Notas iniciais
Espero que gostem

Phillip

Antes da escola passei na livraria para pegar o novo exemplar da minha coleção preferida de livros, apesar da mudança de autor e os novos personagens a historia principal é a mesma e é isso que eu gosto.

Guerreiros medievais dos tempos modernos são sempre legais, principalmente quando eles têm um dragão de estimação.

Jane buzinou na frente da loja e eu pulei no carro velho dela, Carl foi tagarelando o caminho todo até a escola enquanto eu lia alguns capítulos do meu livro.

O carro enguiçou, esperamos o guincho por dez minutos para chegar à escola ainda a tempo de pegar a segunda aula. Era sempre assim, não entendo o porquê de eu ainda pegar carona com eles, alem de chegar sempre atrasado eu ficava de vela.

A segunda aula voou, eu estava focado no meu livro e devorei-o antes da saída. Cara que historia maneira me desligou totalmente do problema da semana. O baile de calouros.

Eu era calouro tinha acabado de fazer dezesseis, não tinha carteira de motorista e não tinha namorada e nenhuma garota em potencial que notasse a minha existência. A única garota que falava comigo era a Jane e ela era namorada do Carl, eles falam do baile tipo toda hora.

Não que eu fosse romântico garotinha, mas nos bailes medievais as pessoas iam se olhavam e... Bang! Amor, sem encontros constrangedores ou toda a tortura de chamar alguém para sair. Se o baile dos calouros fosse como nos bailes medievais dos livros ninguém ligaria para aparência.

Mas não era assim, no mundo real eu sou Phillip Chorewood um nerd fracassado e medroso que vive com o avô lunático que não separa o mundo real e o dos livros.

Meu celular vibrou no bolso, era meu avô me pedindo para passar na padaria no caminho de volta, esperei cinco minutos que Jane e Carl acabacem de se pegar para me dar carona antes de desistir e sair andando, olhei para trás com um pouco de inveja deles e não vi o cara na minha frente.

Era Sebastian Wichthills, o caladão da escola, tinha todo o tipo de boatos sobre. De ele ser fugitivo da cadeia até ele ser um super modelo tentando ficar anônimo. Mas a cara que ele fez quando eu esbarrei nele me dizia fugitivo da cadeia.

Desculpei-me com um aceno de cabeça e me apressei o quanto pude para sair dali. Mas outra vez eu me distraio, tinha uma garota linda parada no estacionamento brigando com um iphone.

O cabelo ruivo liso esvoaçava ao vento, os olhos azuis eram como gotas d’água da fonte da beleza e os lábios cor de rosa brilhantes cheios de batom eram..., mas o iphone era o iphone 6 e do jeito que ela estava apertando o coitado ele ia acabar quebrando mesmo que fosse feito de titânio.

–Ei, precisa de ajuda? –perguntei apontando o celular.

–Essa coisa não funciona direito, já tentei de tudo e não funciona. Se eu bater nele mais uma vez essa coisa quebra. –reclamou.

Meu coração doeu quando ela disse bater nele mais uma vez.

–Me deixa eu ver! Quem sabe eu não descubro o problema. –ofereci.

Fazendo um biquinho lindo ela me passou o celular, não tinha nenhum aplicativo alem dos de fabrica, e o problema era simplesmente que ela travou o celular por errar a senha varias vezes. Ainda assim fiz minha mágica e depois de belos dez minutos sentindo o perfume da garota e mexendo naquele celular incrível eu infelizmente destravei o aparelho.

–Pronto. –anunciei. –Se errar a senha muitas vezes ele trava. –expliquei devolvendo o aparelho a ela.

–Obrigada. Eu sou Monica. –ela disse estendendo a mão.

Peguei sua mão estendida meio hesitante.

–Phillip. Meu nome é. –disse abobado.

Ela, Monica deu de ombros e foi embora. Eu fiquei ali paradão até a presença dela se desfazer, então eu segui para a padaria.

Eu morro em Nova York, onde tudo é uma loucura e até comprar pão na padaria é um desafio. Levei cotoveladas e empurrões em meio a multidão ate conseguir gritar meu pedido, que alguém pegou antes de mim. Frustrado e cansado os efeitos terapêuticos de uma ruiva gata se desgastaram facilmente.

Meu avô e uns amigos dele estavam jogando truco na sala de estar e assim que eu abri a porta me bombardearam com perguntas sobre o baile. Eles fizeram uma aposta, meu próprio avô apostou que eu iria pagar uma companhia para o baile!

