Os contos de Lucy

1 Sexta-Feira 13 - O começo


Notas iniciais
E aqui, se inicia a saga da nossa adorável Luciana. Comentem!

Era uma sexta-feira 13 e meu aniversário. Seria um dia normal, senão fosse por ser a droga do meu aniversário. Eu detesto essa data, a ideia de ficar cada vez mais velha é apavorante. Acreditem, esse é o pensamento quando se passa do 20. Pois bem, naquele dia resolvi faltar às aulas da faculdade, afinal, eram aulas inúteis. E era meu aniversário, queria um dia de folga. Ninguém me incomodou em minha decisão, afinal, ser dona do próprio nariz tem lá suas vantagens. Então decidi arrumar o meu quarto que estava uma zona. Ele ficava no primeiro andar (porque eu tinha um certo trauma de escadas), e era um cômodo grande. A verdade, é que aquilo era pra ser uma sala de visita, ou uma biblioteca, ou coisa do tipo, mas meu pai adaptou ele para que fosse meu quarto, unindo-o ao banheiro que ficava ali do lado. Havia até uma lareira, o que eu achava um charme. Apesar de ter dois gatos enormes esculpidos em suas laterais, era algo realmente útil, para empilhar tralhas, é claro. E foi por ali que eu comecei.

Papai limpou aquela lareira que estava imunda quando ele comprou a casa, e então pediu para que forrassem ela com madeira e a fechassem para que não entrasse nenhum pequeno animal, foi quando eu resolvi usar ela para empilhar umas caixas que eu guardava livros antigos e revistas, e até mesmo algumas porcarias que eu nem sabia que existiam. Primeira coisa que eu fiz foi arrastar todas aquelas caixas dali e me dedicar em retirar o útil e o inútil, afinal, já estava começando a faltar espaço para guardar tanto livro da faculdade. Fiquei a manhã toda ali, só parando para comer um macarrão instantâneo no almoço. Passei a empurrar as caixas para um canto do quarto, tirar livros e empilhar eles na cama, até que enrosquei uma caixa em alguma coisa e só então percebi que ela um livreto fino escondido em baixo do tapete da frente da lareira. Quando o abri, percebi que só havia um monte de desenhos feitos em nanquim, provavelmente, de criaturas esquisitas, gatos, palavras ininteligíveis... Por fim, joguei o livro para o lado, desinteressada, murmurei qualquer coisa sobre crenças ridículas e me encostei no pilar que sustentava a lareira, fechando os olhos e cochilando.

Acabei dormindo demais, provavelmente. Quando abri os olhos, estava tudo uma escuridão ridiculamente sinistra. Meu corpo estava todo rígido e dolorido, e demorei alguns minutos para conseguir me levantar. Cambaleei tropeçando nos livros e caixas que eu havia deixado no chão, tateando cegamente a parede em busca do interruptor. Assim que o encontrei, tentei acender a luz, mas parece que tinha algo errado.

– É isso que dá comprar casas velhas. — reclamei, procurando o trinco da porta — Essa fiação sempre dá alguma merda.

Com um suspiro de frustração, abri a porta e me deparei com mais escuridão.

Revirei os olhos e praguejei aquela maldita casa, mandando ela pro inferno junto com aquela rede elétrica estúpida. Caminhei tateando as paredes e tropeçando em coisas no caminho, não conseguindo enxergar porcaria nenhuma na minha frente. Me sentindo ridícula por estar caminhando cegamente no meio do nada, consegui alcançar uma porta, e sabe-se lá como, era, por sorte, a porta da frente de casa. Ou não. Por que estava tudo nublado, sem lua bem frio, pesado, e senti arrepios pelo meu corpo. Um estranho sentimento parecido com medo me invadiu de repente. Fiquei sentada nos degraus da entrada, incrédula, até que resolvi me levantar. Caminhei devagar pelo jardim, tomando cuidado com as flores da minha mãe, até que me assustei quando um gato preto passou correndo pela minha frente.

– Olha por onde anda, bola de pelo idiota! — berrei furiosa, irritada de repente.

Chutei uma pedra e caminhei até os balanços velhos do terreno, que meu pai insistiu em deixar ali, porque fazia "parte da paisagem". Me pergunto que porcaria de paisagem.

