Muitos não sabem que sou um vazio, um buraco feito para sugar sua felicidade. Olho para os lados e vejo pessoas discutindo por um pedaço de bala, uma nota a mais na aula de biologia, uma falha no cabelo que o cabeleireiro deixara.

Ou seja, sou atenta e dificilmente voce fugirá de mim.

Diferente da minha amiga, não sou cruel. A Vida pode ser justa, mas eu não. Sou uma consequência. Não confunda planejamento com justiça; você pode se dar mal. Relaxo quando uma brisa suave passa por mim, levando algumas faíscas negras consigo. Você nunca as viu: elas são grandes e elétricas, como folhas de um salgueiro; são macias e ásperas ao mesmo tempo; úmidas, porém efervescentes em contato com a pele.

O primeiro indício para saber se estou te visitando é a mudança de estado, ou físico, ou emocional. Se você sofreu por isso, sigamos em frente; se não, tome conhecimento das minhas previsões.

Não me irrito. Sou calma e serena.

Não há muito o que saber de mim. Apenas sou boa.

Por que sou boa? O que faço para me divergir da minha companheira?

A resposta é que, ao contrário da Vida, eu não crio. Eu descarto.

Carrego coisas que normalmente, para os humanos, seria uma completa idiotice e falta de ética. Não posso julga-los; eles são assim: rebeldes e tiranos, como minha amiga. Só que me magoo quando eles me odeiam, me julgam e, muito pior, não me entendem. É fácil julgar algo que você não conheça, portanto, é difícil apreciar algo diferente do que é imposto para com a sociedade.

Todavia, há humanos que me adoram, mas que, às vezes, por falha da minha amiga, são livres e continuam mandando-me presentes. Esses humanos não são uma boa companhia, mas são a única que tenho com exceção da Vida. Pode-se dizer que somos parceiros de equipe, aguardando o momento que nos despediremos com um aperto de mão.

Com um estalo, eu estico meu braço esquelético quando uma pessoa de maldade em abundância joga uma alma em minha direção.

Alarmada, olho para seu interior.

Por um último segundo penso que minha amiga poderia ter feito algo melhor por ele.

Infelizmente, nós temos que aceitar o que nos é imposto.

No caso, não as pessoas, que tem seu livre-arbítrio para me acompanhar ou acompanhar minha companheira. Mas sim eu e a Vida.

A mocinha e a vilã.

Para deixar bem claro, não necessariamente nessa ordem.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!