Foi uma ótima ideia, mas eu nunca teria dinheiro o suficiente para uma garota para sair comigo.

Fiquei pensando em Monica enquanto eu ia ao Central Park de bicicleta, ela disse o nome dela, talvez se eu pedisse o telefone dela...

Abri um livro para ler e peguei no sono.

***

Havanna

Fiquei de um lado para outro do quarto, impaciente e ansiosa esperava pela volta do meu pai.

Nunca era bom ficar no QG sem ele, eu não podia ir junto nas viagens e nem ficar perambulando por ai. Meus irmãos praticamente me trancaram no meu quarto, de tempo em tempo alguém trazia uma bandeja de comida para mim para que eu não tivesse que sair se sentisse fome. Não que se eu pudesse sair faria algo de diferente, eu apenas teria mais espaço para ficar agoniada.

Era ainda pior sem meus amigos por perto, pelo menos com eles eu tinha o que fazer alem de brincar de prisioneira com meus irmãos mais velhos.

Abri a janela e saltei no teto da varanda. Uma das vantagens de ser pequena e magra é ser ágil, rápida e silenciosa. Duvido que Ross ou Brant pudessem fazer algo como isso sem serem vistos, não que eles fariam se pudessem, eu sou provavelmente a única que tem que pular a janela do próprio quarto em plena luz do dia sem ter feito nada de errado.

Pular da varanda para o teto da vinícola foi mais difícil, não era logo embaixo de mim era um salto de uns dois metros para baixo. Esse é o problema de morar no terceiro andar.

Em todo caso eu pulei, arranhei o joelho nas telhas quando quase cai, fez barulho desta vez, provavelmente ninguém ouviria já que a vinícola só era aberta para banquetes e sem meu pai não tem banquetes.

Fui sofrer minha agonia no pomar, era provavelmente meu lugar favorito no mundo, mesmo que eu não tenha visto nada dele alem do QG.

O cheiro das maçãs frescas e o som do lago Chor apreciados sob a sombra das arvores com os raios de sol sendo filtrados pelas folhas criando um espectro luminoso mágico o tornava o lugar mais bonito do QG, os outros não viam isso, quando queriam alguma coisa vinham e pegam sem notar a beleza daqui, quando me viam então, só faziam cara feia e se apressavam para voltar para sabe-se lá onde.

A Vera é minha arvore favorita do pomar uma macieira, e adoro maçãs e as de Vera são as melhores. Arrisquei-me a subir num galho mais alto para pegar uma maçã suculenta e vermelha, estava me preparando para subir quando tudo ficou escuro e meu corpo caiu no chão.

Eu ainda estava no pomar, mas estava de pé e a minha frente um espelho d’água tremeluzia a imagem de outro pomar. Não era um pomar era... um park?

Pessoas passavam de um lado para outro sem me notar ali do outro lado da imagem o que me levou a crer que eu não estava lá para aquelas pessoas.

Todos pareciam tranquilos e despreocupados, não era como se uma sirene pudesse tocar a qualquer momento e criar um caos organizado de pessoas correndo com armas acertando armaduras e se despedindo. Tinha moças de branco empurrando carrinhos de bebes, adolescentes jogando discos e bolas para cães de todas as raças e... tinha um menino dormindo, ele tinha um livro aberto cobrindo metade do seu rosto. Do nada ele se levanta e olha em volta com os olhos vidrados ate ter certeza de que esta tudo bem.

O garoto tem óculos de aro preto e olhos pretos que parecem enormes por baixo das lentes, o cabelo castanho estava todo desarrumado como se alguém tivesse bagunçado enquanto ele dormia, usava uma camiseta verde com um estranho símbolo em branco de algo como uma ampulheta. Mas o estranho foi que, diferente dos outros ele não via através de mim, ele me via.

–Você me vê? –perguntei.

Para o meu choque ele pareceu ouvir e se assustar.

–O que é isso? –perguntei, mas a imagem no espelho d’água tremeluziu e mudou.

Agora eu estava em fonte delta, eu nunca fui lá, mas eu sabia que aquele lugar só poderia ser fonte delta com suas torres de água e carvão, o céu era cinzento pela fumaça e a grande fonte no centro tinha chamas como uma fogueira dançante, e entre as chamas eu vi um rosto muito familiar coberto de fuligem.

O grito ecoou pelos meus ouvidos antes que eu permitisse que saísse da garganta e em seguida tudo ficou turvo.

***