Os contos de Lucy
2 Sexta-feira 13 - Dois
Notas iniciais
E de novo era uma sexta-feira treze. Como se já não bastasse minha recente experiência com o incomum no meu aniversário, lá estávamos nós de novo naquela porcaria. Eu juro que fiquei tentada a me trancar no banheiro e não sair mais dali, mas eu não poderia faltar à faculdade, afinal, precisava entregar um trabalho. Por isso, levantei cedo, tomei um banho, peguei meu carro e fui. Agradeci mentalmente quando cheguei no prédio da universidade e percebi que estava tudo normal.
Me sentindo um pouco paranóica com tudo aquilo, resolvi tentar esquecer aquele acontecimento e me concentrei nas aulas e na apresentação do trabalho. Como tudo correu bem, eu acabei esquecendo do que me amedrontava. No almoço, senti um aperto na cintura e me virei para trás assustada, mas ouvi um riso maléfico quando Gustavo — um dos meus passa-tempos favorito — estava me olhando e sorrindo de canto. Eu estreitei o olhar e o encarei, confusa.
– Sim...? — indaguei, esperando que ele falasse o que queria.
– Primeiro, quero dizer que você estava... — ele parou a frase e desviou os olhos, parecendo procurar uma palavra certa — deliciosa, na apresentação do trabalho.
Arqueei uma sobrancelha e deixei um meio sorriso aparecer no canto dos meus lábios. Ah, qual é? Meu ego feminino também gostava de elogios.
– E segundo... Quer almoçar comigo?
Aquela pergunta me fez ficar um pouco confusa, mas considerando que eu estava faminta e que ele era um ótimo cozinheiro, aceitei sem rodeios.
– Quero.
Ele sorriu quase como se tivesse ganhado uma batalha. Olhou para os lados como se procurasse algo e então me roubou um beijo rápido, mas intenso. O suficiente para me fazer cambalear e arfar quando ele me soltou. Gustavo riu e eu soquei seu ombro.
– Vamos, eu estou de carro. — murmurei, e me virei para o estacionamento.
Dirigi até seu apartamento no centro da cidade, onde ele morava sozinho.
Gustavo sabia cozinhar muito bem, além de fazer aquilo sem camisa e com um avental. Tudo bem, podem me julgar, mas aquele homem era um pecado. Cabelos ruivos, pele levemente bronzeada e um corpo escultural. Almoçamos e lavamos a louça, juntos, quase grudados. Ele se roçava em mim o tempo todo, e mal tinha guardado o último prato quando Gustavo me agarrou pela cintura e me colocou sentada na mesa, apertando meu corpo e me beijando ferozmente.
É, aquilo tudo acabou na cama.
Voltei pra casa já era noite. Ainda conseguia sentir as mãos e os lábios de Gustavo na minha pele, que parecia estar toda sensível depois da sessão de sexo sem compromisso. Além de um pecado, ele era um demônio do sexo. Tenha dó...
Infelizmente, quando entrei no meu quarto, notei que a luz não acendeu. Fiquei paralisada de medo, encarando a escuridão. Quando o telefone tocou que eu percebi que estava segurando a respiração por tempo demais. Acabei gritando com o susto. Hesitei, mas fui até o telefone. O peguei e coloquei no ouvido.
– Lu? É você? — ouvi a voz do meu irmão do outro lado da linha.
Suspirei de alívio.
– Sim.
– Mamãe mandou que eu te avisasse que ela se atrasou no trabalho e vai ficar até mais tarde, e eu vou dormir na casa da Vitória. — ouvi um "OI CUNHADA" do outro lado da linha e afastei o telefone da orelha com o grito.
Vitória era namorada de Lucas, meu irmão, apesar dele se recusar a assumir aquilo.
Balbuciei uma resposta e coloquei o telefone na linha. Sozinha de novo. Fiquei apavorada e corri para o meu quarto, mas inesperadamente, um baque se fez na lateral do meu corpo e eu fui arremessada até uma pequena estante de livros da sala, sentindo quando uma garrafa de vidro, que era parte da decoração, se quebrou em meu ombro. A queimação dos cacos me fizeram gemer de dor.
