Os Super Agentes
4 Super Agente VS. Super Agente
– eu juro que não aguento mais! – disse Daniel com os dentes cerrados e os cabelos pingando, sentando em um tronco na beira da praia. O céu nublado fechando num cinza tão forte que era impossível distinguir onde estava o sol; fazia frio e os joelhos do garoto batiam um no outro. Cada parte do corpo de Daniel doía e ele fitava os dedos feridos em carne viva.
Havia uma semana e meia que os treinamentos haviam começado e era sempre a mesma coisa: na parte da manhã aprendiam artes marciais e camuflagem; depois do almoço aprendiam disfarce e como adentrar em lugares difíceis, esquivando-se de alarmes, pular cercas e desviar-se de guardas. Usar suas habilidades únicas era algo raro. Daniel e os outros tinham três professores: Aguiar, loiro e de bigodes com perfil de sargento responsável por ensinar as artes marciais. Débora, a professora de camuflagem tinha cabelos curtos e denotava masculinidade e Denver, um homem magro de cabelos grisalhos que ensinava as estratégias de ataque. Por aqueles dias os super agentes raramente viam Augustus e Amanda. Nem mesmo na hora do jantar; era como se eles não estivessem mais na mansão embora Lizzard sempre acalmasse Daniel e Harry dizendo que os dois estavam ocupados demais resolvendo assuntos do governo sempre que estes perguntavam ao velho como crianças que perguntam aos pais pelo Papai Noel.
Naquela manhã fria em que Daniel havia reclamado das dores eles estavam já há quase cinco horas suportando os esforços sub-humanos que Aguiar exigia. Desde antes de o sol nascer eles já haviam caminhado na floresta, escalado árvores, nadado contra a correnteza de um rio, atravessado pontes caindo aos pedaços e agora estavam correndo na praia. Como se não fosse o bastante, ás vezes chovia forte, dificultando a visibilidade e fazendo a terra grudar nas solas dos sapatos, fazendo os pés dos garotos pesarem como chumbo. Quando Daniel sentou-se no tronco de árvore para descansar, os outros três continuaram seguindo Aguiar na sua corrida surreal, e o professor ignorou a teimosia de Daniel ao contrário de Harry que deixou que eles seguissem a frente e foi se juntar ao companheiro exausto. Para Daniel era incrível o fato de que Alisha e Harvey, que pareciam ser tão frágeis ainda estarem com o mesmo pique do professor embora estivessem também suados e vermelhos e Harvey parecia mancar às vezes; Sandeoul parecia estar acostumado àquele tipo de esforço, pois assim como Aguiar, não aparentava nenhum cansaço. O que também impressionou Daniel foi ver Harry caminhar até ele, e assim como Sandeoul ele não parecia exausto tal qual Daniel estava, Harry podia perfeitamente ter continuado a corrida.
– cara, esse professor me mata! – disse Harry, sentando-se e fazendo o tronco ranger.
– o que está fazendo? – perguntou Daniel – se você não correr Aguiar vai gritar com você como ele irá gritar comigo mais tarde.
– não dá cara, meus pés tão me matando. Acho que estou com umas 20 bolhas, falando sério. Sem falar que não dá pra ultrapassar aquele professor babaca e não sei se foi impressão minha, mas acho que aquele asiático idiota estava tentando me derrubar.
– o Sandeoul não parece muito amigável.
– sabe o que isso significa? Que ele é filho único, super mimado pelos pais e se acha melhor que todo mundo. Esse tipo de gente me irrita.
– e você não é filho único? – perguntou Daniel se lembrando de uma das conversas que tivera com Harry durante aquela semana. A mansão podia ser grande e cheia de quartos, mas Augustus decidiu colocar todos os rapazes em um único quarto para que houvesse mais entrosamento entre eles e mais amizade, já que isso é uma coisa muito importante no grupo aonde eles vão trabalhar. O quarto era amplo, equipado com cama, escrivaninha e guarda roupa para todos os rapazes e cada cama ficava tão distante uma da outra que parecia que cada um tinha seu próprio quarto, mas com paredes invisíveis. A cama de Daniel ficava próxima da de Harry e de frente com a de Harvey enquanto que Sandeoul se mantinha em seu canto mal iluminado. Com todos em um único cômodo era inevitável que houvesse conversa e interação entre os ocupantes. Harvey frequentemente mantinha contato com Daniel e Harry e assim acabaram se tornando um trio, e foi assim que quando eles conversaram sobre família Harry revelara que não estudava e trabalhava para sustentar a mãe viúva e doente.
– sim eu sou, mas pelo menos a vida me ensinou a ser um ser humano decente e não um filhinho de papai que tem tudo na mão e não precisa se preocupar com nada porque os pais já estão montando todo o roteiro da sua vida.