A frente da casa era grande, bem arborizada, com algumas mesas e bancos esculpidos em pedra, algumas flores e calçadas. A entrada ficava distante dali, por isso eu não conseguia ver se a rua também estava sem luz ou se era só a fiação da velha mansão. Fiquei sentada, frustrada, olhando para os lados, entediada. Um miado me distraiu e eu olhei da direção que parecia vir, e foi quando vi aquele gato preto de novo. Ele sentou na minha frente e ficou me encarando com um belo par de olhos verdes. Invejei aquele gato.

– Perdido, é? Pois bem, aqui não é sua casa, volte de onde veio.

Falei, fechando os olhos e ficando encostada nos cabos que sustentavam o balanço.

Depois de alguns minutos abri os olhos e o gato havia sumido, sorri satisfeita. Mas meu sorriso desapareceu quando um som vindo das árvores me fez ficar apavorada. Era uma noite escura, sem luz, e eu estava sentada feito uma imbecil do lado de fora da casa, sozinha. Até então, eu não lembrara dos meus pais, mas naquele momento eu rezei para que eles só estivessem atrasados e meu irmão na casa de uma das várias namoradas dele. E não capturados e presos dentro da casa e o assassino fosse aquela maldita sombra se movendo na minha direção!

– Mas que merda! — balbuciei num sussurro esganiçado.

Aquele vulto era grande e parecia musculoso. Estava distorcido, mas eu conseguia ver ele claramente andando na minha direção. Arrepios me percorreram a espinha e eu gelei. Boa coisa não era, nem ferrando, senão eu não estaria apavorada daquele jeito.

Como se ninguém ficasse apavorado em ver uma sombra no meio da noite!

A coisa mais certa a se fazer seria levantar e sair correndo. Mas eu fiquei sentada, paralisada de medo. Foi quando algo agarrou meu pulso esquerdo com violência e começou a me arrastar pela grama do jardim. Eu tentei me debater e me soltar, mas estava sendo puxada feito um trapo, sentindo os espinhos das roseiras arranharem minha pele e a terra sujar toda a minha roupa. Tentei gritar, mas não achei minha voz. Onde estava a porcaria dos músculos da minha boca quando se precisa deles!

Assim como fui agarrada, fui solta. Aquela mesma força bruta que me arrastou, me largou no fim do jardim, entre algumas árvores. Ofegando e suando frio, eu me levantei rapidamente, mas uma vertigem me atingiu e eu caí no chão, desajeitada, batendo meu corpo numas raízes e sentindo os hematomas se formando. Sentei, trêmula, sentindo as lágrimas salgadas escorrendo feito cascatas pelo meu rosto. Eu estava tão assustada que soltei um grito agudo quando algo se moveu nas moitas ao meu lado. Num ato desesperado, sem conseguir firmeza nas minhas pernas, engatinhei para longe o mais rápido que eu consegui, mas novamente aquela coisa agarrou meus cabelos com violência e eu fui jogada para o lado. Caí e senti quando uma pedra afiada arranhou a lateral do meu corpo. Minha cabeça bateu em alguma coisa que imaginei ser uma raiz, e fiquei zonza. Tirando forças sei lá de onde, eu consegui me colocar em pé e tentei correr, mas derrapei quando um vulto negro passou com velocidade na minha frente. Virei em outra direção e corri ainda mais.

– Me deixem em paz! — berrei, para seja lá o que fosse.

Um som sinistro que pareceu uma risada ecoou nos meus ouvidos, e novamente o pavor me dominou.

Corri, o que pareceu por alguns segundos, antes de me chocar contra um corpo. Gritei e comecei a me debater enquanto braços fortes me envolviam num abraço de ferro, me prendendo.

– Shh!! — ouvi, e algo macio roçou na minha lombar por baixo da minha camiseta.

Senti um arrepio, e logo me acalmei.

Chorando, fui levada para algum lugar, e então fizeram eu me sentar e aqueles mesmos braços me apertaram com força contra seu corpo. Sem entender muito bem, me aquietei, enquanto vozes e vultos passavam por ali. O pavor ia crescendo dentro de mim, quando novamente aquela coisa violenta me agarrou pelos cabelos e me puxou, me tirando daqueles braços que tentavam me acalmar. Fui jogada no chão, e senti um peso enorme sobre meu corpo, que impedia meus movimentos. Algo queria me enforcar, apertava meu pescoço com uma força ridiculamente fora do normal, e eu não conseguia me defender. Não conseguia respirar, nem me debater, nem nada. O desespero foi crescendo, e eu sentia as lagrimas queimarem meus olhos e escorrerem pelo meu rosto. E novamente, fui solta.