– De novo! Por favor, pare! — gritei, chorando alto.
Agarrei meu ombros e me levantei com dificuldade, cambaleando e gritando novamente quando a luz do salão que eu estava se apagou.
Disparei cegamente até o meu quarto, implorando ajuda para quem quer que ouvisse. Fechei a porta atrás de mim e corri até o banheiro, trancando-o também e ligando o chuveiro, deixando a água fria lavar meu ombro ensanguentado. Com dificuldade, arranquei alguns cacos de vidro dali.
Batidas fortes na porta do meu quarto me fizeram gritar, novamente implorando para que parassem com aquilo. Chorava alto, soluçando, enterrando o rosto nas minhas mãos. O som da água do chuveiro caindo aos poucos foi me acalmando, a medida que as batidas na porta foram parando. Exausta, acabei cochilando. Um erro. Quando acordei, havia sido arrastada para fora de casa, sabe se lá como, e estava deitada sobre a relva úmida. Me levantei e corri, para qualquer lado, tentando fugir. Um baque surdo logo à minha frente me fez parar e gritar, caindo. Encarei o corpo à minha frente, e percebi que era realmente uma pessoa, mas não tive coragem de me aproximar mais. A pouca claridade da noite me fez perceber que era uma garota, com a roupa toda rasgada e ensanguentada. No seu rosto, olhos esbugalhados, assustados, manchados de sangue. Chacoalhei a cabeça e desviei o corpo, voltando a correr. O que quer que fosse, dessa vez, era real. E já havia encontrado uma vítima. E a próxima, provavelmente, seria eu.
Alguma coisa me agarrou pelos cabelos, e como na primeira vez, eu fui lançada para o lado. Várias vezes, até que não tinha mais forças para lutar, me deixei cair sentada apoiada em uma árvore. Ofegando, fiquei encarando o céu escuro à minha frente, quando, como que com um estalo, lembrei da chave do carro no meu bolso. Sem pensar duas vezes, levantei e saí correndo na direção do meu carro que estava para fora da garagem. Senti quando, o que quer que fosse, tentou me derrubar várias vezes, mas decidida eu continuei correndo. Quando alcancei meu carro, o destravei e pulei para o banco do motorista. O liguei, engatei a ré e meti o pé no acelerador. Derrapei quando fui fazer a volta, mas rapidamente o controlei e comecei a dirigir sem realmente ter um rumo.
As ruas estavam desertas, e logo passei a dirigir mais devagar. Sem me dar contra, entrei numa rua desconhecida, e então parei em frente a uma construção antiga. Fiquei encarando o prédio, quando um movimento perto do carro chamou minha atenção. De início, me assustei, desesperada, mas logo me acalmei ao perceber o rosto conhecido daquele rapaz de olhos verdes. Nós ficamos nos encarando, por longos momentos, até que o toque alto do meu celular me fez pular. Me virei para pegar ele dentro da bolsa que estava no banco de trás e atendi, sem olhar o número. Quando voltei a olhar para frente, notei que o rapaz havia sumido. Com um suspiro, proferi.
– Quem é?
– Volte para casa. — ordenou uma voz ameaçadora do outro lado da linha.
Minha garganta ficou seca, e eu comecei a ofegar.
– Quem.. quem é...? — gaguejei.
Um ofegar do outro lado da linha arrepiou minha espinha, e eu senti uma dor forte no meu ouvido, e depois, ardência na palma da minha mão.
Quem quer que fosse, havia desligado já, e eu baixei a mão, gritando quando notei que minha mão sangrava, manchando o telefone. Me olhei no retrovisor e notei que meu ouvido também sangrava, e logo, não consegui ouvir mais nada.
– Voltem para o inferno! — berrei, e liguei o carro.
Cantei os pneus quando comecei a dirigir de volta para a casa, no entanto, o medo me dominou e eu parei em uma rua iluminada. Quando finalmente me dei conta, peguei o celular e disquei o número da minha mãe. Ela mal atendeu e eu já comecei a falar desesperada.
– Mamãe, por favor, não volte para casa. Tem alguém lá, ele jogou um corpo lá. Não volte pra casa, mãe! Liga pra polícia!