Daniel riu.
– como está o seu corpo? – perguntou Harry, fazendo o rosto de Daniel adquirir uma leve cor púrpura.
– n-não se preocupe. Vou sobreviver.
– o que houve com suas mãos? – Harry pegou a mão de Daniel que estava mais próxima e a segurou perto de seu rosto. Daniel corou ainda mais. As mãos de Daniel estavam cobertas de arranhões e havia sangue debaixo das unhas.
– acho que foi quando tivemos que escalar aquelas árvores ou quando atravessamos a ponte, não tenho certeza.
– você devia lavar isso, mas não recomendo a água do mar. Anda, é melhor irmos pra mansão. – disse Harry ficando de pé. – eles já desapareceram de vista e além do mais, está quase na hora do almoço.
– mas a gente sabe o caminho?
– a gente descobre. Somos super agentes, esqueceu?
Naquele momento Daniel e Harry fizeram uma imensa caminhada que pareceu ter durado uma eternidade. De todas as praias que cercavam a Terceira Ilha, eles estavam justamente na que ficava mais distante da mansão. Não conseguiam encontrar uma trilha certa, de modo que frequentemente tinham que lutar contra a mata fechada. Em poucos minutos o rosto e braços de ambos estavam cortados pela folhagem que pareciam laminas. Houve um momento em que Daniel estava á frente e tropeçara em uma raiz de árvore, caindo em uma poça de lama e Harry o ajudou a levantar segurando-o pelos quadris, o que fez o corpo de Daniel ferver.
– você está bem? – perguntou Harry.
– estou ótimo, obrigado! – Daniel se afastara bruscamente, quase dando um tapa numa das mãos de Harry.
Harry o encarou por um breve instante, confuso, e então assumiu a dianteira. Eram quase três horas da tarde quando finalmente avistaram uma parede branca no meio do verde. Seguiram como se fosse uma luz no fim do túnel e logo estavam de frente com um dos lados da mansão. Deram a volta e logo encontraram Lizzard que estava com um binóculo na varanda que dava para o jardim dos fundos. Quando os avistou, uma veia dançou na têmpora do velhote.
– seus moleques mal criados e irresponsáveis! Estão ficando malucos largando o treinamento dessa maneira? E se tivessem se perdido na mata? Querem ser picados por uma aranha do tamanho da cabeça de vocês ou comidos por uma planta carnívora capaz de engolir uma vaca? Entrem logo por aquele portão ali, vamos!
Daniel e Harry entraram e tiveram que tomar um banho rápido e almoçar rápido também, pois segundo Lizzard eles estavam perdendo uma aula especial e que seriam obrigados a ir mesmo estarem aparentando estar chegando de uma guerra mundial. Quando os garotos chegaram à ala especial da mansão onde só ficavam salas secretas e entraram em uma delas, viram Sandeoul e Harvey numa espécie de arena que pelo visto tinha sido improvisada já que todos os móveis da sala estavam empilhados contra a parede. Alisha observava tudo de um canto escuro, quase despercebida. A sala estava toda no escuro, exceto por uma lâmpada no centro que iluminava a “arena”. Sandeoul estava com os braços erguidos em posição de combate enquanto que Harvey se esquivava como um escravo diante de um capataz com o chicote na mão. Entre eles estava um professor que Daniel não vira antes. Assim como Aguiar, este tinha perfil de soldado, com bigodes pontudos e boné militar na cabeça e uma das suas mãos estavam erguidas, como um juiz.
– finalmente! – gritou o professor. Achem seus lugares e, por favor, em silencio.
– meninos! – gritou Alisha se juntando a eles.
– eu disse silencio! – berrou o professor – vamos ao que interessa.
– o que está havendo aqui? – cochichou Daniel.
– ele não disse nada além do nome desde que entrou. Disse que quer ver nós usarmos nossas habilidades em combate primeiro pra ter certeza do que somos capazes. – respondeu Alisha em silencio.
Alisha, ao contrário dos meninos, estava em um daqueles gigantes quartos da mansão sozinha, com uma cama enorme e um guarda roupas gigante cheio de roupas que sua mãe jamais permitiria que usasse, mas isso não dificultou para que fizesse amizade com os meninos, e assim como eles, não fizera muito progresso com Sandeoul.
– mas um contra o outro? – perguntou Harry.
– sim, está nos fazendo lutar entre nós mesmos.
– mas não era isso que Augustus queria. Ele quer que sejamos amigos somos um grupo – disse Daniel, revoltado – temos que parar isso agora!
Ouviu-se um estrondo seguido de um grito de dor. Quando o trio se separou para ver o que havia acontecido, viram Sandeoul em cima de Harvey, torcendo um de seus braços contra suas costas. Harvey permanecia gritando de dor ainda que Sandeoul não estivesse fazendo nada de mais além de segurar o braço.