Arfei e ofeguei. Levantei e comecei a correr, tropeçando, caindo e me levantando. Dessa vez, encontrei o caminho da mansão e disparei até lá. A porta não se abria, por nada, eu socava e chorava, berrando, chamando por alguém. Sentindo aquela coisa, ou coisas, se aproximando. Num ato desesperado, me joguei contra a porta com toda a força possível e ela se abriu. Caí sentada no chão e vi o vulto próximo demais. Chutei a porta novamente e ela se fechou. Fiquei jogada no chão, encarando a escuridão com os olhos esbugalhados e ofegando. Eu suava tanto que pingava, minha roupa estava toda molhada, e quando recuperei a noção de tudo, me levantei e corri até a cozinha. Mesmo no escuro, tentando ligar as luzes de todas as formas, achei o telefone e rapidamente disquei o número do meu pai, mas só então percebi que ele estava mudo. Sem vida. Mal coloquei-o no gancho e ele tocou. Pensando ser meu pai, atendi rapidamente, mas novamente fiquei paralisada quando, o único som que eu ouvi do outro lado da linha, foi uma respiração pesada e molhada, ofegante. Soltei ele e sai correndo da cozinha, indo até meu quarto. Passei direto e me tranquei no banheiro, sentando no vaso e choramingando baixinho.

– O que é isso... o que... é isso... — sussurrava, quase sem voz, desesperada.

Ouvi o telefone tocar novamente, e taquei as mãos na boca para evitar um grito de susto.

Alguma coisa me causou náuseas e eu só tive tempo de abrir a tampa do vaso sanitário e vomitar violentamente ali. O gosto era de ácido. Era de sangue. E era sangue puro. Quando finalmente pareceu ter acabo, puxei a descarga e fui lavar a boca. Enxaguei, e aproveitei para lavar o rosto. Trêmula e respirando nervosamente ainda, tentei encarar meu reflexo no espelho, e apesar da escuridão, algo manchava meu rosto. Passei a lavar o rosto furiosamente, e quando finalmente parei para notar o que era, percebi que meus olhos sangravam. Soltei um grito de terror com meu reflexo distorcido no espelho e minha reação foi socar. Os cacos se enterraram na minha pele e eu urrei com a dor. Dei passos para trás até bater contra a parede e deslizar até o chão. O telefone disparou em toques novamente e eu tentei ignorar.

Quando finalmente obtive silêncio, tentei me acalmar e pensar da forma mais racional possível. Meu rosto estava sujo de sangue seco, e minha mão latejava devido aos cacos nela. Aquilo podia ser um sonho, claro de podia, era o mais lógico, mas a sujeira do meu corpo e os hematomas me impediam de acreditar nisso. Talvez pudesse ser um psicopata, mas e aquele sangramento? E o vomito cheio de sangue? Doença? Loucura? Eu não sabia o que fazer. De repente, uma frase que eu dissera mais cedo automaticamente saiu dos meus lábios numa voz rouca e fraca:

– Não tenho medo... porque não existe.

Por alguns minutos, fiquei pensativa e apavorada. Mas logo, explodi em raiva. Gritando, saí do banheiro e fui caminhando pelo meu quarto até a porta.

– Não existe! Isso não passa de ilusão! — falei com raiva — E eu não tenho medo!

Com essa última frase, algo passou fazendo vento do lado da minha cabeça e foi se quebrar contra a porta, em fiapos. Quando olhei, percebi que era um enfeite de cristal que minha mãe havia me dado no verão do ano retrasado.

Senti uma presença atrás de mim e tentando manter a calma, fui me virando lentamente, esperando ver algum monstro bizarro ou coisa do tipo, mas minha surpresa foi ainda maior ao ver um rapaz alto, de ombros largos, cabelos morenos e olhos verdes que cintilavam na escuridão. Sua pele era não chegava nem perto de ser negra, mas também não podia ser considerada branca. E ele era absurdamente lindo.

– O que... diabos... quem...