Ela, assustada, apenas murmurou um sim e eu notei quando o ronco do motor do carro dela parou. Onde quer que ela estivesse, parou o carro.
Joguei o celular no banco e me apoiei no volante. Chorei alto, sentindo o sangue quente ir se coagulando na minha orelha e pescoço, e minha mão manchar o volante do carro. A porta do meu carro se abriu, e eu, simplesmente, não consegui olhar. Apesar disso, eu soube quem era.
– O que está acontecendo...? — sussurrei.
Ele não respondeu.
Sua mão tocou delicadamente meu braço e eu o estiquei, encostando-me no banco e observando seus olhos verdes penetrantes. Aquele jovem não falava, só me encarava. Frustrada com os acontecimentos, me inclinei em sua direção e eu o notei se retesar, hesitante. Sorri com a reação e voltei a me recostar no banco. Ele pareceu relaxar um pouco, mas estava hesitante.
– Curativos... — ele sussurrou, e sua voz era aveludada, baixa, parecia um ronronar de um felino.
Meus olhos encontraram os dele e eu senti algumas lágrimas escaparem pelo meu rosto.
– Você vai me contar quem é você? — perguntei.
Ele negou calmamente com a cabeça.
– Vai me contar o que está acontecendo? — indaguei.
E novamente, ele negou com a cabeça.
– Então saia do carro. — falei, e tirei bruscamente minha mão da dele.
Notei surpresa e mágoa vindas dele, mas obediente, desceu do carro.
Arranquei velozmente e voltei para casa. Quando cheguei, havia carros de polícia e tudo estava bem iluminado. Minha mãe estava ali, com meu irmão ao seu lado. Quando fui notada por eles, aguardaram que eu me aproximasse. Ao verem a sujeira no meu corpo e o sangue, minha mãe gritou desesperada e meu irmão veio ao meu encontro.
– O que diabos aconteceu?! — ele perguntou, delicado como sempre.
Suspirei e o encarei com chateação, abraçando minha mãe para acalmá-la. Um policial se aproximou.
– Senhorita, o que aconteceu aqui? Encontramos...
– O corpo de uma garota? — interrompi — Não sei. Ela simplesmente caiu de uma árvore bem na minha frente e eu não fiquei aqui para ser a próxima.
O policial me encarou, primeiramente com raiva por eu ter o interrompido, mas depois com preocupação ao notar o sangue em mim.
– E o que aconteceu com você?
Bufei.
– Acho que é meio óbvio. — murmurei mau humorada.
Senti minha mãe chamar meu nome com reprovação, mas eu ignorei e passei a caminhar na direção do meu quarto. Enfiei a chave do carro no meu bolso e ignorei quando me chamaram.
Tudo o que eu queria era um banho, e não ficaria ali para ver o desenrolar daquilo. Limpei todo o sangue e ferimentos do meu corpo, gemendo quando a água do chuveiro fez eles arderem. Suspirei e encarei a água suja, relembrando dos acontecimentos e sentindo uma profunda tristeza e mágoa se formarem por aquele garoto de olhos verdes. Afinal, quem diabos era ele? Porque ele não queria me explicar o que estava acontecendo? E, que merda toda era aquela? Algum tipo de sinal? Eu seria a próxima?
Soltei um grunhido de frustração e saí do banho. Sequei meu cabelo e fui dormir. Sem roupa, já que parecia que tudo estava ardendo. Dormi rapidamente, e no dia seguinte me informaram dos fatos: o corpo era de uma garota da vizinhança que morava sozinha. Parece que os familiares dela eram de outra cidade. Ela sofrera vários ferimentos e cortes parecidos com os meus, mas fora sufocada até a morte. No entanto, não havia digitais ou qualquer tipo de DNA em seu corpo. Claro, se fosse um ser humano de verdade que tivesse feito isso... Pensei ironicamente.
O resto da semana foi tranquilo, e não voltei a ver mais aquele rapaz. No entanto, frustrada com tudo que aconteceu, passei muito tempo com Gustavo, e ele pareceu adorar aquilo. Que se dane.
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