Notas iniciais
Ooie gente Como foi o ano novo de vocês? Espero que tenha sido bom ;) Então...tem alguém lendo?Se tiver,manifeste-se. Esse capítulo foi meio curtinho,mas eu queria apresentar a Abby pra vocês. Beijinhos

A maioria das pessoas acha que eu sempre fui solitária.A verdade é que nem sempre eu fui.

A maioria das pessoas acha que eu sempre tive esse jeitinho fofo.A verdade é que nem sempre eu tive.

A maioria das pessoas acha que eu vou morrer sozinha.Talvez elas estejam certas.

As pessoas,na verdade,acham que sabem tudo sobre mim. Mas elas não sabem.

Fui criada na América Do Sul,numa cidade tão pequena e insignificante na fronteira do Brasil com o Paraguai que ninguém lembra o nome.Mas eu era feliz.Eu brincava com outras crianças e me sujava de lama.Eu tinha uma família que se reunia no Natal.Eu tinha uma amiga para se lembrar do meu aniversário.Eu ia regularmente em festas infantis e me divertia.Eu gostava de ler e minha mãe toda noite lia para mim.

A minha vida era boa.

Até que meu pai foi embora com uma mulher que ele amava mais que a minha mãe.

Eu fiquei triste.Parei de ir brincar com as outras crianças e comecei a achar nojento me sujar de lama.A família do meu pai parou de vir passar o Natal comigo e com minha mãe.Distanciei de mim a única amiga que se lembrava do meu aniversário.Os convites para as festas de aniversários infantis pararam de chegar.Minha mãe não tinha mais tempo para ler de noite para mim.

A minha vida era ruim.

Eu tinha apenas dez anos,mas tinha indícios de depressão.

Minha mãe gastava fortuna com remédios.Ela nem reclamava.Ela dizia que me amava mais que tudo nessa vida e que o dinheiro não importava,contanto que eu ficasse bem.

Eu amava ela mais que tudo nessa vida,também.Ela era a única pessoa que me restava.

Um dia eu resolvi ir falar com o meu pai.Eu sabia que ele não estava morando muito longe assim,porque ele me mandava cartas que minha mãe nunca me deixou ler.E nessas cartas haviam endereços.Simplesmente copiei o endereço num papel e fiz uma mochila com o essencial para sobreviver.

Seria uma viagem de dois dias.

E eu fiz a viagem.Enfrentei o frio e o calor extremos.A comida não acabou,mas a água era pouca.Eu implorei para uma senhora que morava pelo caminho por uma garrafa com suco e ela me deu.

Consegui chegar na casa do meu pai.

Era um chalezinho que parecia bem pequeno.Era época de frio,então o chalé ficava no meio da neve.Era contruído de madeira e tinha uma chaminé que liberava um risco de fumaça pelo céu.

Era uma casa linda.

Cheguei mais perto.A adrenalina pulsava nas minhas veias naquele instante e quase me fazia desmaiar.Mamãe deveria estar louca com o meu sumiço.Papai estaria em casa,sem nem saber do que aconteceu.

Parei em frente a uma janela.Estava embaçada.Devia estar bem quentinho lá dentro.

“Será que papai vai me deixar entrar?” pensei comigo mesma.

Passei a minha mão sobre o vidro,com a esperança de conseguir ver melhor.Com a esperança boba de que oque eu visse,me deixaria aliviada por algum motivo.Feliz.Com a sensação de dever cumprido.

Mas oque eu vi fez meu coração sangrar.O cortou em dois com apenas uma facada.

Eu vi uma mulher sentada no chão.Uma mulher morena.Ela estava segurando um bebê loiro.E no momento que eu vi o loiro daquele bebê,lembrei de todas as vezes que mexi no cabelo do meu pai.O tom era o mesmo.

Meu pai tinha tido outro filho.Tinha me abandonado.Me esquecido.

Ele não ia voltar nem que eu implorasse.Eu não era mais a única filha dele.

Dei passos para trás.Minha respiração estava cortante.Continuei a andar para trás.Andar para trás.Eu não conseguia acreditar.Continuei andando sem nem olhar.Minha cabeça estava doendo demais.

Até que eu pisei em alguma coisa molhada.Senti algo puxar meu pé,como se fosse uma correnteza.Gritei bem alto.

Eu caí num rio.

*****

Com o tempo, aprendi que as melhores pessoas são invisíveis a olho nu. A gente não consegue percebe-las instantaneamente. E mesmo se passarmos horas procurando, é complicado de achar. O jeito mais simples que me ensinaram para descobri-las é testando-as.

