Formas obscuras se formam em minha mente. O anoitecer, pra mim, nada mais é que o momento mais pacífico criado pela natureza. As folhas uivam, os animais se aconchegam em algum canto sombrio, a pele dos humanos se arrepia com o mais suave toque de uma pena. Queria poder acordar desse meu pesadelo de ouvir as críticas que me atingem como uma lança, ou então apenas fazê-los calar a boca por um minuto. Sei fazer isso. Porém de forma sorrateira. Não sou vingativa, sequer ofensiva. Estou um tanto ciente que se eu me der ao luxo de agredir as pessoas que me rodeiam, o planeta Terra estaria em estado de decomposição.

Isso não seria de fato ruim, contudo.

O que é a dor física perto de uma psicológica? Posso aguentar mil chutes, mil socos, mil rasteiras e cortes dados ao ar em vão — eu sentiria de qualquer forma, me acertando ou não. Mas não aguentaria cinco palavras pejorativas feitas especialmente para mim que já começaria a criar planos mirabolantes de tortura momentânea.

Às vezes, acho que a Terra está segura por minha causa. E por quê?

Porque meus pensamentos não se tornam realidade, pelo menos não se você não quiser.
Gosto de criar situações ruins em minha cabeça — aliás, não só na cabeça. Acho que assombro os seres humanos. Não por ser fútil e fria, nem por carregar uma névoa sombria em meu interior, e sim porque não sou uma peça no jogo deles. Não caio nos prazeres carnais.

Quer dizer, eu caio, pois também sou fraca.

Quem disse que não posso ser humana?
Mas claro que posso ser feliz. Sou feliz não sendo feliz. Ou não me permitindo ficar cinco minutos perto daquele inútil que te pede algo apenas para a ignorância alimentar-se de seu ego, penetrando nas camadas mais finas do caráter podre do sujeito. Na verdade, eu posso ser o sujeito, se quiser, ou, como segunda opção, aquele ignorante capaz de converter seu repreendimento em uma boa ação. A escolha de quem eu sou não está em minhas mãos.

Você pode me moldar. Depende da forma como sou tratada.

Também sou justa. Me chame de doente mas não ouse chorar para mim. Ah, não se esqueça: minha escolha é concreta, portanto, se quiser me passar a perna, saia imediatamente da minha frente e passeie com minha acompanhante. Apenas sinta o momento e encare o desafio — olhe para a frente e nao hesite, seu pedaço de carne fresca.

Como as folhas de outono sou feita: caio gradativamente em direção ao solo; não me machuco, já me acostumei ao fim que sei que terei.

A lista não termina por aqui — sou divina, eterna e superior a todos.

(Não sou humilde, se já percebeu.)

Se não está satisfeito, chame-me de calculista. Há uma cadeira, um prego e pedaços de madeira ocre. Uma casa. Ou uma cabana. Isso varia. Eu poderia te empurrar, colocar minha perna quando você andar, pegar o prego e cravar em seu globo ocular enquanto você pensa na pessoa que deixou em casa cuidando dos filhos. Mas claro, sou sensata e não faria isso, tampouco pensaria na ideia.

(Antes que me julgue, pensar e supor são ações divergentes.)

Eu não, minha amiga sim.

Ah, com certeza a Morte pensaria.