– use seu poder! Use seu poder, vamos! Use-o para tirar esse cara de cima de você! – disse o professor, agachado diante de Harvey, tentando anima-lo como um treinador anima seu time quando estão perdendo para o time oponente.
– não dá! Não dá! – gritou Harvey.
– ele só lê rápido – disse Sandeoul, olhando nos olhos do professor.
– o quê? – perguntou o professor, incrédulo.
– por favor, faça parar – gritou Alisha desesperada, já que Harvey continuava a gritar.
– tudo bem, solte-o – disse o professor e Sandeoul obedeceu. – e ainda chamam isso de habilidade especial. Pelo amor de Deus, minha mulher faz o mesmo que esse garoto antes de dormir, ela devora uma infinidade de livros em uma semana, tenha dó.
Harvey se levantou e saiu choramingando da sala.
– muito bem, você garota e Sandeoul agora.
Alisha congelou.
– não, eu quero participar agora. – disse Harry tomando a frente.
O professor riu, sádico.
– como queira meu jovem atrasado.
Uma leve sensação gelada dançou nas entranhas de Daniel. Mas afinal por que estava se preocupando com Harry?
Sandeoul e Harry ficaram andando em círculos e se entreolhando assim como as feras fazem nos documentários sobre a vida selvagem nas selvas africanas. O professor parecia estar gostando do que iria acontecer. Os super agentes já haviam aprendido a lutar, de modo que mesmo sem não usassem suas habilidades especiais poderiam ao menos colocar em prática os golpes que já haviam aprendido naquela semana, se matando até se cansarem e tirar alguns mililitros de sangue um do outro. Quando Sandeoul foi pra cima, Harry conseguiu se esquivar e aplicar uma boa rasteira e então com o oponente no chão tentou imobilizá-lo, mas foi impossível. Sandeoul era mais rápido do que aparentava e conseguiu se levantar a tempo de aplicar em Harry uma gravata. Harry se livrou depois de dar dois socos poderosos nas coxas de Sandeoul seguido de um soco que levou o garoto ao chão. Não demorou muito e um calombo tomou forma no rosto de Sandeoul, logo abaixo do olho direito. Harry foi pego de surpresa quando Sandeoul o derrubou depois de agarra-lo pela cintura. Harry tentou outro soco, mas o adversário segurou seu punho fechado com a própria mão.
– vou transformar seus ossos em água – disse Sandeoul, coberto de fúria, mas baixo para que ninguém ouvisse. Uma mão segurando o punho de Harry, a outra o pescoço.
Harry usou as pernas para tirar Sandeoul de cima dele e os dois se emendaram como dois tigres brigando por território. Daniel e Alisha assistiam a tudo apreensivos, e o professor contemplava tudo com admiração no rosto, como se assistisse a um bom filme. Sandeoul acertou um soco no rosto de Harry este acertara no seu e depois que ficou de pé acertou alguns chutes em Harry. Primeiro no estomago e depois no peito e então, ainda não satisfeito, acertou um no rosto do garoto e foi quando o rosto de Sandeoul ficou como se tivesse visto um fantasma. O som de uma batida metálica se ouviu quando o pé de Sandeoul acertou o rosto de Harry. Os dentes de Harry era como se fossem de titânio, de modo que ao chutá-lo no rosto, Sandeoul acabou ferindo o próprio pé.
Sandeoul sentou-se no chão, o rosto fechado exibindo toda a dor que sentia, sem pronunciar uma palavra ou gemer de dor.
– você está bem? – perguntou Harry, se aproximando mas sendo empurrado pelo garoto logo em seguida – me desculpe, não foi a intenção mas você sabia e...
– já chega! – gritou o professor – você aí, fique de pé e vá logo colocar alguma coisa nesse pé, vamos!
– eu te ajudo – Alisha estendeu uma mão – vamos, eu vou te levar até a enfermaria.
Sandeoul a fitou por alguns instantes até que finalmente segurou a mão da garota e esta o ajudou a ficar de pé. Ele lançou um olhar de ódio ao professor e Alisha, passando a mão de Sandeoul por trás do seu pescoço e a sua em volta da cintura do garoto, o ajudou a sair da sala. Harry se levantou e Daniel se juntou a ele.
– tá tudo bem?
– tá sim mas... ai! – Harry se curvou, as mãos no estomago.
– tudo bem? – perguntou Daniel novamente, levemente preocupado.
– aquele chute doeu... – respondeu Harry, buscando se recompor.
– muito bem – disse o professor, entrando no meio – agora vocês dois. – e então apoiou cada uma de suas mãos no ombro de cada garoto.
Daniel e Harry se entreolharam, perplexos.
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