Mas acho que se eu testar alguém para descobrir sua natureza, isso me tornará a vilã da história.

E mesmo assim eu o testei e descobri que esse método pode ser inconclusivo.

Então, como descobrir?

Como saber?

Como confiar?

Será que devo arriscar a possibilidade de sair tudo isso com um coração estraçalhado e partido ao meio?

Nem sei se estou pronta.

E mesmo se estivesse, do que adiantaria?

São quatro casas. São quatro fundadores. Não três casas e três fundadores.

E por mais que eu não goste deles, ser ambicioso não é uma boa coisa?

Oras, todos querem alcançar seus objetivos.

Mas acho que eles... Que ele... Não conseguem perceber que algumas coisas não podem sacrificar. Não percebem que, às vezes, temos que perder por bem comum.

Eles são egoístas demais.

Isso nos torna opostos.

Eu sei colocar as outras pessoas na frente de mim quando necessário. Eu sei que posso ser altruísta quando preciso. Sempre fui assim. E não, não estou me gabando. Longe disso. Não sou a melhor pessoa do universo.

Não sou melhor que eles. Ou melhor, que ele.

Mas, mesmo assim, continuamos opostos.

E simplesmente não consigo ignorar isso.

–Por que você parou de ler?-pergunto para Rose.

Rose é a melhor em ler em voz alta,pois é a que mais faz isso.Decidimos que ela leria oque estava escrito no diário para todas nós,já que se nos amontoássemos em cima do caderno,nenhuma conseguiria ler nada.

–Porque acabou –ela responde.

–Como assim acabou?-pergunto.Não estou entendendo.É um diário enorme.Como pode não ter nada mais escrito?

Ela me joga o caderno,impaciente.Ela está muito nervosa hoje.Por que será?

Abro o caderno na primeira página.Lá está escrito tudo oque ela acabou de ler para nós numa caligrafia caprichada e arrastada.É bonito.Admiro as pessoas que conseguem escrever assim.Viro a página.Realmente,não tem nada mais escrito.

–Que estranho-digo.

Fecho o caderno com cuidado e o coloco em cima da cama de Rose.

–O que será que isso significa?-pergunta Rose,nos encarando.

Estamos todas olhando uma para as outras,pensando.Não é comum acontecer oque acabou de acontecer.Uma gaveta trocada e um diário que,supostamente,pertence a bruxa que fundou Lufa-Lufa.Estranhamos isso.Coisas assim nunca acontecem por acaso no mundo da magia,todas sabemos.

–“Isso” o que?-Mabel a questiona.

–Tudo,Mabel,tudo.Uma gaveta que não é minha,esse diário,isso que está escrito...o que significa?

Ninguém diz nada por um tempo.Sinto que todas estão se encarando com olhares questionadores,mas não faço o mesmo.Continuo olhando para a gaveta.

–E se for alguém tentando pregar uma peça na gente?-sugere Cecília.

–Como?- digo – Só se for alguém da Lufa-Lufa.E não é do perfil dos Lufanos fazer coisas assim.

–Coisas assim,tipo,se divertir?-pergunta Rose,levantando uma sobrancelha,como se me acusasse de algo.

–Ah,você por acaso acha isso divertido?-questiono.

–Não.Mas quem fez deve se divertir muito nos vendo agir feito palhaças.

Ela parece estar muito irritada.Acho que oque acabamos de ter é uma discussão,pois ela pega o caderno de cima da sua cama,abre a gaveta e o joga lá dentro de novo.Empurra a gaveta com força,produzindo um enorme barulho.

–Boa noite-diz ela.

Ela sobe na sua cama e desliga a luz.Todas fazemos o mesmo.

Mas,quando estou quase dormindo,o mesmo pensamento ocupa minha mente.

“O que foi que aconteceu?”

*****

–Você tá estranha,Abby.Aconteceu alguma coisa?

“Aconteceu,Hugo.Aconteceu.Aconteceram coisas nos últimos dias que não deveriam ter acontecido nem em dois anos.

Muita gente que eu queria longe,voltou.

Muita gente que eu queria por perto,foi embora.

De noite,só paro de chorar quando penso que vou inundar todo o quarto.Toda manhã tenho que colocar a fronha do meu travesseiro para secar e substituir por outra. E eu acho que Amália percebeu.Não quero que ninguém perceba.

Não quero que ninguém me perceba.É mais fácil sendo invisível.

Quero dormir e nunca mais acordar.

Quero parar de agir como uma dramática,mas parece que minha vida foi escrita por alguma pessoa dramática que não se cansa de desavenças.

Eu acho que estou me perdendo.