Uma expressão de preocupação e constrangimento atravessou sua face. Ele suspirou e estendeu a mão para mim. Num ato de desespero, me afastei e ergui as mãos em defesa.

– Se isso é uma piada, já perdeu a graça. — gaguejei.

Ele não disse nada, apenas se aproximou rapidamente e me puxou pelo pulso até minha cama. Fez eu me sentar ali e tomou minha mão ensanguentada e cheia de cacos de vidro nas dele, analisando-a.

Fiquei o encarando, sentindo minha respiração ir se acalmando aos poucos. Meus olhos ardiam por causa das lágrimas, e eu estava me sentindo exausta. Vários pensamentos me invadiam, e eu podia sentir aquelas presenças medonhas tentarem entrar no meu quarto, na minha casa. Gemi de dor quando aquele rapaz puxou um caco de vidro fundo da minha mão, que fez escorrer mais sangue. Ele pegou algum tecido que eu não vi de onde e pressionou contra meus ferimentos.

– Estou com medo... — sussurrei, de repente.

Nunca havia admito aquilo antes, mas naquele momento, eu estava sim, apavorada. Tremendo de medo. Sem saber o que fazer.

O rapaz ergueu seus olhos verdes até mim e se levantou. Seus braços me envolveram e eu me vi aquecida e repousando no colo de um desconhecido. Seus dedos acariciavam meu cabelo, e eu suspirei. O sono foi me consumindo, e a única coisa que senti foi lábios quentes se moldando nos meus, antes de eu cair completamente num sono profundo e tranquilo, livre de todo aquele medo de antes. Lembro-me de ter captado uma última imagem, que foi meu relógio digital piscando em vermelho exatas duas horas da manhã.

[...]

Acordei com uma dor de cabeça sensacional. O sol quente que atravessava a fina cortina me fazia suar, e eu chutei minhas cobertas, me espreguiçando o máximo que eu consegui. Meu estômago roncou e eu me sentia um trapo. Levantei e caminhei até o banheiro, indo até a pia para lavar meu rosto, mas parei ao notar minha mão enfaixada com um tecido sujo de sangue. Meus olhos se arregalaram e eu fitei o espelho. Meu rosto estava todo manchado de sangue seco, minhas pálpebras e cílios também. Meu cabelo estava desgrenhado e sujo de terra, assim como meus lábio secos e rachados. Desviei rapidamente o olhar para o vaso sanitário, e notei algumas gotas de sangue secas ao redor dele.

– Deus... não foi um sonho...! — pensei num desespero que me fez ofegar.

No entanto... algumas coisas não estavam como antes. E uma delas era o espelho.

Apesar da minha mão latejando de dor e suja de sangue, o espelho estava intacto. Voltei para meu quarto e observei-o. Estava tudo em seu lugar, exceto as caixas que eu estava revirando no dia anterior. Tropecei até eles e baguncei tudo, procurando aquele maldito livreto cheio de imagens. Não o encontrei. Revirei meu quarto inteiro, mas nada dele. Contive um grito de susto ao ouvir batidas na porta.

– Luciana, vem tomar café logo. — chamou meu pai do outro lado da porta, e eu soltei um suspiro de alívio.

Soltei um resmungo, com medo de abrir a boca e minha voz sair esquisita. Ele deve ter ouvido, porque não insistiu mais.

Voltei para o banheiro e me enfiei debaixo do chuveiro. Percebi todos os hematomas e arranhados no meu corpo, mas me lavei bem. Inclusive minha mão cheia de sangue e cicatrizes. Sem entender absolutamente nada, me vesti, penteei o cabelo, enfiei uma luva sem dedos para esconder as cicatrizes e desci tomar café. Chequei o telefone e as luzes, e tudo estava funcionando normalmente.

Eu não sei o que diabos foi aquilo, mas quando perguntei que horas meus pais haviam voltado, eles me disseram que chegaram perto da meia-noite e eu já estava dormindo. Perguntei a data, e meu irmão dissera que já era sábado, e que o dia maldito já havia passado. Sem nada mais responder, resolvi aceitar aquilo, mesmo sem entender, e não falei nada. Quem iria acreditar? Nem eu conseguia acreditar naquilo. Que fosse... talvez eu nunca mais soubesse o que estaria havendo ali... ou teria que esperar a próxima sexta-feira treze.