarei a Chanceler!

Sasha saltara destemido as fronteiras dos seus limites. Nada mais o deteria.