E não sei como me achar.”

–Estou bem,Hugo – respondo.

*****

Bolo.Deus,como eu amo bolo.Bolo de chocolate,ainda mais.Me lembra o brigadeiro que eu costumava comer quando morava perto do Brasil.

Eu achava que,quando viesse para Londres,ainda conseguiria arranjar em qualquer esquina uma lata de leite moça e fazer meu doce preferido a qualquer instante.Bem,eu descobri que não é bem assim.Brigadeiro é um privilégio que só o Brasil tem.

Mas,para ser honesta,esse bolo de chocolate que Calbert comprou é tão bom quanto brigadeiro.Ou quase tão bom.

Mas é ótimo.Eu provavelmente vou engordar uns dois quilos...mas dane-se!Quero outro pedaço!

Quando chego perto da mesa principal,peço há uma primeiranista mais um pedaço.Ela sorri enquanto assente.Vejo ela cortando o bolo com cuidado e sinto alguém ao meu lado.

–Se você comer mais um pedaço de bolo,Abby,juro que você vai explodir.

Se qualquer pessoa tivesse me dito isso,teria levado um belo soco na cara.Mas,bem,Ivan não é uma pessoa qualquer.Primos não estão num nível tão rebaixado assim.

–Me deixa ser feliz,Chang-respondo.

–Seja feliz,mas no seu peso atual,querida.

–Se para ser feliz eu tiver que ter alguns quilos a mais,não me importo.

A primeiranista me dá um pedaço de bolo.Agradeço.Sinto a água na minha boca quando vejo aquele monte de chocolate em cima do prato de plástico.

Me afasto da mesa e vou me espremendo entre um mar de pessoas para conseguir andar.Quase derrubo meu bolo e tenho certeza que levei pelo menos uns dois chutes na caneca,mas me sento perto da janela da sala comunal depois de algum tempo.

Observando todas as pessoas da Lufa-Lufa rindo,cantando e dançando,nem parece que estamos na festa de algum garoto.Parece mais que estamos em um festival familiar.

Claro que eu consigo ver claramente um casal se agarrando na parede(num amasso tão intenso que tá quase passando para algo mais) e alguns adolescentes bebendo coisas para maiores de dezoito.Mas,bem,estão todo se divertindo.Quem sou eu para julgar a felicidade deles?

Também estou feliz,sozinha,com meu bolo de chocolate.

Por mais que a minha mente insiste toda hora em voltar a pensar na carta que esta jogada em cima da minha cama.

Antes deu conseguir ficar deprimida,sinto alguém se sentar ao meu lado.Viro minha cabeça levemente e vejo Ivan.Nem tinha percebido ele me seguindo.

–Sabe,é por isso que você não fica com ninguém.

–Eu fico com pessoas,ok?Estou ficando com você agora.E,daqui mais ou menos uns quarenta minutos,tenho que ficar com Hugo na biblioteca.E depois do jantar,ficarei com as minhas colegas de quarto até todo mundo acordar para um novo dia.

Ele revira os olhos.

–Não estou falando sobre o sentido literal de ficar,Anderson,e você sabe disso.

Pego uma garfada de bolo e como.Ah,que maravilhoso.

–Sei.Mas,olha,Ivan,eu realmente não estou interessada em trocar saliva com ninguém no momento.

–Trocar saliva com outras pessoas,minha querida,é um dos maiores prazeres da vida.

–Não para mim.

–Como você sabe se ainda não experimentou?

Respiro fundo.Santa paciência que eu tenho.

–Podemos mudar de assunto?

Assim que eu falo isso,olho para o lado e vejo alguém tampando os olhos de Ivan com as mãos.Mãos com unhas enormes pintadas com um verde estranho.Olho para cima e vejo uma ruiva mastigando chiclete.

Olho para Ivan e vejo ele sorrindo.

–Quem é?-ele pergunta.

Olho para a garota.Meu pescoço começa a doer.Ela faz biquinho.

–Quem você acha?

–Huumm...não sei.Quem?

A garota ruiva tira as mãos de cima do rosto de Ivan,sorrindo, e praticamente pula em cima do colo dele.Os dois começam a se agarrar e a situação começa a ficar um pouco constrangedora para mim.

Quando dou uma olhadinha no amasso deles(e não,não sou uma pervertida),vejo que Ivan está sorrindo.

O Ivan apaixonada é pior que ele pegando geral.Ele fica simplesmente de bom-humor todo santo dia.Oque me irrita muito.Além de suas insistências para eu perder o BVL.

O resto da festa se passou lentamente.Sem nada de muito surpreendente,na realidade.